Abraçou apertado a mãe, passou quatro dias virando cerveja com os amigos. Tomou vacina da epidemia que os jornais faziam a do momento, cogitou carregar o entorpecente elegido. Chorou com a namorada ou deu uns beijos naquela que sempre poderia ter sido.
Definidos os 34 itens essenciais que levaria, dispôs todo o conjunto ordenado sobre sua cama e preparou a máquina fotográfica. Higiene pessoal e toalha na esquerda em cima, camisas e bermuda na esquerda em baixo; uma ou duas mudas mais ajeitadas, pra festinhas, na direita, logo acima dos perfeitamente lavados e passados lençol e manta, bem próximos a um par de tênis e uma chinela de dedos. Cuecas e meias. Estojo de primeiros socorros com medicinas fundamentais, poções para combater pernilongo e caganeira, perto de cadernos, câmeras ou seja lá o que for que utilize como expressão e/ou registro. Algumas outras quinquilharias definidas pela singularidade do indivíduo preenchem os vazios do quadro. O conjunto dispõe de geometria elegante, simetricamente desenhado sobre uma cama que agora por muitas noites não será dormida. A foto dos itens de partida fica linda; abarca, em teoria, o menor número possível de posses materiais necessário para definir o eu em trânsito. Mas, pobre viajante, com um eu tão fluído desses, realmente espera balizar sua existência por uma mochilinha fuleira carregada de quinquilharias desnecessárias? Viajar meses carregando-se consigo já é tarefa intensa o suficiente. No limite do apego, parta com uma escova de dentes no bolso. Um viajante sem bafo tem mais chances de conseguir cama, janta e coxas. Todo o resto você aprenderá desnecessário.
Agora, desapego é bom até o momento em que ele compromete ferramentas eletrônicas formadas por partes móveis e quebradiças. O cuidado com seu equipamento essencial surge espontânea e plenamente, você nunca deixará de estar ciente da localização de sua câmera dentro daquela mala, envolta em duas camadas de toalha e casaco. As mochilas seguem nas mãos até o momento em que esteja certo não sofrerem danos significativos. Tudo amontoado sob seus pés num banco apertado de ônibus pode não ser a opção mais inteligente, danos à coluna normalmente são significativos, então pense em duas malas, uma fofa de roupas que possa ir em bagageiros grandes, apertados, úmidos, vazios, buracos, cheios, lombadas, sujos, pequenos, escuros, areia, sujeitos à barbáries aleatórias de toda sorte, e outra menor para ir em compartimento parecido com esse, mas logo acima da sua cabeça e dentro do campo de visão. Em algumas noites serás acordado por mochilas cadentes, talvez tenha tempo de fazer um pedido antes da sua cair do bagageiro no corredor do busa e ir parar embaixo de um banco qualquer enquanto motô vira para fazer nova curva sem reduzir em alguma estrada que pode ou não ter buracos e lombadas. Fazer curvas a 110km/h de madrugada nessas condições estimula um certo estado de atenção que desperta toda vez que a aceleração centrífuga ultrapassa um certo limite e passa a ameaçar expulsar sua mochila mais valiosa do bagageiro de cima. Curva sim, curva não, buraco sim, lombada não, acordarás para se certificar que a mochila não caiu, segue ali balançando. Descansar plenamente não é das decisões mais inteligentes para se tomar num contexto destes, torna-se quase impossível desapegar honestamente de sua bagagem de mão, o braço mais próximo ao corredor assumirá um nível de alerta onírico pronto para ao menos aparar a queda. Não raro sonharás em cair no abismo atrás de pertences ou ser soterrado por uma avalanche de backpacks.
Todavia carregue uma destas, oque é outra forma de dizer que sim, divida suas coisas entre mochila de andar e mochila de guardar, deixe a maior com mudas de roupa entre tudo mais em segurança e carregue os essenciais consigo. Terás a medida certa de perceber quando será tranquilo enrolar na toalha e deixar para trás sua câmera-ou-seja-lá-oque-seja muito valiosa pra você.
Como não pode ser diferente me basto em falar por mim. Não pretendo cagar regras e oferecer a receita de bolo pronta para ninguém, antes busco compartilhar uma experiência completamente pessoal na esperança de que alguém se aproprie disso e crie algo novo, único. Não ofereço um guia de viagem tradicional, o mochileiro que sou requer pouquíssimo planejamento, impossível propor um rebolado humano pelo mundo que siga cronograma rígido de cidade tal, dia tal, hotel tal. Credo, troco mil vezes esse controle por ímpeto e sensibilidade. O que seria da (minha, nossa, minha nossa) vida sem os cruciais últimos quinze minutos? As decisões de trajeto surgem naturalmente, desvenda-se o que fazer poucos momentos antes da realização, tudo bem que requer uma certa confiança plena e largamente irresponsável em seu taco, coisas que se não forem tentadas antes dos vintecinco trintas anos nunca mais serão, mas e daí, o que há de se fazer. Ah, buscar estabilidade né. Segurança. Azeite. Admita que se você não sabe nem onde dormir é melhor não pensar ainda qual cidade virá a seguir. Mais do que melhor, é altamente saudável. No momento inicial da jornada me parece muito mais sábio entender o que está se passando consigo do que estabelecer roteiro formal. O mundo está aí e sempre estará, você sempre terá aquilo de que necessita, sempre encontrará o que busca, seja tal objetivo consciente ou não. Melhor do que saber quando passar em cada cidade é sabersentir o momento certo de colocar o pé na estrada, aquele ponto onde é inevitável a saída e tudo está tão certo em seu lugar que você se dará bem no final da história no matter what e no final as coisas só tem mesmo um jeito de acontecer, que é exatamente o jeito que acontece e não dá pra ser diferente nem nas histórias inventadas.
Agora, capitais são diferentes. Não vacila de doidão flower power. Povo de roça tem aversão a cidade, são agressivas, massivas e brutais. “Nossa, você mora em São Paulo?”, disse um, “Moro”, “Mas por que meu Deus?”, foi a resposta. Para cidades grandes sim vale alguma preparação, uma pesquisa de gente de antemão, algum ponto de apoio via CouchSurfing, via amigos dos pais, via Msn ou Orkut, sea lo que sea, é bom você já conheçer alguém ali antes de chegar. Ou vai gastar dinheiro em hotéis, e descobrir o mundo sozinho, o que francamente é um enorme desperdício de tempo e regra para ignorar aquele barzinho incrível escondido no quintal ao pé de uma mangueira que vem desenhando sua vida já tem muitas décadas nos nós de sua madeira. É incrível, a cada maracujá que você come acaba vendo novo capítulo de vida desenrolar nos caminhos rugosos daquele tronco. Caso acabe por um azar infeliz ignorando a entradinha para tal bar porque está sozinho, consulte o capítulo Das Gentes para entender a infinita superioridade que a adaptação às gentes carrega sobre a preparação às gentes.
De fato este é um parágrafo muito mais tranquilizador do que prático, seu propósito é amenizar angústias de mochileiros pré estrada. Não faz muita diferença as conjunturas que elaboras febrilmente nas semanas anteriores à partida, você nunca vai usar aquele spray de pimenta, não vai acampar em qualquer fazenda porque simplesmente não é assim que as coisas acontecem, mas não tem outro jeito porque antecipar cenários possíveis é exercício desgastante e inevitável, sem falar de infinito e improdutivo. Se prepare apenas o suficiente para quedar-se tranquilo, por que depois que estiver na estrada, tenha lá você seu canivete de doze funções ou não, a somatória geral vai ser tão ensurdecedoramente rica que tal falta de canivete vai ser apenas mais uma história boa. Todavia, compre um canivete.
E ligue para sua mãe. Digo antes mesmo de viajar, agora, ligue para sua mãe agora. Demonstre carinho por sua avó, ela vai rezar meses a fio pelo neto que resolveu sair meio doido e acampar meses sem planejamento no Nordeste, então ligue para ela também. Bom, essas vó e mãe que falo são minhas, com os teus parentes se vira você, ou vai dizer que não sabe quais são aqueles que se preocupam contigo. E essas duas merecem destaque pela questão umbilical da coisa, que também envolve aquela situação mezzo latina mezzo judia da velha que se envolve fisicamente e tem umas somatizações de preocupação, aí é foda, não dá, tem que cuidar com muito carinho, mas tem mais gente e você conhece toda sua delicadíssima gama de afeto para saber quais pessoas merecem dedicação especial de despedida. É fundamental se apropriar daquilo que é teu antes de partir e nem te preocupes pois já estarás etéreo o suficiente para absorver encontros com renovada sensibilidade. Marque festas, umas cinco. Encontre todo mundo, durma na casa dos outros, durma na cama dos outros, durma na sala. As burocracias são idiotas e se resolvem, os preparativos que você acha importante eu creio já ter desconstruído, então vá se municiar de sua gente para trocar com essas plurinfinitas gentes que tem por aí pra gente ter e dar conta.
Abraçou apertado a mãe, passou quatro dias virando cerveja com os amigos. Tomou vacina da epidemia que os jornais faziam a do momento, cogitou carregar o entorpecente elegido. Chorou com a namorada ou deu uns beijos naquela que sempre poderia ter sido e fora isso todo resto foi.