I – De jornalismo umbigo e moinhos de vento

São Paulo é carente de Brasil. As lentes da orgulhosa locomotiva industrial tupiniquim enxergam vinte quilômetros ao redor da Praça da Sé, dez em torno de Copacabana e cinco a partir do Palácio do Planalto. Esses mirrados quilômetros quadrados desenham o latifúndio da mídia brasileira que propõe cobertura nacional – a saber, tevês, semanais e portais, jornalões correndo por fora – fenômeno que chamo cegueira do eixo RJ-SP-BSB. Todos os envolvidos no processo sabem que é pífia a cobertura realizada sobre larguíssimas áreas do território, sabem que padronizar é mais barato e dá mais retorno do que aprofundar. Também sabem das dificuldades em se realizar o trabalho, dificilmente os custos de enviar um repórter e bancar sua estadia em locais afastados serão financeiramente interessantes para o veículo. Sabem tudo isso e em momento algum esquecem onde está o público e a publicidade que financiam sua empresa. Em outras palavras, coberturas sobre temas distantes em cidades paupérrimas contribuem pouco para acrescentar à credibilidade e percepção de valor publicitário do veículo e, portanto, não são uma boa idéia empresarial. É muito dinheiro para bancar quatro ou sete pautas que poderiam ser feitas por telefone de uma forma ou de outra.

Para os consumidores desse pastiche de realidade que é o jornalismo, regiões inteiras logo ali além da fronteira não existem. Ou melhor, existem, mas não passam de uma massa amorfa pautada por três ou quatro conceitos fossilizados em décadas de cobertura estereotipada e preguiçosa. Em Belém ou chove o dia todo ou chove todo dia. As cidades do sertão pernambucano se bastam em velhos de chapéu de couro sentados na soleira e bodes pastando qualquer vegetal ressacado. Do Mato Grosso do Sul às bordas da Amazônia não há nada além de soja. As Serras Gaúchas, que belas, um monte de alemãozinhos acordando em campos de geada. Enxergamos nosso país através de uma bricolagem de estereótipos que veículos massificadores como Jornal Nacional ou Veja possuem interesse comercial em reforçar e o fazem sem pudores. A experiência local é subvalorizada e filtrada por redações impregnadas de metrópoles capitalistas. O continentebrasil é reduzido a meia hora de informes sobre ônibus que viraram em estradas distantes ou casas que foram arrastadas pela enchente logo antes da novela. Que, claro, versa sobre uma família rica da zona sul carioca. São Paulo entra com o jornalismo racional, objetivo, aquele que dita as regras que regem uma sociedade, enquanto o Rio se encarrega da novela, demonstrando em artes cínicas como tais regras se aplicam à vida cotidiana.

O repórter itinerante surge meio guerrilheiro neste contexto, há algo de cruzada pessoal e cavaleiro errante na composição do personagem, pegar o mundo na unha e reestruturá-lo como retrato honesto, apaixonado, mais real do que a realidade justamente porque inventado. Espaço em mídias de abrangência nacional são o graal a ser buscado. Tal espaço existe e precisa ser conquistado via identificação de editores sensíveis a essa carência de país que seus leitores possuem. Embora possa parecer, o corpo de editores destes canais massificadores não são apenas obtusos velhos engessados dedicados à manutenção do status quo. Existem aqueles sensíveis o suficiente para comprar a idéia e publicar sua matéria, existem estas brechas que podem ser exploradas por repórteres suficientemente dispostos a encarar os perrengues associados. Ninguém vai financiar sua empreitada, os custos são proibitivos, ainda mais se falamos de um estudante ou recém-formado, então trate de se virar para fazer acontecer. Desenvolva uma proposta de pauta muito boa ou jogue texto pronto na mão do editor certo. Antes de meu primeiro mês de viagem consegui contato com o editor que precisava na CartaCapital. Lhe escrevi dizendo que Olá, estou aqui no mundo, gostaria de alguma coisa? Não tive resposta, imagine a quantidade de propostas inócuas que um profissional destes recebe de jornalistas perdidos por aí. Aguardei cinco dias e lhe enviei um texto pronto. A resposta veio em quinze minutos, interessa, tem fotos? Descobri que existe mercado ávido para quem oferta conteúdo de regiões negligenciadas à preços de banana. Basta tirar o fator custos proibitivos da equação que o retorno para o veículo se torna consideravelmente mais atraente. Constatei que sim, a redação padrão possui interesse em matérias destes locais, ela só não sabe como realizar o trabalho e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Reconheço que minha experiência é limitada, afinal sou foca, necessito mais experiência e contexto de redação para prosseguir confortavelmente numa análise pessoal do quadro. Assim sendo, entendi melhor tornar minhas algumas experiências de profissionais que admiro. Os próximos três capítulos são isso, encontrei uma forma para expressar cada entrevistado e concordo com tudo que está escrito ali.

Mas isso tudo serve para alguma coisa? Faz sentido buscar algo assim, buscar aproximar pontos extremos de uma sociedade às custas de conforto pessoal? Existe qualquer resultado prático nesse exercício jornalístico de quebrar estereótipos? Me pergunto se uma matéria publicada em revista paulista sobre comunidade de pescadores no sertão cearense, às beiras do Orós, altera em qualquer medida a vida ou de quem pesca aqueles peixes ou de quem lê sobre eles. Não tenho resposta, apenas sei que devo fazê-lo ou me anular negando o narrador nômade que sou. Meu objetivo por muito tempo foi salvar o mundo, bom que percebi em tempo o idealismo utópico que tal caminho exala. E utopias, como todos sabem, são anacronismos superados. Hoje estou mais realista, por enquanto me contentarei em derrubar a civilização ocidental.

~ por Breno Castro Alves em 30/09/2009.

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