XI – Do voltar

•2/07/2009 • Deixe um comentário

Teve uma vez que eu fiquei doente. No décimo dia Simone foi para o Maranhão e fiquei sozinho com a casa. Passava mototaxi a toda e subia umas nuvens vermelhas assim onde um caminhoneiro almoçou arroz e calabresa temperados no óleo de engraxar janta. Estava satisfeito, a cara larga cuspia porco gordurento duma boca enorme, arroz na barba, mãos de bateria ritmando mesa de plástico que sim, agora ele era gente, tinha ali pra ele os píncaros da glória. Repetia gargalhando grotesco, mas nem se preocupe que estar de pé nos píncaros justifica qualquer exagero, sua mesa era coberta por toalha vermelha e branca quadradas, já devia ter ocupado umas duas delas de tanto arroz e calabresa ou esparramava com as mãos ou cuspia e cuspia tanto que acertou a nuca de um homem vestindo camisa xadrez em cheio com um bloco de comida mastigada. Algumas partes maiores enroscaram nos cabelos cacheados de nuca e ficaram altos enquanto quantidade considerável já mais liquosa escorreu pelas costas de pêlos filtros. Não houve qualquer reação nem quando novo bolo semidigerido lhe aterrizou na orelha esquerda, plá, uma legítima cusparada seguida por gargalhada de batedeira. Não fazia qualquer diferença para mais ninguém, a menina da cozinha continuava servindo pratos de arroz branco onde barcas de calabresa remavam mares óleos de cozinha. Para dentro e para fora, errava a boca em mais da metade dos casos, calabresa no colar do vizinho. Contava uma história realmente muito boa e batia forte, qua-qua-qua, ritmo que faz pular travessas de comida e temperamento. Olha o mototaxi!, passou, olha a nuvem de poeira! Nuvem, tem nuvem o quê que não é de calabresa.

Desculpa moço, mas que cê acha de salvar o mundo ou daquela doidera com os aiahtolás? A primeira coisa que o Lula tem que fazer é fechar as fronteiras, ah, ai sim tu ia ver como ficava bom, estrangeiro quer o que aqui, veio fazer o que no Brasil? Querem tudo robar os bichos, robar aí a água toda que tem. Mas moço, você trabalha viajando e nasceu a oito mil quilômetros daqui, comé que fica? Fica que foi bom porque no caminho eu aprendi a fazer coqueirinho, sabe como é? Tu deita assim na cabine a cachorra vem por cima e apóia no teto com os braços, ae tu pega tua mão põe por baixo da perna e puxa o corinho do saco pra trás, dá mais dois centímetros de cacete, entra até os coco não tem uma que não goze tu nem precisa chupar. Tá, me desculpa falar assim, é que eu tô tentando salvar a humanidade e não sei se vai dar certo. Salvar que porra o que o moleque, isso não existe, ninguém ajuda os outros assim de graça não. Se depender de mim esses caroneiros que tem tão tudo, como chama, fodido. Mas moço, mesmo as migalhas da existência são facetas indivisíveis de um todo, que é dizer que você e todo caroneiro são o mesmo. Uma coisa é trepar com Maria José e outra bem diferente com José Maria mermão, não vem com essas tuas merdinha pra cima de mim. Olha aqui seu porra, senta na lisa e pensa, tem gente que confunde orelha de elefante com folha de taioba e tu é um desses. Por que que tamo aqui? Pra se fuder, é só isso que acontece do começo ao fim menos na hora que tu goza mas quem goza também tá fudido, a única coisa boa que tem pra fazer no mundo é fuder os outros. Comer e ser comido, lei mais velha do que a posição de cagar.

A febre foi um indício de que eu queria a minha mãe. Foi alerta de estafa, apitou numa insolação o vaza que não tá mais pra tu isso daqui. No dia que a mulher foi para o Maranhão e me deixou sozinho eu cai de insolação, também, é meio dia das nove da manhã às cinco da tarde naquela porra. Então dono de dois quartos de tijolos crus, água vinha nojenta da rua até uma caixa dágua à céu aberto e só, nenhuma comida no sol do meio dia de equador, de insolação e caganeira. My little own purgatório particular, elegi aquele lugar para a estafa física completa, sem qualquer apoio, só tendo para comer durante uma caganeira as coxas de frango escorrendo óleo de anteontem no boteco da nuvem vermelha. Vira e mexe o caminhoneiro tava lá sentado.

Acaba-se insistindo um pouco depois de perceber que a volta seria uma idéia melhor. Afinal você já está lá mesmo, e momentos de ruptura são complicados, mesmo que seja romper com a não-rotina completa em prol de um pouco mais de estabilidade. Para mim foi um processo de estafa, vinha administrando bem a energia de fazer acontecer as coisas darem certo quando necessário até cair num lugar ubbertenso, exageradamente cansativo fazer o dia-a-dia dar passar sem maiores problemas. Zerei e levei ainda três murros na cara.

X – Daquela caixa de fósforo

•27/06/2009 • 2 Comentários

E quando a gente se vê?

Agora.

Não, quando a gente se vê de novo?

Agora.

Coro: e tinha o que pra responder?

Ficar sozinho leva tempo. Requer muitas sessões de não ter o que fazer mas você ainda está acordado e então vai dar banda pelo caminho de terra até parar num lugar que não existe para fumar um cigarro. O cachorro da casa te acompanha. Vira-lata dos melhores.

Segue pros dois lados, o caminho, e não faz qualquer diferença. Tudo ao redor é seu, completamente sozinho em noite de estrelas agressivas e torres de cupim. Faz frio, porque em todo lugar uma hora ou outra faz frio, e do teu mijo na grama sobe vapor quente.

E ali está, três horas de sereno com mosquito o tal do autoconhecimento. Falar com quem? O cachorro segura meia hora, depois fica óbvio demais não haver o que fazer senão se discutir ou treinar o perceber. Mergulha em si sem oxigênio.

O ar some numa profundidade de se arrancar pedaços. Ferramentas excelentes, as mãos, colhem escamas das costas e traz aos sentidos. Na palma possui de tanto olhar um naco que já era teu só para descartar deitando fora suas camadas num chão de terra que é igual a você e a todas coisas descamadas sob o signo de Virgem.

Até que o sereno embala e o mundo já tá te suspirando mesmo, amanhã é outro dia. Amanhã chove ou não chove só que depois de um filme dos Trapalhões o auditório ao vivo já demais e novamente hora de sentar pra olhar janela bem ali acompanhando realidade.

As telhas daquela varanda tem um formato onde a água pode fazer ou não desenho particularmente tétrico na terra se pensasse falava que bosta de lama mas não pensa e se emociona com relevo marciano no chão do Tocantins.

Busca não encontra sentido no existir tanta coisa, não dá, não faz razão tanta pingo dágua tanta casa de gente, muito lugar pra deixar pedaços teus nacos começam a fazer falta carrega gente demais nas costas, realidade demais para levar parar beber e o mundo pesa até rasgar.

Longe, múltiplo, desarticulado como o diabo. Nada fixa nos caminhos do mundo.

Quando você volta?

Acho que nunca mais.

Eu vou poder te guardar naquela caixa de fósforo?

Vai.

Coro:

IX – Do tamanho de seu coração

•25/06/2009 • Deixe um comentário

Eu gosto muito da rodoviária de Fortaleza. Não que ela difira fundamentalmente de qualquer outra construção de médio porte com a mesma função; estão ali as mesmas revistas balançando sob um pregador na armação de metal em frente a banca, as mesmas coxinhas semiprontas recém fervidas em óleo e todas as dezenas de taxistas que na verdade foram designados para te seguir por todas as capitais nordestinas que passar. Também não faltam banheiros mijados, ônibus sujos e meninas de mochila. É uma rodoviária regular. Mas em frente à banca de jornal ali no canto esquerdo dela, ao lado de onde se desembarca, bem ali tem um banco de concreto que foi o primeiro lugar onde eu chorei de tanto mundo que não cabia mais e teve que transbordar pelas vista.

Isso aconteceu na terceira vez que sentei naquele banco e acabou que passei por ali nuns seis dias diferentes entre idas e vindas pelo Ceará. Desenvolvo esta cronologia porque ela constrói o capítulo que lês. Estava acompanhado por uma querida enorme quando conheci aquela seção de concreto cinza particular. Ali esperamos um bom tempo atrás do busão de linha que levava moradores de uma praia do norte do estado até a capital e de volta. Para o casal era uma viagem de despedida e os dois sabiam que teriam só mais uns poucos beijos antes do pra sempre. Foi intenso, dolorido e bonito, e passou. Aconteceu lá pro terceiro mês de mochilagem, uma centena de dias acumulando mundo no peito, o tipo de coisa necessária para te deixar permanentemente comovido como o diabo.

Voltei pela mesma rodoviária, a segunda vez que passei por lá, tava chegando e nem liguei pro banco. A terceira veio uns vinte dias depois, indo atrás de ver do sertão virando mar sob chuvas colossais. Voltei ao mesmo lugar, canto esquerdo, ao lado do desembarque, banco de concreto. Voltei de propósito, já me pertencia aquilo, memórias vivas de sentir cheiro de amarelo brilhando me conduziram. No meio disso tudo sentei pra comer um prato feito dos mais regulares, talheres frágeis de plástico transparente, arroz levemente azedo que nem se liga e papel alumínio. A comida é cenário, apenas compõe o momento em que alguma coisa aconteceu, vivenciei algo que disparou desconhecido gatilho simbólico menmônico certeiro no coração, tadinho, totalmente rendido de tão cheio. Foi uma cascata, o órgão de sentir desmanchou pra fora soterrado nesse tanto tudo que tem, todas essas camadas de beleza e vida que são o nosso redor, essa infinitude de pequenas sensibilidades disponíveis à flor da pele humana, tão carregadas de beleza quanto tu estiver disposto a apropriar, carregando nos mesmo tons de melancolia e dor que possui a beleza fria do ser sozinho, a mesma cor da irredutível solidão que une indivíduo e gesto, todos e qualquer tão absolutamente sublimes quanto simples na expressão do que é fazer um universo e tudo, todas essas eternidades de cristal que se desenrolam nas menores construções de momentos, tão menores quanto infinitas forem.

Se propor comportar o mundo em seu coração não é tarefa corriqueira.

O tal banco de concreto foi a primeira vez que vivenciei essa sensação de soterrar transbordando que o mundo te oferece. É apenasmente, absolutamente muita coisa para se lidar. Não dá. Ou se ignora boa parte do que acontece ou vai aprender a ser forte sendo frágil. É muito doloroso filtrar tudo o que você experiencia, o coração é por demais fibroso, retém muita coisa e, sejamos francos, o mundo não é um lugar muito bonito de se viver, mesmo que infinitamente belo. Comportar contradições também é outro pré-requisito fundamental para sobrecarregar o peito.

Desde então venho chorando muitas vezes por motivos que nem entendo. Entendo é a sensação, identifico imediatamente o frio que sobe pela espinha e deságua em tremores de princípio de choro. O termo exato é overwhelmed, sobrepujado, arrematado, soterrado por mundo. Tem que sair de alguma forma, tem que desaguar realidade fora. Escrever é uma ótima saída, existem outras que não chorar. Ultimamente tenho tentado expandir meu corpo para comportar um pouco melhor o coração, que é o mesmo que dizer que venho pulando loucamente pela casa tentando ocupar maior espaço no ar com tronco, braços, pernas e cabeça. Funciona incrivelmente bem.

VIII – Do tamanho de seu cérebro

•25/06/2009 • Deixe um comentário

Se jogar no desconhecido é, o tempo todo, enriquecedor. Longe, pense, de qualquer zona de conforto seu cérebro faz hora extra para absorver o que se passa ao redor e responder de acordo. Todos os detalhes são novos, você nunca ouviu pessoas falando daquela forma, nunca comeu aquela comida e não sabia que aquela bebida existia. Você não terá certeza se o cumprimento foi amigável ou agressivo, não saberá se a mulher lhe deu bola ou esnobou. E o que aquela gíria queria dizer mesmo? Urubu em Japaratuba é zé dos ares e perto de Salvador é galinha do céu; pau das ventas é nariz e cachibrema é aquele estado zeloso que acaba atingindo todo mundo pelo menos uma vez nessa vida, cachaça, chifre, pobrema.

Isso é memória de caderno, não de cérebro. A quantidade de informação a ser lidada é absolutamente superior à capacidade de retenção consciente. Não há tempo para sinapses decantarem, dali três dias você já vai estar pegando busão para o próximo código social e lá recomeçar tudo. Seu cérebro recebe níveis absolutamente estarrecedores de inputs que não tem a menor idéia do que fazer a respeito, a princípio ao menos. Vai dar um jeito, claro. Eventualmente.

Registro de realidade pontual não tem como, precisa ser feito fora dos neurônios. Dê o maior espaço possível para esse lidarem com a infindade de ligações que estão ocorrendo ao redor e eles nunca nem ouviram tocar o cheiro delas. Experiência ligeiramente enlouquecedora, fato.

Não nos é permitido entender plenamente o que está acontecendo nesses momentos de alienígena social, a realidade de forasteiro óbvio se impõe, lide-se. Andar pela praça e contar os rostos que acompanham sem ter pista se por amor ou ódio pode ser um tanto perturbador, te leva a um estado de atenção plena sobre seus movimentos. As barreiras não são claras e você chama atenção, carne fresca, o que pode te render tanto uma cama macia quanto uns ossos duros de mão na cara. Muito difícil, temerário até, desativar esse estado de atenção plena. É o ponto mais distante da rotina que vais encontrar, tudo no mundo a ser processado. Esta é uma explicação possível para o sentimento recorrente de viagens durando mais do que seus dias, acontecem tantas coisas inéditas que o trabalho permanente do cérebro dá impressão de que mais se passou. A noção de quanto tempo correu é proporcional à intensidade dos dias inéditos.

Um teste, faça um teste agora e diga, qual é a textura de sua calça neste momento? Vá lá, pode ser bermuda, ou meia, ou calcinha, qual é a textura de qualquer peça de roupa que veste? Primeiro que nem sentia, seu cérebro ignorava toda informação chegando dali, corriqueira demais, rotineira demais, é ruído e deve ser minimizado, atrapalha a produção. Mas tenha calma e se concentre em suas coxas.

E então, consegue responder? Qual é a textura de suas calças? Áspera, lisa, macia? Que mais? É isso? Seu pobre. Não existem palavras para descrever fielmente essas interpretações que teus neurônios fazem. O que, quente, frio? Rugoso? Absolutamente incompleto… E o paladar então? Quatro sabores, jura? É isso a que toda nossa experiência gustativa se resume, quatro classificações? Que gosto tem gordura? De gordura? Não vale. E nem me venha falar do olfato que esse é quase pessoal. Confesso uma predileção por tal sentido, talvez abençoado por um pau das ventas generoso. Cheiro.. bom? Cheiro.. ruim? Cheio.. de pum? Apenas cheiro de. Não conheço outra forma de descrever cheiros senão por comparação, cheiro de fulana, de beltrana ou de ciclana, o que é ridículo após não sei quantos mil anos de cultura acumulada sobre minhas costas.

Sei, porém, que não estou sozinho. Somos limitados. Não entendemos nem o que nosso cérebro processa, o que há de se fazer a respeito do restante? Esse analfabetismo sensorial obriga um aprendizado de contato direto, auto-didata de mundo. Se não entendeu vá visitar uma feira livre em estado distante algumas centenas de quilômetros para ver o que é ser inundado por cores cheiros sons texturas sabores desconhecidos.

Enquanto está na tarefa, veja se encontra uma garrafa ou menina Cajuína e traga para mim, por favor.

VII – Diamantes brutos

•22/06/2009 • Deixe um comentário

Maria Rocha tem oitenta e três anos, quarenta e oito quilos e muito dinheiro. Começou a encontrar escondidas pela casa notas amareladas, esverdeadas, rotas depois que o marido morreu. Grandes maços de Cruzados, Cruzeiros (em suas três variedades), Cruzeiros Reais e Cruzados Novos são o legado deixado pelas décadas de garimpo de diamantes que José Padeiro, seu falecido, dedicou na região de Gilbués, extremo-sul do Piauí.

A meio caminho entre Teresina e Brasília, Gilbués é um município em crise de identidade. Quase Maranhão, quase Bahia, quase Tocantins, inteira Piauí, a cidade não sabe se olha para suas zonas produtivas de cerrado, para o subterrâneo rico em diamantes ou para a degradação que devora 37 mil hectares de solos subúmidos secos, 10% do total do município. A ONU chama de desertificação e classifica a região centrada em Gilbués como um dos casos mais críticos do mundo. Cientistas brasileiros entendem que a definição deve ser outra, uma vez que o nível de chuvas da região e as características do solo diferem daqueles dos desertos. Apesar disso, não existem divergências teóricas sobre a seriedade do problema.
“Deserto? Qualque, aqui a vida inteira foi assim, a terra pelada, descabelada”, afirma uma completamente lúcida Rochinha em sua sala, na vizinha cidade de Monte Alegre. “Tem sim minha mãe, é que é um processo muito lento, a gente nem percebe”, rebate o filho Joanísio. “Ah, nem na vida nem na morte isso aqui vai mudar”, teima aquela que é a primeira professora oficial dos dois município. Rochinha nasceu em 1925 numa casa bem ali debaixo, atrás da igreja, e lembra certeira do primeiro diamante encontrado na região, cavado na corrida de um boi na fazenda Goianinha, em janeiro de 1946. Um vaqueiro arrochava atrás de gado nesses meios de mundo quando viu o bichão brilhando no chão. A carreira que a rés deu mexeu com o cascalho e a pedra subiu pras vistas do homem. Entendeu que aquilo era diferente e, sem saber o que fazer, deu para o patrão, que vendeu para o Rio de Janeiro. Quando a notícia estourou foi uma frevura e o mundo se encheu de tanta carreta de gente.

As memórias fluem como blocos, gravadas em peça única pela espetacularidade que alguns dias acordam e resolvem trazer para a roça. Foi em oito de junho de mil novecentos e quarenta e seis. Na véspera, Paletó estava em uma barbearia em Calmon Viana (BA), quando ouviu no rádio que faiscou diamante para as bandas de Gilbués. No dia seguinte subiu em seu avião e veio-se embora para a cidade. Chegou durante a festa do Divino, viu as bandeirolas na rua e achou que ali era campo de pouso. O povo todo embaixo esparramado viu aquele bichão caindo em cima e achou que fosse morrer, correu tudo para dentro da igreja. Paletó subiu para desviar das pessoas e rodeou atrás de pouso. A única possibilidade era a rua, agora vazia de gente. Mas o povo saiu da igreja para ver ele voando. Nova tentativa de pouso, nova corrida pra dentro da igreja, nova arremetida. Ficou assim até alguem apontar para ele uma terra malhada ali perto. Quando sentou todo mundo queria encostar nele, ver o metal de perto. Até o Zé Lento, o bicho mais manso que já apareceu por essas bandas, correu atrás. Foi o primeiro avião que viram na vida.

Em pouco tempo Gilbués explodiu de gente. Era só umas quatro casas aqui ali assim e umas outras mais acolá. Em 55 Monte Alegre se emancipou. Toda porta era uma bodega, se não tinha nada para vender, pelo menos tinha cana. Cerca de 40 mil almas residiram entre as fronteiras da cidade. Até que as manchas do minério foram rareando, os donos das fazendas foram fechando as portas com medo da erosão e principalmente dos buracos que engoliam gado. Aí veio Brasília e os retirantes todos se arribaram para lá. A cidade minguou até seus atuais 10.500 habitantes, que trabalham principalmente na roça. Poucos garimpeiros artesanais permanecem. Em contrapartida, uma mineradora industrial engole campos inteiro de cascalho, vertendo areia para os rios e jóias para os acionistas.
Waldemar Fialho, 54, é um dos poucos que insistem na exploração artesanal, não tem nem cálculo não senhor de quantos diamantes já pegou nessa vida. Camadas de pó amarelo e lama marrom sobrepõem mãos que peneiram a mesma terra de sua infância. Aprendeu com seu pai, que ainda está vivo, o ofício: comece cavando verticalmente a cisterna, um buraco circular onde não cabe um homem com um braço estendido, até a encontrar o cascalho. Tem vezes que dá 30, 50, 80 palmos de fundura, passou da metade e o caboclo já está suando que derrama água no chão, mas você encontra a mancha e aí é o caixão da cisterna. Ignore o calor e rompa horizontalmente o cascalho, retirando sacos e mais sacos para serem peneirados. Abra um túnel em linha reta atrás do diamante que se deita por esse mundo todinho. Se o túnel crescer demais, abra nova cisterna para ventilação. Repita enquanto aguentar.

Convide um companheiro para ficar na superfície retirando baldes de cascalho e despedrando o conteúdo que sobe. Depois de uma peneirada inicial, leve tudo para o olho dágua mais próximo e comece a lavar. A primeira peneira pega diamantes de cinco quilates para riba. A segunda encontra os de um a cinco e a final só os filhotinhos da pedra. Despeje e vasculhe o conteúdo da peneira atrás das jóias. É fácil encontrá-las, seu brilho mata o de todas as outras pedras e quando pega é meio mundo de farra. Waldemar sabe que o garimpo não liga para economização, gosta mesmo é da putada, da perversidade, da frescura. Farra, cana, rapariga.

O diamante trouxe gente, aviões, carros e prédios para Gilbués. Deixou veias abertas e erosão crítica num solo já singularmente frágil, produzida mais pela pecuária extensiva e agricultura predatória que acompanharam os mineradores do que pelos próprios buracos onde ainda insistem em se enfiar estes homens-tatu. De dinheiro mesmo, sobrou uma bolsinha de xita cheia de notas velhas guardadas no criado-mudo ao lado da cama de Maria Rocha.

Versão não-editada de texto publicado na revista CartaCapital de 30/05/08

Post pra esclarecer

•19/06/2009 • 1 Comentário

Seguinte, talvez não tenha ficado claro então vou explicar o que tou fazendo aqui. Os números romanos antes dos posts aí de cima e aqui de baixo são os capítulos de um livro que também é tcc. O trabalho está em andamento e a banca marcada para 02/07, então ainda tenho um tempo pra mexer no bicho. Inclusive só coloco ele aqui porque quero críticas, quero que aponte o que incomodar e o que mais achar que deve.

Fique à vonts, eu lido bem com críticas e inclusive sinto falta de uns puxões de orelha mais duros.

No mais a casa é sua.

Jundas.

VI – De budas e psicopatas

•19/06/2009 • Deixe um comentário

Concordas que entre a infinita miríade muito louca djoe de formas que as gentes do mundo apresentam prevalecem fundamentalmente aquelas que valem a pena conhecer? Se a resposta for não saiba que não falo para ti. É claro que o fator psicopata deve ser levado em consideração, mas o que há de se fazer, descartar o contato com medo daquele 0,1% da população que gostaria de preparar seu fígado para comer de patê no café da manhã ou algo assim? Impossível assumir essa limitação. Também difícil de ignorar é o fato de que se esse número estiver correto temos um psicopata para cada mil habitantes, dizendo também que você já deve ter conhecido pelo menos uns quatro ou sete psicopatas na vida e apenas teve sorte deles não estarem demonstrando isso enquanto estavam ao seu lado, o que é uma conclusão bastante perturbadora se você for pensar a respeito.

Mas e daí, o que se pode fazer, ficar em sua cidade para impedir seu fígado de virar patê não é uma opção, seu entregador de jornal ou o vizinho garotão de meia idade podem apreciar essa iguaria tão bem quanto qualquer um na cidade de Gilbués, extremo sul do Piauí, porque você estaria mais seguro na sua casa do que naquele lindo pastiche de deserto vermelho, sertão amarelo e cerrado dourado que é tal cidade? Árvores com um verde que escorre fora de tão verde na época das chuvas. Dura dois meses e chove muito, só que depois de duas semanas os leitos já são memória de rio, chupados pela terra porosa num lamaçal de enfiar a canela até o joelho. Um dos casos extremos de desertificação do mundo que deserto nunca vai virar porque cai água demais. Ah é, o chão, esse mesmo, frágil, erosível e erodido, é qualhado de diamante, aquele mesmo. Garimpo forte nos anos 40 e 50, cidades surgindo e avião baixando com encomenda e gente 800km ao sul de Teresina, ainda no Piauí. Longe seu moço, longe. Fui lá atrás de história. Momento pimpão total, caminhando sobre endorfinas de otimismo. Já tinha vendido umatéria da cidade pra CartaCapital e deixara há poucas horas uma Teresina incrivelmente hospitaleira. Ali fui um homem de sorte, meu bem. Umas dezesseis horas depois desses beijos piauienses desci do ônibus e encontrei a primeira gente de Gilbués numa rodoviária que só tem esse nome por bondade, era uma parada de ônibus com um boteco, e nem se incomode porque é para falar das gentes daquele canto de chão que essas vírgulas vão sendo colocadas. O senhor pegava uma encomenda do bagageiro do ônibus, o busa parou na cidade apenas para nós, tinha uma pickup de algum modelo dos anos 80 que todos sabem o nome menos eu e era mecânico. Ainda deve ser mecânico. Pedi carona, assentiu, fomos trocando idéia, tio caboclo gente finíssima, expliquei tudo, é, jornalista, e diz que vai virar deserto aqui né, ih, desde que eu nasci falam isso daí nunca virou e sempre foi assim sem tirar nem por, e em 10 minutos me deixou na casa do secretário do Meio Ambiente da cidade. Ele não estava, então eu entrei, tomei banho e um cafézinho enquanto esperava. Chegou logo, conversamos enquanto almoçávamos eu ele e a esposa, uma empregada trazendo comida, bastante comida. Depois para a casa do prefeito, onde acompanhei a mais alta autoridade do Executivo municipal resolvendo questões pontuais com moradores na varanda de casa, sentei numa cadeira feita por tiras de plástico rosa iguaisinhas meu tio Miguel tinha em São Vicente na minha infância e dali vi a moça que apresentava seu caso saindo pisando duro com o filho no colo, “e depois acha que a gente vai votar nele” enquanto cruzava porta aberta. O secretário me explicou para o prefeito, que tomou conta da situação e, não podendo me oferecer guarida em sua casa, caminhou comigo até um hotel próximo e garantiu minha conta por quanto tempo eu quisesse ficar na cidade. Um recepcionista me recebeu de bruços para a rodovia que cruza a cidade indo desembocar na Bahia logo ali, afinal falamos de uma Gilbués no Piauí a menos de cem quilômetros de Maranhão, Tocantins e Bahia, era acabar o expediente e o rapaz sentar no banco da varanda e se servir uma cerveja da cozinha, pagava sempre, umas seis por dia, duas pra mim. Antes disso, chegando, contei que procurava uma professora, coordenadora de ONG sobre o deserto, único nome que tinha de fonte na cidade e claro que ele conhecia a mulher, ligou imediatamente, muito simpática inclusive, me pediu desculpas por não poder me encontrar, ia começar dali um nadinha a procissão da cidade vizinha e ela iria para ver, inclusive eu gostaria muito de ver também, seria uma festa muito bonita, pena que o carro dela já tava cheio, mas tem uma amiga que adoraria me levar. Não deu quinze minutos parou o carro na rodovia e lá fui para a dezesseis quilômetros distante Monte Alegre numa belíssima paisagem árida pós chuvas ao fim da tarde cortada ao meio por nosso caminho infinito e negro do petróleo duro que é asfalto, campos vermelhos com manchas verdes varado por tesouras dágua que são voçorocas, uns rasgos profundos em todo canto e também e sempre correndo paralelo ao longo da estrada, porque a voçoroca de estrada é só uma das formas que ela aparece e nem é a mais perigosa, mais ai pum, era tão perto que cabou estrada e chegou Monte Alegre. Ali quase todo o chão é de pedra, pedras cortadas em paralelepípedos ou pedras cortadas como deu. Quando cheguei apenas a imagem da santa estava no local, nem padre tinha aparecido ainda mas demorou nada pro povo vir aparecendo e sim, eu era forasteiro óbvio e sim, tinha uma câmera meio diferentosa na mão e isso até contou pontos a favor, longe de hostilidade se sentiam é honrados por ter alguém que claramente veio de muitos quilômetros longe e ali estava prestigiando suas ruas, reparando suas telhas e acompanhando suas santas. Anoiteceu no meio do percurso e cem velas já estavam acesas na mão de cada um, outra centena ornava as janelas, ruas de casas térreas e horizontais, todas coladas, paredes coladas, coloridas, santas e olhos, velas e braços, mais um quarteirão e tudo apagado, sem casas, só mato e lua e luz que se desdobram redobram e brotam um parque de diversões, milhões de giramundos respeitosos ao ritual que atravessou aquele tempo de carnaval e confeito e dividia a praça com a igreja. Palco armado na sacristia, bispo da região, povo na retidão, liturgia de falação. Era palanque da porta para fora da igreja e sob céu aberto tive vergonha de muito fotografar. Sentei nos calcanhares para não ocupar tanto espaço, enrolei enrolei paradinho até ficar confortável com o povo e desconfortável com os tendões, mais fotos, mais confiança, um cameraman xize infinitamente mais invasivo, pronto lá estava eu dentro da casa do senhor tirando fotos para fora. Ângulo excelente. Uma mãozinha puxa minha camisa por baixo, você é andarilho é, não, não sou, sou jornalista. A senhora gostou da resposta, abriu sorriso na pele flácida de oitenta e quatro anos de sertão, me puxou para baixo ou eu abaixei, começamos a conversar na altura de sua cadeira de rodas e ali eu encontrei um espírito maravilhoso, fonte riquíssima daquele mundo, tinha visto o primeiro avião descer em 1946 e detalhou de um tudo com linguagem coloquial e perfeita daquela que foi a primeira professora não só de Monte Alegre mas também de Gilbués e Monte Alegre e Gilbués. Fui uma esponja pra essa mulher, ouvi tudo, muito, dias, mundo. Nesse dia inteiro fui jogado de um lado para o outro por pessoas, gentes, guias, numa sucessão que só foi ficando melhor e me parece serviu para desaguar em Maria Rocha, essa senhora. Não tenho uma explicação que mereça aparecer aqui, apenasmente digo que estava num estado tão genuinamente aberto a qualquer tipo de contato humano e me parece que exatamente por isso o tempo fluiu densíssimo numa sucessão de eventos cada vez mais generosos para o meu lado, socialmente generosos, humanamente generosos.

Fica a dica.

V – Das gentes

•11/06/2009 • 2 Comentários

As coisas que tenho aqui, certamente também as terei lá

Pessoas são uma parte crucial da equação. Guias existem aos montes, confiar na essência humana é ponto de partida para fazer algo parecido com o que proponho aqui. Não é muito difícil encontrar aqueles dispostos a lhe oferecer abrigo e orientação regional, surgem de muitos lados. A percepção começa a afinar a leitura da disposição de seus interlocutores, apura-se a intuição para identificar aqueles que fazem mais sentido. E pouco a temer, inteligência e gente finisse são características endêmicas, existem de forma indiscriminada no gênero humano, independente de alimentação, suadouro ou hectare. Alguns capiau te pegam de jeito, tem toda a sensibilidade e argutez de mundo para torcer as idéias e colocar na roda um pouco de perspectiva. Lembro de um Tinga do sul do Pará que me atentou para o exato momento da história em que um bicho que não era macaco olhou prum bicho que era macaco e olhou pra deus e olhou pra si e não teve muita certeza do que era deus, do que era macaco e do que era ele, mas todo modo conformou-se na dúvida e bastou-se mandando um Vamoaê. Nunca passou da quarta série e expressou o crítico momento da aquisição de consciência pelo primeiro indivíduo de maneira muito mais elegante do que eu seria capaz. Faz você relativizar a relevância de duas décadas de sala de aula.

Mas não são só dessas não, gentes vem de todo jeito e de todo lado. Tem as que passam batido e as que pensam te morder a bunda. As que oferecem trampo são irmãs das que acham ladrão e tem duas que aqui te acordam ora colocam pra dormir. Pra falar de gentes tem que começar com adaptação, a lei natural dos encontros é doidinha doidinha, o caos, que tão não é bagunça quanto é ordem complexa demais pra caber na concepção. E é ela que define quem tu encontras nas horas que estas acordado e também quem te encontras dormindo. Você sabe como é, rodas pelo mundo o dia inteiro, a diferença é que aqui analiso a situação particular de peixe fora dágua do forasteiro. Tem que estar ligado, muito, em tudo. Demora adquirir confiança para se soltar, falar besteira, já tentou tirar sarro ao lado de um grupo de Pernambucanos? Minino os bixo pensa rápido. Paraense é sangue quente, não tem muita história, ou é ou não é e deixam absolutamente claro pra ti o que esperam de volta, ou pega, ou bate, ou nada, ou bebe, ou dança, algum desses. E aí meu irmão, você vai estar sambando de um lugar pra outro tentando sempre encaixar, sempre ter o que oferecer e o que receber. Honestidade no posicionamento. Olhar no olho, falar que vai fazer e fazer, esse tipo de coisa que funciona que é uma beleza. E gentes gostam de conversar. Normalmente é só sentar e falar, ou falar em pé andando mesmo. E trocar idéia. Se você estiver num lugar suficientemente longe e for suficientemente diferente das pessoas da ali, o que, convenhamos, se quiser pensar na escala de terrenos e culturas, experiências e povo, se quiser pensar no tanto disso que existe só nesse planeta, vai ver que seu repertório particular de grupo, o código que você domina e onde não é forasteiro, isso daí corresponde a quantos por cento do total que existe, quase nenhum, sem falar que você só transita com segurança por uma parcela muito específica da cidade em que vive, gazilions outros códigos estão ricocheteando ao teu redor de forma que ignora completamente. E só falo assim pra colocar em cheque teu lugar de conforto.

Então vá aprender a ler pessoas. Vá sacar disposições e responder de acordo com o que esperam de você sempre encontrando uma equação favorável. Já disse isso aqui? Cinco mil coisas vão dar errado no mesmo período em que cinco mil e quinhentas derem certo, com pessoas também. Sai de São Paulo jurando três regras de ouro, a saber, não apanhar, não perder equipamentos eletrônicos e não dar a bunda. Graças a deus só duas deram errado, então saiba que é bem possível que leve uns socos na cara, tomei duas vezes, primeiro um depois três, mas essa é uma adaptação que você também tem que estar disposto. E minha irmã, por favor, viaje sozinha com muita segurança no que está fazendo e não por muito tempo. Porque é foda, lidar com submundo também é uma realidade permanente, se você for gostosa pra padrões de capital vai chamar muito a atenção e ter uma liberdade de atuação restrita. E sendo bem sincero o critério não é ser gostosa ou não, é ser mulher. Cús cabeludos com saco pendurado rendem ao portador soco na cara em frequência bem maior do que estupro. É um sentimento horrível antever essa possibilidade de violência estando completamente sozinho, tentei me colocar como mulher muitas vezes nessa situação e minha opinião sensível, não-racional, é de que por favor, não viagem completamente sozinhas em contextos de zero bolha de conforto. Dar rolê na Europa sussa.

Mas como na verdade a maior parte são flores, você encontra como regra aqueles que por deus resolveram ser legais contigo. Muitas vezes a disposição em ajudar resolve ser diferenciada e você descobre um guia genuíno. Não falo aqui dos guias de agências de turismo, esses vem com valor tabelado e recebem por hora. Num adendo posterior, revelo que esta frase que acabou de passar é mão do Capítulo I deste trabalho, após escrevê-la encontrei a necessidade de separar os guias. Tratamos, pois, de gente. Teve um Hernandes que me garantiu vinte dias na cidade mais tensa que encontrei. Cheguei de busão só sabendo nome e lugar do rancho, desci direto pro mototáxi e saímos perguntando. Bati palma, me apresentei, surgiu um dizendo que era Hernandes, branco. Tinha um nome, vinha indicado por amigo de Marabá. Ele ouviu aperreado, orelha em pé. Não deu muito tempo chegou outro, índio, e depois outro, preto. Conversamos uns cinco minutos e o preto assumiu não, Hernandes sou eu, muito prazer. E eu dormi numa cama de casal. Terreno na beira de estrada, casa de madeira meio pra dentro, umas plantações, uns animais, uma casinha construindo, tinha tudo ali, chão de terra e milhões de tranqueiras jogadas em prateleiras meio de qualquer jeito. Marido, mulher, dois netos, dois porcos, muitas galinhas e uns cachorros. Acho que posso me dar a liberdade de dizer que esse lugar foi minha casa. Também posso dizer que onde eu encontrar esse homem eu terei uma casa para morar. Não sei se ele sabe, digo aqui, que ele terá o mesmo onde me encontrar. Foi um dos meus maiores guias. Não sei exatamente quanto, mas entre comida, cigarros e gasolina deve ter me colocado uns cento e cinquenta reais. E aconteceu completamente por acaso, fruto de afinidade humana e predisposição a lidar bem com o que aparecer. O que basta é bater o entendimento das gente bonisse mútuas, ambos concluírem que sim, vale a pena passar tempo junto, vale a pena dar uma força pra esse cara. Funciona.

Outra coisa que funciona é pensar seu almoço. Claro, troca de alma é muito legal, merece parágrafos inteiros escritos com carinho dedicado, mas não enche barriga. Além de transcendência você também estará buscando comida, banho quente, transporte e teto, lembre-se disso. Deixe claro para as pessoas que você não tem onde dormir. Diga que carrega rede, cobertor, toalha e xampu, que é limpinho e deixe claro que não quer levar o dvd embora. Ah sim, a cada tantas casas uma tem dvd, dos lugares mais pobres, de todos os lugares. E absolutamente todas as cidades que conheço tem lan house e molecada no orkut. Até Serra Pelada. Não demonstre interesse em assaltar lan houses, não carregue dvds usados e evite contar histórias de prisão. No mais você vai se dar bem, a pior hipótese é gastar R$ 10 conto no hotel mais barato do centro. Já gastei R$ 6 a diária em São Raimundo Nonato. Ah sim, dos oito meses de mochila paguei quinze dias em hotel, cada um uma derrota pessoal, mas saldo altamente positivo. Não conto nestes aqueles que pagaram o hotel para mim. É claro que tudo isso depende de bom senso e de tino para oportunidade, esse capítulo abre com a adaptabilidade por um bom motivo, tudo aqui está sujeito a ela e muito mais inclusive. Não vá fazer qualquer coisa de qualquer jeito, pise com leveza que os ovos são mezzo craquelê mezzo caleidoscópio.

O que me leva à necessidade de autopercepção. Você estará sendo observado, calcule seus gestos, tenha-os amplos e expostos. Visibilidade é uma grande aliada para proteção, o lance de fofoca e cidade pequenas é verdade, todo mundo saberá quem você é e porque está ali antes do final do segundo dia. Já aconteceu de encontrar um desses guias em Aliança que me levou para dar rolê pela vila para todo mundo saber com quem eu estava. Infelizmente bom senso não é tão bem difundido quanto pernilongo, tem-se que repassar e repisar a lição de não ultrapassar sinais e saber até onde o outro lado está confortável com a situação. Não faria mal eu em aguçar essa percepção. Também sou das gentes afinal.

IV – De grana e jogo de cintura

•9/06/2009 • 2 Comentários

Das três uma: ou você acumula meses suficientes de salário para ir bancar sua viagem de cabo a rabo com data pra acabar, ou conta com paitrocinio suficiente para financiar a empreitada, ou bola uma forma de ganhar dinheiro viajando. Esta última é tão completamente mais interessante que não dedicarei outra linha às duas primeiras. Suas vantagens óbvias são: (a) menor tempo de preparação e planejamento; (b) necessidade permanente de adaptação e reinvenção e (c) necessidade profissional de interação e imersão na cultura local.

Considerando (a) auto-explicativa, avanço para desenvolver (b). Tudo que você pensou antes de sair de casa – e aqui me dirijo aos mochileiros de primeira… viagem – todas as formas de ganhar dinheiro, os lugares onde acamparia, as brigas que teria, os homens ou mulheres que comeria, absolutamente tudo que foi planejado não vai sair como esperado. Tenha como certa apenas a ironia do universo, entidade que não passa de um velho rico banguela na chuva rindo de você. Cinco mil coisas darão errado enquanto cinco mil e quinhentas darão certo de maneiras que você não esperava. Uma única coisa sairá como o planejado. Não importa quantos meses fique fora, o plano dará certo em apenas um momento e o fará de modo tão absolutamente preciso que deixará um sabor de estranheza na boca, sensação nos cabelos da nuca de que algo deu errado e você não percebeu.

Toda a idéia por trás de uma viagem é viver situações frescas, dar de cara com estímulos novos e ver qual resposta que sai. Aqui, adaptação é o conceito do bem estar. Mas não se atenha ao aqui. Sim, conhecerá pessoas que, não importa o quão interessante sejam, terá consciência de que não durarão mais de sete dias em sua vida. Pessoas finitas, relações com data de expiração. Laços muitas vezes deveras intensos, daqueles que só a certeza da inacessibilidade do viajante sabe fazer, necessitam ser sistematicamente seccionados e substituídos por uma realidade completamente nova, distante quatro, sete ou quarenta e sete horas de ônibus. Saiba de antemão que partirá dos braços de uma deusa para se acabar bêbado sem alternativa jogando fliperama, quilômetros distante da possibilidade da deusa, matando zumbis. Você perde o jogo e, caçando o caminho do abrigo da vez, se pega rindo sobre como a vida é o que é e vai dormir puro coração e tato.

Semana sim, semana não, semana quatro vezes você será obrigado a zerar todas as relações sociais e desenvolvê-las novamente em condições tão semelhantes quanto completamente diferentes. É libertadora a possibilidade de reinventar repetidamente sua postura social, encontrar-se sem amarras para se posicionar no mundo. Ao mesmo tempo é um exercício constante de paciência e disposição. Repetirás centenas de vezes algumas frases essenciais, de onde vieste e o que fazes naquelas terras. Algumas histórias decantarão melhor e poderás desenvolvê-las ao longo. Depois de um tempo é só anotá-las e encontrar alguns parágrafos definidores de gente.

Ah sim, isso tudo falava de (b), necessito retomar (c), afinal adotei tal grafologia, tem que ter sentido. Encontrar essa estranheza de mundo sendo repórter é uma orgia. As facetas ficam à flor da pele, contradições saltam aos olhos com a mesma facilidade que seus preconceitos. Ademais, envolver-se profissionalmente nestas situações significa encontrar gente, ouvir o lado daquela pessoa, conhecer a região. Comer na casa é movimento natural, assim como pousar. E você continua ouvindo histórias, agora das pessoas da vizinhança que também gostam de falar e te contam jóias despretenciosas de dia-a-dia. Esse é um dos motivos que me parece casar tão bem os personagens repórter e mochileiro.

E quer saber? Grana on the road? Complicado. Das que dão dinheiro, são poucas as coisas se faz melhor de bermuda e havaianas e com liberdade total de atuação. Descolei o meu rolê jogando texto pronto na mão de editor. Funcionou. Sei que esse dá certo, mas não tenho muito mais o que propor, sanduíche natural, artesanato? Já tentaram muito isso. Outro legal é tirar fotos dos populares em atrações turísticas e mandar pela net depois, mas isso é novamente o jornalista pensando. Dá pra pensar um bom esquema desse. Na real dá pra pensar vários bons esquemas, mas eu que não vou resolver o problema da adequação das suas capacidades individuais à enormidade do mundo, se falo é das minhas que verso

III – Dos preparativos

•4/06/2009 • 1 Comentário

Abraçou apertado a mãe, passou quatro dias virando cerveja com os amigos. Tomou vacina da epidemia que os jornais faziam a do momento, cogitou carregar o entorpecente elegido. Chorou com a namorada ou deu uns beijos naquela que sempre poderia ter sido.


Definidos os 34 itens essenciais que levaria, dispôs todo o conjunto ordenado sobre sua cama e preparou a máquina fotográfica. Higiene pessoal e toalha na esquerda em cima, camisas e bermuda na esquerda em baixo; uma ou duas mudas mais ajeitadas, pra festinhas, na direita, logo acima dos perfeitamente lavados e passados lençol e manta, bem próximos a um par de tênis e uma chinela de dedos. Cuecas e meias. Estojo de primeiros socorros com medicinas fundamentais, poções para combater pernilongo e caganeira, perto de cadernos, câmeras ou seja lá o que for que utilize como expressão e/ou registro. Algumas outras quinquilharias definidas pela singularidade do indivíduo preenchem os vazios do quadro. O conjunto dispõe de geometria elegante, simetricamente desenhado sobre uma cama que agora por muitas noites não será dormida. A foto dos itens de partida fica linda; abarca, em teoria, o menor número possível de posses materiais necessário para definir o eu em trânsito. Mas, pobre viajante, com um eu tão fluído desses, realmente espera balizar sua existência por uma mochilinha fuleira carregada de quinquilharias desnecessárias? Viajar meses carregando-se consigo já é tarefa intensa o suficiente. No limite do apego, parta com uma escova de dentes no bolso. Um viajante sem bafo tem mais chances de conseguir cama, janta e coxas. Todo o resto você aprenderá desnecessário.

Agora, desapego é bom até o momento em que ele compromete ferramentas eletrônicas formadas por partes móveis e quebradiças. O cuidado com seu equipamento essencial surge espontânea e plenamente, você nunca deixará de estar ciente da localização de sua câmera dentro daquela mala, envolta em duas camadas de toalha e casaco. As mochilas seguem nas mãos até o momento em que esteja certo não sofrerem danos significativos. Tudo amontoado sob seus pés num banco apertado de ônibus pode não ser a opção mais inteligente, danos à coluna normalmente são significativos, então pense em duas malas, uma fofa de roupas que possa ir em bagageiros grandes, apertados, úmidos, vazios, buracos, cheios, lombadas, sujos, pequenos, escuros, areia, sujeitos à barbáries aleatórias de toda sorte, e outra menor para ir em compartimento parecido com esse, mas logo acima da sua cabeça e dentro do campo de visão. Em algumas noites serás acordado por mochilas cadentes, talvez tenha tempo de fazer um pedido antes da sua cair do bagageiro no corredor do busa e ir parar embaixo de um banco qualquer enquanto motô vira para fazer nova curva sem reduzir em alguma estrada que pode ou não ter buracos e lombadas. Fazer curvas a 110km/h de madrugada nessas condições estimula um certo estado de atenção que desperta toda vez que a aceleração centrífuga ultrapassa um certo limite e passa a ameaçar expulsar sua mochila mais valiosa do bagageiro de cima. Curva sim, curva não, buraco sim, lombada não, acordarás para se certificar que a mochila não caiu, segue ali balançando. Descansar plenamente não é das decisões mais inteligentes para se tomar num contexto destes, torna-se quase impossível desapegar honestamente de sua bagagem de mão, o braço mais próximo ao corredor assumirá um nível de alerta onírico pronto para ao menos aparar a queda. Não raro sonharás em cair no abismo atrás de pertences ou ser soterrado por uma avalanche de backpacks.

Todavia carregue uma destas, oque é outra forma de dizer que sim, divida suas coisas entre mochila de andar e mochila de guardar, deixe a maior com mudas de roupa entre tudo mais em segurança e carregue os essenciais consigo. Terás a medida certa de perceber quando será tranquilo enrolar na toalha e deixar para trás sua câmera-ou-seja-lá-oque-seja muito valiosa pra você.

Como não pode ser diferente me basto em falar por mim. Não pretendo cagar regras e oferecer a receita de bolo pronta para ninguém, antes busco compartilhar uma experiência completamente pessoal na esperança de que alguém se aproprie disso e crie algo novo, único. Não ofereço um guia de viagem tradicional, o mochileiro que sou requer pouquíssimo planejamento, impossível propor um rebolado humano pelo mundo que siga cronograma rígido de cidade tal, dia tal, hotel tal. Credo, troco mil vezes esse controle por ímpeto e sensibilidade. O que seria da (minha, nossa, minha nossa) vida sem os cruciais últimos quinze minutos? As decisões de trajeto surgem naturalmente, desvenda-se o que fazer poucos momentos antes da realização, tudo bem que requer uma certa confiança plena e largamente irresponsável em seu taco, coisas que se não forem tentadas antes dos vintecinco trintas anos nunca mais serão, mas e daí, o que há de se fazer. Ah, buscar estabilidade né. Segurança. Azeite. Admita que se você não sabe nem onde dormir é melhor não pensar ainda qual cidade virá a seguir. Mais do que melhor, é altamente saudável. No momento inicial da jornada me parece muito mais sábio entender o que está se passando consigo do que estabelecer roteiro formal. O mundo está aí e sempre estará, você sempre terá aquilo de que necessita, sempre encontrará o que busca, seja tal objetivo consciente ou não. Melhor do que saber quando passar em cada cidade é sabersentir o momento certo de colocar o pé na estrada, aquele ponto onde é inevitável a saída e tudo está tão certo em seu lugar que você se dará bem no final da história no matter what e no final as coisas só tem mesmo um jeito de acontecer, que é exatamente o jeito que acontece e não dá pra ser diferente nem nas histórias inventadas.

Agora, capitais são diferentes. Não vacila de doidão flower power. Povo de roça tem aversão a cidade, são agressivas, massivas e brutais. “Nossa, você mora em São Paulo?”, disse um, “Moro”, “Mas por que meu Deus?”, foi a resposta. Para cidades grandes sim vale alguma preparação, uma pesquisa de gente de antemão, algum ponto de apoio via CouchSurfing, via amigos dos pais, via Msn ou Orkut, sea lo que sea, é bom você já conheçer alguém ali antes de chegar. Ou vai gastar dinheiro em hotéis, e descobrir o mundo sozinho, o que francamente é um enorme desperdício de tempo e regra para ignorar aquele barzinho incrível escondido no quintal ao pé de uma mangueira que vem desenhando sua vida já tem muitas décadas nos nós de sua madeira. É incrível, a cada maracujá que você come acaba vendo novo capítulo de vida desenrolar nos caminhos rugosos daquele tronco. Caso acabe por um azar infeliz ignorando a entradinha para tal bar porque está sozinho, consulte o capítulo Das Gentes para entender a infinita superioridade que a adaptação às gentes carrega sobre a preparação às gentes.

De fato este é um parágrafo muito mais tranquilizador do que prático, seu propósito é amenizar angústias de mochileiros pré estrada. Não faz muita diferença as conjunturas que elaboras febrilmente nas semanas anteriores à partida, você nunca vai usar aquele spray de pimenta, não vai acampar em qualquer fazenda porque simplesmente não é assim que as coisas acontecem, mas não tem outro jeito porque antecipar cenários possíveis é exercício desgastante e inevitável, sem falar de infinito e improdutivo. Se prepare apenas o suficiente para quedar-se tranquilo, por que depois que estiver na estrada, tenha lá você seu canivete de doze funções ou não, a somatória geral vai ser tão ensurdecedoramente rica que tal falta de canivete vai ser apenas mais uma história boa. Todavia, compre um canivete.

E ligue para sua mãe. Digo antes mesmo de viajar, agora, ligue para sua mãe agora. Demonstre carinho por sua avó, ela vai rezar meses a fio pelo neto que resolveu sair meio doido e acampar meses sem planejamento no Nordeste, então ligue para ela também. Bom, essas vó e mãe que falo são minhas, com os teus parentes se vira você, ou vai dizer que não sabe quais são aqueles que se preocupam contigo. E essas duas merecem destaque pela questão umbilical da coisa, que também envolve aquela situação mezzo latina mezzo judia da velha que se envolve fisicamente e tem umas somatizações de preocupação, aí é foda, não dá, tem que cuidar com muito carinho, mas tem mais gente e você conhece toda sua delicadíssima gama de afeto para saber quais pessoas merecem dedicação especial de despedida. É fundamental se apropriar daquilo que é teu antes de partir e nem te preocupes pois já estarás etéreo o suficiente para absorver encontros com renovada sensibilidade. Marque festas, umas cinco. Encontre todo mundo, durma na casa dos outros, durma na cama dos outros, durma na sala. As burocracias são idiotas e se resolvem, os preparativos que você acha importante eu creio já ter desconstruído, então vá se municiar de sua gente para trocar com essas plurinfinitas gentes que tem por aí pra gente ter e dar conta.

Abraçou apertado a mãe, passou quatro dias virando cerveja com os amigos. Tomou vacina da epidemia que os jornais faziam a do momento, cogitou carregar o entorpecente elegido. Chorou com a namorada ou deu uns beijos naquela que sempre poderia ter sido e fora isso todo resto foi.