XI – Do voltar

Teve uma vez que eu fiquei doente. No décimo dia Simone foi para o Maranhão e fiquei sozinho com a casa. Passava mototaxi a toda e subia umas nuvens vermelhas assim onde um caminhoneiro almoçou arroz e calabresa temperados no óleo de engraxar janta. Estava satisfeito, a cara larga cuspia porco gordurento duma boca enorme, arroz na barba, mãos de bateria ritmando mesa de plástico que sim, agora ele era gente, tinha ali pra ele os píncaros da glória. Repetia gargalhando grotesco, mas nem se preocupe que estar de pé nos píncaros justifica qualquer exagero, sua mesa era coberta por toalha vermelha e branca quadradas, já devia ter ocupado umas duas delas de tanto arroz e calabresa ou esparramava com as mãos ou cuspia e cuspia tanto que acertou a nuca de um homem vestindo camisa xadrez em cheio com um bloco de comida mastigada. Algumas partes maiores enroscaram nos cabelos cacheados de nuca e ficaram altos enquanto quantidade considerável já mais liquosa escorreu pelas costas de pêlos filtros. Não houve qualquer reação nem quando novo bolo semidigerido lhe aterrizou na orelha esquerda, plá, uma legítima cusparada seguida por gargalhada de batedeira. Não fazia qualquer diferença para mais ninguém, a menina da cozinha continuava servindo pratos de arroz branco onde barcas de calabresa remavam mares óleos de cozinha. Para dentro e para fora, errava a boca em mais da metade dos casos, calabresa no colar do vizinho. Contava uma história realmente muito boa e batia forte, qua-qua-qua, ritmo que faz pular travessas de comida e temperamento. Olha o mototaxi!, passou, olha a nuvem de poeira! Nuvem, tem nuvem o quê que não é de calabresa.

Desculpa moço, mas que cê acha de salvar o mundo ou daquela doidera com os aiahtolás? A primeira coisa que o Lula tem que fazer é fechar as fronteiras, ah, ai sim tu ia ver como ficava bom, estrangeiro quer o que aqui, veio fazer o que no Brasil? Querem tudo robar os bichos, robar aí a água toda que tem. Mas moço, você trabalha viajando e nasceu a oito mil quilômetros daqui, comé que fica? Fica que foi bom porque no caminho eu aprendi a fazer coqueirinho, sabe como é? Tu deita assim na cabine a cachorra vem por cima e apóia no teto com os braços, ae tu pega tua mão põe por baixo da perna e puxa o corinho do saco pra trás, dá mais dois centímetros de cacete, entra até os coco não tem uma que não goze tu nem precisa chupar. Tá, me desculpa falar assim, é que eu tô tentando salvar a humanidade e não sei se vai dar certo. Salvar que porra o que o moleque, isso não existe, ninguém ajuda os outros assim de graça não. Se depender de mim esses caroneiros que tem tão tudo, como chama, fodido. Mas moço, mesmo as migalhas da existência são facetas indivisíveis de um todo, que é dizer que você e todo caroneiro são o mesmo. Uma coisa é trepar com Maria José e outra bem diferente com José Maria mermão, não vem com essas tuas merdinha pra cima de mim. Olha aqui seu porra, senta na lisa e pensa, tem gente que confunde orelha de elefante com folha de taioba e tu é um desses. Por que que tamo aqui? Pra se fuder, é só isso que acontece do começo ao fim menos na hora que tu goza mas quem goza também tá fudido, a única coisa boa que tem pra fazer no mundo é fuder os outros. Comer e ser comido, lei mais velha do que a posição de cagar.

A febre foi um indício de que eu queria a minha mãe. Foi alerta de estafa, apitou numa insolação o vaza que não tá mais pra tu isso daqui. No dia que a mulher foi para o Maranhão e me deixou sozinho eu cai de insolação, também, é meio dia das nove da manhã às cinco da tarde naquela porra. Então dono de dois quartos de tijolos crus, água vinha nojenta da rua até uma caixa dágua à céu aberto e só, nenhuma comida no sol do meio dia de equador, de insolação e caganeira. My little own purgatório particular, elegi aquele lugar para a estafa física completa, sem qualquer apoio, só tendo para comer durante uma caganeira as coxas de frango escorrendo óleo de anteontem no boteco da nuvem vermelha. Vira e mexe o caminhoneiro tava lá sentado.

Acaba-se insistindo um pouco depois de perceber que a volta seria uma idéia melhor. Afinal você já está lá mesmo, e momentos de ruptura são complicados, mesmo que seja romper com a não-rotina completa em prol de um pouco mais de estabilidade. Para mim foi um processo de estafa, vinha administrando bem a energia de fazer acontecer as coisas darem certo quando necessário até cair num lugar ubbertenso, exageradamente cansativo fazer o dia-a-dia dar passar sem maiores problemas. Zerei e levei ainda três murros na cara.

~ por Breno Castro Alves em 2/07/2009.

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