VII – Diamantes brutos

Maria Rocha tem oitenta e três anos, quarenta e oito quilos e muito dinheiro. Começou a encontrar escondidas pela casa notas amareladas, esverdeadas, rotas depois que o marido morreu. Grandes maços de Cruzados, Cruzeiros (em suas três variedades), Cruzeiros Reais e Cruzados Novos são o legado deixado pelas décadas de garimpo de diamantes que José Padeiro, seu falecido, dedicou na região de Gilbués, extremo-sul do Piauí.

A meio caminho entre Teresina e Brasília, Gilbués é um município em crise de identidade. Quase Maranhão, quase Bahia, quase Tocantins, inteira Piauí, a cidade não sabe se olha para suas zonas produtivas de cerrado, para o subterrâneo rico em diamantes ou para a degradação que devora 37 mil hectares de solos subúmidos secos, 10% do total do município. A ONU chama de desertificação e classifica a região centrada em Gilbués como um dos casos mais críticos do mundo. Cientistas brasileiros entendem que a definição deve ser outra, uma vez que o nível de chuvas da região e as características do solo diferem daqueles dos desertos. Apesar disso, não existem divergências teóricas sobre a seriedade do problema.
“Deserto? Qualque, aqui a vida inteira foi assim, a terra pelada, descabelada”, afirma uma completamente lúcida Rochinha em sua sala, na vizinha cidade de Monte Alegre. “Tem sim minha mãe, é que é um processo muito lento, a gente nem percebe”, rebate o filho Joanísio. “Ah, nem na vida nem na morte isso aqui vai mudar”, teima aquela que é a primeira professora oficial dos dois município. Rochinha nasceu em 1925 numa casa bem ali debaixo, atrás da igreja, e lembra certeira do primeiro diamante encontrado na região, cavado na corrida de um boi na fazenda Goianinha, em janeiro de 1946. Um vaqueiro arrochava atrás de gado nesses meios de mundo quando viu o bichão brilhando no chão. A carreira que a rés deu mexeu com o cascalho e a pedra subiu pras vistas do homem. Entendeu que aquilo era diferente e, sem saber o que fazer, deu para o patrão, que vendeu para o Rio de Janeiro. Quando a notícia estourou foi uma frevura e o mundo se encheu de tanta carreta de gente.

As memórias fluem como blocos, gravadas em peça única pela espetacularidade que alguns dias acordam e resolvem trazer para a roça. Foi em oito de junho de mil novecentos e quarenta e seis. Na véspera, Paletó estava em uma barbearia em Calmon Viana (BA), quando ouviu no rádio que faiscou diamante para as bandas de Gilbués. No dia seguinte subiu em seu avião e veio-se embora para a cidade. Chegou durante a festa do Divino, viu as bandeirolas na rua e achou que ali era campo de pouso. O povo todo embaixo esparramado viu aquele bichão caindo em cima e achou que fosse morrer, correu tudo para dentro da igreja. Paletó subiu para desviar das pessoas e rodeou atrás de pouso. A única possibilidade era a rua, agora vazia de gente. Mas o povo saiu da igreja para ver ele voando. Nova tentativa de pouso, nova corrida pra dentro da igreja, nova arremetida. Ficou assim até alguem apontar para ele uma terra malhada ali perto. Quando sentou todo mundo queria encostar nele, ver o metal de perto. Até o Zé Lento, o bicho mais manso que já apareceu por essas bandas, correu atrás. Foi o primeiro avião que viram na vida.

Em pouco tempo Gilbués explodiu de gente. Era só umas quatro casas aqui ali assim e umas outras mais acolá. Em 55 Monte Alegre se emancipou. Toda porta era uma bodega, se não tinha nada para vender, pelo menos tinha cana. Cerca de 40 mil almas residiram entre as fronteiras da cidade. Até que as manchas do minério foram rareando, os donos das fazendas foram fechando as portas com medo da erosão e principalmente dos buracos que engoliam gado. Aí veio Brasília e os retirantes todos se arribaram para lá. A cidade minguou até seus atuais 10.500 habitantes, que trabalham principalmente na roça. Poucos garimpeiros artesanais permanecem. Em contrapartida, uma mineradora industrial engole campos inteiro de cascalho, vertendo areia para os rios e jóias para os acionistas.
Waldemar Fialho, 54, é um dos poucos que insistem na exploração artesanal, não tem nem cálculo não senhor de quantos diamantes já pegou nessa vida. Camadas de pó amarelo e lama marrom sobrepõem mãos que peneiram a mesma terra de sua infância. Aprendeu com seu pai, que ainda está vivo, o ofício: comece cavando verticalmente a cisterna, um buraco circular onde não cabe um homem com um braço estendido, até a encontrar o cascalho. Tem vezes que dá 30, 50, 80 palmos de fundura, passou da metade e o caboclo já está suando que derrama água no chão, mas você encontra a mancha e aí é o caixão da cisterna. Ignore o calor e rompa horizontalmente o cascalho, retirando sacos e mais sacos para serem peneirados. Abra um túnel em linha reta atrás do diamante que se deita por esse mundo todinho. Se o túnel crescer demais, abra nova cisterna para ventilação. Repita enquanto aguentar.

Convide um companheiro para ficar na superfície retirando baldes de cascalho e despedrando o conteúdo que sobe. Depois de uma peneirada inicial, leve tudo para o olho dágua mais próximo e comece a lavar. A primeira peneira pega diamantes de cinco quilates para riba. A segunda encontra os de um a cinco e a final só os filhotinhos da pedra. Despeje e vasculhe o conteúdo da peneira atrás das jóias. É fácil encontrá-las, seu brilho mata o de todas as outras pedras e quando pega é meio mundo de farra. Waldemar sabe que o garimpo não liga para economização, gosta mesmo é da putada, da perversidade, da frescura. Farra, cana, rapariga.

O diamante trouxe gente, aviões, carros e prédios para Gilbués. Deixou veias abertas e erosão crítica num solo já singularmente frágil, produzida mais pela pecuária extensiva e agricultura predatória que acompanharam os mineradores do que pelos próprios buracos onde ainda insistem em se enfiar estes homens-tatu. De dinheiro mesmo, sobrou uma bolsinha de xita cheia de notas velhas guardadas no criado-mudo ao lado da cama de Maria Rocha.

Versão não-editada de texto publicado na revista CartaCapital de 30/05/08

~ por Breno Castro Alves em 22/06/2009.

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