I – Daqueles que fizeram isso antes
Essa seção intermediária do livro desenvolve referências. Morei com dois artistas gráficos nos anos do meio da faculdade, Fred e Mathé, certo que esse último, que também só chama MTH, mais era agregado do que morador, apesar disto não ter qualquer relevância prática para você. Esses dois desenham, muito, sempre folhas brancas espalhadas pela casa, horas ali, estudando, sucedendo meticulosamente um movimento de mão ou estimando proporções entre tronco e cabeça com aquelas bolas e eixos mais claros de fundo que possui um desenho em processo. Veja, há um preciosismo nisso, uma certa necessidade de dominar a técnica, tornar-se seu papai, desenhar um músculo flexionado de tantas maneiras quanto possíveis e algumas que não são nem isso. É muito fácil perceber se um braço está desencaixado na anatomia ou se a física daquele desenho opera por regras arbitrária, o resultado queda-se indisfarçadamente estranho. Então os caras compravam livros bem encadernados com milhões de fotos de gentes peladas e iam acumulado links nos favoritos para acompanhar formas novas. Construíam repertório via repetição e treino, via absorver facetas, técnicas expressivas que já eram suas mesmo estando na produção de outro. É um beber de referências para processar algo pessoal, identificar algum detalhe que te serve e apropriar aquelas linhas. Boa palavra essa, linhas, serve para qualquer das modalidades de expressão.
Entendi vendo aqueles dois trabalharem horas sem tempo retocando um laranja que começava e terminava laranja, em muitos tons, claro, bonito, mas basicamente era laranja do começo ao fim. Entendi o trampo do artista, porque ambos são isso, passaram anos ali me exemplificando o tal dos 90% de transpiração necessários. Encontrei um músculo de escrever atrofiado, tadinho, fazia só burocracias. Encarando a sede de referências deles meu analfabetismo ficou claro, não dominava a linguagem de eleição como deveria, então bora atrás daqueles que fizeram isso antes. Não digo que virei rato de livro, digo que tem alguns caras que entenderam tão completamente a coisa que você não tem saída senão responder a ele em voz alta enquanto lê no busão. São umas interjeições de taqueopariueunaoacreditroquessefelodaputatafazenoisso, umas mudanças de ritmo que vão impregnando o teu metabolismo enquanto aquele moço se desenrola dentro de tu. Esse livro aqui tem alguns momentos, algumas coisas que, passado o contexto da redação, eu releio e percebo que nossa, olha o quanto isso na verdade é isso. Disse no começo que não utilizo qualquer referência acadêmica e assim é, com a honrosa exceção dos arquivos do IEB sobre Mario de Andrade. Impressionantes, diga-se. Passa que, percebendo essas impregnações múltiplas de leituras e autores, acho mais justo fazer de minha bibliografia um apanhado dos livros que li nos meses da redação deste e também nos logo anteriores, alguns dedicados e outros nem tanto. Muito mais justo do que ficar enchendo páginas com citações e notas de rodapé. Não existindo outro lugar possível, seguem.
Histórias de Cronópios e Famas – Cortázar
O livro dos abraços – Galeano
O turista aprendiz – Mário de Andrade
Memórias sentimentais de João Miramar – Oswald
Viagem a Tullum – Manara e Fellini
Os pés alados de Mercúrio – Luis Pellegrini
O incrível acordo entre o silêncio e o alter ego – Caco Pontes
Morangos mofados – Caio Fernando Abreu
On the road – Kerouac
Grande sertão: veredas – Guimarães Rosa
Reunião – Drummond
Alberto Caeiro – Fernando Pessoa
O Guia do Mochileiro das galáxias – Douglas Adams
In to the Wild – Sean Penn
Macunaíma – Mário de Andrade
Dharma Bums – Keroauc
Medo e delírio em Las Vegas – Hunter Thompson
As intermitências da morte – Saramago
Desenvolvo dois deles, Mário de Andrade e Kerouac, nos próximos capítulos. Ambos são escritores impregnados dê um viajismo com o qual muy me identifico e suas histórias de vida complementam bem seja lá o que for que eu pretendo demonstrar com este livro.

E eu te identifico com Cortázar e Drummond.Alías, lendo “Os Dias Lindos” lembrei de vc. Já leu?