TCC fecha ciclo

•9/02/2010 • 1 Comentário

Sempre tive problemas com esses pontos finais, gastam muito menos tintapixel do que representam em peso. Demorei meses mais do que devia pra dar esses daqui, aí estão.

Chega de TCC, logo abaixo deste post vai o derradeiro capítulo dele. Taí o embrião de algo que talvez venha a ser meu primeiro livro, a ver. Mas carece desenvolver, acho arrogância da minha parte escrever um guia com apenas nove meses de experiência. Tem nem um ano escrevi essas páginas e já sinto cheiro de ingenuidade.. voltem ao primeiro capítulo do tcçovas e deem uma olhada.. rapaz, foi uma criança que escreveu aquilo.

Não me arrependo, mostro carecendo maturidade. E mundo tem bastante pra isso. Ainda pretendo sim escrever um guia de viagem antiturístico a se chamar Mochilar é impreciso, mas segue na prateleira guardado com tudo desse blog.

Até lá fico escrevendo coisas né. Que delícia chegar em casa tortando e sentar caneta, que também se chama laptop, pra fazer cigarro, que também se chama baseado, e essas coisas de empilhar letras. Agora não que são 11h30 da manhã seus sem costume, tou falando das coisas que eu escrevo por tesão.

Tipo as que eu provavelmente vou seguir publicando aqui em intervalos irregulares.

E tipo esses dois arquivos aí de baixo, tcc completo e tcc – só o filé.

tcc para imprimir
mochilar eh impreciso

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IV – Daquele com asas nos calcanhares e têmporas

•9/02/2010 • Deixe um comentário

Enquanto escrevo este trabalho consulto constantemente um caderno de folhas A5 pautadas, capa de cartão cru, com os dizeres na face: “Brenon e as itinerâncias do texto; ou ainda; um guia para bixos e focas mochileiros. Se preferires, vá de ‘TCC, um dia tem que sair’”. É meu rascunho e depósito de pesquisa, instrumento de composição deste trabalho entulhado ao longo de meses com todo tipo de referência ou consideração. Já em sua terceira página está uma citação ao livro Os pés alados de Mercúrio – Relatos de viagem à procura do Self, de Luis Pellegrini. Diz o caderno: “Os pés alados: Difudê, exatamente o que eu procurava” e segue com meia dúzia de páginas preenchidas por excertos retirados do livro.

Agora, momento em que a terceira página ficou para trás há muito – inclusive o caderno já está prestes a expirar sob tanta letra – retomo e reproduzo a afirmação que, mesmo desbocada, segue preciosamente acurada até o final. Luis fez doze antes, e com muito talento, exatamente aquilo que tento alcançar neste livro. Ambos preenchemos capítulos tentando desvendar as diferentes facetas do automergulho que é viajar para além de zonas de conforto, de como o deslocamento no tempoespaço é reflexo de jornada interior muito mais intensa do que a visível. Não nos bastamos na objetividade física de guias de viagens tradicionais, não estamos aqui para falar que no Canto dos Atins está a melhor grelhadora de camarões deste mundo; não, isso não interessa, cada viajante que encontre sua própria melhor cozinheira viva de camarão do mundo. Buscamos movimentos subjetivos, profundos, transformações de ordem transcendental e a busca por um centro espiritual interno, o self de Jung de que Luis se apodera. Muito delicado discorrer sobre amadurecimento pessoal e transcendência de alma, corremos a um ou dois adjetivos de distância do brega, ou do tutoral, ou do messiânico, ou de todos juntos. Mas corremos. Piegas e românticos, inescapavelmente piegas, indisfarçavelmente românticos.

Concordamos com quase tudo de saída. Encontrei em seu livro representação física, em tinta e papel, de muitos sentimentos que permaneciam difusos transitando entre consciente e inconsciente. Luis emprestou corpo a conceitos que eram meus. Me senti mais do que representado pela obra, a proximidade das leituras de mundo minha e dele são tão grandes que acredito termos ouvido, por anos, talvez por toda a vida, o canto da mesma generosa e solitária musa.

Luis também é jornalista. É editor da revista Planeta, publicação com proposta semelhante de busca pelo transcendente. Este é seu trabalho, desvendar alma humana. Marquei uma entrevista, fui à Editora Três e lá conversamos longamente sobre ritos de passagem, deuses do vento, amadurecimento pessoal e produção de conteúdo na estrada. Fundi nossas personas neste capítulo, não há muito sentido em separar interlocutores, em nenhum momento discordamos, apenas seguimos complementando as idéias que compartilhávamos. As histórias e análises são dele, afinal as minhas já estão em quase todas as outras páginas deste trabalho, mas o eu-lírico está mesclado, minhas perguntas e considerações foram absorvidas com tanta naturalidade por sua sensibilidade que neste caso não há razão de haver entrevistado e entrevistador. E chega de preâmbulo.

A primeira coisa que eu acho importante, tanto na vida quanto com uma carreira de jornalista viajante, é você desenvolver uma consciência muito clara de limites. Você não deve nunca ir nem além de suas possibilidades e tampouco ficar aquém do teu potencial. Os gregos consideravam que existia apenas uma grande pecado, a hybris, o descomedimento, quando você se coloca fora de sua medida. Para eles essa falha não tinha remissão, quando se cometia uma algo assim, que também esta muito ligado à arrogância, à pretensão, o castigo era punição eterna. Ir além dos próprios limites é algo que só é prometido aos deuses, não aos homens.

Hoje tenho um trabalho mais burocrático dentro da redação. Mas eu sempre fui um pouco como você, to sacando já sua personalidade, algo meio de cigano, de não se sentir bem trancado dentro de quatro paredes, não ver horizontes, e isso vale tanto para minha visão de mundo quanto para a de mim mesmo. Então cara, eu ia com tudo, na sua idade fiz cada maluquisse que não tem tamanho. Me ferrei muito e fui muito protegido. Quem viaja é protegido por uma divindade grega chamada Hermes, o título do meu livro, que também é a divindade do jornalista, da comunicação; é a divindade do vento, o elemento fluído em movimento permanente que leva as mensagens, a informação, transmite o conhecimento de um lugar para o outro, além do sujeito, transcende o sujeito. Quando você viaja está atravessando o elemento ar e naquele momento você é o vento que vai.

Vento é por definição ar em movimento. Mesmo nos corpos parados as cabeças se movimentam. Sem movimento não há viagem, pensamento ou emoção. Sempre achei que a imobilidade está muito relacionada à morte e o movimento, a ação se relaciona mais diretamente a vida, sobretudo na nossa profissão, à nossa função no mundo, é uma carreira que é movimento por excelência, mesmo quando a gente está parado aqui conversando. Foi um pouco pra desenvolver essas idéias que eu escrevi o pés alados. Também foi a base da Axis Mundi, editora que fundei e agora está na gaveta, e é a da Planeta, trabalhamos com o movimento do homem, da humanidade e do mundo. É uma revista sobre conhecimento de ponta, sempre no contexto de algo que está indo, um conjunto de coisas que está se movimentando e caminhando.

A minha experiência de filho de Mercúrio me ensinou que é totalmente inútil você buscar alvos definitivos a serem atingidos. O objetivo que você fixa à distancia é míope, lá de longe você está vendo outra coisa. A medida em que se aproxima fica espantado ao enxergar a realidade, muito diferente do imaginado. De fato é você que não é mais o mesmo viajante, o mesmo observador, a viagem te transformou, então quando você chega diante de um objetivo já está vendo-o com outros olhos. Muitas vezes encara o final e descobre que ele já não te diz mais nada, talvez nunca tenha dito. A gente precisa se preocupar com os meios, não com os fins. Em geral, na nossa civilização, materialista, esse mundo da produtividade e do consumismo insustentável – porque é um delírio que a gente está vivendo – este mundo acredita que os fins justificam os meios, que eu posso fazer uso de qualquer recurso desde que alcance meus objetivo. Essa é uma forma de pensar totalmente diabólica.

Ao viajar você é o corpo estranho penetrando num universo que te é desconhecido e que por sua vez tampouco te conhece. Você precisa criar e desenvolver uma aliada formidável e fundamental, sem ela está ferrado. Se chama adaptabilidade e é sinônimo de inteligência. Adquirir essa flexibilidade é um processo que se impõe durante uma viagem desde que você consiga controlar o seu ego, a parte neurótica do seu ego. Estou referindo ao ego, não à alma. Este tem a tendência constante de querer afirmar a si próprio. O que é um ego hipertrofiado? É chegar em um lugar onde eu tenho que ser bem recebido, nunca fui ali, não conheço ninguém, e assim que estou lá quero impor minhas regras, meu jeito de ser a este lugar e às criaturas que ali estão. Eu tô ferrado, vou encontrar um puta de uma resistência e criar situações de perigo real. Tenho que deixar meu ego quieto e a sensibilidade da alma funcionar. É ela que vai dizer como se posicionar.

Parar quieto, olhar ao redor e dizer ao ego, “observe, aprenda junto comigo, deixa a alma, o lado feminino dizer o que fazer”. Adaptabilidade é uma função da alma, o ego não se adapta a nada. Quando estiver perfeitamente adaptado ele entra para dizer o que fazer. Sem dúvida a viagem é uma experiência de educação do ego e para os muito endurecidos é uma educação que acontece na base do chicote. O ambiente não aceita, você tem que aprender a refrear a pulsão do seu ego, ser disciplinado para permitir à tranquilidade fazer ouvir a voz de sua alma.

Veja, eu sou um viajante contínuo, cheguei do Chile semana passada e logo mais vou para Goiás, para o sertão, sempre tive uma vida com muito movimento. Já refleti sobre esses episódios que caracterizam ritos de passagem. Sabe que não consegui definir? Você não percebe um rito de passagem quando está vivendo ele. É só bem depois, fazendo uma reflexão sobre o passado, você entende que alguma coisa mudou. É sempre uma experiência forte, por vezes de forma extremamente tranquila, super quieto, observando uma paisagem, e algo te toca profundamente. Eu conto um episódio desses no A árvore do tempo. Era menino, estava no quintal de casa em São Carlos e sempre tive uma vocação para biólogo, adorava bichos e plantas, era campeão de botânica. E andando pelo muro no quintal eu vejo um buraco no tijolo e lá no fundo tinha uma bolinha branca pequena, parecia uma pérola, esfera perfeita. Me aproximei, fiquei olhando, de repente eu tô ali e a bola fu-fu, se mexeu sozinha. Fiquei espantado, não entendia como estava se mexendo. De repente cara, olho de criança é uma coisa aguçada, eu vi uma rachadura, uma trinca naquele branco perfeito, de onde de dentro surgiu uma mãozinha minúscula, depois outra e crack, abriram a casca. Saiu inteiriça, uma lagartixa pequena e perfeita. Saiu do ovo, aquela cabecinha, os olinhos, e me viu. Ela me viu. Eu tive um contato de olhar aquele serzinho e entendi que a primeira coisa viva que ela estava vendo era eu. Aquilo teve um efeito completamente mágico, tive uma percepção do milagre que é a vida. Isso só ocorreu porque eu estava disponível, pronto a observar aquele fenômeno sem interferir, completamente aberto à experiência. Naquele momento não estava interessado em compreender intelectualmente o que estava se passando. Estava era hipnotizado pelo fenômeno em si mesmo, numa conexão total com aquele acontecimento, foi como se eu mesmo estivesse vivendo aquilo. Eu senti o esforço da lagartixa abrindo aquela casco, senti a primeira respiração preencher meus pulmões, nasci um pouco junto com ela.

E perceba que não faço essa divisão alma-feminina/ego-masculino no sentido de que um é homem e outro é mulher, mas querendo dizer que um é uma força concava e outra convexa. Explico, o ego, que representa um pouco a parte masculina, ele é fálico. Uma força côncava é como meia lua, se projeta, é contundente, quer penetrar, invadir, se impor, por isso masculino, por isso fálico. A alma, ao contrário, é concava, receptiva, acolhedora, não quer invadir, ela se deixa invadir, se volta para dentro. Isso é importantíssimo, acho eu, quando você viaja. Observando aquela lagartixinha eu estava numa postura completamente côncava, estava totalmente aberto deixando que aquilo entrasse em mim, por isso foi tão intenso. Naquele momento me entrou pela cabeça, pelos olhos, pelo coração, todas as emoções estavam abertas. Me permiti viver essa experiência e no momento em que a vivia não quis dissecá-la, não quis ser um cirurgião de realidade. Agora estou fazendo isso usando a inteligência de meu ego para descrever uma experiência que aconteceu, mas isso só é possível a posteriori. Já pensou você super apaixonado, vivendo com sua menina uma transa maravilhosa, vai botar seu ego pra funcionar, pra ficar criticando, dizendo que agora vai acontecer isso, depois aquilo? É receita para brochar.

Vá se preocupar depois com o que está acontecendo. Sempre procurei viajar desta forma, equilibrado, aberto, e sobretudo disponível para a vivência do desconhecido. Sem medo, o que pode me acontecer? Sabe o que eu fazia? Quando vim para São Paulovindo do interior, cheguei aqui com dezessete para dezoito. As vezes não tinha sono e ao invés de ir pra casa, vindo da faculdade, pegava um ônibus qualquer, nem via, deixava ele seguir madrugada adentro e depois voltava. Umas duas vezes rapaz eu peguei um tal de Gato Preto, ia até a periferia de Campinas, nem sabia onde tava, levava horas, mas valia a pena. Depois eu fiz isso mais algumas vezes, já tomei trem, já cheguei no aeroporto e ver o primeiro que ia sair e subi. Fui parar em Salvador. Sempre que eu fiz isso alguma coisa me esperava. Cheguei em Salvador à noite, fui para um hotelzinho na praça Castro Alves, tava cansado, fui dormir e acordei 05h da manhã. Como não tinha café da manhã sai a rua em busca de um barzinho. Atravesso a praça Castro Alves, encosto na mureta que dá pra a Cidade Baixa, não tinha ninguém na rua e o mar estava ouro puro, luz para todo canto que fazia assim ó, brilhava tanto que nunca mais vou esquecer essa visão na minha vida. E eu entendi que aquilo ali já pagava a viagem, foi para isso que eu estava ali, aquele momento justificava uma viagem sem qualquer outra justificativa racional.

Preste sempre atenção ao viajar em qual é o presente que aquela jornada está oferecendo a você. Não existe viagem sem significado, cada situação encerra algum recado, alguma mensagem, um toque que vai contribuir de alguma forma para sua vida. Quase nunca a vida usa a linguagem racional, prefere algo simbólico-metafórico. Por exemplo, esse episódio eu conto nos Pés Alados, me deu a louca aqui em São Paulo, subi num avião e acabei na Índia, querendo terminar em Katmandu. Peguei tudo quanto é roupa de frio, abrigo, roupa de neve pra subir montanha, subo num avião em direção a Amsterdam para fazer a conexão. Cai na besteira de pegar um livro pra ler durante a viagem e o autor, que era um psicologo francês, começa a fazer menções ao Egito. Aquilo foi me fascinando de uma forma que só cheguei em Amsterdam cancelei minha passagem para Delhi e dali pouco tempo cheguei ao Cairo, 40 graus e deserto, só tinha roupa de inverno na mala. Tive que comprar a roupa necessária para poder sobreviver. E essa viagem ao Egito foi importantíssima para mim. O psicólogo francês dizia que havia uma diferença fundamental entre as culturas indiana e egípcia antigas, a Índia era feminina por fora e masculina por dentro, o Egito sendo o contrário. Resolvi ver isso no Egito, a Índia já conhecia. E realmente tive uma percepção muito importante desse feminino interior. Há uma característica fundamental que diferencia o masculino e o feminino, o primeiro é representado por linhas e ângulos retos, enquanto o segundo é representado por curvas. Na índia tudo é curva, eles falam de um jeito redondo, a gestualidade é redonda, as mulheres inclusive, muita fruta, muita flor, tudo é quente e úmido, muito feminino. Esse é o exterior. Se você vai ver o pensamento indiano, vai ver que ele é reto, masculino, jejum, disciplina, ascese, o domínio de suas faculdades. Por dentro ela é toda masculina, cultuam valores de competitividade, heróis, vitória. O Egito é o contrário, absolutamente não é feminino por fora, todo o urbanismo reto, muito quente, muito árido, masculino. Mas de repente você entra numa pirâmide dessas no Vale dos Reis e os caras desenharam lá dentro outro mundo, um mundo redondo, os túneis são arredondados, os corredores e os desenhos em suas paredes. Quase não há luz, tudo se passa na penumbra. Sol masculino, lua feminina. Lá fora você tem um sol escaldante, aquele bruta deserto cheio de luz, e dentro das construções tudo parece que está iluminado pela luz da lua. É fundamental também perceber o gênero do lugar que você visita, a gente se alimenta das forças que existem nos lugares, é importante você saber se está absorvendo energias masculinas ou femininas. Sensibilidade é fundamental, existem muitas formas de energias que não apenas essa dualidade côncava-convexa, só posso esperar que cada vez mais encontremos novas sutilezas dentro da enorme gama de fluxos que a existência nos apresenta.

Sempre fui uma pessoa predominantemente masculina. Eu tinha uma exigência sobre meu trabalho que achava que ninguém poderia criticar nada, o tanto que aquilo estava bem feito. Perfeccionismo. Se eu tinha um projeto e ele não ia como eu queria ficava puto, entendia como uma derrota pessoal. Eu tinha ainda pouca adaptabilidade. Não suportava alguém que fizesse as coisas melhor do que eu, não admitia. Estava muito imbuído desse aspecto masculino pernicioso que é característico de nossa cultura, de nossa civilização. Ia jogar bingo, se não ganhasse ficava puto. Tinha que vencer sempre, ser sempre o herói. Quase uma doença. No Egito eu era muito jovem, não tinha nem trinta anos. Representou uma guinada, eu bebi daquela energia da penumbra. Neaquele luz, esses relevos hieroglifos que estão na parede, a luz lunar é tão pouca que não dá pra ler com os olhos, tem que ser com as mãos, botar outro sentido para funcionar, ler pelo tato. O ego lê pelos olhos, a alma pelas mãos. Claro que essa experiência no Egito não foi a única que me fez equilibrar o lado convexo, mas certamente me fez trabalhar melhor o lado feminino de acolher as coisas como elas vêm, sem querer ter esse poder de deus na mãos de moldar todas as coisas conforme meu desejo. Inclusive comecei a perceber esse defeito em outras pessoas, são pessoas que não vivem em função da realidade, mas em função de seu desejo. Cacilda, isso é uma loucura, a realidade é infinitamente mais forte do que meu desejo. Michael Jackson. É negro. Fez um tratamento, se ferrou, agora está com câncer de pele por querer ser branco. Mas o desejo dele não foi mais forte do que a realidade de ser negro? Cometeu uma violência e através de um processo químico destruiu sua pigmentação. Por que? Porque não aprendeu a lidar com a realidade, que é sempre mais poderosa.

Lidar com a multiplicidade do real dando caras e batendo pernas atrás de mundo é particularmente enriquecedor para narradores. Primeiro porque vai ter o que contar e baseado em experiências reais, que ele viveu, não baseado em fantasias ou relatos de segunda mão. Aliás isso me faz lembrar de uma entrevista que li sobre Cecilia Meireles, que dizia o seguinte e nunca me saiu da cabeça. Era muito elogiada porque tinha grande conteúdo e uma forma muito perfeita. O jornalista perguntou como ela conseguiu desenvolver essa forma tão elegante. Respondeu que nunca se preocupou com isso, se preocupou em viver intensamente, com uma segunda atenção, mas viva, mais plena. Depois, quando você metaboliza essa experiência, a linguagem narrativa vem sozinha. A linguagem é como um músculo que você desenvolve na prática. Se você escreve todo dia, trabalha seu texto, sempre vai escrever um pouquinho melhor. É igual tocar piano, um processo longo e gradual. O pianista não nasce nem com cabeça ou musculatura preparada para isso, tem que treinar muito, como tudo. Escrever é técnica. Agora, viver as experiências que você vai narrar usando a ferramenta técnica, isso aí não é musculação, é outro departamento. E esse lado, sobretudo para quem desenvolve uma narrativa tipo jornalistica, ela sempre antecede a escritura. Antes você vive a coisa, dá um tempinho para que se metabolize dentro de você, e então exprime, expressa componente que você integrou. Muitas vezes o ato, o esforço de expressão de uma vivência é duplamente útil. Em primeiro lugar porque você consegue contar uma história, uma experiência para alguém. A segunda vantagem é que no esforço de exprimir você vai entender muito melhor aquilo que viveu e aí é o momento de usar o ferramental intelectual, não antes. O erro que muita gente faz é botar o carro diante dos bois. Querer entender as coisas antes de vivê-las. Quando você cai neste erro só vai poder interpretar a partir de preconceitos, de idéias pré concebidas. Você não viveu aquilo ainda, não conhece, como vai conceber? Vai utilizar a imaginação, mas vai deformar a qualidade de uma experiência verdadeira.

Outra coisa importantíssima é a expectativa utópica. Quando você vai contar algo que não viveu acaba criando em sua imaginação uma expectativa utópica daquilo que você irá viver. Quando fazemos isso quase sempre estamos condenados a frustração porque a realidade da experiencia é impossível corresponder àquilo que foi imaginado. As vezes a realidade de tua experiência tem valores até melhor do que você imaginou, mas se tua expectativa utópica tiver sido muito poderosa, não vai conseguir perceber direito a realidade que te cerca. Por exemplo. Uma viagem. Eu quero ir para… Terra do Fogo. Quero ver as geleiras dos Andes desaguar no mar, no Chile. Antes de ir ao Chile ver isso daí fico criando mil geleiras na cabeça, os fiordes, o jeito como elas vão. Se eu fantasiar demais em cima disso, quando chegar lá, por mais bonitas e impressionantes que forem as geleiras reais que vou estar visitando, acabarei um pouco frustrado. Tudo aquilo que já criei na minha cabeça não encontra ressonância e o mundo sai parecendo um pouco mais falso.

E essa postura é responsável por informações distorcidas e deslocadas do real que hoje você vê por aí a dar com pau, principalmente no jornalismo. Agora joga isso para a vida afetiva das pessoas. Homens e mulheres. Há uma tendência de projetar, criar uma fantasia idealizada, uma expectativa utópica em relação ao parceiro ideal. Criam um personagem mítico na cabeça, em geral um personagem onde as virtudes superam largamente os defeitos e ficam alimentando aquela pessoinha que não existe. Mulheres fazem mais isso. De repente passa um carinha na vida daquela pessoa que demonstra interesse nela. Acontece que esse cara, como todos os seres humanos, tem algumas das qualidades antevistas por ela. Quando o camarada não corresponde àquele príncipe criado em sua cabeça, e a mulher rejeita o fulano, nem se dá ao trabalho de entender que aquele camarada que ela criou é absolutamente irreal, não existe na face da terra. Os homens fazem isso também, com relação a mulheres, amigos, tudo. Então vamos partir como regra de base com a seguinte postura. Me planto diante de um acontecimento de modo aberto, sem idéias pré concebidas, sem ter tomado partido e vou então observar imparcialmente isso daí, viver o processo inteirinho pela observação, metabolizar e só então, e finalmente, tirar minhas conclusões.

Você tem que começar por algum lado. A linguagem que se aprende na escola, a jornalística de texto, é um bom começo, desde que você não fique submisso àquilo. Trabalho como editor há muito tempo e cada vez mais me preocupa esses estagiários. Um condicionamento, querendo fazer tudo exclusivamente em cima dos padrões que aprende na faculdade. A primeira coisa que enfiaram na cabeça dela é que o texto jornalístico deve ser inteiramente impessoal, a pessoa do jornalista não pode aparecer no texto. Eu acho isso uma barbaridade completamente fajuta, não tem pé nem cabeça. A única coisa que caracteriza o texto é sua pessoalidade. Você não tem como se eximir de aparecer porque é um ser humano, não um autônomo. Um texto é uma expressão da cabeça de uma pessoa, da mesma forma que um quadro é um reflexo da alma do pintor. Quando você vê o quadro consegue, se o cara for bom, ler algo daquela pessoa. E o texto a mesma coisa. Eu tenho tanta experiência que chega um texto aqui eu leio e depois de quatro ou cinco parágrafos eu sei se é um cara introvertido, extrovertido, encontro algumas linhas básicas da personalidade dele. Mas isso são quarenta e tantos anos de experiência de ficar lendo texto. É impossível dissociar. Tenho uma estagiária aqui muito boa, que estou treinando para ficar na revista, efetivar a contratação. Mas chegou aqui viciada pela tal imparcialidade das universidades. Falei pra ela, sabe o que você vai fazer? escrever tal matéria na primeira pessoa. Deus me livre, respondeu. Vai sim, vai lá visitar a escola de chimpanzés e escrever tudo na primeira pessoa e redigir começando pelo “Eu entrei ali, eu vi tal”.

Aparte isso, o instrumental de base que a escola dá, que a faculdade dá, é imprescindível e a primeira ferramenta é a língua portuguesa. Não adianta nem tentar se não dominar. Tem gente que chega aqui com diploma registrado tudo bonitinho que não sabe nem conjugar verbo. E o pior nem é isso, se o camarada não tem o contexto, não domina bem a língua, um bom revisor dá jeito. Mas o que você faz se não tem raciocínio lógico desenvolvido? Jornalismo é contar história, apresentar fatos e desenvolver com começo meio e fim. Acho que o grande defeito da maioria das faculdades hoje é não treinar o aluno para o raciocínio linear.

Essa base é imprescindível, primeiro você precisa tê-la para depois se soltar. Retomo ao piano. Você começa com escalinhas, desenvolvendo musculatura das mãos, na flauta é musculatura de boca. Você precisa dominar aquela técnica de uma forma tão completa que se torna automático, algo que você faz sem pensar. A partir daí você entra com as acentuações melódicas, as tônicas, os tempos prolongados, as pausas, pausas de tensão, enfim, todo aquele mundo de sinais que se você não domina o código básico, como é que vai dar asas à sua sensibilidade na hora de tocar? O sentimento pode ser imenso, mas não tem como se exprimir se isso aqui não estiver perfeitamente azeitado. Se a língua que você escreve não tiver perfeitamente dominada e a técnica de redação perfeita, não tem como se libertar de amarras formais e produzir algo realmente inovador.

O problema de Hermes é que ele tem asas não só na cabeça mas também nos pés. Esse livro que você leu foi publicado também em Portugal e na França. Na frança chama “Itinerário de um filho do vento”, que são os filhos de Mercúrio. Asa nos pés, asa na cabeça. Aqui dentro, na redação, a asa da cabeça funciona perfeitamente, mas a dos pés fica inquieta, doida de estar sentados numa cadeira entre quatro paredes olhando para as caras das mesmas pessoas muito tempo. Diariamente fico sonhando em horizontes novos, paisagens que ainda não vi, línguas que ainda não ouvi. Comidas que ainda não conheço

Saudades? Sim, sobretudo daquilo que não conheço. Da mesma forma, quando tinha a sua idade, tinha saudade do futuro. Hoje, depois dos 60, saudade do futuro é um perigo. Mas eu tenho saudades daquilo que eu não conheço sim. E tenho uma inveja muito saudável de um cara como você, vai se formar, tanto tempo pela frente, vai encontrar um mundo fascinante ai se desenrolando. O que vai acontecer nesse século, cara… isso aqui vai ferver. Vai ser uma descoberta atrás da outra, o tempo está muito acelerado, as coisas vão se encavalar, as descobertas e descortinamentos. Eu devo ter três vezes mais do que você em idade cronológica. Te garanto, o tempo quando tinha vinte anos era diferente. Ele não corria como hoje. Não venha com conversa de que é nostalgia, só uma questão de percepção. Não. Há uma aceleração real. E vai ser o teu mundo. Eu vou ter mais dez, quinze anos de vida ativa que pretendo aproveitar muito bem até a última gota. Mas você cara, vai ver sessenta, setenta anos pela frente.

Essas tecnologias de telecomunicações que hoje estão hipervalorizadas na verdade ainda são incipientes e mesmo assim já conseguem aproximar bastante indivíduos muito diferentes entre si, acaba-se diminuindo a barreira entre eu e outro. Não sei porque, mas você falando isso me vem a cabeça a palavra respeito. A necessidade de ter respeito pelo outro, por seu semelhante. E desenvolver esse sentimento que é a base do budismo, a compaixão. E não no sentido babaca de esmola, caridade, mas no sentido de viver a sua paixão e compartilhar a paixão do outro, deixando que ele também compartilhe a sua experiência de vida, seu prazer, sua dor. Promover o relacionamento de uma forma tranquila, honesta, limpa. Eu acredito que esses meios tecnológicos vão influir sim, mas não de uma forma definitiva. Essa proximidade que eles criam necessariamente não alteram as condições de caráter ou os traços da alma das pessoas. Na época do nazismo massacraram seis, sete milhões de judeus. Essas pessoas eram os vizinhos dos nazistas, os médicos, professores dos alemães, sapateiros, açougueiros, gente com quem você se relacionava no dia a dia. Todo mundo junto, de repente pegam esse povo, ciganos e homossexuais, deficientes e vai todo mundo para um forno ser queimado? Que distância havia entre estes carrascos, a parcela carrasca, e as vítimas? Não havia distância física nenhuma, era a mesma sociedade, havia sim uma distância anímica, um abismo de alma. Que fazia com que eles não percebessem essas pessoas como seres humanos iguaizinhos a eles. Será que a internet vai ser capaz de preencher esse abismo de alma? Vai ajudar, com certeza, mas acho muito difícil. Todo meio de comunicação lança pontes sobre o abismo, mas uma melhora mais definitiva vai levar muito tempo.

Viajar é uma forma de lançar pontes sobre esses vãos. Você mesmo cria seu abismo ao construir ao redor de si uma redoma protetora que te isola do resto. Ou seja, ela te defende na medida em que não deixa os outros entrarem, mas você também não consegue sair dela. Quando fica parado está ali trancado. Às vezes se leva a redoma junto numa viagem, em geral isso é muito comum, mas minha experiência pessoal mostra que é muito mais fácil você enfraquecer esta estrutura e até mesmo rachá-la, quebrá-la, criar portas nela enquanto viaja, quando se desloca no tempo e no espaço. Por uma razão muito simples, quando viaja, quando chega a um lugar desconhecido, tudo ali é novo, você tem muito mais chance de esquecer de você mesmo, graças a deus, para se interessar por aquilo que está fora de você. Deixa de ser o centro gravitacional do universo, onde tudo orbita ao redor da sua pessoinha, e passa a ser exatamente aquilo que você é, um pontinho de luz rodando pelo mundo a fora com uma mochilinha nas costas no meio de milhões de pontinhos de luz iguaizinhos a você.

III – Daquele burocrata da notícia

•22/11/2009 • Deixe um comentário

A mesa de trabalho de Irineu Machado amanhece com seis jornais diários sobre ela. Ele mesmo chega por lá depois, no final da manhã ou começo da tarde, e enquanto inicia seu computador tem o tempo certo de analisar as primeiras páginas. Em algum lugar por ali passeiam também quatro semanais, que normalmente ele já leu no final de semana e servem mesmo como referência sobre assuntos mais quentes ao longo da semana. Computador tinindo, jornais varridos, é hora de começar a trabalhar de fato. Abre três navegadores e cada um deles carrega cinco abas pré-programadas com conteúdo que não pode deixar de acompanhar ao longo de todo o dia. O primeiro se dedica ao UOL, portal onde é editor-executivo de Notícias. Abre a home, UOL Notícias, Folha Online, Ultímas notícias e UOL Economia. O segundo vai aos concorrentes; G1, Terra, IG, Estado de São Paulo e uma quinta aba para alternar entre rádios. Finalmente, temos um navegador inteiro para conteúdo internacional. Ali carregam The New York Times, CNN, BBC, MSNBC, The Guardian e uma aba avulsa que percorre veículos de todo o mundo.

Isso é o ponto de partida, abre mais um navegador e ali trabalha o que o dia oferecer. Também lê na íntegra os blogs de Fernando Rodrigues e Josias de Souza, colunistas do UOL, além de mais alguma coisa sobre política nacional. Segue cerca de trinta perfis de notícias no Twitter, como o #breakingnews, todos usuários dedicados a divulgar pautas pelo mundo. Tem cinco contas de email em seu nome, três do UOL abertas permanentemente e duas pessoais que admite negligenciadas. Além disso ainda acessa as contas coletivas do UOL Notícias e UOL News. Acredita receber de mil a mil e quinhentos emails por dia, filtradas, primeiro, por nome e então por assunto. Um sistema de categorização por cores auxilia a organização de conteúdo interno. Também fica permanentemente atento à lista de matérias que os parceiros enviam ao portal e vira e mexe precisa checar as páginas de conteúdo específico oferecido por esses parceiros, dar uma olhada nas fotos e textos que o UOL pode ou não utilizar. Seu telefone toca cerca de vinte vezes por dia com questões de fora da redação. Assessores, correspondentes, freelancers, burocracias.

E não se esqueça das particularidades de cada dia, afinal falamos daquele que é o último filtro de todo o conteúdo de Notícias que o maior portal do país publica.

Temos então aí sintetizada em três parágrafos a quantidade de informação que Irineu lida por dia. O profissional atua como um princípio selecionador, recebendo e selecionando enormes quantidades de conteúdo diariamente. Está se obrigando a não trabalhar mais de dez horas por dia, até pouco tempo trabalhava rotineiramente dez, doze, quatorze horas. Os motivos dessa redução são tanto pessoais quanto profissionais, necessita dar mais independência para a equipe tocar o portal em sua ausência. Mas se pintar uma crise sabe que pode precisar trabalhar vinte horas, como foi no onze de setembro. Já virou vinte e quatro horas para fazer funcionar uma transmissão por satélite de um jogo do Brasil. Resolveu no começo do segundo tempo.

Hoje não está satisfeito, trabalha demais e com pouco resultado. Sabe que precisa dar menos atenção a coisas pequenas, não dá para ser perfeccionista com internet sem enlouquecer. Aliás sabe que lidar com essa quantidade enorme de informação já meio enlouquecedor por si, mas a gente acostuma. Já se conformou em ir para com a sensação de trabalho incompleto, afinal falamos de uma modalidade de cobertura que não possui fechamento. O jeito é passar para a equipe um espírito de engajamento, de continuar trabalhos em andamento, de não perder material construído ao longo do dia pelos profissionais da redação. A não ser que caia um avião em algum lugar que recomece tudo.

Sabe Irineu, meus capítulos tem uma estrutura de título que dizem “De tal coisa” ou “Daquele fulano”. Você usou uma expressão muito forte para se definir, dizendo que hoje tornou-se um burocrata da notícia. Eu gostaria de usar isso, mas sei que a expressão pode ter uma interpretação negativa. Que cê acha?

Não tem problema. Jornalista muitas vezes tem uma visão romântica sobre a profissão, de que vive de furos, tem a pergunta certa para colocar político contra a parede, aparece na televisão, publica o nome. Mas isso é irreal, dentro das redações existem milhões de funções burocráticas que precisam ser cumpridas e hoje eu sou esse burocrata. Pode usar o termo, mas explica que eu não trabalho com carimbo despachando protocolo.

Do maior portal do país
Você é editor-executivo da gerência de Notícias do maior portal do Brasil, o site mais acessado e o que mais produz conteúdo, veículo que se propõe cobertura mundial e permanente. Sendo o Brasil o país continental que é, gostaria de entender melhor que estrutura o UOL dispõe para cobrir nosso país.

O UOL tem algumas características atípicas em relação aos outros portais, pela quantidade de fornecedores e parceiros de conteúdo que possui. Além de produzir matérias de sua própria redação ou de enviados especiais, ele tem a Folha Online como principal parceiro, que produz conteúdo próprio e agrega a Folha de São Paulo. Também trabalhamos com Reuters, AP, a própria Agência Estado, as revistas da Abril. O Jornal do Comércio, de Pernambuco, é um grande parceiro nosso, o que eles produzem entra imediatamente no UOL, eles mesmos sobem a matéria. E a gente tem uma redação pequena, as atribuições dos profissionais lá dentro vão desde administrar os sites, mantê-los atualizados, lidar com conteúdo recebido, hierarquizar e encaminhar tudo que recebemos, discutir idéias novas que não estão sendo tratadas por essa infinidade de parceiros, além de produzir material próprio. Então essas pessoas estão sempre com uma quantidade de tarefa muito além daquilo que têm capacidade de fazer, até porque não existe fechamento, as coisas vão acontecendo e você vive um drama para administrar tudo isso. Sempre com o olho na concorrência para evitar furos, onde não podemos deixar de atuar, aquelas matérias não esperadas que surgem ao longo do dia e acabam com seu planejamento. Constantemente vivemos sob a pressão da notícia.

Eu queria que você me falasse mais sobre a estrutura do UOL, onde ficam os correspondentes, como vocês realizam a cobertura do país.

Vou falar por nossa estrutura, sem contar os parceiros. A Folha Online por exemplo tem redação em muitas cidades, aqui em São Paulo tem mais repórteres do que o o próprio UOL. Isso acontece porque ela se propõe ser um jornal online, não um portal de notícias, é a Folha de São Paulo na internet. O UOL tem a sua equipe. Na gerência de Notícias temos as editoriais de Política, Cotidiano, Internacional, Economia, Ciência e Saúde, Educação, Tecnologia e Interação. Temos também as gerências de Esportes e Entretenimento, eu falo pela gerência de Noticias. As maiores editorias – que são Internacional, Cotidiano e Política – contam com seis pessoas, editor, editor assistente e redatores/repórteres. Essas são as maiores, as outras tem bem menos jornalistas. UOL Economia, por exemplo, três pessoas. Existe uma equipe de técnicos de vídeo para produção de entrevistas no estúdio ou gravações externas, com dois estagiários, dois cinegrafistas e dois editores de vídeo. Educação quatro, Ciência e Saúde um, Tecnologia quatro, um fotógrafo, Interação quatro. Esses são os jornalistas que trabalham na gerência de Notícias em São Paulo. Em Brasília temos o Fernando Rodrigues e dois repórteres que cobrem tudo, a gente prioriza o que vai precisar das cinquenta pautas possíveis por dia na capital e escolhemos três ou quatro. No RJ há uma equipe terceirizada com três. Brasil a fora temos uma rede de colaboradores, que não trabalham exclusivamente para o UOL, são pessoas que trabalham para jornais locais, tevês. Correspondentes eventuais a quem pedimos matérias locais quando surge o interesse e muitas vezes também ocorre o caminho inverso, nos oferecem aquilo que acham que interessa. Não temos correspondentes em todas as capitais, temos colaboradores muito esporádicos onde há menos produção de noticias e muitas vezes acabamos cobrindo esses fatos pela redação de São Paulo mesmo. Há uma meia dúzia, talvez oito correspondentes mais recorrentes. De lugares como Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Curitiba… Acho que até pela população dessas regiões metropolitanas acabam tendo uma quantidade maior de notícias que sejam de interesse amplo.

Quero desenvolver essa questão do interesse amplo. O UOL é um portal nacional, sediado em São Paulo. Como vocês filtram aquilo que merece ascender da categoria de notícia local para notícia nacional? Me parece ser muito mais fácil uma matéria sobre a rua Augusta virar destaque nacional do que algo regional de João Pessoa, por exemplo. É muito mais fácil para conteúdo dos grandes centros fazer essa transição.

Existe um fato que é apesar da abrangência do portal ser nacional, o público que visita e os assinantes estão em sua maioria nessas grandes cidades, SP, RJ, BH, no interior de SP. A quantidade de acessos de uma dessas cidades é maior do que de estados inteiros no Norte, Nordeste, Sul. E isso acaba influenciando o critério de escolha de pauta. Você fazer uma reportagem especial sobre o comportamento na Rua Augusta, pode atrair um público muito maior do que o lançamento de uma feira de artesanato nova criada em Campina Grande. E isso não quer dizer que a gente deixa de lado coisas que sejam curiosas ou importantes ou sérias de lugares onde não temos um público muito grande. Além disso também não conseguimos fazer uma cobertura localmente de maneira eficiente porque os nossos colaboradores não têm mobilidade, eles não podem viajar para tal lugar e fazer matéria com personagem. Contamos com esses colaboradores, com agências e com a cobertura da redação aqui para checar na defesa civil dos estados, ligar para as prefeituras, monitorar o nível dos rios, buscar um panorama mais geral. Pela redação lidamos com todo esse material que chega de fora e fazemos um retrato mais consolidado, dando um painel do que está acontecendo lá no Nordeste para que o leitor no Rio Grande do Sul ou em qualquer outro lugar do país possa dizer que “está acontecendo uma situação grave e estou sendo informado pelo portal onde me informo”.

Gostaria que você apontasse as falhas do UOL na cobertura do Brasil.

Essa é uma critica para redações em geral, nenhum jornal, nenhum veículo consegue fazer isso satisfatoriamente. A estrutura é pequena, você não tem a disponibilidade de enviar um repórter para todo lugar que quiser, nem aqui em São Paulo capital. Gostaríamos de ter um repórter no Piauí cobrindo as cidades atingidas pelas cheias, um no Maranhão em Trisidela do Vale, que tem milhares de desabrigados já há quase um mês, e não temos condições de mandar repórter a esses lugares porque não temos mão de obra suficiente e o custo é proibitivo. Mandar um profissional para um lugar que não tem nem hospedagem, você precisa pensar em custos de estadia. As autoridades lá se deslocam por helicópteros, alguns lugares se chega apenas com lanchas, como acompanhar isso? São custos que não estão no orçamento de qualquer veículo. Hoje conseguimos enviar um repórter esporadicamente, com certo planejamento ou num caso de emergência muito relevante. Não temos esse fôlego, se mandamos alguém para o interior do país ficamos com um buraco na redação, todos os profissionais têm diversas atribuições além da reportagem. Uma coisa que a gente planejou e está em andamento, faz seis meses que houve enchentes em Santa Catarina, enviamos agora nosso editor de fotografia e uma repórter para visitar as cidades que foram mais atingidas pelas cheias do final do ano passado, estão há uma semana colhendo histórias, colhendo personagens. É o tipo de coisa que a gente não consegue fazer sempre, mas não esquecemos de tentar oferecer ao nosso público esses retratos de Brasil, de situações que podem ser de interesse de leitura. Gostaríamos de ter isso todos os dias em vários lugares do país? Claro, mas não podemos.

Abordando a questão orçamentária então, me explique como funciona o fluxo de caixa no portal. A publicidade é sua maior fonte de receita?

Não, são as assinaturas, mais de 1,5 milhão de assinantes, atraídos principalmente pela qualidade e enorme quantidade de conteúdo. Desde o começo priorizamos a criação de conteúdo. O guarda-chuva é muito grande e dividido nas três gerências de Notícias, Entretenimento e Esportes. Publicidade nos últimos dois, três anos cresceu muito, ainda não é a maior receita mas vem tomando cada vez mais espaço. Venda de produtos também, uma porcentagem vai para o UOL.

Você fala isso e eu fico aqui pensando no não retorno financeiro de enviar repórteres para o rolê pés no barro pelo interior. Pensava que a publicidade era a maior receita, então conclui que o cálculo do custo de enviar o repórter versus noção de percepção de valor publicitário que aquela matéria vai agregar ao portal não valia a pena, mas enfim, sendo os assinantes a maior receita do UOL isso muda um pouco, a percepção de valor dos assinantes é diferente da publicidade, não envolve tanto um mercado publicitário voraz.

A coisa não funciona muito bem assim, retorno de audiência versus publicidade. Orçamentos de redação são definidos ano a ano, você tem um orçamento para trabalhar ali definido por vários critérios. Quando vai definir uma viagem o que a gente leva em conta não é se aquilo vai atrair publicidade, senão acabaria saindo um jornalismo apenas comercial, seria atraído por assuntos que poderiam ter apenas retorno financeiro.

Mas basicamente não é isso?

Não é isso, temos que pensar que o jornalismo também cumpre funções sociais, institucionais, que dão como retorno credibilidade, seu principal trunfo. É essa credibilidade que vai atrair um número maior de assinantes e fazer com que a publicidade se torne lucrativa. Este é nosso foco principal. O que nos faz tomar uma decisão? Primeiro, há interesse público? Há. Bom, agora como vamos fazer isso, quais os custos, temos verba? Não temos, ou temos. Então vamos conseguir cobrir isso como? Quantos dias ficaremos lá e sob que condições? Qual material vamos trazer de volta dessa viagem? A abrangência disso; qual o retorno vai ter para o nosso público. As pessoas vão ler e dizer, “olha, fizeram uma coisa nova, difícil, legal, gostei”. É nisso que a gente pensa, não apenas na quantidade de cliques ou na atração de publicidade ou se vamos conseguir novos assinantes fazendo assim. Pensamos no conjunto da obra levando em conta que imagem essa cobertura vai nos trazer.

Do continente de três cidades
Pensando em outros veículos de mídia, gostaria de ouvir sua opinião sobre o fenômeno que vou chamar de cegueira do eixo RJ-SP-DF nos veículos brasileiros. Não necessariamente apenas portais ou empresas que se propõe fazer uma cobertura nacional.

Isso acontece e é fruto também da histórica condição de que as redações estão localizadas nesses grandes centros. Os grandes jornais do Brasil estão em SP, RJ e Brasília, que se não fosse a capital seria igual a, se tanto, Goiânia. O foco da cobertura das redações acaba se tornando o foco local também pela falta de condições e estrutura para manter correspondentes pelo Brasil. São estruturas caras. Jornais do mundo estão em crise financeira que vem se arrastando há anos, não só aqui. Lembro que na década de 80 a Folha e o Estado criaram uma rede de correspondente ampla, produzindo matéria diariamente. Naquele momento fazia-se uma cobertura nacional de fato. Bom, crises e mais crises foram acontecendo e essa rede foi se desmontando. O Estado tinha redações regionais com oito repórteres, tinha uma pequena redação em Santos, aqui ao lado. A folha tinha três repórteres em Belo Horizonte, dois em Porto Alegre, três em Salvador, dois em Recife. Essas estruturas foram sendo desmontadas, precarizadas. Hoje tem correspondente que cobre vários estados.

Mas não é só uma questão financeira, pesa também a postura editorial.

Sim. Mas essa postura editorial também é influenciada pela estrutura financeira precária. A sede foca nas opções que tem disponíveis, também é um movimento natural priorizar as áreas onde está seu público principal. Por mais que a Folha de São Paulo, o Estado, os grandes portais queiram tratar Recife com a mesma importância que tratam o Rio de Janeiro, não encontram o mesmo retorno de público. Você precisa pensar que Brasil afora existe imprensa local e público que consome esse conteúdo. O leitor do Maranhão não está tão interessado em saber o que a imprensa de São Paulo está falando sobre seu assunto, não vai encontrar ali a profundidade local que está buscando. Por mais que você tente cobrir uma região à distância, não vai conseguir oferecer percepção de relevância aos moradores locais.

E nem faz sentido tentar fazer isso dessa forma num veículo nacional.

Exatamente. E explica um pouco essa cegueira de Brasil, como você chama. Mas não acho que seja proposital, não é algo que os veículos gostam de oferecer. É uma limitação.

De conteúdo mochileiro
Essa é minha tese. Não é desinteresse dos veículos, ao contrário, acredito que as redações gostariam de ter mais acesso a essa cultura local, de interior mesmo, mas é ínfima sua capacidade de realizar uma cobertura decente nesses termos que proponho. Você tocou num ponto interessante, os veículos focam as capitais porque é aquilo que está em evidência, onde há contato facilitado. Assumindo que as redações têm sim interesse em oferecer, e também muita dificuldade para produzir, como entra na equação o repórter que viaja oferecendo conteúdo de interior para os grandes centros. Como é a recepção desse material?

Somos muito abertos à participação de colaboradores na produção de nosso do conteúdo, avaliamos todas as sugestões. Levamos em conta o que está sendo oferecido e o que pode ser feito dentro dessas possibilidades, qual é o interesse do nosso público. Quando a proposta tem a cara da nossa linha editorial, negociamos com a pessoa que esta oferecendo, fechamos um valor, um prazo e destacamos aquilo, empacotamos dentro de nosso produto e oferecemos ao público. Você pergunta como a gente trata isso, vou te dizer, é raro acontecer. Gostaria que acontecesse com muito mais frequência. A gente não encontra jornalistas viajando o país e oferecendo boas reportagens, são poucos. Quando surge, quando vemos que a qualidade do material é boa e a pauta interessante, compramos e damos o tratamento devido em nosso conteúdo, damos destaque, sugerimos outras abrangências, novos enfoques. Procuramos incentivar a pessoa a pensar imagem, fotos, vídeo, dar tratamento de internet àquilo que está pensado como texto apenas. Infelizmente são raros, gostaríamos de ter com mais frequência. Tenho alguns exemplos semelhantes de gente viajando pela América do Sul e oferecendo pautas, mas nesse caso específico que estou pensando eram pautas muito locais, sem apelo ao nosso público, como uma briga de vinte anos em uma refinaria na Colômbia ou uma disputa legislativa na Argentina que está levando o partido tal a ter vantagem sobre o partido tal. Pautas sem apelo ao nosso público, que seriam para o leitor daquele lugar. Já é raro você ter um profissional viajando por aí e oferecendo conteúdo, ainda por cima muitas vezes oferecem algo que não faz sentido para o UOL. Isso torna o filtro da raridade ainda maior. Ou seja, tem que ter um bom jornalista, que não é fácil de achar, com boas pautas e aquilo tem que nos interessar. Raro.

Pensando na formatação editorial dos grandes centros, principalmente de São Paulo, estamos aqui. Oferecer conteúdo para cá que cumpra essas demandas da produção editorial da cidade que acredito serem as mais exigentes do país, pela grana, pela profissionalização, enfim. Um repórter que saia daqui já familiar com esse mercado tem mais chance de emplacar uma matéria de interior, nesses termos viajantes?

Acredito que sim. É por isso que muitas vezes preferimos enviar um repórter daqui no lugar de encomendar uma pauta de um jornalista local. Este profissional está envolvido com um série de vícios de seu veículo que precisam ser tratados, acabamos perdendo tempo tratando material enviado por colaboradores. Sempre chega material com uma série de problemas, de texto, ou de regras que são seguidas por nós, como ouvir o outro lado. O manual do UOL é o manual da Folha de São Paulo, seguimos aquelas regras de jornalismo. E muitas vezes essas regras acabam sendo esquecidas e não é por má vontade, mas por vício, trabalham em veículos que não fazem essa cobrança. Um jornalista que trabalha na mesma cidade da sede de seu veículo está mais habituado a suas regras, melhor formatado. Existe uma preocupação dos cursos de SP e do RJ a orientar os estudantes sobre as regras do jogo onde ele vai atuar, em geral os profissionais daqui já saem com uma noção básica dessa necessidade. Creio que isso vai melhorar com o tempo, mas ainda é muito precária a qualidade do material enviado e da formação dos jornalistas fora desses grandes centro. Não sei se exatamente mais baixa, mas seguem outras exigências que não alcançam o que precisamos. Sempre há exceções, aquele cara que é um achado e a gente acaba mantendo um contato mais próximo com o trabalho dele.

Essa é uma das funções do editor que eu não tinha me dado conta até lidar de fato, que é o contato com o frila, fazer o contato permanente, que demanda tempo também e você precisa alocar em sua agenda.

Exato, de fato consome parte de meus dias.

Do não-factual e Da desobjetividade
Sobre produção de conteúdo, você falou da notícia que se impõe, que se faz importante. Gostaria de falar agora também sobre aquelas não tão factuais que o UOL compra. Como exemplo posso te dar o que escrevi sobre Serra Pelada para vocês, que foi um longo trabalho não factual, três retrancas, galeria de fotos. Como vocês lidam com esse conteúdo mais aprofundado, perfil de revista, matérias mais longas?

É o que estava falando sobre procurar oferecer ao público um material especial, aquilo que procuramos quando mandamos alguém de nossa redação fazer algo. Queremos que essa pessoa faça o que não está sendo oferecido pelas dezenas de parceiros que já temos, eles oferecem o factual. A oportunidade de fazer uma cobertura especial sobre um fato ocorrendo no interior do país, lá em Serra Pelada, que seja, achar um gancho, uma história especial para ser contada e que está esquecida, identificamos isso como uma oportunidade de diferencial, de fazer algo que ninguém estava pensando e que vai atrair um público curioso por conhecer um pedaço do Brasil onde coisas estão acontecendo e ele não sabe. Por que, porque ninguém está atento aquilo, porque os grandes veículos não estão lá, porque a dificuldade de chegar é grande. O que move as grandes coberturas são fatos quentes, os jornalistas vão para Serra Pelada quando houver um conflito de garimpeiros e morrerem quinze, aí toda a mídia vai para lá de uma vez, fica quatro dias e vai embora, no final de semana sai aquela enormidade de especiais sobre a vida no local, vida na região, Sem Terra que acampou não sei onde, e aí passa algum tempo e se esquece. Quando a gente vê, como naquele caso que você estava viajando por lá, estava próximo e ofereceu oportunidade, vamos cavar alguma coisa ali, vamos tentar ver se a gente garimpa alguma história curiosa da leitura para o público. Interessa? Interessa, tem histórias naquela região, tem coisas para contar. E isso é uma coisa que quando você pega um bom repórter e joga em qualquer lugar do Brasil ele vai achar boas histórias, mas aí entra a infra-estrutura. Você precisa de tempo para isso, não dá pra ligar para um lugar e perguntar “Oi, tem boas histórias aí? Tem? Então vou mandar um repórter!”, não é assim que funciona, o profissional tem que estar meio livre numa região como esta para tentar descobrir histórias, identificar notícias, como a gente não têm repórteres espalhados por aí acabamos refém de sugestões, de encontrar alguém que ofereça alguma coisa que valha a pena bancar.

A questão dos custos.. Nesse ponto de deixar o repórter livre eu concordo plenamente com você, não é possível pautar alguém que está num contexto muito diferente do seu, muito mais inteligente confiar na avaliação do profissional, mas essa liberdade envolve uma certa desobjetividade, que é a imprecisão de rodar até achar algo que valha a pena oferecer, e envolve também mais tempo por matéria produzida. E aí o freelancer é muito mais interessante para o veículo, paga seu próprio transporte e hospedagem, a redação paga apenas o texto que está chegando. Nesses termos é a relação é bem interessante para o veículo.

Exatamente, é isso mesmo. Mas volto a dizer, não é todo dia que você encontra um profissional fazendo um trabalho assim, livremente, viajando e encontrando histórias e oferecendo. Em geral o freelancer que a gente encontra é aquele que está com outras funções, ele tem o seu trabalho, tem sua atividade, mas no tempo livre ele consegue fazer alguma coisa para você.

Você tem condições de me dizer com qual frequência aparece um texto realmente bom e não factual, algo mais profundo, e não digo só de viagem, a cada quanto tempo te oferecem uma matéria de revista?

Uma vez por mês. Ou menos. Não acontece com frequência.

Mas isso que emplaca, ou..

Que oferece. Os exemplos disso são pouquíssimos. O que mais acontece é nossa rede de colaboradores que já mantemos contato e estão ali quase que diariamente oferecendo assuntos do dia da região e volta e meia identificam alguma matérinha especial. Vou citar um exemplo concreto, nosso colaborador em Manaus fez umas duas vezes seguidas matéria sobre barcos que afundaram com dezenas de pessoas em rios da Amazônia, então pedimos a ele que fizesse uma reportagem especial sobre o assunto, demos tempo para ele fazer um levantamento amplo, quantos barcos são, quantos passageiros, como funciona a fiscalização, manutenção, transporte clandestino. Era uma reportagem especial feita por um desse colaboradores fixos, não de alguém viajando pelo Brasil pensando pauta. De vez em quando acontece de um desses colaboradores sugerirem alguma reportagem assim, algo mais amplo. Nosso colaborador de Belo Horizonte tem esse perfil, sempre oferece algo assim.

Perfil de oferecer conteúdo de revista?

É, de oferecer coisas mais profundas. Mas fora isso, os frilas esporádicos, freelancer que não temos contato e de repente liga na redação falando “olha, tem uma história aqui para vocês”, isso acontece muito pouco.

Menos de uma vez a cada dois meses?

Menos, menos. Eu acho que pelo seguinte, esse perfil de jornalista é um perfil mais aventureiro, quem faz isso muito? O recém formado que não tá com vínculo empregatício em nenhum lugar e disposto a desenvolver um trabalho diferente. Acho que esse perfil é proporcionalmente muito pequeno em relação a turma que está sendo jogada no mercado todo ano. O padrão é: jornalista se formou e vai mandar currículo para todas as redações querendo pegar o que aparecer, ele quer se garantir num mercado que é muito competitivo. Então acha arriscado sair por aí, puxa vida, fazendo reportagens que eu não sei se vão comprar, e se eu não conseguir, quem vai pagar meu almoço? Isso passa pela cabeça, poucos têm a segurança de falar, vou sair, vou fazer um material bom e receber o que isso vale. Convenhamos, é muito raro alguém pensar nessa forma. Tem que ter muita confiança em seu trabalho para fazer isso.

Da construção de diferencial
Então caro, como experiência pessoal o que posso te falar é que eu quis construir um diferencial. Estava aqui já, mercado saturado, sei lá, dois mil e trezentos jornalistas se formando por ano em São Paulo, mais até, enfim, não conseguia propor com liberdade aqui. Resolvi construir o diferencial de encarar a ruteza, encarar essa barra de sair mochilando, apostando que daria certo. O contato com o Murilo [Garavello, então sub-editor de Notícias e hoje editor de Esportes] surgiu no meio, já estava no Ceará quando um amigo comum fez o meio de campo. Saí com 2.500 reais e voltei com 4.500, então eu lucrei vendendo matérias nesses termos, depois de oito meses viajando e trampando como repórter voltei dois mil reais no azul, mesmo recebendo precariamente como frila. Em alguns momentos eu juro pra você, tinha três, quatro pautas possíveis e só podia me comprometer com uma, se eu tivesse acompanhado por mais dois ou três repórteres ativos certamente eles também estariam sobrecarregados, então me parece que existe muito campo para crescer nesse sentido. Não é uma pergunta sabe.

Então eu te pergunto, você já viu alguém fazendo isso?

Cara, estou tentando encontrar. Achei dois veteranos e mais três colegas do meu ano.

Mas são poucos.

Sim, muito difícil encontrar.

Então, se você pensa que já são poucas as pessoas fazendo isso, imagina para onde elas ligam quando vão oferecer conteúdo, um deve ligar para a revista específica do não sei o que, outro para o veículo segmentado não sei da onde, são muitas redações e devem acabar procurando veículos mais específicos do que o UOL. Se há gente fazendo isso, a chance de cair num redação como a nossa é baixa, tendem a pensar que não vamos nos interessar, talvez tendam a ligar para veículos de interesse específico.

Do freelancer miserável
Tem outro ponto que eu gostaria que você aprofundasse também. Pensando em trabalhos grandes, que fogem do on demand online, estou tentando focar no meu perfil, que é texto de revista, quero saber como você consegue avaliar quanto pagar a um repórter, é por tempo gasto, pela quantidade de texto entregue, como você avalia a complexidade de cada trabalho?

Essa experiência é um pouco nova para gente, pagar por material de freelancer. Passamos a ter essa rede de colaboradores vai fazer dois anos. Não tínhamos a prática de produzir matérias pelo Brasil, até dois anos atrás havia simplesmente as matérias que chegavam de nossos parceiros e as produzidas pela redação de São Paulo. Como definimos, primeiro, o pagamento das matérias convencionais? Usamos como base uma lista de colaboradores da Folha de São Paulo para quem fomos ligando e perguntando se as pessoas podiam produzir para nós também e adotamos um padrão um pouco acima do que a Folha de São Paulo pagava por reportagem. Vou falar, a Folha pagava cem reais por matéria simples e o UOL adotou pagar cento e cinquenta reais pelo mesmo. Definimos esse valor, era algo que ia incentivar a pessoa a produzir coisas do dia a dia para nós, apura ali, já está apurando aquilo no trabalho, vai fazer duas três ligações de casas, locais, fazer um texto e mandar. Então adotamos isso como padrão. A partir deste valor negociamos mais conforme a dificuldade que a pessoa vai ter para fazer a pauta que estamos pedindo, extras que ela pode oferecer, se vai mandar também foto, ou tem custos de ligação ou de viagem, que tem que ser pré aprovada. Por exemplo, o cara de Salvador tá oferecendo algo no sul da Bahia que vale a pena, vai render várias retrancas pra ler no fim de semana. A gente pede um orçamento e avalia. Temos isso, sim, então pagamos. Não existe uma tabela, existe negociação, e assim se define o valor.

Nós tínhamos acordado setecentos reais sobre Serra Pelada e você me pagou mil.

Eu acho que foi porque acabamos recebendo material maior do que esperávamos. Imaginamos uma coisa e o resultado foi acima disso. E também às vezes a questão da ocasião, era um momento talvez em que os orçamentos estavam mais encorpados.

E te digo que chorei o preço também, foram vinte dias que fiquei lá.

A gente leva em consideração essas coisas, quando achamos que vale, pagamos. Sabe? Valeu o esforço, taqui, houve retorno.

Desenvolvendo sempre esse exemplo, eu não sei o que estava deslocado, se fui eu que demorei muito ou enfim, mesmo saindo uma grana maior, mil reais, foi um trampo que eu levei vinte dias para fazer. Pensando num salário mensal isso é insustentável para jornalista..

É.

Pra mim só foi sustentável porque, primeiro, meus custos eram baixíssimos, não ficava em hotel, ficava em casa de gente, então comia em casa de gente também, mas isso é um momento muito específico da vida. Pra se manter mensalmente como frila, nesses termos, não seria financeiramente viável. Não vejo um modelo aceitável.

Não existe. Eu acho que a vida de um freelancer é complicada. Ele tem que otimizar seu tempo para fazer valer aquilo que vai receber ou tem que aproveitar aquela matéria que está fazendo de várias formas, oferecendo uma coisa para um veículo, outro enfoque daquela viagem pra outro, tentar ganhar de várias fontes, acho que assim que ele acaba se tornando sustentável. Porque se você de fato for levar em consideração uma viagem de vinte dias para fazer uma reportagem especial, o custo disso dentro de uma redação, num orçamento, seria inviável, se você pensar em diária, hospedagem, alimentação, transporte, você está mantendo uma pessoa para uma reportagem durante quase um mês por um custo se for comparar enormemente maior do que manter um repórter na redação, onde estaria fazendo milhares de atribuições todos os dias. É por isso que eu digo lá no começo da conversa de infra-estrutura e custo de manter pessoas pelo Brasil. Não é fácil. Manter uma rede de correspondentes contratados já seria um custo grande. E aí se você pensar que esses profissionais fixos em alguns lugares terem que viajar, ficar fora alguns dias, esse custo ia se multiplicar ainda mais. As redações não têm orçamento para isso, digo as redações em geral, quem pode fazer isso hoje no Brasil é a Rede Globo, a Record, são as grandes tevês. A internet ainda está engatinhando.

Você falou que a publicidade na internet aumento muito nesses últimos dois anos.

Aumentou, aumentou porque é um comportamento mundial de aceitar a internet como mídia importante. No começo dos anos noventa era uma novidade, no começo dos dois mil houve aquela crise, incerteza que balança o anunciante. Agora não, há um período de estabilidade em que as contas começam a crescer. Coisa de cinco seis meses atrás pela primeira vez, na Inglaterra, o volume financeiro de publicidade se igualou à da televisão.

Isso foi há cinco meses? Já deve ter passado.

Já deve. E é uma coisa que vem acontecendo aqui, percebo o anunciante tratando com mais seriedade, sabendo que as pessoas estão mais ligadas aqui do que naquilo que passa na televisão. Isso vai ajudar o mercado a crescer.

Do editor na redação

Há quanto tempo você é editor do UOL?

Nove anos.

Antes você trabalhava onde?

Na Folha de São Paulo também.

Era editor lá?

Sim, fui editor e repórter.

De editor, quanto tempo você tem?

Desde noventa e oito.

Antes repórter?

É isso.

Você escreve?

Menos do que eu gostaria hoje. Quando se tem essa atribuição de editor você acaba se tornando um burocrata da notícia, que é ficar administrando o trabalho de outros jornalistas, dando orientações de pauta, revisando texto, pensando em avanços em dada cobertura, pensando no dia seguinte, negociando pagamento com colaborador que não recebeu e você precisa intermediar. Às vezes tenho vontade de escrever certas coisas que não sobra tempo. Muitas vezes. Acaba virando uma frustração, você precisa tratar tanto de trabalho dos outros que não dá para fazer mais coisas que gostaria. Acho que essa figura que eu dei é a mais real: você vira um burocrata do jornalismo.

A tua forma de expressão é o texto?

É o texto, por tradição e formação. Comecei a trabalhar em jornal, fiz jornalismo por gostar de escrever, sempre me vi na formação trabalhando em jornal. Não sonhava que fosse existir internet na minha época de estudante nos anos 80.

Em Santos?

Em Santos, na Católica de Santos. E assim, por mais contato que a gente tenha com novas tecnologias, todas esses recursos que existem hoje, ainda acho que o texto é o centro da coisa. Vídeo requer um texto por trás, o cara tem que escrever. Jornalista que fala instantaneamente um texto final é um talento muito difícil de encontrar. Tudo que tem um texto preparado por traz fica melhor acabado.

Do repórter no mundo
Pensando em seu papel de editor, voltando a isso, gostaria de saber se você já encontrou, já bancou algum projeto de repórter viajante, alguém viajando muito tempo e produzindo?

Há poucos exemplos no jornalismo brasileiro. Lembro de um, recente, Fábio Zanini, que é da Folha, fez um blog para a Folha Online viajando seis meses pela África. Fez um trabalho de pós graduação sobre política e sociedade na África, cruzou o continente e tornou-se um especialista em África. Foi por conta própria, decidiu fazer e foi.

Ah, mandou muito bem, seria legal conversar com esse cara.

Acho importante para seu trabalho, talvez seja o melhor exemplo recente no jornalismo brasileiro do que você está tratando. É um repórter bastante interessante de conversar, trabalhou na Folha, foi para a sucursal de Brasília. Posso te arrumar os contatos deles.

Você já viu algum repórter viajeiro se fuder? Alguém de alguma forma, não sei.

Não, deixa eu pensar.

Assalto, porrada, enchente, jaguar, erupção?

Não, nada tão grave assim. Bom, eu mesmo já passei por uma situação quando no massacre de Eldorado dos Carajás estava em São Luís e me ligaram da redação dizendo que morreram uns quatro sem terra no interior do Pará, não estavam localizando o correspondente em Belém, me enviaram. Peguei um voo à noite, fiquei em Belém no aeroporto esperando o primeiro voo para o sul do Pará, que era para Marabá, a cidade mais próxima com aeroporto. Fiquei de plantão, o primeiro voo sairia sete da manhã e já estava lotado e o segundo era pras onze da manhã, ia chegar muito tarde, então eu peguei um avião fretado por deputados, sete da manhã, era um avião meio, éé, não adequado para as condições. Acho que era um bimotor fraquinho com seis deputados e eu, tinha alguém também da comissão de direitos humanos do Pará. O avião entrou numa tempestade que parecia uma kombi aérea, chacoalhava de tudo que é jeito e lá pelas tantas o piloto anunciou que tinha perdido contato com a torre.

Que agradável hein.

Muito. E aí um deputado ao meu lado começa a rezar. O cara começou a rezar, pai nosso não sei o que baixinho, o avião chacoalhando todo mundo tenso, não se via nada além daquela chuva amazônica por todos os lados. Até que o piloto saiu da tempestade e sobrevoou uma área de selva mesmo, aquela imensidão de verde. O piloto deu a opção de tentar fazer pouso forçado numa das estradas ou voltar para Belém, porque tinha perdido a rota, e na volta para Belém teria que passar novamente pela tempestade e lá ia o deputado rezando. Acabou que conseguimos voltar e quando chegamos já tinha repórteres lá esperando informações sobre o avião com deputados que tinha caído.

E você foi pra Carajás?

Depois peguei o voo convencional das onze horas. Fiquei lá um mês.

Do contato entre os dois
O fenômeno que estudo aqui é a produção de conteúdo viajando. Nesse período em que foi editor dos dois veículos, você percebe de alguma forma as tecnologias móveis de telecomunicação, internet portátil, laptops, você percebe isso como atuante num trabalho de correspondente, melhor, ou percebe alguma diferença na produção de conteúdo devido a essas tecnologias.

Não pelo conteúdo em si, mas pela rapidez com que ele é transmitido. Comecei minha vida de repórter em mil novecentos e noventa, um momento em que aparelho tecnológico era fax, celular não existia. Hoje um repórter produz matéria à distância, o ganho de tempo é impressionante, não só de tempo como também de detalhes da apuração. Na era pré-internet, tudo que você ia colocar de contexto numa reportagem já deveria ter pesquisado de antemão ou gastar tempo fazendo isso durante a apuração, ligar nos lugares, aguardar retornos. Hoje você entra no Google e já tem alí milhões de fontes que podem te ajudar a complementar aquela informação. A transmissão do dado fica mais rápida, a produção fica mais rápida e você ainda ganha a alternativa de mandar mais coisa, mandar uma foto junto com sua reportagem. Isso não existia, você dependia de mandar um fotógrafo até lá. Eu fiz coberturas na Folha de ouvir um conflito indígena no interior do Pará. Aconteceu o conflito, a notícia chegou primeiro via rádio, até você chegar ao lugar tem que pegar avião, ir para capital, alugar um carro e ir para o lugar, encontrar o caminho, até chegar lá você descobriu que o conflito está acabando. Bom, você vai recuperar o conflito, ouvir a história, falar com os líderes, tal, e vai mandar a reportagem por telefone, não existe celular, e aí você vai ligar e descobre que a cidade só tem um telefone, que é orelhão, e que é compartilhado com o prefeito que usa a mesma linha no gabinete dele. E aí você liga a cobrar, alguém tem que pegar seu texto por telefone..

E aí no terceiro parágrafo o prefeito tem que fazer uma ligação.

Imagina o tempo que isso levava, não tinha foto, você dependia de alguma agência que mandou fotógrafo ou não ter foto simplesmente, fazia um mapinha com a localização do lugar e é isso. Hoje não, hoje você vai para um lugar desses com notebook , descola uma rede na cidade vizinha e vai transmitir via internet, já manda suas fotos e se bobear ainda manda um áudio. A diferença no processo de publicação de conteúdo é gigantesca.

Tem uma lenda do Hunter Thompson que eu repasso via Databróder, ele tava passando uma matéria por telégrafo nos anos setenta pra Rolling Stones parece e não tava indo não tava indo até o momento que ele se emputece, joga o negócio no chão e sacrifica a máquina, puxa uma arma e dá vários tiros bem ali na cabine de telégrafo. Sobre essas facilidades da internet eu sempre pensei também lá num repórter em noventa e dois e estoura uma revolução na Birmânia, que cê vai fazer, pegar na enciclopédia britânica a moeda do país, etnicidade e as línguas oficiais ? Ligar pra embaixada, encontrar um birmanês?

Para isso os jornais contavam com banco de dados. É uma referência, a Folha de São Paulo tem até hoje, existe uma biblioteca lá, física, arquivos históricos separados por pasta. É um Google físico, além de ter matérias publicadas você encontra lá tópicos como países, assuntos, etecetera, que era a maneira como as redações supriam sua necessidade de contexto.

De como salvar focas
Pensando na questão guia para focas. Encontrei editores dos dois extremos, desde aqueles mais disponíveis, como o seu caso, que me apoiou e propôs duas coberturas grandes, e de outros que não respondiam email. De mandar contato pedindo ajuda dizendo estou aqui, fazendo uma cobertura descendo a lenha numa multinacional para sua revista e não sei, preciso de contexto, preciso de ajuda, enfim, quero uma opinião, e o cara não responde alegando que não tem tempo. É bem foda essa relação, muito comum editor deixar na mão, se vira e faça..

Eu diria que é o mais comum. Bom, uma coisa é que muitos não têm conhecimento suficiente para passar algum tipo de orientação à distância. Talvez até um pouco como defesa acaba se afastando de um assunto que não domina, para não transparecer essa falha prefere não se envolver. Outra é a falta de tempo, o cara está recebendo ali pedidos de cinquenta pessoas e aí prioriza as coisas que está fazendo no dia-a-dia. O cara que tá lá produzindo um frila fica no “se vira, estou pagando, faz direito e faz logo”. Eu pessoalmente acho fundamental orientação, estou acostumado a trabalhar com isso faz tempo já, na Folha tinha contato direto com a rede de correspondentes, no UOL faço a mesma coisa. Percebo que quando não há uma orientação mais aproximada você vai ter trabalho depois que o material chega, talvez até acabe descartando um material que poderia ser bom e não foi porque não houve acompanhamento. Procuro dar sempre essa orientação, mas às vezes falta tempo mesmo. Às vezes acabo perdendo a paciência também com alguns colaboradores e me pego não dando o retorno que eles esperavam. Mas acho fundamental conversar com o repórter antes e durante a produção da matéria para evitar ser surpreendido quando o material chegar. E até dar uma linha para o cara, que às vezes tem uma história e não sabe por onde. A troca de idéias é sempre saudável, pode abrir uma luz na cabeça dele.

E o que você pode aconselhar para um repórter numa situação dessa de editor hiper atarefado, sem tempo, o repórter buscando uma orientação e não consegue. O que você sugere?

Bom, vou tentar me colocar no lugar, o que eu faria numa situação como essa. Você não deve se desesperar, a organização é o primeiro passo, pensar para quem estou escrevendo, qual o público desse veículo aqui. Antes de fazer o material tem que saber com quem está lidando, deixa eu dar uma navegada aqui no site, ler a revista e procurar outras matérias semelhantes que eles publicam. Deixa eu pensar, se o editor não está trabalhando comigo eu que vou precisar pensar em como gostaria de ler isso se fosse o leitor deste veículo. Ah, tem isso aqui, isso aqui, isso aqui, já sei, vou propor uma estrutura baseada no que é feito. Qual meu material? Tenho isso daqui, posso propor um texto diferenciado aqui, tem duas ou três personagens que merecem destaque, tenho fotos disso disso daquilo, organização te ajuda a você editar seu material, tem que pensar como aquele material seria editado naquele veículo, o editor não está conversando, você vira o editor. E aí já oferece algo encaminhado que se estiver bom o cara vai gostar, vai pensar que, puxa vida, sem eu precisar orientar o cara já mandou material pronto. Lá na redação é o que nos faz avaliar diferente uns ou outros colaboradores.

É um grande diferencial se adequar?

É, quando a gente percebe que o cara já manda tudo prontinho, manda o trabalho como tem que ser feito. Bom, sempre precisa um ou outro ajuste, mas você nota quando o repórter conhece ou não o veículo, sabe, o que levou esse cara a achar que a gente ia publicar isso? Esse tipo de coisa nem entra aqui, tem gente que sugere conteúdo que não nos interessa mesmo.

É mais comum o oferecedor ter ou não essa noção de adequação?

Hoje, depois de mais de um ano de rotina com esse tipo de trabalho, eu diria que mais de 50% desses colaboradores fixos já sabem o que queremos. Mas volta e meia um desses que achamos mais experientes acaba propondo algo que a gente para e pensa, nossa, isso aqui não é uma reportagem pra gente, não tem apelo ao nosso público. E texto principalmente, quase nunca texto é adequado às nossas necessidades, temos que mexer quase sempre. Vou te falar, tem só uns três ou quatro que mandam material bem redondinho.

Quando você fala texto não adequado, o que é?

Falta de padronização, falta de clareza. Tem uma coisa que não é só adequado em relação ao nosso produto, mas adequado ao texto jornalístico mesmo. Existem jornalistas que escrevem mal, não é raro, pelo contrário, acho que é a maioria.

Não é privilégio de recém formado.

Não é, são muitos. Infelizmente, na internet a gente sonha em ter sempre o jornalista com texto final para ganhar tempo, publicar rápido, mas temos que depender da segunda leitura e tem que ter mesmo, mesmo assim sempre passa alguma coisa. No UOL temos em cada texto um canal para o internauta comentar erros, por ali ele aponta problemas de digitação, de informação, opinião, discorda do repórter. Qualquer mensagem que um internauta manda toda a redação recebe e quando o erro procede isso é corrigido imediatamente, o público colabora para a correção da reportagem. Agora, tem internauta que usa aquilo para denegrir, xingar o repórter, mas enfim, é importante que exista.

Das considerações
Bom eu.. completei minhas perguntas. Se você quiser comentar qualquer coisa que conversamos aqui, fique a vontade.

Olha, acho uma iniciativa bastante elogiosa essa de tentar de alguma maneira incentivar o jornalismo a mostrar a cara do Brasil que a grande mídia não mostra. Não existe isso espontaneamente nas redações, existe esporadicamente, quando algum assunto vira o foco da pauta daquela semana, daquele mês. Bolsa família teve alguma coisa de denúncia e jogam lá um jornalista praquela cidadezinha encontrar personagens. Não há espontaneidade de “vamos mostrar o retrato do Brasil, mostrar esses rincões ou como a crise econômica está afetando ou nem chega aqui”. Não existe isso, a grande mídia está interessada em cobrir os grandes centros. No mundo isso é assim. Com raras exceções você encontra alguma matéria especial. Então eu acho sua iniciativa de mostrar essa carência no nosso jornalismo proveitosa para ajudar a refletir, as redações a refletir, o jornalismo a tentar repensar métodos, repensar necessidade e retornos que essas iniciativas podem ter. Sabe, fazer reportagens especiais pelo Brasil às vezes vale mais do que você cobrir o dia da bolsa de valores. Existe muito no país esse comportamento de manada, fulano está dando isso, precisamos dar também. E aí os cinco portais vão cobrir a mesma coisa, todas as tevês estão lá. E aí tem um mundo de outras coisas acontecendo que ninguém está vendo porque não tem gente, não temos braços para isso.

Essa questão do agenda setting da imprensa também é muito boa, dá para fazer alguns mestrados e doutorados sobre como os acontecimento se elevam, ou são elevados, à categoria de notícia.

Exato. E a classe do jornalista é uma classe de elite. Falando desse comportamento de manada, ele ocorre também internamente nas redações. Redações são aquelas pessoas que estudaram juntas, moram mais ou menos nos mesmo bairros e estão lendo as mesmas coisas, consomem os mesmo produtos. Não conhecem a periferia de São Paulo. E se não conhecem a periferia da sua cidade conhecem o que do Brasil? Não conhecem o interior de Minas Gerais, o sertão Nordestino, Amazônia, Rio Grande do Sul, peculiaridades que são campos de reportagem enormes. Vou te dar um exemplo de anteontem, chegou uma foto de uma de nossas agências, dessas fotos que impressionam de vítima de enchente. A foto saiu pelo serviço do New York Times. O New York Times estava com um fotógrafo no interior do Maranhão cobrindo enchentes, fazendo histórias. Nossa redação não tinha ninguém lá, a gente penou uma semana esperando fotos das cheias porque as nossas agências não estavam enviando nada. Quer dizer, a imprensa local muitas vezes acaba esquecendo de cobrir o Brasil e você tem a imprensa de fora fazendo isso. Acabamos cobrindo nosso continente por meio de agentes internacionais de Londres ou Nova Iorque.

Você acha que uma agência de conteúdo de Brasil, trabalhado, com fotos também, buscando o interior, é uma idéia viável?

Mais do que viável, acho uma necessidade.

II – Daquela que fala com o corpo

•8/10/2009 • 1 Comentário

Eliza Capai acabou fazendo uma iniciação científica durante a faculdade sem entender muito bem porque, achava incrível aquela coisa do intelectual de sair citando referências de memória, espontaneamente, rolava uma certa inveja de não ter essa cabeça. E não tem mesmo, acabou entendendo que o que tem é corpo, que processa e registra sensações no corpo, que se expressa por ele. Descobriu-se afásica, com dificuldade para comunicação verbal, e que isso não necessariamente compromete a expressão se você conseguir agregar outras linguagens, como mímica, teatro. Me conta isso segurando uma panela e não fala só com palavras, sacode ombros e braços com desenvoltura para deixar claro quem é que manda ali. Até a panela ganha expressão enquanto cozinha sopa de abóbora.

Acho quase desonesto reduzir esta mulher a texto apenas, mas hei, ela encontra a expressão que lhe comporta no vídeo e eu no texto corrido. Bom que provavelmente não sou afásico. Acontece que para expressá-la preciso de mais recursos do que só letrinhas justapostas. Quando Eliza fala todo o corpo acompanha, mãos voam livremente apenas porque são as extremidades mais móveis, tudo seu conjunto segue a mesma harmonia e até o tom de voz se altera para comportar a intenção, ora irônica, ora explosiva e se eu forçar até melancólica. Emula vozes e personagens com naturalidade cênica, nem tangencia o artificial. Se estiver de pé é possível enxergar a emoção que acompanha suas palavras no equilíbrio corporal fluido de dançarina. Seu eixo acompanha o verbo.

Como reproduzir isso por aqui? Complicado. Não vou ficar me intrometendo em seu relato para explicar que quando ela fala de ansiedade quase levanta da cadeira como que querendo arrancar alguns pedaços incômodos do corpo com as mãos. Acho que prefiro o itálico, talvez seja a melhor solução. Então, nos parágrafos que seguem, todos os itálicos demonstram um momento em que a expressividade da mulher supera tanto o verbal que merece ser destacada. Quando cruzar com um destes tente reler o trecho encaixando ali uma outra voz, uma expressão particular que faz sentido apenas se pensada além do puramente verbal. Afinal convenhamos que palavras, tadinhas, são tão precárias, não servem para muita coisa não. Mas o que há de se fazer senão lidar com elas? E porque diabos ela é personagem deste livro? Prefiro deixar a reposta para a própria. Daqui até o próximo título em negrito, sigo apenas com voz e corpo de Eliza Capai.

Sempre tive uma coisa nômade. Tem umas fichas que vão caindo ao longo da vida, só me dei conta recentemente que minha família inteira é assim. Minha mãe é do Rio e mora no Espírito Santo, meu pai ao contrário, mora no Rio e é do Espírito Santo, tenho um tio em Washington, uma prima em Brasília, outra em Fortaleza, outra no Texas, minha irmã em Niterói, o avô veio da Itália. Demorei pra sacar esse tesão porque não tinha grana pra viajar, não fazia parte da minha cultura, nunca sai do país com os pais. Eu lembro que de moleca gostava de pegar ônibus, adorava as duas horas que levava pra ir de Vitória até a casa da minha vó, tinha as maiores idéias naquele trajeto. Precisava resolver algo ia para a casa da vó, sozinha, de busa. E em Nova Iorque agora, a mesma coisa, estava dentro de casa deprimida, tinha que editar um documentário de uma amiga, não conseguia de angústia pessoal, foi botar o pé na rua e começar a rir, mesmo. Organiza a cabeça essa coisa de se ver em movimento.

Tem uma coisa de aprender a viajar também. É muito diferente ser mulher viajante, o discurso do terror é muito grande. Eu demorei para peitar os argumentos dos outros, sempre dava um medo de que se acontecesse alguma das coisas terríveis que todo mundo falava que aconteceriam eu ia me desarmar. Passei por semi-situações de perrengue até criar meus mecanismos de perceber que bem, não chega à noite num lugar que você não conhece e não tem onde ficar. Muito bonitinha né, chegar à noite de mochilinha, cabelão, biquininho, em qualquer lugar. Tem que ter preocupações que homem não tem e aprender a projetar segurança ao viajar. Ao longo você vai ficando mais confortável e sacando seus limites com mais facilidade, até onde dá pra ir sem cair em risco desnecessário. Sempre tenho um namorado que me ama muuuuito e por quem eu estou completamente apaixonada. Cara, é um saco descobrirem que você é brasileira num país machista. O cara descobre e te olha de cima abaixo como se estivesse seminua, vestindo paetê. E aí vinha meu namorado maravilhoso. Inventava isso que eu acho horrível de ter um homem pra me defender, mas, entre o risco e a caretice, fico careta.

Mas aí comecei também a ver o tamanho do discurso do terror nos nossos tempos, sei lá de quando veio essa porra, mas é aquele que diz que sempre o desconhecido é perigoso. Na América Central foi um absurdo, cheguei sozinha ao Panamá, sabia que Panamá e a Costa Rica ainda são mais tranquilos, Costa Rica é um tesão, não tem exército, é diferente de tudo na América Central. Mas aí você está lá, prestes a cruzar para a Nicarágua e te falam, Nicarágua, cê tá loca? Cê vai sozinha, vai se fuder, vai não sei o que. Cheguei lá tensa, tudo machista pra caralho, o primeiro ônibus que entrei tinha um homem gigante com um daqueles cintos de boiadeiro, chapéu, eu entrando sozinha era um daqueles ônibus de galinha, doze horas até não sei onde, ele olhou na minha cara e disse muito naturalmente “senta aqui do meu lado porque tá frio e eu quero que você me esquente”. Então eu sentei o mais longe que eu podia dele, fiquei lá sozinha eu e as galinhas e um monte de homem, em cada país me falavam que o seguinte ia ser pior, e depois pior ainda, cheguei a El Salvador sabendo que ia morrer, não tinha a menor dúvida, era sair do ônibus e viver mais cinco minutos, melhor aproveitar. Mas aí chega uma hora que você fala foda-se, estou aqui, tenho que estar aqui, não vou dar mole, não vou ter medo de estar aqui e não vou seguir todos os conselhos que me dão.

Em agosto de 2004 fui com o Jacques para a Venezuela cobrir o Chávez, era o referendo para ver se ele ia se reeleger. Foi minha primeira experiência de internacional mass media[, quando eu soube que nunca ia querer trabalhar com isso. Lá a gente viu o Jimmy Carter, analista internacional, falando, bem, esse é o resultado, não houve fraude. Então o editor daqui recebe a matéria e rebate dizendo que tá todo mundo falando que houve fraude, coloca aí que houve, foi tenso, tivemos que discutir muito dentro do casal. Eu vi então o papel desse correspondente formal da grande mídia, ele só é um cara pagando de bonitinho para justificar o que a rede quer falar, porque não importa muito o que o profissional está vendo no mundo, vai sair o que a rede já tinha na cabeça. Tenho um amigo, não vou queimar o filme dele, estava no México cobrindo a gripe agora, tem poucos meses. Nos encontramos em Nova Iorque e ele me mostrou as matérias, todas usando máscara. Perguntei se adiantava para alguma coisa ele disse que não fazia a menor diferença. Mas você fez uma matéria dizendo que as máscaras não servem para nada? Claro que não Lica, não quero perder meu trabalho. Aí a gente volta para o manter a paranóia de que o mundo é o caos. Aqui é seguro. Não sai, fique em casa, fique na sua cidade, fique com o que você conhece porque logo ali está a barbárie. A civilização só vai até onde se consegue enxergar.

Ainda em 2004 a paixão pela estrada e pelo conteúdo viajeiro foi tomando forma, ficando mais clara. Eu era documentarista do Teatro da Vertigem e nós fomos em dezoito até o Acre pesquisando material para o BR-3, espetáculo que levou dois anos pra ficar pronto. Dezoito pessoas juntas o tempo inteiro, todas ligadas ao teatro no interior de Rondônia, imagine, puta loucura, ainda com cronograma paulistano, que era muito tenso e eu não aguentava. Descobria alguém ali e não queria ir para outra entrevista, quero ouvir essa tiazinha falando sobre café até ela cansar. No Acre teve muito desses momentos, de estar lá, de se entregar para o momento, foi ali que eu entendi que queria fazer isso. Foi num seringau incrível que eu percebi minhas limitações de urbana, ouvi um barulho e perguntei para um moleque nossa, que passarinho é esse? É macaco. Merda, tô precisando andar mais por aqui. Aí todo mundo foi dormir nos quartos e eu amarrei minha rede nas traves de um gol e depois do campo era floresta amazônica virgenzassa, um céu muito louco e eu ali, em duas horas planejei meus próximos dez anos de vida. Pendurada no gol, na boca do mundo. Foi epifânico.

É um tesão viajar sozinha, mas cansa. Ter um conforto ali é legal. Descobri que meu grande tesão é viajar, mas eu me entedio no primeiro mês se não estiver produzindo. Se eu estiver trampando não tenho a menor vontade de voltar, nunca. Lembro de uma viagem com o Jacques, eram três meses de férias em 2005, íamos do norte de Minas até Buenos Aires de carro e de volta. No primeiro mês já tinha cansado demais viajar e então começamos a produzir, os dois jornalistas, esse lance do correspondente pintou ali naturalmente para mim por necessidade de fazer alguma coisa. Paramos um mês no Uruguai, começando a fazer cobertura para tv. Foi legal, o Jacques fazia uma coisa mais Band, correspondente, eu gravava e editava. Comecei a juntar o material que lidava e fiz algo mais artístico, juntei a posse do Tabaré Vázquez e também era carnaval, fiz uma materinha que foi para o Metrópolis. Entendi a vontade de montar as coisas por esse viés, sempre tentando escapar. No começo era difícil, eu não conseguia ver outro caminho, me parecia muito mais óbvio se tornar correspondente, não tem tantas pessoas fazendo o que a gente faz, demora para você cruzar com alguém e descobrir que, ah, é isso mesmo, ou não, não é isso, é aquilo, e pode ser qualquer coisa. Ficava tentando achar brecha por aí. Quando fomos morar na Argentina chegaram a me chamar para ser correspondente, mas cara, se eu entrasse ali ia ser muita energia para investir em algo que eu não queria. O caminho pra gente é de ir se achando, dá para achar brechas na mídia tradicional de propor pautas e conseguir uma grana com aquilo, pequena. Paga-se muito mal sabe, já está viajando não me enche o saco. Ou acha essas brechas de propor matérias de política e economia, ou vai começar a pensar em coisas que não estão óbvias. Queria fazer cobertura de cultura que me permitisse patrocinar algo maior, mais pessoal, aí eu me coloquei de produtora tentando vender um projeto para a Tam, para a Gol, para quem quisesse, para entrar de patrocínio numa tv aberta. E claro que não rolou, produção executiva é para quem pode, não para quem quer. Mas vi que era por ali o caminho, propor projetos.

Morei um tempo na Argentina e voltei de lá em 2007 num momento pessoal muito complicado, de separação. Vi que se eu chegasse a São Paulo em dezembro eu ia me matar, estava destruída emocionalmente, no fim de ano não rola frila e eu odeio São Paulo neste momento. Tinha uma graninha, fui pra Amazônia e aí deus existe, foi a coisa mais acertada. Entendi também que já que a gente não ganha tem que ser cara de pau, não vão me pagar vão me dar hotel. Fui fazer tudo que eu gostaria de fazer na Amazônia e que também é o que muita gente quer por lá, então vou contar para elas o que é legal e o que não é. Fui numa revista, a UM, e me autorizaram produzir em nome deles. Então eu fiz todos os cruzeiros, todos os cinco estrelas. Demorei uma semana para entender que isso era possível, que iam aceitar. É complicado por um lado que você tem um tratamento vip que nenhum hóspede tem, lembro de um hotel que me deram uma cabana do Tarzan sensacional com hidromassagem, gente isso é legal pra caralho, não precisa me pagar muito pra fazer isso não. Essa foi a primeira viagem que eu banquei com trabalho, banquei depois de voltar ainda vendendo conteúdo. Tinha três mil reais, fiquei dois meses viajando, no começo assim em hotéis e depois por conta própria. Esse lance de turismo é legal mas não é a minha, foi bom para me permitir algo que eu não poderia viver de outra forma e também para perceber uma coisa mais esquizofrênica que eu curto, cheguei a Manaus e fui direto para o cais, peguei um cruzeiro cinco estrelas incrível, eu e todos os europeus legais do mundo, voltei, fiquei nesse barco num quarto absurdo que a diária era maior do que o tanto que iam me pagar para fazer a matéria com as fotos, saí deste hotel, fui para o ponto de ônibus e segui pro hotel mais baratinho que eu encontrei no centro e foi do caralho, fui comer um sanduíche de pernil com uma cerveja à noite num boteco e ali encontrei pessoas que pareciam mais comigo. Aí fui escrever sobre o crescimento da população indígena, aumento de quem se denominava índio num lance de valorização de auto-estima mesmo. Isso foi janeiro e fevereiro de 2008, eu voltei muito apaixonada pelo trampo, consegui vender uma série de matérias que me pagaram a viagem e foi incrível.

Volto para cá, São Paulo, decidida, era disso que queria brincar. Planejei uma coisa de volta ao mundo, que no começo era muito simples a ideia, comprar uma dessas passagens que você tem não sei quantos trechos no mundo, achei que era mais vendável do que ir para um lugar só em termos de xaveco, quarenta anos da revolução feminina. Mas isso foi virando outro negócio, a gente tem que entender que se é simples é simples, quer ganhar grana vai trabalhar com publicidade em São Paulo, não é essa a proposta, agora não, não mesmo e ponto final. O projeto cresceu e virou outro negócio que ficou uma fortuna, fiquei esperando a resposta, a viagem tinha que começar em março, o xaveco era 08 de março de 2008, quarenta anos da revolução, sai ou não sai, e em fevereiro vi que não ia rolar. Nesse meio tempo me ligaram para fazer uma cobertura de imprensa de um seminário dos trabalhadores, porque eu trabalhei na TV CUT também, no Panamá. Fui com uma condição, passagem de volta em aberto, e fechamos. Aí foi incrível, porque eu não tinha nenhum dinheiro, só o que eu ia ganhar nessa uma semana de trabalho, e ainda tava com toda a energia da viagem que não tinha rolado. Então em três semanas peguei todas as ideias que tinha na cabeça, coloquei no papel e sai loucamente oferecendo pauta para todas as revistas que eu tinha contato e num dia assinei dois contratos. Acabei fazendo três, um com o Saia Justa, onde eu ia fazer perguntas para as mulheres dos países que eu estivesse. Para mim foi sensacional, eu não tinha a menor idéia, achei que ia mandar material bruto, tive uma reunião lá e aí a Monica Waldvoguel falou “faz o que você quiser, só não manda algo com cara de programa de domingo”. Olha que incrível, o que mais gosto de pirar é linguagem e ela me deu liberdade total, então fui fritando, coloquei umas coisas de videodança que eu curtia para passar na tv e rolou bem.

O segundo contrato foi com a TAL, Televisão América Latina. Propus uma outra coisa sobre migração de mulheres, que acabou rolando com a revista Fórum, lá publiquei uma série de oito matérias aprofundando migração de mulheres que foi mesmo minha grande paixão, aquilo que eu fui desenvolvendo e no final me fez muito bem entender de fato aquele assunto. Às vezes no jornalismo a gente faz tudo fragmentado e eu me sinto meio burra. Propus isso para a TAL e não rolou, mas a mulher me devolveu o projeto que eu tinha proposto para o Metrópolis na Argentina alguns anos antes, alguém que eu nem conhecia, eu fiquei uns dez segundos pálida na frente dela sem entender. Tá tudo bem? Nossa, esse era o meu sonho, achei que nunca ia rolar. Então em cada país ia atrás de artistas dali, via qual eu achava mais legal e fazia uma matéria sobre o trabalho deles. Foi incrível.

E aí saí com esses três projetos, eu, uma câmera de vídeo, uma fotográfica, um laptop, tudo no seguro. Não queria ter que pensar se eu poderia fazer alguma coisa ou não, queria fazer. A mochila de equipamento pesava seis quilos e a de roupa, que tinha livros de migração, dvds de backup, bota de chuva, pesava dezoito. Essa viagem durou nove meses e foi a mais intensa da vida, Cidade do Panamá até Nova Iorque de mochila. Ser independente é possível se você tem um foco e algum despojamento, porque cansa. Não tinha grana para hotel, ficava em albergue. Trancava minha mochila com o equipamento que era tudo que eu tinha acumulado na vida, além de uma penteadeira linda, suspensa, de pendurar no teto, que ficou na casa de uma amiga de uma amiga. Então um certo desprendimento de estar ali. Tinha época que dormia três noites por cama e isso é muito cansativo. Foi a experiência mais incrível que já tive na vida até agora, uma coisa de conhecimento fluido, de liberdade de escolha. Você passa por lugares que seu público não tem conhecimento formado, então pode falar o que quiser, pode escolher o viés que quiser que está valendo. Liberdade de escolha absurda, o que acarreta em tudo que vem junto, tinha hora que eu pensava pelo amor de deus alguém me dá uma ordem, não quero ter que pensar pra que lado do país que eu vou, se ônibus ou trem, se durmo ou sigo, ordem, mas não rolava, e aí eu dormia doze horas e acordava bem de novo.

Eu faço trinta esse ano. Descobri a crise dos trinta. Tenho amigos que estão ganhando grana pra caralho, um monte comprando casa, todos com carro. Mas começar a afundar nessa crise não existe. Tem uma coisa que eu me orgulho que é depois de ter dado o trampo na capital, apurado tudo que precisava, pensava qual era o lugar que mais queria conhecer naquele país e ia para uma praia do Caribe, ficava lá num quartinho de sete dólares editando de frente para o Caribe. Fiz isso num vulcão, em um monte de lugares. Tive vários momentos de entrar na água e chorar, eu não acredito que isso é minha vida, que está se bancando, umas emoções que eu nunca tinha sentido de olha o que estou fazendo, obrigado por isso eu, eu mesma. Quero ganhar dinheiro? Se eu tivesse ganhando dinheiro estaria o ano inteiro juntando para passar uma semana aqui onde estou trabalhando. Então foda-se ganhar dinheiro nesse momento. Mas aí tem a crise dos trinta, ter filhos, preciso juntar dinheiro, mas eu seguro, ainda não é o momento, tenho que ir pra África antes. Esse é meu deadline.

Fiz isso quando voltei para o Brasil também, ganhei um prêmio com um curta que fiz na tal viagem. Para a série de migração da Fórum entrevistei uma mãe que morava na Costa Rica e o filho que ficou na Nicarágua. Acabei fazendo um videozinho simples e bem apaixonado. A mãe, Georgina tava num momento muito difícil e desabafou comigo, não tinha ninguém para ouvi-la, sabe? Muito triste. Como já estava viajando há mais de cinco meses, todo mundo com saudade, acabei conseguindo ganhar o prêmio de público pela net. Com a tal grana do concurso fui para Ilha Grande organizar material de um doc sobre migração feminina na América Central que agora estou correndo atrás de leis de incentivo, Itaú Cultural, editais, todo mundo que puder me dar dinheiro. Fiquei um mês ali, um ritmo de vida maravilhoso produtivo para caralho, que é outra coisa da necessária, o ter tempo para parar, para deixar as coisas decantarem com mais calma, mas quando eu parar vai ser em Ilha Grande, não em São Paulo. Fui um pouco radical ali, sem arrependimentos, mas não repetiria tão cedo. Era uma pousada na praia ao lado da principal, tinha gerador das 09h às13h e também das 19h às 23h. Esse era meu horário de trabalho, e batia oito horas, o que é um bom tanto para trabalhar, se bem que seis são melhores. Aí saía à uma da tarde para ler o Rastro dos Cantos, fazer trilha, nadar, tirar um cochilo se quisesse, vivia intensamente, às sete já tinha tomado meu banho, visto o pôr do sol, comendo um sanduíche, acabando de renderizar o trabalho da manhã pra começar editar de novo. Tava editando um clipe, começava a nadar pensando não é esse o caminho. Sessenta e três horas de material para fazer cinco minutos de promo. Teu cérebro te elabora umas respostas. A gente tá pensando embora não perceba que está. Meu tio fala que tem dois tipos de texto, o cara totalmente estratégico, que sabe de onde saiu e para onde vai chegar, e quem é vomitivo, eu sou, suspeito que nômades tem uma tendência a isso. O que acontece, já tenho todas as entrevistas na cabeça, todas as leituras, todas, não aguento mais elas. Aí saio, vou mergulhar, enquanto estou mergulhando, vivendo, processando alguma coisa de corpo, de sol na pele, de movimento, um outro lugar do cérebro, aquela parte do racional, da migração feminina, tá lá, tátátá, eu que não vou ficar aqui sentado enquanto você tem que escrever isso, e quando você chega já está com o texto pronto. Tudo é movimento e a gente vem com essa babaquice de ter que ficar parado, quem inventou isso?

E lá eu fui ler o Rastro dos Cantos, do Mark Chetwin. É um inglês que faz esses livros de viagem sobre temas específicos e é apaixonante. E nesse ele vai para a Austrália para entender o que era o rastro dos cantos, que é como os aborígenes, simplificando de forma absurda, é como concebem e explicam a criação do mundo, enxergando aqui uma xícara, ali uma árvore e lá uma flor amarela, todos criados pelos cantos de seres divinos ainda no tempo dos sonhos, de gênese do mundo, e pelo rastro desses cantos você consegue acompanhar a criação e a relação entre todas as coisas. E ele discursa enquanto explica o todo, no meio da chuva, falando sobre nomadismo. É incrível. Quando fundamos as cidades passa a ser algo de conquistar espaço, quem tem essa coisa interna de estar parado é quem busca se estabelecer, controlar, poder acumular capital, quero um apartamento grande, um carro, conhecer todo mundo por aqui, saber onde está o melhor café, a melhor cantina italiana e tal. Quem tem o negócio do nomadismo não pode ter as mesmas relações de controle. Você precisa das pessoas, genuinamente precisa de seu porteiro, que seja, tem que tratar como um igual, demonstrar interesse por todos senão você tá fudido. Tem muito menos gosto pelo acúmulo de coisas, tudo que você quer é fechar uma mochila deste tamaninho. Festejei algumas vezes quando esqueci roupas por aí. Queria uma mala-mochila, seria ideal, mas é cara para caralho. Sabe dessas que tem rodinhas mas também dá pra levar nas costas? Menos coisas, mas coisas que durem.

Eu sei qual é meu modelo de viagem, ele funciona pra mim, não sei nada de modelo ideal. No começo eu estava muito rápida, olhava o guia e via os lugares queroirqueroirqueroir. Mas fiquei muito cansada, aquele monte de informação para lidar em outra língua, não dava tempo, um stress delicioso, mas um stress. Então tive que começar a segurar as pontas e lidar com uma ansiedade loouca de conhecer o México, fiquei quatro horas numas ruínas do sul do país e fui para a capital, já não tinha condições físicas nem emocionais. Quem viaja muito tem que aprender a lidar com essa ansiedade, não significa nada ir para trinta lugares num dia ou ficar trina dias num lugar, depende é do seu momento de lidar, não da escolha que você toma. A minha primeira grande crise foi na Guatemala. Foi tenso, sempre me falavam dos perigos, os três países ali Guatemala, El Salvador e Nicarágua passaram por guerras civis há pouco tempo, então muitas gangues, são países perigosos e machistas. Foi tenso. Comecei a ver que eu estava estressando quando gritei na rua, a única de cabelo enroladinho, berrando em espanhol que não era uma cachorra, foi foda, um erro, tipo hu calaboca doida. Tava sozinha, de tpm, com uma paixão platônica na cabeça, num quarto sem janela, úmido, aquela pessoa tava perto e não comigo, eu estava sozinha, me senti sozinha, me senti solitária. Sozinha é bom, solitária horrível. Queria dormir, ficar dez anos dormindo, entrar na menopausa e já ter passado as tpms todas da vida.

Nunca gostei de ficar doente, quando isso acontece é porque estou carente, quero atenção. No começo da viagem a família apavora, todo mundo falava para eu pagar o seguro de saúde. Não, não vou ficar doente. Ahh como você decide isso? Decido. Posso ser atropelada, posso, posso estar num acidente, posso, mas.. não vou estar. E não vou ficar doente. E fiquei seis meses sem um fung, um nada. Não estava aberta para doenças, estava para sacar meus limites. Sentia a coluna esquentando, sabia que era um princípio de uma febre, deitava e dormia quatorze horas, sabe, foda-se o deadline de amanhã.

Ai você começa a refinar o seu sacar limites. Perdi a carteira e fui roubada na Guatemala, foi a merda que aconteceu. Essa coisa de sacar o que rola, você bate o olho sabe se a pessoa vai te fazer bem ou mal, pode acreditar ou não, mas saca. Perdi a carteira, uma merda, perdi o cartão. Tinha dois cartões, essa é uma dica básica, ande sempre com dois cartões, o passaporte e um cartão em um lugar e o outro junto contigo. Fiquei sem dinheiro, só fui descobrir depois que já tinha cruzado o lago e não tinha como pagar, chorei loucamente, também é um mecanismo, quer chorar chora. Quando chego ao México, na casa do amigo do amigo do amigo, que me tratava como uma filha, levava salada de fruta de manhã, uma casa linda, onde eu me sentia segura, protegida, ali eu fiquei doente. Vi que meu corpo tava precisando e permiti que ele ficasse, conscientemente doente. Aí passei uma semana com febre, dengosa, foi ótimo. Mas depois também chega né, não dá pra passar tempo doente no México, cabou, melhor ir para o Caribe. O ponto ótimo mesmo de sacar o limite é se ligar antes do ficar doente e falar bem, já não dá mais mesmo, deixa eu ir embora, quero a mamãe, mas pra ter essa consciência plena tem que ser muito iluminado.

Problema são os lugares bem fronteira, que é terra ninguém, não tem muita mulher viajando sozinha. Querendo quebrar o lance do turista em muitos momentos eu me via completamente sozinha naquele local. O se fechar tem uma coisa energética de demonstrar que você não está aberta para aquilo. Cheguei a comprar uma faca para descascar pepino em público, sabe, pra mostrar que eu tinha aquela lâmina, vem querido, só uma giradinha no seu estômago, não precisa ser uma faca enorme. Mas sentia que tudo que colocava na faca era medo e eu não queria ter aquele medo. Melhor fechar desde dentro, não chega perto. E aí saí andando com o pepino na mão dando umas mordidonas, comendo ele inteiro. Se eu me sentia desprotegida dava umas sacudidas meio de doida no tripé, porque aquilo é um taco. É a mesma coisa da doença, você deixa claro se podem te atacar ou não. Não sei explicar isso, mas tem esse momento do não deixar brecha, essa postura de não abrir, de deixar claro que não faz sentido aquele cara te atacar. Não deixo.

O dia que fiquei com mais medo foi na fronteira Guatemala-México, tão barra pesada quanto a fronteira norte do México e sem os Estados Unidos ali. Tem muito ilegal querendo cruzar de todo lugar, terra de ninguém, país que acabou de sair de guerra civil com duzentos mil mortos. E, eu tava ali, numa cidade de fronteira, de tráfico de mulheres fortíssimo, querendo fazer uma matéria sobre prostituição. Sozinha. Pois é né. Eu, mulher, gringa, querendo entrar em puteiro para falar de tráfico de mulheres? Idiota. Ficava rodando pela cidade, morriam duas pessoas por noite ali, uma cidade muito pequena e muito violenta, tráfico de armas, de drogas, de gente, tudo. Idiota, você não tem o que fazer ali, vai ler um livro, vai citar a mulher do livro. Desisti de fazer essa matéria e foi muito frustrante. Cheguei lá brigando, fui me abrindo pra merda desde a fronteira. Já cheguei discutindo do cara falar “Quer que eu chame meu general? Você não manda nada aqui, quer que eu chame meu general?” Aí eu falei, não, eu não mando nada aqui. Mas Eliza, cê tá loca, brigando com um soldado na fronteira da Guatemala com o México porque ele não te avisou que teria que pagar mais vinte dólares? Tipo, quer mais vinte, amigo? Depois fui procurar hotel e me levaram numa espelunca horrível, com umas marcas de mão na parede, imunda, a mulher começou com um preço e acabou com outro e aí briguei com ela também “porque você não falou esse preço quando entrei aqui, tá querendo me roubar porque sou gringa?”. E aí eu tava louca, loucona, já tinha ido em três hotéis e brigado por isso. Toda a energia errada e falei, Eliza, conserta a energia agora. Tava passando, senti uma brisa saindo de uma sala, entrei e nem vi que era uma igreja, mas era, e perguntei qual era o melhor hotel da cidade. Me mostraram e eu fui, era simples, mas limpo e tinha o preço na parede, vinte dólares. Depois fiz contato pelas freiras, conheci as mulheres que eram da prostituição mas as freiras levaram para dentro, foram minhas personagens e entendi que era tudo que eu tinha para fazer ali. Agora volta para a capital.

Dei o limite. Se você não quiser virar personagem da sua matéria vai embora. Isso é outra tentação, o tempo inteiro você tem na cabeça que o pior que pode acontecer é virar personagem de seus textos. Como é aquele jornalista da Realidade que perdeu a perna no Vietnã, Zé Hamilton Ribeiro, nossa, quem não quer ser Hamilton? Se acontecer algo horrível aqui vou ter uma puta história, um texto que vai mudar minha vida. Tava falando sobre migração de mulheres e eu era uma mulher migrante, me estupra que eu vou ter uma matéria incrível, mas você quer isso gatinha? Claro que não. Você prefere mil vezes uma vidinha profissional de merda do que ser uma profissional incrível e traumatizada. Então volta para a capital.

Minha primeira grande viagem sozinha, a da Amazônia, foi em um momento de separação, precisava perder todas as referências para entender quem eu era. Ou seja, não ter o olhar da minha mãe, da minha irmã, medo de encontrar um amigo do ex, não ter ninguém me perguntando o que era para eu poder me responder o que que era. Viajar é o buscar-me e eu sei que esse eu é fluído e eu vejo mais e mais como cada hora é uma coisa. Sempre gostei de estar só, tinha a turma e a necessidade de ficar sozinha. Eu era a única pessoa que eu conhecia que ia para o cinema sozinha com dezessete e achava ótimo porque estava lá, dentro do filme. Saía ainda no filme, eram minhas primeiras grandes viagens. E quando começo a viajar sozinha vi que posso ser quem eu quiser. Se eu chegasse e falasse Oi eu sou Andréa, artista plástica, pinto pra caralho e não sei o que lá que lá, tenho sete maridos, ou sou lésbica, na verdade gosto de trepar com cães.. foda-se, eu vou embora amanhã, posso te contar o que eu quiser, e se está disposto a ser sincero você fala bem, se eu posso ser o que eu quiser eu vou ser o que quiser, então vou ser o que eu sou. Você gosta de dormir até tarde, tem certeza? Então dorme. Ninguém vai te acordar, mas você vai perder a praia. Fiquei cinco meses sem sair à noite. Sempre fui super baladeira, mas lá como estava em contato comigo eu queria o dia e foi assim. Depois de um monte quando chego em Nova Iorque, tinha tomado dez cervejas em cinco meses e fumado um cigarro, sedenta por esse outro lado que também sou eu. E eu não conheci Nova Iorque de dia, só de noite, era isso que eu queria então vamos lá. Então o tempo inteiro é o que você quer agora, quem você é agora? Então vamos ser.

Esse é um tipo de honestidade que rola pouco nesses rolês de albergue, as pessoas sempre falam de onde vieram e para onde vão, é um tipo de vício de viajante também, falar o quanto foi incrível o lugar anterior e quanto vai ser incrível o próximo, mas esquecer do presente. A gente fala muito. E sempre, não só em viagem. Quando você sai desse circuito turista padrão começa a encontrar gente diferente e interessante todo dia, que não responde as mesmas coisas que você está acostumado a ouvir sempre. Mas você sim repete as mesmas coisas, de onde veio, para onde vai, e nessa repetição fica clara sua mediocridade. E então você passa a falar menos. A observar mais, a absorver mais. A necessidade de se mostrar diminui, você vê o outro como interessante e fonte de vida e passa a se perceber de maneira mais honesta, como de fato é, menos do que aquela super mulher hiper legal que você constrói para seus amigos na cidade te acharem fodona e fica projetando sempre que pode, repetindo aquelas histórias que você sabe que vão fazer o povo rir porque você já contou dez vezes para pessoas diferentes e aí você vira uma repetição, ser bem sucedido socialmente é isso, criar uma justaposição de clichês bem encaixados. Lembro de um desses momentos sozinha no mundo, tava na Amazônia, vendo aquelas árvores enormes senti como era louco ser parte daquilo. Uma mulher ao meu lado, paulista, rebateu que não, não era somente parte daquilo, era aquilo de fato, inteira. Eu não processei racionalmente isso, acho que nunca até hoje, mas me ficou como um enigma absorvido que eu tento entender e não sei verbalizar.

Sempre busco contar histórias de pessoas pelas quais tenho admiração. Normalmente me apaixono por quem estou entrevistando, de alguma forma me sinto muito próxima, eu me coloco no lugar delas. É a coisa da fragilidade, viajando fica muito clara sua fragilidade total, então você chega a um ponto onde some aquele patamar repórter-entrevistado, aquela arrogância jornalística de chegar com umas perguntinhas já no script só esperando aquela pessoa responder o que você já planejou que ela vai dar. As pessoas te surpreendem cara, e tem umas que acabam te contando coisas que não contariam nem pros maridos, rola umas relações de intimidade muito intensa, algumas pessoas precisam falar e você está ali com interesse genuíno em escutar. É só assim que eu me sinto confortável numa entrevista, com interesse genuíno em trocar, não buscando só roubar a alma daquela pessoa. A gente está trocando, eu sou uma personagem para ela também, estou ali oferecendo o que eu puder e de uma forma humana, é um momento catártico. Não tenho a necessidade mass media de correr, então posso ficar ali dois dias, dormir na casa dela e terminar a entrevista com um beijo honesto. E tem vezes que esse encontro é tão intenso que não dá para sustentar, alguns momentos de intimidade tão forte que depois só me resta ir ao cinema e chorar.

Acho mais forte do que a solidão e do descobrir-se é a coisa de aprender apreciar as fragilidades e os pequenos milagres da vida. Eu lembro que na Amazônia eu entrei numas de que se eu atravessar o sinal agora ou depois vai mudar minha vida completamente, porque se a pessoa que conhecer no bar vai dizer para eu ir pra lá eu vou, se a outra disser que melhor é pra cá, eu vou. Rolou algo assim muito forte em El Salvador, um momento que mudou o resto da minha viagem profundamente. Estava fazendo uma entrevista e sabia que tinha um festival sobre migração rolando em todos os países da América Central e sempre ou acabava na hora que eu estava chegando ao país ou começava quando tinha acabado de ir embora e eu fui perdendo. Acabei a entrevista a mulher meteu a mão na lixeira e tirou uma revista, me deu falando que olha, você já viu esse festival que está rolando? Vi sim, mas acabou né, não, não acabou, vai ter uma retrospectiva domingo e isso não estava no site. Fui, vi um filme que era um cara viajando sozinho com a câmera pelo norte da Guatemala sul do México fazendo um trampo com migrantes. Falei, nossa, sou eu, homem alemão. Pesquisei quem era o cara, mandei um email dizendo Oi querido, me impressionei com seu filme, estou aqui fazendo o mesmo, pedi contatos, enfim, pedi ajuda. O cara se identificou comigo, afinal eu era ele mulher brasileira, e me colocou em contato com uma amiga na Guatemala, fiquei três semanas na casa dela. Encontrei uma das personagens que eu mais gosto por conta de uma outra pessoa que ele me colocou em contato. Antecipei minha ida para a Cidade do México porque ele ia estar lá apresentando o documentário, conheci, me apresentou para uma amiga que me apresentou para um amigo e eu fiquei um mês na casa do amigo da amiga do amigo, na tal casa que eu fiquei doente. O alemão também me colocou em contato com um amigo em Nova Iorque, mas esse cara estava indo para Guatemala rodar um filme dele, conheci sua namorada e a melhor amiga na última noite dele na cidade, que viraram minhas irmãs em Nova Iorque, a amiga me colocou em contato com um cara no Rio, cara que eu morei na casa dez dias me apaixonei achei que ia casar e ter filhos mas não vou, que aí já me apresentou.. a troco de uma revista no lixo! Eu vejo essa história tátátá, ge..gente.. que fragilidade de existência. Quando você toma consciência real de que a vida é um milagre e um milagre fluído, se eu não fosse entrevistar aquela mulher que quase não fui, se ela não lembrasse da revista no lixo ou se eu não mandasse o email para o alemão porque deu vergonha, a vida teria outro rumo completamente. Quando você está em deslocamento tem que se abrir para o melhor de hoje, que vai ser o melhor de amanhã também. Você só tem aquele dia naquele lugar com aquela pessoa, e se você estiver ali de verdade todo dia o resto da sua vida é ótimo. Tinha a sensação que podia morrer qualquer dia, não faria mal. Eu estou em dia. E não queria morrer, em dia nenhum, mas eu sabia que podia morrer, toda vez que passava um perrengue falava mata aí, foda-se, eu tô em dia, era uma coisa de estar plena, tudo certo, fiz tudo que tinha que fazer na minha vida até agora. Mas vou viver muito ainda, até os noventa e sete. Mas na vida real, parada, isso desanda. Não posso morrer hoje.

I – De jornalismo umbigo e moinhos de vento

•30/09/2009 • Deixe um comentário

São Paulo é carente de Brasil. As lentes da orgulhosa locomotiva industrial tupiniquim enxergam vinte quilômetros ao redor da Praça da Sé, dez em torno de Copacabana e cinco a partir do Palácio do Planalto. Esses mirrados quilômetros quadrados desenham o latifúndio da mídia brasileira que propõe cobertura nacional – a saber, tevês, semanais e portais, jornalões correndo por fora – fenômeno que chamo cegueira do eixo RJ-SP-BSB. Todos os envolvidos no processo sabem que é pífia a cobertura realizada sobre larguíssimas áreas do território, sabem que padronizar é mais barato e dá mais retorno do que aprofundar. Também sabem das dificuldades em se realizar o trabalho, dificilmente os custos de enviar um repórter e bancar sua estadia em locais afastados serão financeiramente interessantes para o veículo. Sabem tudo isso e em momento algum esquecem onde está o público e a publicidade que financiam sua empresa. Em outras palavras, coberturas sobre temas distantes em cidades paupérrimas contribuem pouco para acrescentar à credibilidade e percepção de valor publicitário do veículo e, portanto, não são uma boa idéia empresarial. É muito dinheiro para bancar quatro ou sete pautas que poderiam ser feitas por telefone de uma forma ou de outra.

Para os consumidores desse pastiche de realidade que é o jornalismo, regiões inteiras logo ali além da fronteira não existem. Ou melhor, existem, mas não passam de uma massa amorfa pautada por três ou quatro conceitos fossilizados em décadas de cobertura estereotipada e preguiçosa. Em Belém ou chove o dia todo ou chove todo dia. As cidades do sertão pernambucano se bastam em velhos de chapéu de couro sentados na soleira e bodes pastando qualquer vegetal ressacado. Do Mato Grosso do Sul às bordas da Amazônia não há nada além de soja. As Serras Gaúchas, que belas, um monte de alemãozinhos acordando em campos de geada. Enxergamos nosso país através de uma bricolagem de estereótipos que veículos massificadores como Jornal Nacional ou Veja possuem interesse comercial em reforçar e o fazem sem pudores. A experiência local é subvalorizada e filtrada por redações impregnadas de metrópoles capitalistas. O continentebrasil é reduzido a meia hora de informes sobre ônibus que viraram em estradas distantes ou casas que foram arrastadas pela enchente logo antes da novela. Que, claro, versa sobre uma família rica da zona sul carioca. São Paulo entra com o jornalismo racional, objetivo, aquele que dita as regras que regem uma sociedade, enquanto o Rio se encarrega da novela, demonstrando em artes cínicas como tais regras se aplicam à vida cotidiana.

O repórter itinerante surge meio guerrilheiro neste contexto, há algo de cruzada pessoal e cavaleiro errante na composição do personagem, pegar o mundo na unha e reestruturá-lo como retrato honesto, apaixonado, mais real do que a realidade justamente porque inventado. Espaço em mídias de abrangência nacional são o graal a ser buscado. Tal espaço existe e precisa ser conquistado via identificação de editores sensíveis a essa carência de país que seus leitores possuem. Embora possa parecer, o corpo de editores destes canais massificadores não são apenas obtusos velhos engessados dedicados à manutenção do status quo. Existem aqueles sensíveis o suficiente para comprar a idéia e publicar sua matéria, existem estas brechas que podem ser exploradas por repórteres suficientemente dispostos a encarar os perrengues associados. Ninguém vai financiar sua empreitada, os custos são proibitivos, ainda mais se falamos de um estudante ou recém-formado, então trate de se virar para fazer acontecer. Desenvolva uma proposta de pauta muito boa ou jogue texto pronto na mão do editor certo. Antes de meu primeiro mês de viagem consegui contato com o editor que precisava na CartaCapital. Lhe escrevi dizendo que Olá, estou aqui no mundo, gostaria de alguma coisa? Não tive resposta, imagine a quantidade de propostas inócuas que um profissional destes recebe de jornalistas perdidos por aí. Aguardei cinco dias e lhe enviei um texto pronto. A resposta veio em quinze minutos, interessa, tem fotos? Descobri que existe mercado ávido para quem oferta conteúdo de regiões negligenciadas à preços de banana. Basta tirar o fator custos proibitivos da equação que o retorno para o veículo se torna consideravelmente mais atraente. Constatei que sim, a redação padrão possui interesse em matérias destes locais, ela só não sabe como realizar o trabalho e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Reconheço que minha experiência é limitada, afinal sou foca, necessito mais experiência e contexto de redação para prosseguir confortavelmente numa análise pessoal do quadro. Assim sendo, entendi melhor tornar minhas algumas experiências de profissionais que admiro. Os próximos três capítulos são isso, encontrei uma forma para expressar cada entrevistado e concordo com tudo que está escrito ali.

Mas isso tudo serve para alguma coisa? Faz sentido buscar algo assim, buscar aproximar pontos extremos de uma sociedade às custas de conforto pessoal? Existe qualquer resultado prático nesse exercício jornalístico de quebrar estereótipos? Me pergunto se uma matéria publicada em revista paulista sobre comunidade de pescadores no sertão cearense, às beiras do Orós, altera em qualquer medida a vida ou de quem pesca aqueles peixes ou de quem lê sobre eles. Não tenho resposta, apenas sei que devo fazê-lo ou me anular negando o narrador nômade que sou. Meu objetivo por muito tempo foi salvar o mundo, bom que percebi em tempo o idealismo utópico que tal caminho exala. E utopias, como todos sabem, são anacronismos superados. Hoje estou mais realista, por enquanto me contentarei em derrubar a civilização ocidental.

Parte III

•30/09/2009 • Deixe um comentário

III – De Jack Kerouac

•13/09/2009 • Deixe um comentário


Our battered suitcases were piled on the sidewalk again; we had longer ways to go. But no mather, the road is life.

O Hudson 1949 era provavelmente o melhor carro para levar aqueles dois. Modelo elegante, preto, já vinha de fábrica tão rebaixado que era necessário descer um degrau depois de entrar pelas sólidas portas da magnífica barca de metal. Seu motor V8 batia setenta, oitenta milhas por hora sem maiores problemas, frequentemente alcançando cem milhas por hora e alguns problemas, rasgando as estradas que nos anos 40 ligavam Pacífico, Atlântico, Canadá e México, toda a malha de asfalto dos Estados Unidos de Harry Truman. A direção era responsabilidade do pé-de-chumbo Neal Cassidy, que pensava e falava tão rápido quanto dirigia. À Jack Kerouac cabia mais entender o país que passava veloz além da janela de passageiro e dentro de seu peito.

As viagens da dupla são o esqueleto narrativo de On the road, a incendiária narrativa de Kerouac que desencadeou uma revolução cultural na estrutura social ianque. Cruzaram o continente de costa a costa várias vezes, ávidos a chegar a São Francisco, Denver, Texas, Nova Iorque, Chicago, Cidade do México ou a grande cidade mais próxima. Utilizavam qualquer veículo disponível, o Hudson não aguentou muito tempo a intensidade de Cassidy ao volante. Pegaram carona com tantos tipos diferentes que sua compilação pode oferecer um bom referencial do que era seu país em imensidão de padrarias, montanhas, desertos e campos. Não podiam parar, não viajavam para parar ou chegar, seu objetivo era a estrada, o único caminho possível para se encontrar era trilhar todos eles, cruzar infinitamente as vastidões de planícies batida com sonho americano para emergir de toda sua podridão e generosidade de mãos vazias, tão solitários e deslocados e acabados e chapados como sempre foram. Viviam em um país militar e conservador, acabara de sair da guerra mais sangrenta que a humanidade já vira e começava uma outra sem qualquer perspectiva de vitória. Além da certeza de que a Guerra Fria se estenderia por tempo indefinido, misseis intercontinentais e uma possível destruição nuclear sobrevoavam regularmente as cabeças protestantes da América do Norte. Apenas uma ameaça era maior do que a chuva atômica soviética: sua ideologia subversiva. Era tempo de produção, tempo de esforço bélico, de mostrar ao mundo quem era mais fodão e o cidadão comum, cônscio de seu pátrio dever, deveria encontrar seu lugar como engrenagem da grande máquina industrial bélica cultural que fará da America o maior país do mundo e do capitalismo sua ideologia. “Essa é a história da America, todos fazendo o que pensam que deveriam fazer”, escreveu em On the Road.

Aleluia aos deslocados, salvem os solitários desolados e os vagabundos iluminados, patrocinem os príncipes melancólicos e bebam pelos os gênios arrasados, personagens cubistas que dolorosamente não encaixam no esquema oficial. Trabalham sua dor como ourives, é o que lhes resta e salva. Tornam-se íntimos de uma estranheza que neles não começa ou termina, sabem como expressá-la com letras no papel, acordes de harmonia ou imagens bem compostas e nesse processo de lidar com o peso do mundo que soterra transbordando seus corações acabam por criar essas jóias líricas que redimem e orientam a humanidade. Kerouac sabe-se pária. Desde sua origem de imigrante franco-canadense até uma morte semi suicida por cirrose alcoólica aos 47, fez questão de beber os loucos de plantão que o mundo insiste em oferecer. Uma das passagens mais famosas de seu livro clássico assume a disposição de ser ima de malucos a que o autor se propôs durante boa parte de sua vida: “Falo também sobre Roy Johnson e Big Ed Dunkel, seus amigos de infância, seus companheiros de rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles varavam as ruas juntos absorvendo tudo com aquele jeito que tinham no começo, e que mais tarde se tornaria muito mais melancólico, perceptivo e vazio. Mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito em toda minha vida, sempre rastejando atrás das pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e nunca dizem um lugar comum, ao invés disso queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo em teias de aranha pelas estrelas e você finalmente vê em seu centro fervilhante um brilho azul e intenso explodir e todos “aaaaaaah!.”

É neste tipo de louco que Kerouac encontra suas jóias brutas. Nasceu em Lowell, Massachussets, 1922, terceiro filho de franco canadenses que imigraram em busca de emprego na indústria do florir do século americano. Em 1942, em plena segunda guerra, entrou para a marinha mercante de seu país e no ano seguinte alistou-se na marinha regular; logo foi dispensado por motivos psicológicos. Era muito indiferente àquilo tudo, não possuía a disposição de um verdadeiro marinheiro ianque. Em 1944 foi estudar na universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde conheceu amigos como Allen Ginsberg, Lucien Carr e Gregory Corso. Tal círculo de amizades é a semente do que depois viria a se consagrar como a geração beat que, ainda que marcada por seu forte caráter antiacadêmico e iconoclasta, começou de fato no ambiente altamente formalista da Columbia dos anos 40, a mesma atmosfera que produziu nomes como Louis Simpson e David Hall, campeões da burilação textual, segundo avalia a Wikipedia. Os beats, porém, necessitavam mais crueza do que o ambiente acadêmico poderia lhes proporcionar e encontraram na Times Square, então reduto de bêbados, malandros, vagabundos, michês, homossexuais, drogados, loucos e desajustados, chame como quiser, ali estava seu refúgio na metrópole culminante do capitalismo. Conheceram William S. Burroughs, uma década mais velho, poeta maduro e bagaceira, já havia cruzado os Estados Unidos diversas vezes e também vivera na Europa e África, usara todas as drogas conhecidas e algumas que ainda não haviam entrado nos livros, tivera todo tipo de profissão e quebrara a lei de tantas formas quanto conseguiu imaginar. Burroughs, maluco lendário, serviu como grande referência e influenciou o grupo de amigos que ainda não se chamavam beats, mesmo já o sendo.

Gênios arrasados
A honra de cunhar o termo cabe a Herbert Huncke, vigarista, garoto de programa, ladrão e malandro, logo, amigo espontâneo do grupo, batia cartão na Times Square. Huncke conheceu primeiro Burroughs, quando este tentou lhe vender uma submetralhadora e uma caixa de ampolas de heroína num bar local. Desconfiou que o poeta seria um policial disfarçado, avaliando que a proposta era absurda demais para ser verdade. A amizade começou quando, após injetar quantidades cavalares da substância junto com Burroughs, concluiu que ele provavelmente não era um policial e sendo também um cara legal seria mais do que digno de sua amizade. Huncke, americano pobre de Chicago, era fonte perfeita da hiper realidade que os beats buscavam então, representava a classe mais pobre da America e assim ensinava algo que o grupo de classe média não acharia em seu umbigo. Utilizava o termo beat, corruptela de beat down, para designar a vida, o zeitgeist do pós guerra. Beat down significa caído, gasto, inútil, moído de pancada, na lona, e sintetizava bem o sentimento de uma geração desiludida a quem o sonho americano não dizia nada, muito diferente da prolixa e disponível em qualquer drogaria benzedrina, que dizia horrores. Kerouac se apropriou do termo e logo acrescentou mais algumas camadas de subjetividade a essas quatro letras. Beat é o radical de beatitude, sonoridade que grande apelo na alma mística e profundamente católica do escritor franco-canandense. Por este lado os beats seriam os santos loucos, os iluminados vagabundos que redimiriam uma America podre, míope e opressiva com sua dor e confusão, sua generosidade e sensibilidade. Diz Kerouac: “Eu gosto de coisas demais e me encontro todo confuso e sobrecarregado correndo de uma estrela cadente até a próxima até não aguentar e cair. Eu não tinha nada a oferecer exceto minha própria confusão”. Finalmente, ainda descascando o beat, temos que o termo significa também batida, como batida do coração ou batida de música. O ritmo frenético e hipnotizante do jazz é influencia assumida do escritor, os rádios dos carros, isto é, aqueles rádios que funcionavam enquanto um beat dirigia o veículo, tocavam bop alucinadamente sax profundos clarins rasgados indo e vindo muma melodia infinita, ecstasy da mente nessa batida esse ritmo incessante de notas e notas e costuras e improvisos encaixaram muito bem nos parágrafos alongados e sentenças que se emendavam numa sequência assustadora até então nunca escrita com tanta convicção, isto é, um único parágrafo se estendendo por 120 pés de papel datilografado é convicção, aquela jam session de períodos em loop, cada verso de sua prosa uma batida musical, um agudo do piano, uma tira do sax, escrito como se falasse tentando de propósito correr ou alongar pra terminar as idéias um segundo antes do fôlego. Agora pense um cara desse lendo um trecho de seus escritos num bar sujo, cheio de nego genial tomando uísque e fumando uns negocinho.

On the road é uma obra oral, cheia de vogais, com sons abertos e generosos, produzida para ser lida em voz alta e falar ao coração, o que ninguém realizava melhor do que o próprio Kerouac. Algumas gravações dele pegam em cheio no peito daqueles que sentem o quanto a estrada é apelativa e o quanto ela tem a oferecer à busca por auto conhecimento e expansão da consciência. Tal efeito é bem melhor demonstrado na batida, no ritmo, on the beat que Kerouac lê o que escreve. Traduzi-la ao papel é apresentar uma paródia da expressão inicial do autor e ler Kerouac em português é imaginar ou entender que sim, filho da puta cara, aqueles parágrafos realmente devem ser geniais em inglês. A melhor definição de beat já cunhada não pode ser traduzida e merece seguir concisa em sua língua original, na verdade deveria ser a trilha sonora deste trabalho, aliás, acaso esteja lendo perto dum computador, por favor abra o Youtube e encontre algumas entrevistas, algumas leituras públicas proferidas por Jack Kerouac e analise as capacidades de bardo deste narrador de mundo. Conforme ele escreveu em Desolation Angels, para começar a fugir de On the road e que nem tente traduzir, se estrepa: and everything is going to the beat – It’s the beat generation, it be-at, it’s the beat to keep, it’s the beat of the heart, it’s being beat and down in the world and like oldtime lowdown and like in ancient civilizations the slave boatmen rowing galleys to a beat and servants spinning pottery to a beat.

Bebop on loop

Seu ritmo tem tanta influência de Dizzie Gilepsie e Miles Davis quanto da 1 – fenilpropano 2 – amina ou, para os chegados, benzedrina, a ancestral hard core das atuais anfetaminas. A substância percorre On the road sob a alcunha de Bennie e completa a fauna de psicoativos que Kerouac e seu bando utilizam. Bennie, porém, tem papel especial nesta história. Foi chapado de tal química e de café que o escritor encarou as três semanas de frenesi literário também conhecidas por On the road. A substância lhe concedeu energia e resistência sobre humanas necessárias para concluir seu tour de force, o mergulho dentro de si que foi escrever ininterruptamente pela maior parte daqueles dias. Jack adaptou uma bobina de fax a sua máquina de escrever apenas para não necessitar trocar de folha a cada tanto de texto e assim poder digitar sem interrupções. O resultado foi o mitológico pergaminho contínuo de quase quarenta metros, cento e vinte pés sem qualquer divisão de capítulo. Impossivelmente, deliberadamente, tampouco existiam parágrafos, apenas um grande bloco contínuo estendendo-se por toda a América do Norte, um fluxo único de texto praticamente sem pontos finais e com pouquíssimas vírgulas cobrindo a distância entre os dois oceanos americanos quatro vezes, passando ainda pelo México e por todas infinitas e surreais situações vividas e inventadas por ele e seus amigos no trajeto. De fato, falamos de Dean Moriarty. Entre todos os amigos que povoam o panteão frito do livro, Neal Cassady, traduzido como Dean, é a grande chama que move On the road e Kerouac pelo país. Quando ele menciona os fogos de artifício e tudo mundo fazendo ahhhh! está se referindo a forma como Neal Cassady se uniu maravilhosamente a Allen Ginsberg, ou Carlo Marx. É a explosão deles pelas estrelas que Sal Paradise, aka Jack Kerouac, aka Sad Paradaise, observa e reserva, seguindo sua resiliente disposição de acumular mundo em si para depois colocar tudo fora num inacreditável jorro lírico.

Tal é sua proposta de prosa espontânea, escrever sem parar para formatar o que o inconsciente nos oferece e apenas seguir seguir seguir sem se preocupar com estereótipos e amarras formais nos oferecidas desde antes de nascermos todos os grandes campos da gramática, sintaxe, literatura e sociedade. A necessidade que Kerouac possuía de escrever ininterruptamente fica clara em trechos do manuscrito original que não são palavras, apenas letras digitadas a esmo, dedos carregados de benzedrina se movendo mais rápido do que a mente podia processar imprimindo quaisquer tipos naquele papel, dando ao cérebro tempo para acompanhar o ritmo frenético imposto pelos músculos. De fato enormes seções de On the road são descrições simples, quase estéreis, onde o autor desfia detalhes inacabáveis de memórias aparentemente sem maior interesse literário. Por deus, quantos caronistas diferentes você pode encontrar? É preciso descrever cada um deles? Cada carona no maldito caminho? Mais, é possível lembrar disse tudo? Usando esse tanto de droga? Inventado ou não, espontâneo ou não, o fato era que o rapaz escrevia, e muito, e rápido, quase qualquer coisa. Foi essa verborragia que levou Truman Capote a dizer que o que Kerouac faz não é escrever, apenas digitar. Porém não se desvie do texto, leitor ansioso, leitora internética, em dado momento no meio daquela pilha de letras aparentemente banais surge uma sequência de quatro ou cinco linhas absolutamente geniais, onde Kerouac destila suas mais puras sensibilidade e percepção de mundo naquilo que foi aclamado como a bíblia de uma geração. Normalmente estes títulos não surgem à toa e merecem nosso respeito. Retomo o reconhecimento que a publicação do livro rendeu ao autor após a digressão que segue.

Eu, Breno, em três muito claros momentos de minha viagem alcancei algo próximo à prosa espontânea. Se é que existem coincidências na vida, digo que todos os três casos aconteceram no Maranhão, entre maio e junho de 2008, se bem que o último deles começou no Maranhão e acabou no Pará, ponto final do trem, mas enfim, coloco este aqui por considerá-lo o mais significativo exemplo de prosa espontânea minha, onde de fato me senti como meio, como expressão de um fluxo que não era meu, ao menos não racionalmente, não conscientemente meu, plenamente meio. Em dado momento não havia mais a fazer senão seguir escrevendo, seguir colocando no papel aquela história que eu não sabia porque tinha começado e nem onde ia parar. Peço perdão à saída fácil de metatexto, discuto o texto nele mesmo, mas, como já coloquei, não havia nada que eu pudesse fazer, estava submetido, conquistado por meu instrumento e minha mão direita; naquele dia a caneta acordou meio totalitária.

A caneta acordou meio totalitária
O Palácio dos Leões é de onde assina seus decretos e ofícios o executivo maranhense. Casa Neoclássica de esqueleto português e com restos de açucar colonial nas frestas de todas as suas salas, o prédio é uma ampla construção horizontal e branquinha. Mas a localização é que vale o post: pegue a Beira-mar e, logo antes do cais, quebre a direita na ladeira. Ali em cima, de peito aberto pro mar, no alto de uma colina com um muro duns 20 metros de pedra, estão os vigilantes e burocráticos leões do norte, e não estou falando de garrafas de jurubeba.
Ah sim, o palácio delimita uma das pontas de uma sequência de praças que forma um L no coração de São Luis, sentença esta última que pode ser reproduzida integralmente para descrever a posição da Catedral da Sé, também muito bela e no pico do bé do L. Chatíssimo.

E aí tem as gentes. Aquele povo todo diverso sentado passeando andando pirando curtindo correndo dirigindo ao redor em cima dentro do jardim dos leões. Excelente o cidadão que desenvolveu o conceito de apropriação do espaço público e valor de uso da cidade. Em momento inspirado, tal serumano vestiu o teórico e deu nome praquilo que a gente sente e sabe sem dizer que sabe. O teórico padroniza e classifica um sentimento espontâneo do coletivo, esquematiza-o de forma que possamos operar o racional por cima com nosso telencéfalo altamente desenvolvido e assim tranquilizar nossas almas com a certeza de que aquele campo está definido, empacotado e pasteurizado em livro e tese.

É o polo oposto ao artista. Este dá vida a conceitos cristalizados utilizando, de forma antecipada e meticulosa, sensibilidade mútua para alcançar seu público. Não dá nome ao que todos sabem, aucontraire, dá cor som forma ritmo pra cada um apreender como seu contexto pessoal permitir aquele sentimento que supera o indivíduo e une os receptores.

É o exercício que tento fazer, buscando a linguagem mais eficiente e elegante possível. O caderno, sem ctrls da vida, é rabiscado e repensado, algumas palavras deste texto estão em sua quarta, terceira versão.

Texto este aqui que poderia ter sido sobre qualquer coisa. A população do jardim dos leões foi a escolha inicial, mas já há algum tempo a caneta tomou o controle e decidiu escrever sobre ela mesma. Agora sou apenas um observador, menos do que isso, sou forçado por ela a redigir essas palavras. É um instrumento cruel, dita meus pensamentos e obriga a mão a trabalhar num ritmo desumano que transforma a letra num quase garrancho, ofendendo de cara lavada tendões e músculos no processo. No momento sou uma lagarta de mariposa e a caneta uma daquelas vespas escravocratas que obriga outrem a fazer o trabalho sujo para si.

Me perguntaram hoje qual era minha meta-narrativa e eu não tinha pensado nisso ainda. Bom, pensar não pensei em nenhum momento, agora não penso; escrevo. E lá se vai toda métrica e atenção dedicada dos primeiros parágrafos, virou jorro e fluxo constante de palavras. Qual dos dois estilos você prefere? Acho que o inconsciente aceitou o desafio e teve senso de oportunidade para tomar o controle de minha mão direita e escrever sobre ele mesmo enquanto estou aqui bem em frente ao palácio maranhense. Então vamos lá, canal aberto com o insconsciente é para se aproveitar. Uma cena qualquer. Leopardo na África subsaariana correndo e tudo tem a mesma cor desbotada de dourado. Outra cena. Laboratório Submarino 2020, é um desenho do Cartoon, se nunca viu nem discute aperta agora ctrl t e você sabe onde fica o iutube. Outra cena, algo que não venha da tv. Formigas numa estrada de terra, uma trilha daquelas vermelhas cabeçudas carregando folhas verdes verdinhas aqui e acolá no barro esburacado das vias do interior. Gostaria de uma folha com manchas para ver algumas coisa nela. Folhas de árvore servem, são iguais a nuvem? Não, os galhos estão muito próximos, só dá para ver desenhos na silhueta, que por sinal é de um peixe rastafari.

banco do brasil, capitania dos portos, tribunal de justiça e palácio do governo. Esses tudo pertinho um do lado do outro ao meu redor. Financeiro, militar, judiciário e executivo. E bem ali, de frente pro mar, um cantinho onde uns gostariam de usar drogas e outros se pegam com tesão homossexual. Na cara do gol, pertinho do que descrevi mas tipo numa ponta da muralha que se ergue 20m acima da Beira-mar.

É uma bela cidade.

Analisar a relação entre momentos de viagem, de extremo deslocamento pessoal, e o surgimento destas situações de canal aberto com o inconsciente desaguando em manifestações expressivas individuais, que tanto no meu caso quanto de Kerouac dão-se pelas letras enfileiradas, diga-se, foge ao alcance deste trabalho e permanece como um desafio pessoal a desenvolver e, senão desvendar, ao menos aprender como utilizá-lo de forma mais intensa e quem sabe algum dia escrever algo que realmente preste. Isto posto, descarto qualquer possibilidade de estar me comparando a Keroauc. Meu fluxo de prosa espontânea acima submetido foi curto, durou não mais do que meia hora e rendeu apenas alguns parágrafos num blog que me é tão querido quanto negligenciado, tampouco tinha eu tubos e mais tubos de benzedrina disponível ou a melancolia solitária trabalhada necessária em doses maiores do que a anfetamina, é afinal muito diferente de um pergaminho de quarenta metros escrito por um gênio devastado em 1951, que foi vendido recentemente em leilão por US$ 2,2 milhões e desencadeou uma revolução cultural no final dos anos 50, mais precisamente a partir de 57, quando publicado. O autor necessitou seis anos e uma enxurrada de negativas até finalmente conseguir editora para sua obra mais famosa. O texto era visceral demais, confuso demais, intenso demais, não seria entendido por executivos de livros que lidam mais com números e lucros do que com genuínas manifestações de lirismo e estranheza. A Viking aceitou imprimí-lo, contanto que pudesse editá-lo radicalmente. O enorme parágrafo original foi editado, o autor foi obrigado a cortar umas 120 páginas e a editora outro tanto enorme, além de criar uma até então inexistente divisão em cinco capítulos, centenas de parágrafos forjados e “uma porrada de vírgulas inúteis”, segundo o Kerouac avaliou. Foi sucesso imediato.

Spiders that burn, burn, burn
“On the road é o segundo romance de Jack Kerouac e sua publicação é um evento histórico, na medida em que o surgimento de uma verdadeira obra de arte concorre para desvendar o espírito de uma época. (…) É a mais belamente executada, a mais límpida e se constitui na mais importante manifestação da geração que o próprio Keroauc, anos atrás, batizou de beat e da qual o principal avatar é ele mesmo”, escreveu no The New York Times o crítico Gilbert Millstein. Foi a fagulha que incendiou campos de juventude ávida por anti heróis e ícones inconformados como James Dean, Elvis Preasley e, agora, Kerouac. Bob Dylan, o folk hero que se elevaria em alguns anos tomando o bastão de bardo e poeta da juventude declarou que o On the road “foi como uma bíblia para mim. Eu amava aquelas as frases dinâmicas, carregadas de poesia bop que não dão tempo para respirar. Submergi na atmosfera de tudo que Kerouac estava dizendo sobre o mundo ser completamente doido e que as pessoas que interessam são as loucas, loucas para viver, para falar, para serem salvas, e eu vi que me encaixava perfeitamente neste grupo de doidos”. Diz a lenda que Dylan fugiu de casa após ler On the road. Só para continuar no time dos AAA, Jim Morrison fundou os Doors largamente inspirado pela liberdade vertiginosa do livro e Johnny Depp quase o interpretou num filme que seria dirigido por Gus Van Sant e produzido por Francis Copolla em 1992. Ademais, a lista de músicos que mencionam ou Kerouac ou On the road em alguma de suas letras inclui nomes como Ella Fitzgerald, Jethro Tull, The Gratefull Dead, The Beastie Boys, R.E.M., The Smiths, Bad Religion, Belle and Sebastian e Fatboy Slim. Temos ainda que Bukowski, Hunter Thompson, Tom Wolfe e todo o new journalism foram claramente influenciados pela prosa espontânea e porra-louca gestada por nosso querido objeto de análise.

Estes são alguns dos nomes estelares que tem sua associação ao escritor distantes uma consulta ao Google de você, muito mais sutis e subjetivas foram as reações causadas nos membros anônimos da geração beat, aqueles inúmeros moleques de todas as idades que compartilhavam a ansiedade melancólica e beat down do autor. O livro mapeou um desejo por liberdade que ardia na sociedade americana e, disponibilizando sua tradução clara a preços módicos na livraria da esquina de cada deslocado e misfit do país, acabou por catalisar uma onda em busca de liberdades individuais e ritos de passagem em busca de maior conhecimento do self. Não é exagero avaliar que o movimento hippie é uma consequência indireta da publicação do livro, como bem avalia Eduardo Bueno no prefácio da edição de bolso publicada pela L&PM em 2004. São Francisco é o ponto espacial onde a geração beat se funde com o movimento hippie. A referência temporal de tal fenômeno é a segunda metade da década de 50 chegando em 60. O círculo beat de Nova Iorque, exceto Burroughs, por um motivo ou por outro acabou todo na cidade em 1955 e se mesclou com a Renascença de São Francisco, movimento cultural muito próximo ao beat e que agregou nomes como Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure e Gary Snyder, este figura central de The Dharma Bums, também de Keroauc. Foi ali que Allen Ginsberg declamou pela primeira vez seu poema Howl, uivo lancinante de uma juventude oprimida por padrões morais conservadores, protestantes e belicosos impostos pela sociedade americana desde sempre. O movimento hippie surgiu a poucos quilômetros de onde o poema foi lido, compartilhando com os beats uma busca irredutível por liberdades individuais e gosto pela alteração extrema de consciência, relegando pouca satisfação à integridade física.

A America conservadora sabia do potencial explosivo daquelas páginas. Não demorou uma semana para o The New York Times publicar outra resenha sobre o livro. A primeira foi escrita por Millstein numa terça-feira, cobrindo a folga de seu editor, David Dampsey, que no domingo seguinte avaliou o livro. Considerou que, mesmo sendo altamente legível e divertido, ofendia a nação por demonstrar um ponto de vista moralmente neutro enquanto versava sobre temas como sexo, adultério e uso de drogas. No domingo seguinte a revista Time publicava resenha em tom paternal, punitivo, acusando o autor de dar “fundamento à explosiva juventude que, de um canto ao outro do país, se agrupo em torno de jukeboxes e se envolve em arruaças sem motivo em plena madrugada”. Ou seja, ambos criticam Kerouac por francamente escancarar a desolação e rebeldia de uma juventude que não mais cabia em seus padrões morais conservadores. Apontar o elefante rosa se equilibrando sobre a mesa de centro da America fazendo uso de um estilo verborrágico, inconstante e oposto a construções elevadas lhe rendeu a pecha de subliterato, que de uma forma ou outra carrega até hoje.

Apesar destas reações conservadoras, o efeito de combustão espontânea do livro elevou o autor imediatamente à categoria de celebridade e porta-voz de sua geração. Foi uma responsabilidade que Jack nunca desejou e tampouco soube lidar. Repórter após repórter, apresentador após apresentador questionaram o que era e afinal queria o que essa tal geração beat. Respondia torto, falava sempre uma coisa, dizia de viés, elipses e parábolas, tá tudo no Youtube, nunca se sentiu confortável e só piorou, a partir de um momento passou a se desvincular daquela postura, daquela viagem. As trips de On the road aconteceram quando Jack tinha entre 25 e 27 anos, o livro foi escrito aos 29 e publicado aos 35. Conforme os anos seguiram, o autor se distanciou progressivamente da chama libertária que o consumiu e cuspiu fora a quintessência da juventude americana dos anos 40, porque On the road é um livro sobre os anos 40 lançado nos 50. Após longo declive acabou tornando-se um reacionário conservador, renegou qualquer proximidade com o movimento hippie e de uma forma ou de outra afastou-se do espírito de sua obra desde antes de sua publicação, parou de viajar no meio da década de 50 e passou a escrever sobre outros temas, sempre com a mesma visceralidade, mas nunca mais abordando a persona e o tema que lhe consagraram. Já não era muito estável quando anônimo, sua projeção abrupta à fama e à categoria de representante da juventude foram mais do que um Keroauc de meia idade soube lidar. “Eu tenho 45 anos, não tenho mais nada a ver com essa juventude de 18”, declarou em 1967, bêbado, em mesa redonda na tv. No mesmo período também afirmou a uma repórter italiana que quanto mais envelhece mais bêbado se torna. “Por que? Porque o ecstasy da mente me atrai. Sou um fodido, mas adoro, adoro.” Afundou-se num alcoolismo suicida, não foram poucas as vezes que apareceu bêbado na televisão sem se importar uma unha com isso. Ao contrário, parece que queria se afirmar na estranheza de pária que nunca lhe abandonou. Morreu de hemorragia hepática fruto do intenso consumo de álcool, deixando como legado de escritor arrasado talvez a obra que mais inspirou viajeiros a sair de casa e viver intensamente suas vidas e queimar, queimar, queimar como fabulosos fogos de artifício explodindo em teias de aranha pelas estrelas até você finalmente ver em seu centro fervilhante um brilho azul e intenso explodir e todos “aaaaaaah!”.

Com estas páginas ofereço minha homenagem pessoal a Jack Kerouac, o grande caroneiro, o mochileiro essencial, o alcoólatra depressivo budista em busca de salvação Jack Kerouac, protótipo de todos os viajantes desajustados fora de sua bolha de conforto atrás de uma meia dúzia de algos que ainda não souberam bem dizer o que é mas que estão aí em algum lugar, vestindo a certeza de que a equação final vai valer a pena, a inutilidade da permanência como baliza fundamental e seja lá quantos dinheiros tiver no bolso. Serão o suficiente.

Aqui seguem os intraduzíveis 30 passos para se realizar a genuína prosa espontânea, Jack Kerouac estaile, como escritas pelo autor. Talvez com mais tempo eu me proponha uma aportuguesação.

1.Scribbled secret notebooks, and wild typewritten pages, for your own joy
2.Submissive to everything, open, listening
3.Try never get drunk outside your own house
4.Be in love with your life
5.Something that you feel will find its own form
6.Be crazy dumbsaint of the mind
7.Blow as deep as you want to blow
8.Write what you want bottomless from bottom of the mind
9.The unspeakable visions of the individual
10.No time for poetry but exactly what is
11.Visionary tics shivering in the chest
12.In tranced fixation dreaming upon object before you
13.Remove literary, grammatical and syntactical inhibition
14.Like Proust be an old teahead oftime
15.Telling the true story of the world in interior monolog
16.The jewel center of interest is the eye within the eye
17.Write in recollection and amazement for yourself
18.Work from pithy middle eye out, swimming in language sea
19.Accept loss forever
20.Believe in the holy contour of life
21.Struggle to sketch the flow that already exists intact in mind
22.Don’t think of words when you stop but to see picture better
23.Keep track of every day the date emblazoned in yr morning
24.No fear or shame in the dignity of yr experience, language & knowledge
25.Write for the world to read and see yr exact pictures of it
26.Bookmovie is the movie in words, the visual American form
27.In praise of Character in the Bleak inhuman Loneliness
28.Composing wild, undisciplined, pure, coming in from under, crazier the better
29.You’re a Genius all the time
30.Writer-Director of Earthly movies Sponsored & Angeled in Heaven