IV – Daquele com asas nos calcanhares e têmporas

Enquanto escrevo este trabalho consulto constantemente um caderno de folhas A5 pautadas, capa de cartão cru, com os dizeres na face: “Brenon e as itinerâncias do texto; ou ainda; um guia para bixos e focas mochileiros. Se preferires, vá de ‘TCC, um dia tem que sair’”. É meu rascunho e depósito de pesquisa, instrumento de composição deste trabalho entulhado ao longo de meses com todo tipo de referência ou consideração. Já em sua terceira página está uma citação ao livro Os pés alados de Mercúrio – Relatos de viagem à procura do Self, de Luis Pellegrini. Diz o caderno: “Os pés alados: Difudê, exatamente o que eu procurava” e segue com meia dúzia de páginas preenchidas por excertos retirados do livro.

Agora, momento em que a terceira página ficou para trás há muito – inclusive o caderno já está prestes a expirar sob tanta letra – retomo e reproduzo a afirmação que, mesmo desbocada, segue preciosamente acurada até o final. Luis fez doze antes, e com muito talento, exatamente aquilo que tento alcançar neste livro. Ambos preenchemos capítulos tentando desvendar as diferentes facetas do automergulho que é viajar para além de zonas de conforto, de como o deslocamento no tempoespaço é reflexo de jornada interior muito mais intensa do que a visível. Não nos bastamos na objetividade física de guias de viagens tradicionais, não estamos aqui para falar que no Canto dos Atins está a melhor grelhadora de camarões deste mundo; não, isso não interessa, cada viajante que encontre sua própria melhor cozinheira viva de camarão do mundo. Buscamos movimentos subjetivos, profundos, transformações de ordem transcendental e a busca por um centro espiritual interno, o self de Jung de que Luis se apodera. Muito delicado discorrer sobre amadurecimento pessoal e transcendência de alma, corremos a um ou dois adjetivos de distância do brega, ou do tutoral, ou do messiânico, ou de todos juntos. Mas corremos. Piegas e românticos, inescapavelmente piegas, indisfarçavelmente românticos.

Concordamos com quase tudo de saída. Encontrei em seu livro representação física, em tinta e papel, de muitos sentimentos que permaneciam difusos transitando entre consciente e inconsciente. Luis emprestou corpo a conceitos que eram meus. Me senti mais do que representado pela obra, a proximidade das leituras de mundo minha e dele são tão grandes que acredito termos ouvido, por anos, talvez por toda a vida, o canto da mesma generosa e solitária musa.

Luis também é jornalista. É editor da revista Planeta, publicação com proposta semelhante de busca pelo transcendente. Este é seu trabalho, desvendar alma humana. Marquei uma entrevista, fui à Editora Três e lá conversamos longamente sobre ritos de passagem, deuses do vento, amadurecimento pessoal e produção de conteúdo na estrada. Fundi nossas personas neste capítulo, não há muito sentido em separar interlocutores, em nenhum momento discordamos, apenas seguimos complementando as idéias que compartilhávamos. As histórias e análises são dele, afinal as minhas já estão em quase todas as outras páginas deste trabalho, mas o eu-lírico está mesclado, minhas perguntas e considerações foram absorvidas com tanta naturalidade por sua sensibilidade que neste caso não há razão de haver entrevistado e entrevistador. E chega de preâmbulo.

A primeira coisa que eu acho importante, tanto na vida quanto com uma carreira de jornalista viajante, é você desenvolver uma consciência muito clara de limites. Você não deve nunca ir nem além de suas possibilidades e tampouco ficar aquém do teu potencial. Os gregos consideravam que existia apenas uma grande pecado, a hybris, o descomedimento, quando você se coloca fora de sua medida. Para eles essa falha não tinha remissão, quando se cometia uma algo assim, que também esta muito ligado à arrogância, à pretensão, o castigo era punição eterna. Ir além dos próprios limites é algo que só é prometido aos deuses, não aos homens.

Hoje tenho um trabalho mais burocrático dentro da redação. Mas eu sempre fui um pouco como você, to sacando já sua personalidade, algo meio de cigano, de não se sentir bem trancado dentro de quatro paredes, não ver horizontes, e isso vale tanto para minha visão de mundo quanto para a de mim mesmo. Então cara, eu ia com tudo, na sua idade fiz cada maluquisse que não tem tamanho. Me ferrei muito e fui muito protegido. Quem viaja é protegido por uma divindade grega chamada Hermes, o título do meu livro, que também é a divindade do jornalista, da comunicação; é a divindade do vento, o elemento fluído em movimento permanente que leva as mensagens, a informação, transmite o conhecimento de um lugar para o outro, além do sujeito, transcende o sujeito. Quando você viaja está atravessando o elemento ar e naquele momento você é o vento que vai.

Vento é por definição ar em movimento. Mesmo nos corpos parados as cabeças se movimentam. Sem movimento não há viagem, pensamento ou emoção. Sempre achei que a imobilidade está muito relacionada à morte e o movimento, a ação se relaciona mais diretamente a vida, sobretudo na nossa profissão, à nossa função no mundo, é uma carreira que é movimento por excelência, mesmo quando a gente está parado aqui conversando. Foi um pouco pra desenvolver essas idéias que eu escrevi o pés alados. Também foi a base da Axis Mundi, editora que fundei e agora está na gaveta, e é a da Planeta, trabalhamos com o movimento do homem, da humanidade e do mundo. É uma revista sobre conhecimento de ponta, sempre no contexto de algo que está indo, um conjunto de coisas que está se movimentando e caminhando.

A minha experiência de filho de Mercúrio me ensinou que é totalmente inútil você buscar alvos definitivos a serem atingidos. O objetivo que você fixa à distancia é míope, lá de longe você está vendo outra coisa. A medida em que se aproxima fica espantado ao enxergar a realidade, muito diferente do imaginado. De fato é você que não é mais o mesmo viajante, o mesmo observador, a viagem te transformou, então quando você chega diante de um objetivo já está vendo-o com outros olhos. Muitas vezes encara o final e descobre que ele já não te diz mais nada, talvez nunca tenha dito. A gente precisa se preocupar com os meios, não com os fins. Em geral, na nossa civilização, materialista, esse mundo da produtividade e do consumismo insustentável – porque é um delírio que a gente está vivendo – este mundo acredita que os fins justificam os meios, que eu posso fazer uso de qualquer recurso desde que alcance meus objetivo. Essa é uma forma de pensar totalmente diabólica.

Ao viajar você é o corpo estranho penetrando num universo que te é desconhecido e que por sua vez tampouco te conhece. Você precisa criar e desenvolver uma aliada formidável e fundamental, sem ela está ferrado. Se chama adaptabilidade e é sinônimo de inteligência. Adquirir essa flexibilidade é um processo que se impõe durante uma viagem desde que você consiga controlar o seu ego, a parte neurótica do seu ego. Estou referindo ao ego, não à alma. Este tem a tendência constante de querer afirmar a si próprio. O que é um ego hipertrofiado? É chegar em um lugar onde eu tenho que ser bem recebido, nunca fui ali, não conheço ninguém, e assim que estou lá quero impor minhas regras, meu jeito de ser a este lugar e às criaturas que ali estão. Eu tô ferrado, vou encontrar um puta de uma resistência e criar situações de perigo real. Tenho que deixar meu ego quieto e a sensibilidade da alma funcionar. É ela que vai dizer como se posicionar.

Parar quieto, olhar ao redor e dizer ao ego, “observe, aprenda junto comigo, deixa a alma, o lado feminino dizer o que fazer”. Adaptabilidade é uma função da alma, o ego não se adapta a nada. Quando estiver perfeitamente adaptado ele entra para dizer o que fazer. Sem dúvida a viagem é uma experiência de educação do ego e para os muito endurecidos é uma educação que acontece na base do chicote. O ambiente não aceita, você tem que aprender a refrear a pulsão do seu ego, ser disciplinado para permitir à tranquilidade fazer ouvir a voz de sua alma.

Veja, eu sou um viajante contínuo, cheguei do Chile semana passada e logo mais vou para Goiás, para o sertão, sempre tive uma vida com muito movimento. Já refleti sobre esses episódios que caracterizam ritos de passagem. Sabe que não consegui definir? Você não percebe um rito de passagem quando está vivendo ele. É só bem depois, fazendo uma reflexão sobre o passado, você entende que alguma coisa mudou. É sempre uma experiência forte, por vezes de forma extremamente tranquila, super quieto, observando uma paisagem, e algo te toca profundamente. Eu conto um episódio desses no A árvore do tempo. Era menino, estava no quintal de casa em São Carlos e sempre tive uma vocação para biólogo, adorava bichos e plantas, era campeão de botânica. E andando pelo muro no quintal eu vejo um buraco no tijolo e lá no fundo tinha uma bolinha branca pequena, parecia uma pérola, esfera perfeita. Me aproximei, fiquei olhando, de repente eu tô ali e a bola fu-fu, se mexeu sozinha. Fiquei espantado, não entendia como estava se mexendo. De repente cara, olho de criança é uma coisa aguçada, eu vi uma rachadura, uma trinca naquele branco perfeito, de onde de dentro surgiu uma mãozinha minúscula, depois outra e crack, abriram a casca. Saiu inteiriça, uma lagartixa pequena e perfeita. Saiu do ovo, aquela cabecinha, os olinhos, e me viu. Ela me viu. Eu tive um contato de olhar aquele serzinho e entendi que a primeira coisa viva que ela estava vendo era eu. Aquilo teve um efeito completamente mágico, tive uma percepção do milagre que é a vida. Isso só ocorreu porque eu estava disponível, pronto a observar aquele fenômeno sem interferir, completamente aberto à experiência. Naquele momento não estava interessado em compreender intelectualmente o que estava se passando. Estava era hipnotizado pelo fenômeno em si mesmo, numa conexão total com aquele acontecimento, foi como se eu mesmo estivesse vivendo aquilo. Eu senti o esforço da lagartixa abrindo aquela casco, senti a primeira respiração preencher meus pulmões, nasci um pouco junto com ela.

E perceba que não faço essa divisão alma-feminina/ego-masculino no sentido de que um é homem e outro é mulher, mas querendo dizer que um é uma força concava e outra convexa. Explico, o ego, que representa um pouco a parte masculina, ele é fálico. Uma força côncava é como meia lua, se projeta, é contundente, quer penetrar, invadir, se impor, por isso masculino, por isso fálico. A alma, ao contrário, é concava, receptiva, acolhedora, não quer invadir, ela se deixa invadir, se volta para dentro. Isso é importantíssimo, acho eu, quando você viaja. Observando aquela lagartixinha eu estava numa postura completamente côncava, estava totalmente aberto deixando que aquilo entrasse em mim, por isso foi tão intenso. Naquele momento me entrou pela cabeça, pelos olhos, pelo coração, todas as emoções estavam abertas. Me permiti viver essa experiência e no momento em que a vivia não quis dissecá-la, não quis ser um cirurgião de realidade. Agora estou fazendo isso usando a inteligência de meu ego para descrever uma experiência que aconteceu, mas isso só é possível a posteriori. Já pensou você super apaixonado, vivendo com sua menina uma transa maravilhosa, vai botar seu ego pra funcionar, pra ficar criticando, dizendo que agora vai acontecer isso, depois aquilo? É receita para brochar.

Vá se preocupar depois com o que está acontecendo. Sempre procurei viajar desta forma, equilibrado, aberto, e sobretudo disponível para a vivência do desconhecido. Sem medo, o que pode me acontecer? Sabe o que eu fazia? Quando vim para São Paulovindo do interior, cheguei aqui com dezessete para dezoito. As vezes não tinha sono e ao invés de ir pra casa, vindo da faculdade, pegava um ônibus qualquer, nem via, deixava ele seguir madrugada adentro e depois voltava. Umas duas vezes rapaz eu peguei um tal de Gato Preto, ia até a periferia de Campinas, nem sabia onde tava, levava horas, mas valia a pena. Depois eu fiz isso mais algumas vezes, já tomei trem, já cheguei no aeroporto e ver o primeiro que ia sair e subi. Fui parar em Salvador. Sempre que eu fiz isso alguma coisa me esperava. Cheguei em Salvador à noite, fui para um hotelzinho na praça Castro Alves, tava cansado, fui dormir e acordei 05h da manhã. Como não tinha café da manhã sai a rua em busca de um barzinho. Atravesso a praça Castro Alves, encosto na mureta que dá pra a Cidade Baixa, não tinha ninguém na rua e o mar estava ouro puro, luz para todo canto que fazia assim ó, brilhava tanto que nunca mais vou esquecer essa visão na minha vida. E eu entendi que aquilo ali já pagava a viagem, foi para isso que eu estava ali, aquele momento justificava uma viagem sem qualquer outra justificativa racional.

Preste sempre atenção ao viajar em qual é o presente que aquela jornada está oferecendo a você. Não existe viagem sem significado, cada situação encerra algum recado, alguma mensagem, um toque que vai contribuir de alguma forma para sua vida. Quase nunca a vida usa a linguagem racional, prefere algo simbólico-metafórico. Por exemplo, esse episódio eu conto nos Pés Alados, me deu a louca aqui em São Paulo, subi num avião e acabei na Índia, querendo terminar em Katmandu. Peguei tudo quanto é roupa de frio, abrigo, roupa de neve pra subir montanha, subo num avião em direção a Amsterdam para fazer a conexão. Cai na besteira de pegar um livro pra ler durante a viagem e o autor, que era um psicologo francês, começa a fazer menções ao Egito. Aquilo foi me fascinando de uma forma que só cheguei em Amsterdam cancelei minha passagem para Delhi e dali pouco tempo cheguei ao Cairo, 40 graus e deserto, só tinha roupa de inverno na mala. Tive que comprar a roupa necessária para poder sobreviver. E essa viagem ao Egito foi importantíssima para mim. O psicólogo francês dizia que havia uma diferença fundamental entre as culturas indiana e egípcia antigas, a Índia era feminina por fora e masculina por dentro, o Egito sendo o contrário. Resolvi ver isso no Egito, a Índia já conhecia. E realmente tive uma percepção muito importante desse feminino interior. Há uma característica fundamental que diferencia o masculino e o feminino, o primeiro é representado por linhas e ângulos retos, enquanto o segundo é representado por curvas. Na índia tudo é curva, eles falam de um jeito redondo, a gestualidade é redonda, as mulheres inclusive, muita fruta, muita flor, tudo é quente e úmido, muito feminino. Esse é o exterior. Se você vai ver o pensamento indiano, vai ver que ele é reto, masculino, jejum, disciplina, ascese, o domínio de suas faculdades. Por dentro ela é toda masculina, cultuam valores de competitividade, heróis, vitória. O Egito é o contrário, absolutamente não é feminino por fora, todo o urbanismo reto, muito quente, muito árido, masculino. Mas de repente você entra numa pirâmide dessas no Vale dos Reis e os caras desenharam lá dentro outro mundo, um mundo redondo, os túneis são arredondados, os corredores e os desenhos em suas paredes. Quase não há luz, tudo se passa na penumbra. Sol masculino, lua feminina. Lá fora você tem um sol escaldante, aquele bruta deserto cheio de luz, e dentro das construções tudo parece que está iluminado pela luz da lua. É fundamental também perceber o gênero do lugar que você visita, a gente se alimenta das forças que existem nos lugares, é importante você saber se está absorvendo energias masculinas ou femininas. Sensibilidade é fundamental, existem muitas formas de energias que não apenas essa dualidade côncava-convexa, só posso esperar que cada vez mais encontremos novas sutilezas dentro da enorme gama de fluxos que a existência nos apresenta.

Sempre fui uma pessoa predominantemente masculina. Eu tinha uma exigência sobre meu trabalho que achava que ninguém poderia criticar nada, o tanto que aquilo estava bem feito. Perfeccionismo. Se eu tinha um projeto e ele não ia como eu queria ficava puto, entendia como uma derrota pessoal. Eu tinha ainda pouca adaptabilidade. Não suportava alguém que fizesse as coisas melhor do que eu, não admitia. Estava muito imbuído desse aspecto masculino pernicioso que é característico de nossa cultura, de nossa civilização. Ia jogar bingo, se não ganhasse ficava puto. Tinha que vencer sempre, ser sempre o herói. Quase uma doença. No Egito eu era muito jovem, não tinha nem trinta anos. Representou uma guinada, eu bebi daquela energia da penumbra. Neaquele luz, esses relevos hieroglifos que estão na parede, a luz lunar é tão pouca que não dá pra ler com os olhos, tem que ser com as mãos, botar outro sentido para funcionar, ler pelo tato. O ego lê pelos olhos, a alma pelas mãos. Claro que essa experiência no Egito não foi a única que me fez equilibrar o lado convexo, mas certamente me fez trabalhar melhor o lado feminino de acolher as coisas como elas vêm, sem querer ter esse poder de deus na mãos de moldar todas as coisas conforme meu desejo. Inclusive comecei a perceber esse defeito em outras pessoas, são pessoas que não vivem em função da realidade, mas em função de seu desejo. Cacilda, isso é uma loucura, a realidade é infinitamente mais forte do que meu desejo. Michael Jackson. É negro. Fez um tratamento, se ferrou, agora está com câncer de pele por querer ser branco. Mas o desejo dele não foi mais forte do que a realidade de ser negro? Cometeu uma violência e através de um processo químico destruiu sua pigmentação. Por que? Porque não aprendeu a lidar com a realidade, que é sempre mais poderosa.

Lidar com a multiplicidade do real dando caras e batendo pernas atrás de mundo é particularmente enriquecedor para narradores. Primeiro porque vai ter o que contar e baseado em experiências reais, que ele viveu, não baseado em fantasias ou relatos de segunda mão. Aliás isso me faz lembrar de uma entrevista que li sobre Cecilia Meireles, que dizia o seguinte e nunca me saiu da cabeça. Era muito elogiada porque tinha grande conteúdo e uma forma muito perfeita. O jornalista perguntou como ela conseguiu desenvolver essa forma tão elegante. Respondeu que nunca se preocupou com isso, se preocupou em viver intensamente, com uma segunda atenção, mas viva, mais plena. Depois, quando você metaboliza essa experiência, a linguagem narrativa vem sozinha. A linguagem é como um músculo que você desenvolve na prática. Se você escreve todo dia, trabalha seu texto, sempre vai escrever um pouquinho melhor. É igual tocar piano, um processo longo e gradual. O pianista não nasce nem com cabeça ou musculatura preparada para isso, tem que treinar muito, como tudo. Escrever é técnica. Agora, viver as experiências que você vai narrar usando a ferramenta técnica, isso aí não é musculação, é outro departamento. E esse lado, sobretudo para quem desenvolve uma narrativa tipo jornalistica, ela sempre antecede a escritura. Antes você vive a coisa, dá um tempinho para que se metabolize dentro de você, e então exprime, expressa componente que você integrou. Muitas vezes o ato, o esforço de expressão de uma vivência é duplamente útil. Em primeiro lugar porque você consegue contar uma história, uma experiência para alguém. A segunda vantagem é que no esforço de exprimir você vai entender muito melhor aquilo que viveu e aí é o momento de usar o ferramental intelectual, não antes. O erro que muita gente faz é botar o carro diante dos bois. Querer entender as coisas antes de vivê-las. Quando você cai neste erro só vai poder interpretar a partir de preconceitos, de idéias pré concebidas. Você não viveu aquilo ainda, não conhece, como vai conceber? Vai utilizar a imaginação, mas vai deformar a qualidade de uma experiência verdadeira.

Outra coisa importantíssima é a expectativa utópica. Quando você vai contar algo que não viveu acaba criando em sua imaginação uma expectativa utópica daquilo que você irá viver. Quando fazemos isso quase sempre estamos condenados a frustração porque a realidade da experiencia é impossível corresponder àquilo que foi imaginado. As vezes a realidade de tua experiência tem valores até melhor do que você imaginou, mas se tua expectativa utópica tiver sido muito poderosa, não vai conseguir perceber direito a realidade que te cerca. Por exemplo. Uma viagem. Eu quero ir para… Terra do Fogo. Quero ver as geleiras dos Andes desaguar no mar, no Chile. Antes de ir ao Chile ver isso daí fico criando mil geleiras na cabeça, os fiordes, o jeito como elas vão. Se eu fantasiar demais em cima disso, quando chegar lá, por mais bonitas e impressionantes que forem as geleiras reais que vou estar visitando, acabarei um pouco frustrado. Tudo aquilo que já criei na minha cabeça não encontra ressonância e o mundo sai parecendo um pouco mais falso.

E essa postura é responsável por informações distorcidas e deslocadas do real que hoje você vê por aí a dar com pau, principalmente no jornalismo. Agora joga isso para a vida afetiva das pessoas. Homens e mulheres. Há uma tendência de projetar, criar uma fantasia idealizada, uma expectativa utópica em relação ao parceiro ideal. Criam um personagem mítico na cabeça, em geral um personagem onde as virtudes superam largamente os defeitos e ficam alimentando aquela pessoinha que não existe. Mulheres fazem mais isso. De repente passa um carinha na vida daquela pessoa que demonstra interesse nela. Acontece que esse cara, como todos os seres humanos, tem algumas das qualidades antevistas por ela. Quando o camarada não corresponde àquele príncipe criado em sua cabeça, e a mulher rejeita o fulano, nem se dá ao trabalho de entender que aquele camarada que ela criou é absolutamente irreal, não existe na face da terra. Os homens fazem isso também, com relação a mulheres, amigos, tudo. Então vamos partir como regra de base com a seguinte postura. Me planto diante de um acontecimento de modo aberto, sem idéias pré concebidas, sem ter tomado partido e vou então observar imparcialmente isso daí, viver o processo inteirinho pela observação, metabolizar e só então, e finalmente, tirar minhas conclusões.

Você tem que começar por algum lado. A linguagem que se aprende na escola, a jornalística de texto, é um bom começo, desde que você não fique submisso àquilo. Trabalho como editor há muito tempo e cada vez mais me preocupa esses estagiários. Um condicionamento, querendo fazer tudo exclusivamente em cima dos padrões que aprende na faculdade. A primeira coisa que enfiaram na cabeça dela é que o texto jornalístico deve ser inteiramente impessoal, a pessoa do jornalista não pode aparecer no texto. Eu acho isso uma barbaridade completamente fajuta, não tem pé nem cabeça. A única coisa que caracteriza o texto é sua pessoalidade. Você não tem como se eximir de aparecer porque é um ser humano, não um autônomo. Um texto é uma expressão da cabeça de uma pessoa, da mesma forma que um quadro é um reflexo da alma do pintor. Quando você vê o quadro consegue, se o cara for bom, ler algo daquela pessoa. E o texto a mesma coisa. Eu tenho tanta experiência que chega um texto aqui eu leio e depois de quatro ou cinco parágrafos eu sei se é um cara introvertido, extrovertido, encontro algumas linhas básicas da personalidade dele. Mas isso são quarenta e tantos anos de experiência de ficar lendo texto. É impossível dissociar. Tenho uma estagiária aqui muito boa, que estou treinando para ficar na revista, efetivar a contratação. Mas chegou aqui viciada pela tal imparcialidade das universidades. Falei pra ela, sabe o que você vai fazer? escrever tal matéria na primeira pessoa. Deus me livre, respondeu. Vai sim, vai lá visitar a escola de chimpanzés e escrever tudo na primeira pessoa e redigir começando pelo “Eu entrei ali, eu vi tal”.

Aparte isso, o instrumental de base que a escola dá, que a faculdade dá, é imprescindível e a primeira ferramenta é a língua portuguesa. Não adianta nem tentar se não dominar. Tem gente que chega aqui com diploma registrado tudo bonitinho que não sabe nem conjugar verbo. E o pior nem é isso, se o camarada não tem o contexto, não domina bem a língua, um bom revisor dá jeito. Mas o que você faz se não tem raciocínio lógico desenvolvido? Jornalismo é contar história, apresentar fatos e desenvolver com começo meio e fim. Acho que o grande defeito da maioria das faculdades hoje é não treinar o aluno para o raciocínio linear.

Essa base é imprescindível, primeiro você precisa tê-la para depois se soltar. Retomo ao piano. Você começa com escalinhas, desenvolvendo musculatura das mãos, na flauta é musculatura de boca. Você precisa dominar aquela técnica de uma forma tão completa que se torna automático, algo que você faz sem pensar. A partir daí você entra com as acentuações melódicas, as tônicas, os tempos prolongados, as pausas, pausas de tensão, enfim, todo aquele mundo de sinais que se você não domina o código básico, como é que vai dar asas à sua sensibilidade na hora de tocar? O sentimento pode ser imenso, mas não tem como se exprimir se isso aqui não estiver perfeitamente azeitado. Se a língua que você escreve não tiver perfeitamente dominada e a técnica de redação perfeita, não tem como se libertar de amarras formais e produzir algo realmente inovador.

O problema de Hermes é que ele tem asas não só na cabeça mas também nos pés. Esse livro que você leu foi publicado também em Portugal e na França. Na frança chama “Itinerário de um filho do vento”, que são os filhos de Mercúrio. Asa nos pés, asa na cabeça. Aqui dentro, na redação, a asa da cabeça funciona perfeitamente, mas a dos pés fica inquieta, doida de estar sentados numa cadeira entre quatro paredes olhando para as caras das mesmas pessoas muito tempo. Diariamente fico sonhando em horizontes novos, paisagens que ainda não vi, línguas que ainda não ouvi. Comidas que ainda não conheço

Saudades? Sim, sobretudo daquilo que não conheço. Da mesma forma, quando tinha a sua idade, tinha saudade do futuro. Hoje, depois dos 60, saudade do futuro é um perigo. Mas eu tenho saudades daquilo que eu não conheço sim. E tenho uma inveja muito saudável de um cara como você, vai se formar, tanto tempo pela frente, vai encontrar um mundo fascinante ai se desenrolando. O que vai acontecer nesse século, cara… isso aqui vai ferver. Vai ser uma descoberta atrás da outra, o tempo está muito acelerado, as coisas vão se encavalar, as descobertas e descortinamentos. Eu devo ter três vezes mais do que você em idade cronológica. Te garanto, o tempo quando tinha vinte anos era diferente. Ele não corria como hoje. Não venha com conversa de que é nostalgia, só uma questão de percepção. Não. Há uma aceleração real. E vai ser o teu mundo. Eu vou ter mais dez, quinze anos de vida ativa que pretendo aproveitar muito bem até a última gota. Mas você cara, vai ver sessenta, setenta anos pela frente.

Essas tecnologias de telecomunicações que hoje estão hipervalorizadas na verdade ainda são incipientes e mesmo assim já conseguem aproximar bastante indivíduos muito diferentes entre si, acaba-se diminuindo a barreira entre eu e outro. Não sei porque, mas você falando isso me vem a cabeça a palavra respeito. A necessidade de ter respeito pelo outro, por seu semelhante. E desenvolver esse sentimento que é a base do budismo, a compaixão. E não no sentido babaca de esmola, caridade, mas no sentido de viver a sua paixão e compartilhar a paixão do outro, deixando que ele também compartilhe a sua experiência de vida, seu prazer, sua dor. Promover o relacionamento de uma forma tranquila, honesta, limpa. Eu acredito que esses meios tecnológicos vão influir sim, mas não de uma forma definitiva. Essa proximidade que eles criam necessariamente não alteram as condições de caráter ou os traços da alma das pessoas. Na época do nazismo massacraram seis, sete milhões de judeus. Essas pessoas eram os vizinhos dos nazistas, os médicos, professores dos alemães, sapateiros, açougueiros, gente com quem você se relacionava no dia a dia. Todo mundo junto, de repente pegam esse povo, ciganos e homossexuais, deficientes e vai todo mundo para um forno ser queimado? Que distância havia entre estes carrascos, a parcela carrasca, e as vítimas? Não havia distância física nenhuma, era a mesma sociedade, havia sim uma distância anímica, um abismo de alma. Que fazia com que eles não percebessem essas pessoas como seres humanos iguaizinhos a eles. Será que a internet vai ser capaz de preencher esse abismo de alma? Vai ajudar, com certeza, mas acho muito difícil. Todo meio de comunicação lança pontes sobre o abismo, mas uma melhora mais definitiva vai levar muito tempo.

Viajar é uma forma de lançar pontes sobre esses vãos. Você mesmo cria seu abismo ao construir ao redor de si uma redoma protetora que te isola do resto. Ou seja, ela te defende na medida em que não deixa os outros entrarem, mas você também não consegue sair dela. Quando fica parado está ali trancado. Às vezes se leva a redoma junto numa viagem, em geral isso é muito comum, mas minha experiência pessoal mostra que é muito mais fácil você enfraquecer esta estrutura e até mesmo rachá-la, quebrá-la, criar portas nela enquanto viaja, quando se desloca no tempo e no espaço. Por uma razão muito simples, quando viaja, quando chega a um lugar desconhecido, tudo ali é novo, você tem muito mais chance de esquecer de você mesmo, graças a deus, para se interessar por aquilo que está fora de você. Deixa de ser o centro gravitacional do universo, onde tudo orbita ao redor da sua pessoinha, e passa a ser exatamente aquilo que você é, um pontinho de luz rodando pelo mundo a fora com uma mochilinha nas costas no meio de milhões de pontinhos de luz iguaizinhos a você.

~ por Breno Castro Alves em 9/02/2010.

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