II – Daquela que fala com o corpo

Eliza Capai acabou fazendo uma iniciação científica durante a faculdade sem entender muito bem porque, achava incrível aquela coisa do intelectual de sair citando referências de memória, espontaneamente, rolava uma certa inveja de não ter essa cabeça. E não tem mesmo, acabou entendendo que o que tem é corpo, que processa e registra sensações no corpo, que se expressa por ele. Descobriu-se afásica, com dificuldade para comunicação verbal, e que isso não necessariamente compromete a expressão se você conseguir agregar outras linguagens, como mímica, teatro. Me conta isso segurando uma panela e não fala só com palavras, sacode ombros e braços com desenvoltura para deixar claro quem é que manda ali. Até a panela ganha expressão enquanto cozinha sopa de abóbora.

Acho quase desonesto reduzir esta mulher a texto apenas, mas hei, ela encontra a expressão que lhe comporta no vídeo e eu no texto corrido. Bom que provavelmente não sou afásico. Acontece que para expressá-la preciso de mais recursos do que só letrinhas justapostas. Quando Eliza fala todo o corpo acompanha, mãos voam livremente apenas porque são as extremidades mais móveis, tudo seu conjunto segue a mesma harmonia e até o tom de voz se altera para comportar a intenção, ora irônica, ora explosiva e se eu forçar até melancólica. Emula vozes e personagens com naturalidade cênica, nem tangencia o artificial. Se estiver de pé é possível enxergar a emoção que acompanha suas palavras no equilíbrio corporal fluido de dançarina. Seu eixo acompanha o verbo.

Como reproduzir isso por aqui? Complicado. Não vou ficar me intrometendo em seu relato para explicar que quando ela fala de ansiedade quase levanta da cadeira como que querendo arrancar alguns pedaços incômodos do corpo com as mãos. Acho que prefiro o itálico, talvez seja a melhor solução. Então, nos parágrafos que seguem, todos os itálicos demonstram um momento em que a expressividade da mulher supera tanto o verbal que merece ser destacada. Quando cruzar com um destes tente reler o trecho encaixando ali uma outra voz, uma expressão particular que faz sentido apenas se pensada além do puramente verbal. Afinal convenhamos que palavras, tadinhas, são tão precárias, não servem para muita coisa não. Mas o que há de se fazer senão lidar com elas? E porque diabos ela é personagem deste livro? Prefiro deixar a reposta para a própria. Daqui até o próximo título em negrito, sigo apenas com voz e corpo de Eliza Capai.

Sempre tive uma coisa nômade. Tem umas fichas que vão caindo ao longo da vida, só me dei conta recentemente que minha família inteira é assim. Minha mãe é do Rio e mora no Espírito Santo, meu pai ao contrário, mora no Rio e é do Espírito Santo, tenho um tio em Washington, uma prima em Brasília, outra em Fortaleza, outra no Texas, minha irmã em Niterói, o avô veio da Itália. Demorei pra sacar esse tesão porque não tinha grana pra viajar, não fazia parte da minha cultura, nunca sai do país com os pais. Eu lembro que de moleca gostava de pegar ônibus, adorava as duas horas que levava pra ir de Vitória até a casa da minha vó, tinha as maiores idéias naquele trajeto. Precisava resolver algo ia para a casa da vó, sozinha, de busa. E em Nova Iorque agora, a mesma coisa, estava dentro de casa deprimida, tinha que editar um documentário de uma amiga, não conseguia de angústia pessoal, foi botar o pé na rua e começar a rir, mesmo. Organiza a cabeça essa coisa de se ver em movimento.

Tem uma coisa de aprender a viajar também. É muito diferente ser mulher viajante, o discurso do terror é muito grande. Eu demorei para peitar os argumentos dos outros, sempre dava um medo de que se acontecesse alguma das coisas terríveis que todo mundo falava que aconteceriam eu ia me desarmar. Passei por semi-situações de perrengue até criar meus mecanismos de perceber que bem, não chega à noite num lugar que você não conhece e não tem onde ficar. Muito bonitinha né, chegar à noite de mochilinha, cabelão, biquininho, em qualquer lugar. Tem que ter preocupações que homem não tem e aprender a projetar segurança ao viajar. Ao longo você vai ficando mais confortável e sacando seus limites com mais facilidade, até onde dá pra ir sem cair em risco desnecessário. Sempre tenho um namorado que me ama muuuuito e por quem eu estou completamente apaixonada. Cara, é um saco descobrirem que você é brasileira num país machista. O cara descobre e te olha de cima abaixo como se estivesse seminua, vestindo paetê. E aí vinha meu namorado maravilhoso. Inventava isso que eu acho horrível de ter um homem pra me defender, mas, entre o risco e a caretice, fico careta.

Mas aí comecei também a ver o tamanho do discurso do terror nos nossos tempos, sei lá de quando veio essa porra, mas é aquele que diz que sempre o desconhecido é perigoso. Na América Central foi um absurdo, cheguei sozinha ao Panamá, sabia que Panamá e a Costa Rica ainda são mais tranquilos, Costa Rica é um tesão, não tem exército, é diferente de tudo na América Central. Mas aí você está lá, prestes a cruzar para a Nicarágua e te falam, Nicarágua, cê tá loca? Cê vai sozinha, vai se fuder, vai não sei o que. Cheguei lá tensa, tudo machista pra caralho, o primeiro ônibus que entrei tinha um homem gigante com um daqueles cintos de boiadeiro, chapéu, eu entrando sozinha era um daqueles ônibus de galinha, doze horas até não sei onde, ele olhou na minha cara e disse muito naturalmente “senta aqui do meu lado porque tá frio e eu quero que você me esquente”. Então eu sentei o mais longe que eu podia dele, fiquei lá sozinha eu e as galinhas e um monte de homem, em cada país me falavam que o seguinte ia ser pior, e depois pior ainda, cheguei a El Salvador sabendo que ia morrer, não tinha a menor dúvida, era sair do ônibus e viver mais cinco minutos, melhor aproveitar. Mas aí chega uma hora que você fala foda-se, estou aqui, tenho que estar aqui, não vou dar mole, não vou ter medo de estar aqui e não vou seguir todos os conselhos que me dão.

Em agosto de 2004 fui com o Jacques para a Venezuela cobrir o Chávez, era o referendo para ver se ele ia se reeleger. Foi minha primeira experiência de internacional mass media[, quando eu soube que nunca ia querer trabalhar com isso. Lá a gente viu o Jimmy Carter, analista internacional, falando, bem, esse é o resultado, não houve fraude. Então o editor daqui recebe a matéria e rebate dizendo que tá todo mundo falando que houve fraude, coloca aí que houve, foi tenso, tivemos que discutir muito dentro do casal. Eu vi então o papel desse correspondente formal da grande mídia, ele só é um cara pagando de bonitinho para justificar o que a rede quer falar, porque não importa muito o que o profissional está vendo no mundo, vai sair o que a rede já tinha na cabeça. Tenho um amigo, não vou queimar o filme dele, estava no México cobrindo a gripe agora, tem poucos meses. Nos encontramos em Nova Iorque e ele me mostrou as matérias, todas usando máscara. Perguntei se adiantava para alguma coisa ele disse que não fazia a menor diferença. Mas você fez uma matéria dizendo que as máscaras não servem para nada? Claro que não Lica, não quero perder meu trabalho. Aí a gente volta para o manter a paranóia de que o mundo é o caos. Aqui é seguro. Não sai, fique em casa, fique na sua cidade, fique com o que você conhece porque logo ali está a barbárie. A civilização só vai até onde se consegue enxergar.

Ainda em 2004 a paixão pela estrada e pelo conteúdo viajeiro foi tomando forma, ficando mais clara. Eu era documentarista do Teatro da Vertigem e nós fomos em dezoito até o Acre pesquisando material para o BR-3, espetáculo que levou dois anos pra ficar pronto. Dezoito pessoas juntas o tempo inteiro, todas ligadas ao teatro no interior de Rondônia, imagine, puta loucura, ainda com cronograma paulistano, que era muito tenso e eu não aguentava. Descobria alguém ali e não queria ir para outra entrevista, quero ouvir essa tiazinha falando sobre café até ela cansar. No Acre teve muito desses momentos, de estar lá, de se entregar para o momento, foi ali que eu entendi que queria fazer isso. Foi num seringau incrível que eu percebi minhas limitações de urbana, ouvi um barulho e perguntei para um moleque nossa, que passarinho é esse? É macaco. Merda, tô precisando andar mais por aqui. Aí todo mundo foi dormir nos quartos e eu amarrei minha rede nas traves de um gol e depois do campo era floresta amazônica virgenzassa, um céu muito louco e eu ali, em duas horas planejei meus próximos dez anos de vida. Pendurada no gol, na boca do mundo. Foi epifânico.

É um tesão viajar sozinha, mas cansa. Ter um conforto ali é legal. Descobri que meu grande tesão é viajar, mas eu me entedio no primeiro mês se não estiver produzindo. Se eu estiver trampando não tenho a menor vontade de voltar, nunca. Lembro de uma viagem com o Jacques, eram três meses de férias em 2005, íamos do norte de Minas até Buenos Aires de carro e de volta. No primeiro mês já tinha cansado demais viajar e então começamos a produzir, os dois jornalistas, esse lance do correspondente pintou ali naturalmente para mim por necessidade de fazer alguma coisa. Paramos um mês no Uruguai, começando a fazer cobertura para tv. Foi legal, o Jacques fazia uma coisa mais Band, correspondente, eu gravava e editava. Comecei a juntar o material que lidava e fiz algo mais artístico, juntei a posse do Tabaré Vázquez e também era carnaval, fiz uma materinha que foi para o Metrópolis. Entendi a vontade de montar as coisas por esse viés, sempre tentando escapar. No começo era difícil, eu não conseguia ver outro caminho, me parecia muito mais óbvio se tornar correspondente, não tem tantas pessoas fazendo o que a gente faz, demora para você cruzar com alguém e descobrir que, ah, é isso mesmo, ou não, não é isso, é aquilo, e pode ser qualquer coisa. Ficava tentando achar brecha por aí. Quando fomos morar na Argentina chegaram a me chamar para ser correspondente, mas cara, se eu entrasse ali ia ser muita energia para investir em algo que eu não queria. O caminho pra gente é de ir se achando, dá para achar brechas na mídia tradicional de propor pautas e conseguir uma grana com aquilo, pequena. Paga-se muito mal sabe, já está viajando não me enche o saco. Ou acha essas brechas de propor matérias de política e economia, ou vai começar a pensar em coisas que não estão óbvias. Queria fazer cobertura de cultura que me permitisse patrocinar algo maior, mais pessoal, aí eu me coloquei de produtora tentando vender um projeto para a Tam, para a Gol, para quem quisesse, para entrar de patrocínio numa tv aberta. E claro que não rolou, produção executiva é para quem pode, não para quem quer. Mas vi que era por ali o caminho, propor projetos.

Morei um tempo na Argentina e voltei de lá em 2007 num momento pessoal muito complicado, de separação. Vi que se eu chegasse a São Paulo em dezembro eu ia me matar, estava destruída emocionalmente, no fim de ano não rola frila e eu odeio São Paulo neste momento. Tinha uma graninha, fui pra Amazônia e aí deus existe, foi a coisa mais acertada. Entendi também que já que a gente não ganha tem que ser cara de pau, não vão me pagar vão me dar hotel. Fui fazer tudo que eu gostaria de fazer na Amazônia e que também é o que muita gente quer por lá, então vou contar para elas o que é legal e o que não é. Fui numa revista, a UM, e me autorizaram produzir em nome deles. Então eu fiz todos os cruzeiros, todos os cinco estrelas. Demorei uma semana para entender que isso era possível, que iam aceitar. É complicado por um lado que você tem um tratamento vip que nenhum hóspede tem, lembro de um hotel que me deram uma cabana do Tarzan sensacional com hidromassagem, gente isso é legal pra caralho, não precisa me pagar muito pra fazer isso não. Essa foi a primeira viagem que eu banquei com trabalho, banquei depois de voltar ainda vendendo conteúdo. Tinha três mil reais, fiquei dois meses viajando, no começo assim em hotéis e depois por conta própria. Esse lance de turismo é legal mas não é a minha, foi bom para me permitir algo que eu não poderia viver de outra forma e também para perceber uma coisa mais esquizofrênica que eu curto, cheguei a Manaus e fui direto para o cais, peguei um cruzeiro cinco estrelas incrível, eu e todos os europeus legais do mundo, voltei, fiquei nesse barco num quarto absurdo que a diária era maior do que o tanto que iam me pagar para fazer a matéria com as fotos, saí deste hotel, fui para o ponto de ônibus e segui pro hotel mais baratinho que eu encontrei no centro e foi do caralho, fui comer um sanduíche de pernil com uma cerveja à noite num boteco e ali encontrei pessoas que pareciam mais comigo. Aí fui escrever sobre o crescimento da população indígena, aumento de quem se denominava índio num lance de valorização de auto-estima mesmo. Isso foi janeiro e fevereiro de 2008, eu voltei muito apaixonada pelo trampo, consegui vender uma série de matérias que me pagaram a viagem e foi incrível.

Volto para cá, São Paulo, decidida, era disso que queria brincar. Planejei uma coisa de volta ao mundo, que no começo era muito simples a ideia, comprar uma dessas passagens que você tem não sei quantos trechos no mundo, achei que era mais vendável do que ir para um lugar só em termos de xaveco, quarenta anos da revolução feminina. Mas isso foi virando outro negócio, a gente tem que entender que se é simples é simples, quer ganhar grana vai trabalhar com publicidade em São Paulo, não é essa a proposta, agora não, não mesmo e ponto final. O projeto cresceu e virou outro negócio que ficou uma fortuna, fiquei esperando a resposta, a viagem tinha que começar em março, o xaveco era 08 de março de 2008, quarenta anos da revolução, sai ou não sai, e em fevereiro vi que não ia rolar. Nesse meio tempo me ligaram para fazer uma cobertura de imprensa de um seminário dos trabalhadores, porque eu trabalhei na TV CUT também, no Panamá. Fui com uma condição, passagem de volta em aberto, e fechamos. Aí foi incrível, porque eu não tinha nenhum dinheiro, só o que eu ia ganhar nessa uma semana de trabalho, e ainda tava com toda a energia da viagem que não tinha rolado. Então em três semanas peguei todas as ideias que tinha na cabeça, coloquei no papel e sai loucamente oferecendo pauta para todas as revistas que eu tinha contato e num dia assinei dois contratos. Acabei fazendo três, um com o Saia Justa, onde eu ia fazer perguntas para as mulheres dos países que eu estivesse. Para mim foi sensacional, eu não tinha a menor idéia, achei que ia mandar material bruto, tive uma reunião lá e aí a Monica Waldvoguel falou “faz o que você quiser, só não manda algo com cara de programa de domingo”. Olha que incrível, o que mais gosto de pirar é linguagem e ela me deu liberdade total, então fui fritando, coloquei umas coisas de videodança que eu curtia para passar na tv e rolou bem.

O segundo contrato foi com a TAL, Televisão América Latina. Propus uma outra coisa sobre migração de mulheres, que acabou rolando com a revista Fórum, lá publiquei uma série de oito matérias aprofundando migração de mulheres que foi mesmo minha grande paixão, aquilo que eu fui desenvolvendo e no final me fez muito bem entender de fato aquele assunto. Às vezes no jornalismo a gente faz tudo fragmentado e eu me sinto meio burra. Propus isso para a TAL e não rolou, mas a mulher me devolveu o projeto que eu tinha proposto para o Metrópolis na Argentina alguns anos antes, alguém que eu nem conhecia, eu fiquei uns dez segundos pálida na frente dela sem entender. Tá tudo bem? Nossa, esse era o meu sonho, achei que nunca ia rolar. Então em cada país ia atrás de artistas dali, via qual eu achava mais legal e fazia uma matéria sobre o trabalho deles. Foi incrível.

E aí saí com esses três projetos, eu, uma câmera de vídeo, uma fotográfica, um laptop, tudo no seguro. Não queria ter que pensar se eu poderia fazer alguma coisa ou não, queria fazer. A mochila de equipamento pesava seis quilos e a de roupa, que tinha livros de migração, dvds de backup, bota de chuva, pesava dezoito. Essa viagem durou nove meses e foi a mais intensa da vida, Cidade do Panamá até Nova Iorque de mochila. Ser independente é possível se você tem um foco e algum despojamento, porque cansa. Não tinha grana para hotel, ficava em albergue. Trancava minha mochila com o equipamento que era tudo que eu tinha acumulado na vida, além de uma penteadeira linda, suspensa, de pendurar no teto, que ficou na casa de uma amiga de uma amiga. Então um certo desprendimento de estar ali. Tinha época que dormia três noites por cama e isso é muito cansativo. Foi a experiência mais incrível que já tive na vida até agora, uma coisa de conhecimento fluido, de liberdade de escolha. Você passa por lugares que seu público não tem conhecimento formado, então pode falar o que quiser, pode escolher o viés que quiser que está valendo. Liberdade de escolha absurda, o que acarreta em tudo que vem junto, tinha hora que eu pensava pelo amor de deus alguém me dá uma ordem, não quero ter que pensar pra que lado do país que eu vou, se ônibus ou trem, se durmo ou sigo, ordem, mas não rolava, e aí eu dormia doze horas e acordava bem de novo.

Eu faço trinta esse ano. Descobri a crise dos trinta. Tenho amigos que estão ganhando grana pra caralho, um monte comprando casa, todos com carro. Mas começar a afundar nessa crise não existe. Tem uma coisa que eu me orgulho que é depois de ter dado o trampo na capital, apurado tudo que precisava, pensava qual era o lugar que mais queria conhecer naquele país e ia para uma praia do Caribe, ficava lá num quartinho de sete dólares editando de frente para o Caribe. Fiz isso num vulcão, em um monte de lugares. Tive vários momentos de entrar na água e chorar, eu não acredito que isso é minha vida, que está se bancando, umas emoções que eu nunca tinha sentido de olha o que estou fazendo, obrigado por isso eu, eu mesma. Quero ganhar dinheiro? Se eu tivesse ganhando dinheiro estaria o ano inteiro juntando para passar uma semana aqui onde estou trabalhando. Então foda-se ganhar dinheiro nesse momento. Mas aí tem a crise dos trinta, ter filhos, preciso juntar dinheiro, mas eu seguro, ainda não é o momento, tenho que ir pra África antes. Esse é meu deadline.

Fiz isso quando voltei para o Brasil também, ganhei um prêmio com um curta que fiz na tal viagem. Para a série de migração da Fórum entrevistei uma mãe que morava na Costa Rica e o filho que ficou na Nicarágua. Acabei fazendo um videozinho simples e bem apaixonado. A mãe, Georgina tava num momento muito difícil e desabafou comigo, não tinha ninguém para ouvi-la, sabe? Muito triste. Como já estava viajando há mais de cinco meses, todo mundo com saudade, acabei conseguindo ganhar o prêmio de público pela net. Com a tal grana do concurso fui para Ilha Grande organizar material de um doc sobre migração feminina na América Central que agora estou correndo atrás de leis de incentivo, Itaú Cultural, editais, todo mundo que puder me dar dinheiro. Fiquei um mês ali, um ritmo de vida maravilhoso produtivo para caralho, que é outra coisa da necessária, o ter tempo para parar, para deixar as coisas decantarem com mais calma, mas quando eu parar vai ser em Ilha Grande, não em São Paulo. Fui um pouco radical ali, sem arrependimentos, mas não repetiria tão cedo. Era uma pousada na praia ao lado da principal, tinha gerador das 09h às13h e também das 19h às 23h. Esse era meu horário de trabalho, e batia oito horas, o que é um bom tanto para trabalhar, se bem que seis são melhores. Aí saía à uma da tarde para ler o Rastro dos Cantos, fazer trilha, nadar, tirar um cochilo se quisesse, vivia intensamente, às sete já tinha tomado meu banho, visto o pôr do sol, comendo um sanduíche, acabando de renderizar o trabalho da manhã pra começar editar de novo. Tava editando um clipe, começava a nadar pensando não é esse o caminho. Sessenta e três horas de material para fazer cinco minutos de promo. Teu cérebro te elabora umas respostas. A gente tá pensando embora não perceba que está. Meu tio fala que tem dois tipos de texto, o cara totalmente estratégico, que sabe de onde saiu e para onde vai chegar, e quem é vomitivo, eu sou, suspeito que nômades tem uma tendência a isso. O que acontece, já tenho todas as entrevistas na cabeça, todas as leituras, todas, não aguento mais elas. Aí saio, vou mergulhar, enquanto estou mergulhando, vivendo, processando alguma coisa de corpo, de sol na pele, de movimento, um outro lugar do cérebro, aquela parte do racional, da migração feminina, tá lá, tátátá, eu que não vou ficar aqui sentado enquanto você tem que escrever isso, e quando você chega já está com o texto pronto. Tudo é movimento e a gente vem com essa babaquice de ter que ficar parado, quem inventou isso?

E lá eu fui ler o Rastro dos Cantos, do Mark Chetwin. É um inglês que faz esses livros de viagem sobre temas específicos e é apaixonante. E nesse ele vai para a Austrália para entender o que era o rastro dos cantos, que é como os aborígenes, simplificando de forma absurda, é como concebem e explicam a criação do mundo, enxergando aqui uma xícara, ali uma árvore e lá uma flor amarela, todos criados pelos cantos de seres divinos ainda no tempo dos sonhos, de gênese do mundo, e pelo rastro desses cantos você consegue acompanhar a criação e a relação entre todas as coisas. E ele discursa enquanto explica o todo, no meio da chuva, falando sobre nomadismo. É incrível. Quando fundamos as cidades passa a ser algo de conquistar espaço, quem tem essa coisa interna de estar parado é quem busca se estabelecer, controlar, poder acumular capital, quero um apartamento grande, um carro, conhecer todo mundo por aqui, saber onde está o melhor café, a melhor cantina italiana e tal. Quem tem o negócio do nomadismo não pode ter as mesmas relações de controle. Você precisa das pessoas, genuinamente precisa de seu porteiro, que seja, tem que tratar como um igual, demonstrar interesse por todos senão você tá fudido. Tem muito menos gosto pelo acúmulo de coisas, tudo que você quer é fechar uma mochila deste tamaninho. Festejei algumas vezes quando esqueci roupas por aí. Queria uma mala-mochila, seria ideal, mas é cara para caralho. Sabe dessas que tem rodinhas mas também dá pra levar nas costas? Menos coisas, mas coisas que durem.

Eu sei qual é meu modelo de viagem, ele funciona pra mim, não sei nada de modelo ideal. No começo eu estava muito rápida, olhava o guia e via os lugares queroirqueroirqueroir. Mas fiquei muito cansada, aquele monte de informação para lidar em outra língua, não dava tempo, um stress delicioso, mas um stress. Então tive que começar a segurar as pontas e lidar com uma ansiedade loouca de conhecer o México, fiquei quatro horas numas ruínas do sul do país e fui para a capital, já não tinha condições físicas nem emocionais. Quem viaja muito tem que aprender a lidar com essa ansiedade, não significa nada ir para trinta lugares num dia ou ficar trina dias num lugar, depende é do seu momento de lidar, não da escolha que você toma. A minha primeira grande crise foi na Guatemala. Foi tenso, sempre me falavam dos perigos, os três países ali Guatemala, El Salvador e Nicarágua passaram por guerras civis há pouco tempo, então muitas gangues, são países perigosos e machistas. Foi tenso. Comecei a ver que eu estava estressando quando gritei na rua, a única de cabelo enroladinho, berrando em espanhol que não era uma cachorra, foi foda, um erro, tipo hu calaboca doida. Tava sozinha, de tpm, com uma paixão platônica na cabeça, num quarto sem janela, úmido, aquela pessoa tava perto e não comigo, eu estava sozinha, me senti sozinha, me senti solitária. Sozinha é bom, solitária horrível. Queria dormir, ficar dez anos dormindo, entrar na menopausa e já ter passado as tpms todas da vida.

Nunca gostei de ficar doente, quando isso acontece é porque estou carente, quero atenção. No começo da viagem a família apavora, todo mundo falava para eu pagar o seguro de saúde. Não, não vou ficar doente. Ahh como você decide isso? Decido. Posso ser atropelada, posso, posso estar num acidente, posso, mas.. não vou estar. E não vou ficar doente. E fiquei seis meses sem um fung, um nada. Não estava aberta para doenças, estava para sacar meus limites. Sentia a coluna esquentando, sabia que era um princípio de uma febre, deitava e dormia quatorze horas, sabe, foda-se o deadline de amanhã.

Ai você começa a refinar o seu sacar limites. Perdi a carteira e fui roubada na Guatemala, foi a merda que aconteceu. Essa coisa de sacar o que rola, você bate o olho sabe se a pessoa vai te fazer bem ou mal, pode acreditar ou não, mas saca. Perdi a carteira, uma merda, perdi o cartão. Tinha dois cartões, essa é uma dica básica, ande sempre com dois cartões, o passaporte e um cartão em um lugar e o outro junto contigo. Fiquei sem dinheiro, só fui descobrir depois que já tinha cruzado o lago e não tinha como pagar, chorei loucamente, também é um mecanismo, quer chorar chora. Quando chego ao México, na casa do amigo do amigo do amigo, que me tratava como uma filha, levava salada de fruta de manhã, uma casa linda, onde eu me sentia segura, protegida, ali eu fiquei doente. Vi que meu corpo tava precisando e permiti que ele ficasse, conscientemente doente. Aí passei uma semana com febre, dengosa, foi ótimo. Mas depois também chega né, não dá pra passar tempo doente no México, cabou, melhor ir para o Caribe. O ponto ótimo mesmo de sacar o limite é se ligar antes do ficar doente e falar bem, já não dá mais mesmo, deixa eu ir embora, quero a mamãe, mas pra ter essa consciência plena tem que ser muito iluminado.

Problema são os lugares bem fronteira, que é terra ninguém, não tem muita mulher viajando sozinha. Querendo quebrar o lance do turista em muitos momentos eu me via completamente sozinha naquele local. O se fechar tem uma coisa energética de demonstrar que você não está aberta para aquilo. Cheguei a comprar uma faca para descascar pepino em público, sabe, pra mostrar que eu tinha aquela lâmina, vem querido, só uma giradinha no seu estômago, não precisa ser uma faca enorme. Mas sentia que tudo que colocava na faca era medo e eu não queria ter aquele medo. Melhor fechar desde dentro, não chega perto. E aí saí andando com o pepino na mão dando umas mordidonas, comendo ele inteiro. Se eu me sentia desprotegida dava umas sacudidas meio de doida no tripé, porque aquilo é um taco. É a mesma coisa da doença, você deixa claro se podem te atacar ou não. Não sei explicar isso, mas tem esse momento do não deixar brecha, essa postura de não abrir, de deixar claro que não faz sentido aquele cara te atacar. Não deixo.

O dia que fiquei com mais medo foi na fronteira Guatemala-México, tão barra pesada quanto a fronteira norte do México e sem os Estados Unidos ali. Tem muito ilegal querendo cruzar de todo lugar, terra de ninguém, país que acabou de sair de guerra civil com duzentos mil mortos. E, eu tava ali, numa cidade de fronteira, de tráfico de mulheres fortíssimo, querendo fazer uma matéria sobre prostituição. Sozinha. Pois é né. Eu, mulher, gringa, querendo entrar em puteiro para falar de tráfico de mulheres? Idiota. Ficava rodando pela cidade, morriam duas pessoas por noite ali, uma cidade muito pequena e muito violenta, tráfico de armas, de drogas, de gente, tudo. Idiota, você não tem o que fazer ali, vai ler um livro, vai citar a mulher do livro. Desisti de fazer essa matéria e foi muito frustrante. Cheguei lá brigando, fui me abrindo pra merda desde a fronteira. Já cheguei discutindo do cara falar “Quer que eu chame meu general? Você não manda nada aqui, quer que eu chame meu general?” Aí eu falei, não, eu não mando nada aqui. Mas Eliza, cê tá loca, brigando com um soldado na fronteira da Guatemala com o México porque ele não te avisou que teria que pagar mais vinte dólares? Tipo, quer mais vinte, amigo? Depois fui procurar hotel e me levaram numa espelunca horrível, com umas marcas de mão na parede, imunda, a mulher começou com um preço e acabou com outro e aí briguei com ela também “porque você não falou esse preço quando entrei aqui, tá querendo me roubar porque sou gringa?”. E aí eu tava louca, loucona, já tinha ido em três hotéis e brigado por isso. Toda a energia errada e falei, Eliza, conserta a energia agora. Tava passando, senti uma brisa saindo de uma sala, entrei e nem vi que era uma igreja, mas era, e perguntei qual era o melhor hotel da cidade. Me mostraram e eu fui, era simples, mas limpo e tinha o preço na parede, vinte dólares. Depois fiz contato pelas freiras, conheci as mulheres que eram da prostituição mas as freiras levaram para dentro, foram minhas personagens e entendi que era tudo que eu tinha para fazer ali. Agora volta para a capital.

Dei o limite. Se você não quiser virar personagem da sua matéria vai embora. Isso é outra tentação, o tempo inteiro você tem na cabeça que o pior que pode acontecer é virar personagem de seus textos. Como é aquele jornalista da Realidade que perdeu a perna no Vietnã, Zé Hamilton Ribeiro, nossa, quem não quer ser Hamilton? Se acontecer algo horrível aqui vou ter uma puta história, um texto que vai mudar minha vida. Tava falando sobre migração de mulheres e eu era uma mulher migrante, me estupra que eu vou ter uma matéria incrível, mas você quer isso gatinha? Claro que não. Você prefere mil vezes uma vidinha profissional de merda do que ser uma profissional incrível e traumatizada. Então volta para a capital.

Minha primeira grande viagem sozinha, a da Amazônia, foi em um momento de separação, precisava perder todas as referências para entender quem eu era. Ou seja, não ter o olhar da minha mãe, da minha irmã, medo de encontrar um amigo do ex, não ter ninguém me perguntando o que era para eu poder me responder o que que era. Viajar é o buscar-me e eu sei que esse eu é fluído e eu vejo mais e mais como cada hora é uma coisa. Sempre gostei de estar só, tinha a turma e a necessidade de ficar sozinha. Eu era a única pessoa que eu conhecia que ia para o cinema sozinha com dezessete e achava ótimo porque estava lá, dentro do filme. Saía ainda no filme, eram minhas primeiras grandes viagens. E quando começo a viajar sozinha vi que posso ser quem eu quiser. Se eu chegasse e falasse Oi eu sou Andréa, artista plástica, pinto pra caralho e não sei o que lá que lá, tenho sete maridos, ou sou lésbica, na verdade gosto de trepar com cães.. foda-se, eu vou embora amanhã, posso te contar o que eu quiser, e se está disposto a ser sincero você fala bem, se eu posso ser o que eu quiser eu vou ser o que quiser, então vou ser o que eu sou. Você gosta de dormir até tarde, tem certeza? Então dorme. Ninguém vai te acordar, mas você vai perder a praia. Fiquei cinco meses sem sair à noite. Sempre fui super baladeira, mas lá como estava em contato comigo eu queria o dia e foi assim. Depois de um monte quando chego em Nova Iorque, tinha tomado dez cervejas em cinco meses e fumado um cigarro, sedenta por esse outro lado que também sou eu. E eu não conheci Nova Iorque de dia, só de noite, era isso que eu queria então vamos lá. Então o tempo inteiro é o que você quer agora, quem você é agora? Então vamos ser.

Esse é um tipo de honestidade que rola pouco nesses rolês de albergue, as pessoas sempre falam de onde vieram e para onde vão, é um tipo de vício de viajante também, falar o quanto foi incrível o lugar anterior e quanto vai ser incrível o próximo, mas esquecer do presente. A gente fala muito. E sempre, não só em viagem. Quando você sai desse circuito turista padrão começa a encontrar gente diferente e interessante todo dia, que não responde as mesmas coisas que você está acostumado a ouvir sempre. Mas você sim repete as mesmas coisas, de onde veio, para onde vai, e nessa repetição fica clara sua mediocridade. E então você passa a falar menos. A observar mais, a absorver mais. A necessidade de se mostrar diminui, você vê o outro como interessante e fonte de vida e passa a se perceber de maneira mais honesta, como de fato é, menos do que aquela super mulher hiper legal que você constrói para seus amigos na cidade te acharem fodona e fica projetando sempre que pode, repetindo aquelas histórias que você sabe que vão fazer o povo rir porque você já contou dez vezes para pessoas diferentes e aí você vira uma repetição, ser bem sucedido socialmente é isso, criar uma justaposição de clichês bem encaixados. Lembro de um desses momentos sozinha no mundo, tava na Amazônia, vendo aquelas árvores enormes senti como era louco ser parte daquilo. Uma mulher ao meu lado, paulista, rebateu que não, não era somente parte daquilo, era aquilo de fato, inteira. Eu não processei racionalmente isso, acho que nunca até hoje, mas me ficou como um enigma absorvido que eu tento entender e não sei verbalizar.

Sempre busco contar histórias de pessoas pelas quais tenho admiração. Normalmente me apaixono por quem estou entrevistando, de alguma forma me sinto muito próxima, eu me coloco no lugar delas. É a coisa da fragilidade, viajando fica muito clara sua fragilidade total, então você chega a um ponto onde some aquele patamar repórter-entrevistado, aquela arrogância jornalística de chegar com umas perguntinhas já no script só esperando aquela pessoa responder o que você já planejou que ela vai dar. As pessoas te surpreendem cara, e tem umas que acabam te contando coisas que não contariam nem pros maridos, rola umas relações de intimidade muito intensa, algumas pessoas precisam falar e você está ali com interesse genuíno em escutar. É só assim que eu me sinto confortável numa entrevista, com interesse genuíno em trocar, não buscando só roubar a alma daquela pessoa. A gente está trocando, eu sou uma personagem para ela também, estou ali oferecendo o que eu puder e de uma forma humana, é um momento catártico. Não tenho a necessidade mass media de correr, então posso ficar ali dois dias, dormir na casa dela e terminar a entrevista com um beijo honesto. E tem vezes que esse encontro é tão intenso que não dá para sustentar, alguns momentos de intimidade tão forte que depois só me resta ir ao cinema e chorar.

Acho mais forte do que a solidão e do descobrir-se é a coisa de aprender apreciar as fragilidades e os pequenos milagres da vida. Eu lembro que na Amazônia eu entrei numas de que se eu atravessar o sinal agora ou depois vai mudar minha vida completamente, porque se a pessoa que conhecer no bar vai dizer para eu ir pra lá eu vou, se a outra disser que melhor é pra cá, eu vou. Rolou algo assim muito forte em El Salvador, um momento que mudou o resto da minha viagem profundamente. Estava fazendo uma entrevista e sabia que tinha um festival sobre migração rolando em todos os países da América Central e sempre ou acabava na hora que eu estava chegando ao país ou começava quando tinha acabado de ir embora e eu fui perdendo. Acabei a entrevista a mulher meteu a mão na lixeira e tirou uma revista, me deu falando que olha, você já viu esse festival que está rolando? Vi sim, mas acabou né, não, não acabou, vai ter uma retrospectiva domingo e isso não estava no site. Fui, vi um filme que era um cara viajando sozinho com a câmera pelo norte da Guatemala sul do México fazendo um trampo com migrantes. Falei, nossa, sou eu, homem alemão. Pesquisei quem era o cara, mandei um email dizendo Oi querido, me impressionei com seu filme, estou aqui fazendo o mesmo, pedi contatos, enfim, pedi ajuda. O cara se identificou comigo, afinal eu era ele mulher brasileira, e me colocou em contato com uma amiga na Guatemala, fiquei três semanas na casa dela. Encontrei uma das personagens que eu mais gosto por conta de uma outra pessoa que ele me colocou em contato. Antecipei minha ida para a Cidade do México porque ele ia estar lá apresentando o documentário, conheci, me apresentou para uma amiga que me apresentou para um amigo e eu fiquei um mês na casa do amigo da amiga do amigo, na tal casa que eu fiquei doente. O alemão também me colocou em contato com um amigo em Nova Iorque, mas esse cara estava indo para Guatemala rodar um filme dele, conheci sua namorada e a melhor amiga na última noite dele na cidade, que viraram minhas irmãs em Nova Iorque, a amiga me colocou em contato com um cara no Rio, cara que eu morei na casa dez dias me apaixonei achei que ia casar e ter filhos mas não vou, que aí já me apresentou.. a troco de uma revista no lixo! Eu vejo essa história tátátá, ge..gente.. que fragilidade de existência. Quando você toma consciência real de que a vida é um milagre e um milagre fluído, se eu não fosse entrevistar aquela mulher que quase não fui, se ela não lembrasse da revista no lixo ou se eu não mandasse o email para o alemão porque deu vergonha, a vida teria outro rumo completamente. Quando você está em deslocamento tem que se abrir para o melhor de hoje, que vai ser o melhor de amanhã também. Você só tem aquele dia naquele lugar com aquela pessoa, e se você estiver ali de verdade todo dia o resto da sua vida é ótimo. Tinha a sensação que podia morrer qualquer dia, não faria mal. Eu estou em dia. E não queria morrer, em dia nenhum, mas eu sabia que podia morrer, toda vez que passava um perrengue falava mata aí, foda-se, eu tô em dia, era uma coisa de estar plena, tudo certo, fiz tudo que tinha que fazer na minha vida até agora. Mas vou viver muito ainda, até os noventa e sete. Mas na vida real, parada, isso desanda. Não posso morrer hoje.

~ por Breno Castro Alves em 8/10/2009.

Uma resposta to “II – Daquela que fala com o corpo”

  1. Breno! Me desculpe pela demora com a reposta. Só vi seu comentário no blog hoje, acredita? Segue email para conversas: liviaazevedolima@gmail.com beijo!

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