O erê no mato
A ida foi desgracenta. Os dois mateiros da frente não esperavam nem mediante ofensas à sua masculinidade e o quarto, que seguia atrás, chama-se Caboclo Competitivo A e basta de falar dele. Vinha eu com umas calças jeans emprestadas, muito largas, que falharam em permanecer secas já na primeira pirambeira daquele caminho de pesca. Pirambeira é como o povo chama os braços de madeira que, varetas sobre água, brincam ser pontes. A barra de calça pesou encharcada e foi desalojar o chinelo de dedos de seu cargo de pisante. O coitado não teve a menor chance e morreu ali mesmo. Sol enorme no céu atrás das folhas e pele descalça no chão espinhento. Mochila nos ombros e facão inútil na mão. Uma circunferência fresca surgiu no centro das costas e ganhou terreno pela camiseta surrada. Não demorou para pingos grosso começarem a verter das sobrancelhas. Surdos aos apelos forasteiros de orientação, os mateiros da ponta arbitrariamente pararam. Achei que ouviram as gotas de suor pingando da minha fronte, mas não, erraram o caminho mesmo.
Agora pega tudo isso e mergulha no seu primeiro banho de rio amazônico. Segura na canoa com os calcanhares e fica boiando ali de buena em comunhão. Não demora para que os da ponta peguem a canoa para tarrafear, só havia lugar para dois, e, na margem, Caboclo Competitivo A conquista seu nome, que, admito, não é o de batismo, apesar de que seria bem apropriado se fosse, assim como é apropriado chamar um peixe de peixe e uma árvore de árvore, porque este é seu nome e não pode ser diferente. Mas basta de falar dele. Dou fuga rio acima braçada braçada braçada mato mato mato. Agradeço aos gigantes de madeira que estendem um véu verde unindo bilhões de vida bem acima da minha cabeça.
Numa praia de barro sento muito ereto em meus tornozelos e cem piabinhas encontram sua refeição no limo que meus pêlos retém. A água bate pelo quadril e descubro que a área atrás de meu joelho direito é particularmente nutritiva. Na superfície vê-se claramente refletida a imagem do erê enquanto nomeia aqueles peixinhos velhos miúdos: Crispim, Gusmão, Edvonaldo, Serafim, Marica, Gonçalves, Toledo, Ecledinei. Engraçado como todas as piabas são machos.
Que barro engraçado, em cada esquadrada descubro nova textura e as que não encontro invento. Olha como a perna esquerda afunda com mais precisão no lodo, enquanto a direita parece permanecer ali de propósito, se recusando a submergir na terra o almoço daquele cardume. De pé, afundo até o joelho e agora é a direita que corre atrás do prejuízo e com renovada determinação segue atrás das camadas de lama mais profundas. Satisfeita com a exploração, parou a lama logo acima do joelho. A esquerda, resignada, dava equilibrio apoiando na superfície. Agora solte o peso para a direita e veja a alavanca de seu fêmur fatiar o barro perpendicularmente. Como você já puxou o raio, mal não haverá em completar o círculo, então mova seu peso ao redor do ponto central e tá-dá, eis uma bela estrutura de argila cinza na beira do São José. O cone culminava no calcanhar e todo o restante abaixo daquele ossinho estava submerso na já familiar solução de terra e água. O volume deslocado para cima criou um dique ao redor da extremidade mais larga do cone e água sem terra misturada, afinal falamos desde o começo de um rio, não te esqueças, ali não entrou. Desdo calcanhar até a beira da cratera era possível identificar dez ou doze fatias de solo cinza marrom zinça morro.
A forma mais eficiente possível de produzir um objeto-esfera com esse chão é imitar uma aranha com os dedos da mão boa, deixando-os como garras abertas, e rodar na cavidade pequena quantidade de barro enquanto modela o formato final de sua ferramenta. Quando estiver com a mais perfeita esfera possível em suas mãos, lance-a para cima em parábola e, no ponto exato da descida, cuide para não deixar passá-lo, desfeche ali a munhecaça certeira e plaft! assista à esparramação de lama explodida no ar. Repita a operação.
Canso da brincadeira, olho ao redor. Uma das penínsulas da praia onde estava era habitada por borboletas amarelas que sumiram durante a farra do beisebol. Agora voltaram e dançam seu balé para mim, rodopiando quase ao alcance das mãos. Então responda, por que agradeço a duas borboletas amarelas que passam alheias, afinal estão apenas a dar umazinha em paz, e me ofendo com todos os outros insetos que apareceram por ali? É o belo. A velha orientação que com uma mão tanto salva quanto para ônibus fora do ponto e com a outra tanto condena quanto não faz questão de segurar a porta do elevador.
Tiro o pé da lama e retomo meu caminho. Enquanto me afasto do Condo Butterfly, um lorde vem se despedir. Asas tão azuis quanto negras quanto verdes quanto negras e azuis, tudo isso retocado com verdes preciosos. Parou na minha frente e dançou. Voltaram as batedores taradas amarales e todas voaram juntas para mim. Enchi meu coração de borboletas e, agradecido, pulei nágua.
Meio afastado vi o cenário tão lunar quanto pontual que minha brincadeira havia causado naquelas margens até então intocadas, ou tão intocadas quanto a vista paulista entendeu. Só o sapiens sapiens faria uma sujeirada daquelas sem objetivo, estabanado e grosseiro. Um desperdício de energia. Abri o coração e busquei cumplicidade nos espíritos daquela vida que circundava.
- Desculpe, desculpe mesmo. É que sou menino.
Parei sob uma sombra enorme projetada sobre o rio. Frondosa é a palavra correta para se usar neste momento. Aquele solão equatorial provando a que veio lá em cima e uma fractal muito elegante servindo de anteparo à luz. Belíssimo, já parei o ônibus na contramão pra imagem subir. Flash, fazem os olhos enquanto capturam o instantâneo na cachola.
O trajeto de volta foi suave. Concertei o chinelo, dobrei a calça e passei adiante o facão. Nunca me distanciei do 1o, fui 2o muito tempo e acabei em 3o, à frente de Caboclo Competitivo A, de quem não convém falar mais. Na moto, o 1o, meu anfitrião sem-terra, quis ver se eu ia afinar e arrochou numa curva na subida de terra. Nem desconfiava ele que dentro do meu peito, com cabelos sujos de poeira e dedos enrugados de rio, o erê voava mais do que a moto em seus pulos pelo ar.
Meu corpo gritava em silêncio de plena satisfação. Do erê se via claramente o sorriso enorme que eu me apossei assim que cai nágua e agora teimava em deixar.

a descrição do ambiente fiko da hora…
ass. putinha loira
hola! soy maca reportandome desde el Polonio