III – De Jack Kerouac


Our battered suitcases were piled on the sidewalk again; we had longer ways to go. But no mather, the road is life.

O Hudson 1949 era provavelmente o melhor carro para levar aqueles dois. Modelo elegante, preto, já vinha de fábrica tão rebaixado que era necessário descer um degrau depois de entrar pelas sólidas portas da magnífica barca de metal. Seu motor V8 batia setenta, oitenta milhas por hora sem maiores problemas, frequentemente alcançando cem milhas por hora e alguns problemas, rasgando as estradas que nos anos 40 ligavam Pacífico, Atlântico, Canadá e México, toda a malha de asfalto dos Estados Unidos de Harry Truman. A direção era responsabilidade do pé-de-chumbo Neal Cassidy, que pensava e falava tão rápido quanto dirigia. À Jack Kerouac cabia mais entender o país que passava veloz além da janela de passageiro e dentro de seu peito.

As viagens da dupla são o esqueleto narrativo de On the road, a incendiária narrativa de Kerouac que desencadeou uma revolução cultural na estrutura social ianque. Cruzaram o continente de costa a costa várias vezes, ávidos a chegar a São Francisco, Denver, Texas, Nova Iorque, Chicago, Cidade do México ou a grande cidade mais próxima. Utilizavam qualquer veículo disponível, o Hudson não aguentou muito tempo a intensidade de Cassidy ao volante. Pegaram carona com tantos tipos diferentes que sua compilação pode oferecer um bom referencial do que era seu país em imensidão de padrarias, montanhas, desertos e campos. Não podiam parar, não viajavam para parar ou chegar, seu objetivo era a estrada, o único caminho possível para se encontrar era trilhar todos eles, cruzar infinitamente as vastidões de planícies batida com sonho americano para emergir de toda sua podridão e generosidade de mãos vazias, tão solitários e deslocados e acabados e chapados como sempre foram. Viviam em um país militar e conservador, acabara de sair da guerra mais sangrenta que a humanidade já vira e começava uma outra sem qualquer perspectiva de vitória. Além da certeza de que a Guerra Fria se estenderia por tempo indefinido, misseis intercontinentais e uma possível destruição nuclear sobrevoavam regularmente as cabeças protestantes da América do Norte. Apenas uma ameaça era maior do que a chuva atômica soviética: sua ideologia subversiva. Era tempo de produção, tempo de esforço bélico, de mostrar ao mundo quem era mais fodão e o cidadão comum, cônscio de seu pátrio dever, deveria encontrar seu lugar como engrenagem da grande máquina industrial bélica cultural que fará da America o maior país do mundo e do capitalismo sua ideologia. “Essa é a história da America, todos fazendo o que pensam que deveriam fazer”, escreveu em On the Road.

Aleluia aos deslocados, salvem os solitários desolados e os vagabundos iluminados, patrocinem os príncipes melancólicos e bebam pelos os gênios arrasados, personagens cubistas que dolorosamente não encaixam no esquema oficial. Trabalham sua dor como ourives, é o que lhes resta e salva. Tornam-se íntimos de uma estranheza que neles não começa ou termina, sabem como expressá-la com letras no papel, acordes de harmonia ou imagens bem compostas e nesse processo de lidar com o peso do mundo que soterra transbordando seus corações acabam por criar essas jóias líricas que redimem e orientam a humanidade. Kerouac sabe-se pária. Desde sua origem de imigrante franco-canadense até uma morte semi suicida por cirrose alcoólica aos 47, fez questão de beber os loucos de plantão que o mundo insiste em oferecer. Uma das passagens mais famosas de seu livro clássico assume a disposição de ser ima de malucos a que o autor se propôs durante boa parte de sua vida: “Falo também sobre Roy Johnson e Big Ed Dunkel, seus amigos de infância, seus companheiros de rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles varavam as ruas juntos absorvendo tudo com aquele jeito que tinham no começo, e que mais tarde se tornaria muito mais melancólico, perceptivo e vazio. Mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito em toda minha vida, sempre rastejando atrás das pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e nunca dizem um lugar comum, ao invés disso queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo em teias de aranha pelas estrelas e você finalmente vê em seu centro fervilhante um brilho azul e intenso explodir e todos “aaaaaaah!.”

É neste tipo de louco que Kerouac encontra suas jóias brutas. Nasceu em Lowell, Massachussets, 1922, terceiro filho de franco canadenses que imigraram em busca de emprego na indústria do florir do século americano. Em 1942, em plena segunda guerra, entrou para a marinha mercante de seu país e no ano seguinte alistou-se na marinha regular; logo foi dispensado por motivos psicológicos. Era muito indiferente àquilo tudo, não possuía a disposição de um verdadeiro marinheiro ianque. Em 1944 foi estudar na universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde conheceu amigos como Allen Ginsberg, Lucien Carr e Gregory Corso. Tal círculo de amizades é a semente do que depois viria a se consagrar como a geração beat que, ainda que marcada por seu forte caráter antiacadêmico e iconoclasta, começou de fato no ambiente altamente formalista da Columbia dos anos 40, a mesma atmosfera que produziu nomes como Louis Simpson e David Hall, campeões da burilação textual, segundo avalia a Wikipedia. Os beats, porém, necessitavam mais crueza do que o ambiente acadêmico poderia lhes proporcionar e encontraram na Times Square, então reduto de bêbados, malandros, vagabundos, michês, homossexuais, drogados, loucos e desajustados, chame como quiser, ali estava seu refúgio na metrópole culminante do capitalismo. Conheceram William S. Burroughs, uma década mais velho, poeta maduro e bagaceira, já havia cruzado os Estados Unidos diversas vezes e também vivera na Europa e África, usara todas as drogas conhecidas e algumas que ainda não haviam entrado nos livros, tivera todo tipo de profissão e quebrara a lei de tantas formas quanto conseguiu imaginar. Burroughs, maluco lendário, serviu como grande referência e influenciou o grupo de amigos que ainda não se chamavam beats, mesmo já o sendo.

Gênios arrasados
A honra de cunhar o termo cabe a Herbert Huncke, vigarista, garoto de programa, ladrão e malandro, logo, amigo espontâneo do grupo, batia cartão na Times Square. Huncke conheceu primeiro Burroughs, quando este tentou lhe vender uma submetralhadora e uma caixa de ampolas de heroína num bar local. Desconfiou que o poeta seria um policial disfarçado, avaliando que a proposta era absurda demais para ser verdade. A amizade começou quando, após injetar quantidades cavalares da substância junto com Burroughs, concluiu que ele provavelmente não era um policial e sendo também um cara legal seria mais do que digno de sua amizade. Huncke, americano pobre de Chicago, era fonte perfeita da hiper realidade que os beats buscavam então, representava a classe mais pobre da America e assim ensinava algo que o grupo de classe média não acharia em seu umbigo. Utilizava o termo beat, corruptela de beat down, para designar a vida, o zeitgeist do pós guerra. Beat down significa caído, gasto, inútil, moído de pancada, na lona, e sintetizava bem o sentimento de uma geração desiludida a quem o sonho americano não dizia nada, muito diferente da prolixa e disponível em qualquer drogaria benzedrina, que dizia horrores. Kerouac se apropriou do termo e logo acrescentou mais algumas camadas de subjetividade a essas quatro letras. Beat é o radical de beatitude, sonoridade que grande apelo na alma mística e profundamente católica do escritor franco-canandense. Por este lado os beats seriam os santos loucos, os iluminados vagabundos que redimiriam uma America podre, míope e opressiva com sua dor e confusão, sua generosidade e sensibilidade. Diz Kerouac: “Eu gosto de coisas demais e me encontro todo confuso e sobrecarregado correndo de uma estrela cadente até a próxima até não aguentar e cair. Eu não tinha nada a oferecer exceto minha própria confusão”. Finalmente, ainda descascando o beat, temos que o termo significa também batida, como batida do coração ou batida de música. O ritmo frenético e hipnotizante do jazz é influencia assumida do escritor, os rádios dos carros, isto é, aqueles rádios que funcionavam enquanto um beat dirigia o veículo, tocavam bop alucinadamente sax profundos clarins rasgados indo e vindo muma melodia infinita, ecstasy da mente nessa batida esse ritmo incessante de notas e notas e costuras e improvisos encaixaram muito bem nos parágrafos alongados e sentenças que se emendavam numa sequência assustadora até então nunca escrita com tanta convicção, isto é, um único parágrafo se estendendo por 120 pés de papel datilografado é convicção, aquela jam session de períodos em loop, cada verso de sua prosa uma batida musical, um agudo do piano, uma tira do sax, escrito como se falasse tentando de propósito correr ou alongar pra terminar as idéias um segundo antes do fôlego. Agora pense um cara desse lendo um trecho de seus escritos num bar sujo, cheio de nego genial tomando uísque e fumando uns negocinho.

On the road é uma obra oral, cheia de vogais, com sons abertos e generosos, produzida para ser lida em voz alta e falar ao coração, o que ninguém realizava melhor do que o próprio Kerouac. Algumas gravações dele pegam em cheio no peito daqueles que sentem o quanto a estrada é apelativa e o quanto ela tem a oferecer à busca por auto conhecimento e expansão da consciência. Tal efeito é bem melhor demonstrado na batida, no ritmo, on the beat que Kerouac lê o que escreve. Traduzi-la ao papel é apresentar uma paródia da expressão inicial do autor e ler Kerouac em português é imaginar ou entender que sim, filho da puta cara, aqueles parágrafos realmente devem ser geniais em inglês. A melhor definição de beat já cunhada não pode ser traduzida e merece seguir concisa em sua língua original, na verdade deveria ser a trilha sonora deste trabalho, aliás, acaso esteja lendo perto dum computador, por favor abra o Youtube e encontre algumas entrevistas, algumas leituras públicas proferidas por Jack Kerouac e analise as capacidades de bardo deste narrador de mundo. Conforme ele escreveu em Desolation Angels, para começar a fugir de On the road e que nem tente traduzir, se estrepa: and everything is going to the beat – It’s the beat generation, it be-at, it’s the beat to keep, it’s the beat of the heart, it’s being beat and down in the world and like oldtime lowdown and like in ancient civilizations the slave boatmen rowing galleys to a beat and servants spinning pottery to a beat.

Bebop on loop

Seu ritmo tem tanta influência de Dizzie Gilepsie e Miles Davis quanto da 1 – fenilpropano 2 – amina ou, para os chegados, benzedrina, a ancestral hard core das atuais anfetaminas. A substância percorre On the road sob a alcunha de Bennie e completa a fauna de psicoativos que Kerouac e seu bando utilizam. Bennie, porém, tem papel especial nesta história. Foi chapado de tal química e de café que o escritor encarou as três semanas de frenesi literário também conhecidas por On the road. A substância lhe concedeu energia e resistência sobre humanas necessárias para concluir seu tour de force, o mergulho dentro de si que foi escrever ininterruptamente pela maior parte daqueles dias. Jack adaptou uma bobina de fax a sua máquina de escrever apenas para não necessitar trocar de folha a cada tanto de texto e assim poder digitar sem interrupções. O resultado foi o mitológico pergaminho contínuo de quase quarenta metros, cento e vinte pés sem qualquer divisão de capítulo. Impossivelmente, deliberadamente, tampouco existiam parágrafos, apenas um grande bloco contínuo estendendo-se por toda a América do Norte, um fluxo único de texto praticamente sem pontos finais e com pouquíssimas vírgulas cobrindo a distância entre os dois oceanos americanos quatro vezes, passando ainda pelo México e por todas infinitas e surreais situações vividas e inventadas por ele e seus amigos no trajeto. De fato, falamos de Dean Moriarty. Entre todos os amigos que povoam o panteão frito do livro, Neal Cassady, traduzido como Dean, é a grande chama que move On the road e Kerouac pelo país. Quando ele menciona os fogos de artifício e tudo mundo fazendo ahhhh! está se referindo a forma como Neal Cassady se uniu maravilhosamente a Allen Ginsberg, ou Carlo Marx. É a explosão deles pelas estrelas que Sal Paradise, aka Jack Kerouac, aka Sad Paradaise, observa e reserva, seguindo sua resiliente disposição de acumular mundo em si para depois colocar tudo fora num inacreditável jorro lírico.

Tal é sua proposta de prosa espontânea, escrever sem parar para formatar o que o inconsciente nos oferece e apenas seguir seguir seguir sem se preocupar com estereótipos e amarras formais nos oferecidas desde antes de nascermos todos os grandes campos da gramática, sintaxe, literatura e sociedade. A necessidade que Kerouac possuía de escrever ininterruptamente fica clara em trechos do manuscrito original que não são palavras, apenas letras digitadas a esmo, dedos carregados de benzedrina se movendo mais rápido do que a mente podia processar imprimindo quaisquer tipos naquele papel, dando ao cérebro tempo para acompanhar o ritmo frenético imposto pelos músculos. De fato enormes seções de On the road são descrições simples, quase estéreis, onde o autor desfia detalhes inacabáveis de memórias aparentemente sem maior interesse literário. Por deus, quantos caronistas diferentes você pode encontrar? É preciso descrever cada um deles? Cada carona no maldito caminho? Mais, é possível lembrar disse tudo? Usando esse tanto de droga? Inventado ou não, espontâneo ou não, o fato era que o rapaz escrevia, e muito, e rápido, quase qualquer coisa. Foi essa verborragia que levou Truman Capote a dizer que o que Kerouac faz não é escrever, apenas digitar. Porém não se desvie do texto, leitor ansioso, leitora internética, em dado momento no meio daquela pilha de letras aparentemente banais surge uma sequência de quatro ou cinco linhas absolutamente geniais, onde Kerouac destila suas mais puras sensibilidade e percepção de mundo naquilo que foi aclamado como a bíblia de uma geração. Normalmente estes títulos não surgem à toa e merecem nosso respeito. Retomo o reconhecimento que a publicação do livro rendeu ao autor após a digressão que segue.

Eu, Breno, em três muito claros momentos de minha viagem alcancei algo próximo à prosa espontânea. Se é que existem coincidências na vida, digo que todos os três casos aconteceram no Maranhão, entre maio e junho de 2008, se bem que o último deles começou no Maranhão e acabou no Pará, ponto final do trem, mas enfim, coloco este aqui por considerá-lo o mais significativo exemplo de prosa espontânea minha, onde de fato me senti como meio, como expressão de um fluxo que não era meu, ao menos não racionalmente, não conscientemente meu, plenamente meio. Em dado momento não havia mais a fazer senão seguir escrevendo, seguir colocando no papel aquela história que eu não sabia porque tinha começado e nem onde ia parar. Peço perdão à saída fácil de metatexto, discuto o texto nele mesmo, mas, como já coloquei, não havia nada que eu pudesse fazer, estava submetido, conquistado por meu instrumento e minha mão direita; naquele dia a caneta acordou meio totalitária.

A caneta acordou meio totalitária
O Palácio dos Leões é de onde assina seus decretos e ofícios o executivo maranhense. Casa Neoclássica de esqueleto português e com restos de açucar colonial nas frestas de todas as suas salas, o prédio é uma ampla construção horizontal e branquinha. Mas a localização é que vale o post: pegue a Beira-mar e, logo antes do cais, quebre a direita na ladeira. Ali em cima, de peito aberto pro mar, no alto de uma colina com um muro duns 20 metros de pedra, estão os vigilantes e burocráticos leões do norte, e não estou falando de garrafas de jurubeba.
Ah sim, o palácio delimita uma das pontas de uma sequência de praças que forma um L no coração de São Luis, sentença esta última que pode ser reproduzida integralmente para descrever a posição da Catedral da Sé, também muito bela e no pico do bé do L. Chatíssimo.

E aí tem as gentes. Aquele povo todo diverso sentado passeando andando pirando curtindo correndo dirigindo ao redor em cima dentro do jardim dos leões. Excelente o cidadão que desenvolveu o conceito de apropriação do espaço público e valor de uso da cidade. Em momento inspirado, tal serumano vestiu o teórico e deu nome praquilo que a gente sente e sabe sem dizer que sabe. O teórico padroniza e classifica um sentimento espontâneo do coletivo, esquematiza-o de forma que possamos operar o racional por cima com nosso telencéfalo altamente desenvolvido e assim tranquilizar nossas almas com a certeza de que aquele campo está definido, empacotado e pasteurizado em livro e tese.

É o polo oposto ao artista. Este dá vida a conceitos cristalizados utilizando, de forma antecipada e meticulosa, sensibilidade mútua para alcançar seu público. Não dá nome ao que todos sabem, aucontraire, dá cor som forma ritmo pra cada um apreender como seu contexto pessoal permitir aquele sentimento que supera o indivíduo e une os receptores.

É o exercício que tento fazer, buscando a linguagem mais eficiente e elegante possível. O caderno, sem ctrls da vida, é rabiscado e repensado, algumas palavras deste texto estão em sua quarta, terceira versão.

Texto este aqui que poderia ter sido sobre qualquer coisa. A população do jardim dos leões foi a escolha inicial, mas já há algum tempo a caneta tomou o controle e decidiu escrever sobre ela mesma. Agora sou apenas um observador, menos do que isso, sou forçado por ela a redigir essas palavras. É um instrumento cruel, dita meus pensamentos e obriga a mão a trabalhar num ritmo desumano que transforma a letra num quase garrancho, ofendendo de cara lavada tendões e músculos no processo. No momento sou uma lagarta de mariposa e a caneta uma daquelas vespas escravocratas que obriga outrem a fazer o trabalho sujo para si.

Me perguntaram hoje qual era minha meta-narrativa e eu não tinha pensado nisso ainda. Bom, pensar não pensei em nenhum momento, agora não penso; escrevo. E lá se vai toda métrica e atenção dedicada dos primeiros parágrafos, virou jorro e fluxo constante de palavras. Qual dos dois estilos você prefere? Acho que o inconsciente aceitou o desafio e teve senso de oportunidade para tomar o controle de minha mão direita e escrever sobre ele mesmo enquanto estou aqui bem em frente ao palácio maranhense. Então vamos lá, canal aberto com o insconsciente é para se aproveitar. Uma cena qualquer. Leopardo na África subsaariana correndo e tudo tem a mesma cor desbotada de dourado. Outra cena. Laboratório Submarino 2020, é um desenho do Cartoon, se nunca viu nem discute aperta agora ctrl t e você sabe onde fica o iutube. Outra cena, algo que não venha da tv. Formigas numa estrada de terra, uma trilha daquelas vermelhas cabeçudas carregando folhas verdes verdinhas aqui e acolá no barro esburacado das vias do interior. Gostaria de uma folha com manchas para ver algumas coisa nela. Folhas de árvore servem, são iguais a nuvem? Não, os galhos estão muito próximos, só dá para ver desenhos na silhueta, que por sinal é de um peixe rastafari.

banco do brasil, capitania dos portos, tribunal de justiça e palácio do governo. Esses tudo pertinho um do lado do outro ao meu redor. Financeiro, militar, judiciário e executivo. E bem ali, de frente pro mar, um cantinho onde uns gostariam de usar drogas e outros se pegam com tesão homossexual. Na cara do gol, pertinho do que descrevi mas tipo numa ponta da muralha que se ergue 20m acima da Beira-mar.

É uma bela cidade.

Analisar a relação entre momentos de viagem, de extremo deslocamento pessoal, e o surgimento destas situações de canal aberto com o inconsciente desaguando em manifestações expressivas individuais, que tanto no meu caso quanto de Kerouac dão-se pelas letras enfileiradas, diga-se, foge ao alcance deste trabalho e permanece como um desafio pessoal a desenvolver e, senão desvendar, ao menos aprender como utilizá-lo de forma mais intensa e quem sabe algum dia escrever algo que realmente preste. Isto posto, descarto qualquer possibilidade de estar me comparando a Keroauc. Meu fluxo de prosa espontânea acima submetido foi curto, durou não mais do que meia hora e rendeu apenas alguns parágrafos num blog que me é tão querido quanto negligenciado, tampouco tinha eu tubos e mais tubos de benzedrina disponível ou a melancolia solitária trabalhada necessária em doses maiores do que a anfetamina, é afinal muito diferente de um pergaminho de quarenta metros escrito por um gênio devastado em 1951, que foi vendido recentemente em leilão por US$ 2,2 milhões e desencadeou uma revolução cultural no final dos anos 50, mais precisamente a partir de 57, quando publicado. O autor necessitou seis anos e uma enxurrada de negativas até finalmente conseguir editora para sua obra mais famosa. O texto era visceral demais, confuso demais, intenso demais, não seria entendido por executivos de livros que lidam mais com números e lucros do que com genuínas manifestações de lirismo e estranheza. A Viking aceitou imprimí-lo, contanto que pudesse editá-lo radicalmente. O enorme parágrafo original foi editado, o autor foi obrigado a cortar umas 120 páginas e a editora outro tanto enorme, além de criar uma até então inexistente divisão em cinco capítulos, centenas de parágrafos forjados e “uma porrada de vírgulas inúteis”, segundo o Kerouac avaliou. Foi sucesso imediato.

Spiders that burn, burn, burn
“On the road é o segundo romance de Jack Kerouac e sua publicação é um evento histórico, na medida em que o surgimento de uma verdadeira obra de arte concorre para desvendar o espírito de uma época. (…) É a mais belamente executada, a mais límpida e se constitui na mais importante manifestação da geração que o próprio Keroauc, anos atrás, batizou de beat e da qual o principal avatar é ele mesmo”, escreveu no The New York Times o crítico Gilbert Millstein. Foi a fagulha que incendiou campos de juventude ávida por anti heróis e ícones inconformados como James Dean, Elvis Preasley e, agora, Kerouac. Bob Dylan, o folk hero que se elevaria em alguns anos tomando o bastão de bardo e poeta da juventude declarou que o On the road “foi como uma bíblia para mim. Eu amava aquelas as frases dinâmicas, carregadas de poesia bop que não dão tempo para respirar. Submergi na atmosfera de tudo que Kerouac estava dizendo sobre o mundo ser completamente doido e que as pessoas que interessam são as loucas, loucas para viver, para falar, para serem salvas, e eu vi que me encaixava perfeitamente neste grupo de doidos”. Diz a lenda que Dylan fugiu de casa após ler On the road. Só para continuar no time dos AAA, Jim Morrison fundou os Doors largamente inspirado pela liberdade vertiginosa do livro e Johnny Depp quase o interpretou num filme que seria dirigido por Gus Van Sant e produzido por Francis Copolla em 1992. Ademais, a lista de músicos que mencionam ou Kerouac ou On the road em alguma de suas letras inclui nomes como Ella Fitzgerald, Jethro Tull, The Gratefull Dead, The Beastie Boys, R.E.M., The Smiths, Bad Religion, Belle and Sebastian e Fatboy Slim. Temos ainda que Bukowski, Hunter Thompson, Tom Wolfe e todo o new journalism foram claramente influenciados pela prosa espontânea e porra-louca gestada por nosso querido objeto de análise.

Estes são alguns dos nomes estelares que tem sua associação ao escritor distantes uma consulta ao Google de você, muito mais sutis e subjetivas foram as reações causadas nos membros anônimos da geração beat, aqueles inúmeros moleques de todas as idades que compartilhavam a ansiedade melancólica e beat down do autor. O livro mapeou um desejo por liberdade que ardia na sociedade americana e, disponibilizando sua tradução clara a preços módicos na livraria da esquina de cada deslocado e misfit do país, acabou por catalisar uma onda em busca de liberdades individuais e ritos de passagem em busca de maior conhecimento do self. Não é exagero avaliar que o movimento hippie é uma consequência indireta da publicação do livro, como bem avalia Eduardo Bueno no prefácio da edição de bolso publicada pela L&PM em 2004. São Francisco é o ponto espacial onde a geração beat se funde com o movimento hippie. A referência temporal de tal fenômeno é a segunda metade da década de 50 chegando em 60. O círculo beat de Nova Iorque, exceto Burroughs, por um motivo ou por outro acabou todo na cidade em 1955 e se mesclou com a Renascença de São Francisco, movimento cultural muito próximo ao beat e que agregou nomes como Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure e Gary Snyder, este figura central de The Dharma Bums, também de Keroauc. Foi ali que Allen Ginsberg declamou pela primeira vez seu poema Howl, uivo lancinante de uma juventude oprimida por padrões morais conservadores, protestantes e belicosos impostos pela sociedade americana desde sempre. O movimento hippie surgiu a poucos quilômetros de onde o poema foi lido, compartilhando com os beats uma busca irredutível por liberdades individuais e gosto pela alteração extrema de consciência, relegando pouca satisfação à integridade física.

A America conservadora sabia do potencial explosivo daquelas páginas. Não demorou uma semana para o The New York Times publicar outra resenha sobre o livro. A primeira foi escrita por Millstein numa terça-feira, cobrindo a folga de seu editor, David Dampsey, que no domingo seguinte avaliou o livro. Considerou que, mesmo sendo altamente legível e divertido, ofendia a nação por demonstrar um ponto de vista moralmente neutro enquanto versava sobre temas como sexo, adultério e uso de drogas. No domingo seguinte a revista Time publicava resenha em tom paternal, punitivo, acusando o autor de dar “fundamento à explosiva juventude que, de um canto ao outro do país, se agrupo em torno de jukeboxes e se envolve em arruaças sem motivo em plena madrugada”. Ou seja, ambos criticam Kerouac por francamente escancarar a desolação e rebeldia de uma juventude que não mais cabia em seus padrões morais conservadores. Apontar o elefante rosa se equilibrando sobre a mesa de centro da America fazendo uso de um estilo verborrágico, inconstante e oposto a construções elevadas lhe rendeu a pecha de subliterato, que de uma forma ou outra carrega até hoje.

Apesar destas reações conservadoras, o efeito de combustão espontânea do livro elevou o autor imediatamente à categoria de celebridade e porta-voz de sua geração. Foi uma responsabilidade que Jack nunca desejou e tampouco soube lidar. Repórter após repórter, apresentador após apresentador questionaram o que era e afinal queria o que essa tal geração beat. Respondia torto, falava sempre uma coisa, dizia de viés, elipses e parábolas, tá tudo no Youtube, nunca se sentiu confortável e só piorou, a partir de um momento passou a se desvincular daquela postura, daquela viagem. As trips de On the road aconteceram quando Jack tinha entre 25 e 27 anos, o livro foi escrito aos 29 e publicado aos 35. Conforme os anos seguiram, o autor se distanciou progressivamente da chama libertária que o consumiu e cuspiu fora a quintessência da juventude americana dos anos 40, porque On the road é um livro sobre os anos 40 lançado nos 50. Após longo declive acabou tornando-se um reacionário conservador, renegou qualquer proximidade com o movimento hippie e de uma forma ou de outra afastou-se do espírito de sua obra desde antes de sua publicação, parou de viajar no meio da década de 50 e passou a escrever sobre outros temas, sempre com a mesma visceralidade, mas nunca mais abordando a persona e o tema que lhe consagraram. Já não era muito estável quando anônimo, sua projeção abrupta à fama e à categoria de representante da juventude foram mais do que um Keroauc de meia idade soube lidar. “Eu tenho 45 anos, não tenho mais nada a ver com essa juventude de 18”, declarou em 1967, bêbado, em mesa redonda na tv. No mesmo período também afirmou a uma repórter italiana que quanto mais envelhece mais bêbado se torna. “Por que? Porque o ecstasy da mente me atrai. Sou um fodido, mas adoro, adoro.” Afundou-se num alcoolismo suicida, não foram poucas as vezes que apareceu bêbado na televisão sem se importar uma unha com isso. Ao contrário, parece que queria se afirmar na estranheza de pária que nunca lhe abandonou. Morreu de hemorragia hepática fruto do intenso consumo de álcool, deixando como legado de escritor arrasado talvez a obra que mais inspirou viajeiros a sair de casa e viver intensamente suas vidas e queimar, queimar, queimar como fabulosos fogos de artifício explodindo em teias de aranha pelas estrelas até você finalmente ver em seu centro fervilhante um brilho azul e intenso explodir e todos “aaaaaaah!”.

Com estas páginas ofereço minha homenagem pessoal a Jack Kerouac, o grande caroneiro, o mochileiro essencial, o alcoólatra depressivo budista em busca de salvação Jack Kerouac, protótipo de todos os viajantes desajustados fora de sua bolha de conforto atrás de uma meia dúzia de algos que ainda não souberam bem dizer o que é mas que estão aí em algum lugar, vestindo a certeza de que a equação final vai valer a pena, a inutilidade da permanência como baliza fundamental e seja lá quantos dinheiros tiver no bolso. Serão o suficiente.

Aqui seguem os intraduzíveis 30 passos para se realizar a genuína prosa espontânea, Jack Kerouac estaile, como escritas pelo autor. Talvez com mais tempo eu me proponha uma aportuguesação.

1.Scribbled secret notebooks, and wild typewritten pages, for your own joy
2.Submissive to everything, open, listening
3.Try never get drunk outside your own house
4.Be in love with your life
5.Something that you feel will find its own form
6.Be crazy dumbsaint of the mind
7.Blow as deep as you want to blow
8.Write what you want bottomless from bottom of the mind
9.The unspeakable visions of the individual
10.No time for poetry but exactly what is
11.Visionary tics shivering in the chest
12.In tranced fixation dreaming upon object before you
13.Remove literary, grammatical and syntactical inhibition
14.Like Proust be an old teahead oftime
15.Telling the true story of the world in interior monolog
16.The jewel center of interest is the eye within the eye
17.Write in recollection and amazement for yourself
18.Work from pithy middle eye out, swimming in language sea
19.Accept loss forever
20.Believe in the holy contour of life
21.Struggle to sketch the flow that already exists intact in mind
22.Don’t think of words when you stop but to see picture better
23.Keep track of every day the date emblazoned in yr morning
24.No fear or shame in the dignity of yr experience, language & knowledge
25.Write for the world to read and see yr exact pictures of it
26.Bookmovie is the movie in words, the visual American form
27.In praise of Character in the Bleak inhuman Loneliness
28.Composing wild, undisciplined, pure, coming in from under, crazier the better
29.You’re a Genius all the time
30.Writer-Director of Earthly movies Sponsored & Angeled in Heaven

~ por Breno Castro Alves em 13/09/2009.

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