IX – Do tamanho de seu coração

Eu gosto muito da rodoviária de Fortaleza. Não que ela difira fundamentalmente de qualquer outra construção de médio porte com a mesma função; estão ali as mesmas revistas balançando sob um pregador na armação de metal em frente a banca, as mesmas coxinhas semiprontas recém fervidas em óleo e todas as dezenas de taxistas que na verdade foram designados para te seguir por todas as capitais nordestinas que passar. Também não faltam banheiros mijados, ônibus sujos e meninas de mochila. É uma rodoviária regular. Mas em frente à banca de jornal ali no canto esquerdo dela, ao lado de onde se desembarca, bem ali tem um banco de concreto que foi o primeiro lugar onde eu chorei de tanto mundo que não cabia mais e teve que transbordar pelas vista.

Isso aconteceu na terceira vez que sentei naquele banco e acabou que passei por ali nuns seis dias diferentes entre idas e vindas pelo Ceará. Desenvolvo esta cronologia porque ela constrói o capítulo que lês. Estava acompanhado por uma querida enorme quando conheci aquela seção de concreto cinza particular. Ali esperamos um bom tempo atrás do busão de linha que levava moradores de uma praia do norte do estado até a capital e de volta. Para o casal era uma viagem de despedida e os dois sabiam que teriam só mais uns poucos beijos antes do pra sempre. Foi intenso, dolorido e bonito, e passou. Aconteceu lá pro terceiro mês de mochilagem, uma centena de dias acumulando mundo no peito, o tipo de coisa necessária para te deixar permanentemente comovido como o diabo.

Voltei pela mesma rodoviária, a segunda vez que passei por lá, tava chegando e nem liguei pro banco. A terceira veio uns vinte dias depois, indo atrás de ver do sertão virando mar sob chuvas colossais. Voltei ao mesmo lugar, canto esquerdo, ao lado do desembarque, banco de concreto. Voltei de propósito, já me pertencia aquilo, memórias vivas de sentir cheiro de amarelo brilhando me conduziram. No meio disso tudo sentei pra comer um prato feito dos mais regulares, talheres frágeis de plástico transparente, arroz levemente azedo que nem se liga e papel alumínio. A comida é cenário, apenas compõe o momento em que alguma coisa aconteceu, vivenciei algo que disparou desconhecido gatilho simbólico menmônico certeiro no coração, tadinho, totalmente rendido de tão cheio. Foi uma cascata, o órgão de sentir desmanchou pra fora soterrado nesse tanto tudo que tem, todas essas camadas de beleza e vida que são o nosso redor, essa infinitude de pequenas sensibilidades disponíveis à flor da pele humana, tão carregadas de beleza quanto tu estiver disposto a apropriar, carregando nos mesmo tons de melancolia e dor que possui a beleza fria do ser sozinho, a mesma cor da irredutível solidão que une indivíduo e gesto, todos e qualquer tão absolutamente sublimes quanto simples na expressão do que é fazer um universo e tudo, todas essas eternidades de cristal que se desenrolam nas menores construções de momentos, tão menores quanto infinitas forem.

Se propor comportar o mundo em seu coração não é tarefa corriqueira.

O tal banco de concreto foi a primeira vez que vivenciei essa sensação de soterrar transbordando que o mundo te oferece. É apenasmente, absolutamente muita coisa para se lidar. Não dá. Ou se ignora boa parte do que acontece ou vai aprender a ser forte sendo frágil. É muito doloroso filtrar tudo o que você experiencia, o coração é por demais fibroso, retém muita coisa e, sejamos francos, o mundo não é um lugar muito bonito de se viver, mesmo que infinitamente belo. Comportar contradições também é outro pré-requisito fundamental para sobrecarregar o peito.

Desde então venho chorando muitas vezes por motivos que nem entendo. Entendo é a sensação, identifico imediatamente o frio que sobe pela espinha e deságua em tremores de princípio de choro. O termo exato é overwhelmed, sobrepujado, arrematado, soterrado por mundo. Tem que sair de alguma forma, tem que desaguar realidade fora. Escrever é uma ótima saída, existem outras que não chorar. Ultimamente tenho tentado expandir meu corpo para comportar um pouco melhor o coração, que é o mesmo que dizer que venho pulando loucamente pela casa tentando ocupar maior espaço no ar com tronco, braços, pernas e cabeça. Funciona incrivelmente bem.

~ por Breno Castro Alves em 25/06/2009.

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