II – Daquela que fala com o corpo

•8/10/2009 • 1 Comentário

Eliza Capai acabou fazendo uma iniciação científica durante a faculdade sem entender muito bem porque, achava incrível aquela coisa do intelectual de sair citando referências de memória, espontaneamente, rolava uma certa inveja de não ter essa cabeça. E não tem mesmo, acabou entendendo que o que tem é corpo, que processa e registra sensações no corpo, que se expressa por ele. Descobriu-se afásica, com dificuldade para comunicação verbal, e que isso não necessariamente compromete a expressão se você conseguir agregar outras linguagens, como mímica, teatro. Me conta isso segurando uma panela e não fala só com palavras, sacode ombros e braços com desenvoltura para deixar claro quem é que manda ali. Até a panela ganha expressão enquanto cozinha sopa de abóbora.

Acho quase desonesto reduzir esta mulher a texto apenas, mas hei, ela encontra a expressão que lhe comporta no vídeo e eu no texto corrido. Bom que provavelmente não sou afásico. Acontece que para expressá-la preciso de mais recursos do que só letrinhas justapostas. Quando Eliza fala todo o corpo acompanha, mãos voam livremente apenas porque são as extremidades mais móveis, tudo seu conjunto segue a mesma harmonia e até o tom de voz se altera para comportar a intenção, ora irônica, ora explosiva e se eu forçar até melancólica. Emula vozes e personagens com naturalidade cênica, nem tangencia o artificial. Se estiver de pé é possível enxergar a emoção que acompanha suas palavras no equilíbrio corporal fluido de dançarina. Seu eixo acompanha o verbo.

Como reproduzir isso por aqui? Complicado. Não vou ficar me intrometendo em seu relato para explicar que quando ela fala de ansiedade quase levanta da cadeira como que querendo arrancar alguns pedaços incômodos do corpo com as mãos. Acho que prefiro o itálico, talvez seja a melhor solução. Então, nos parágrafos que seguem, todos os itálicos demonstram um momento em que a expressividade da mulher supera tanto o verbal que merece ser destacada. Quando cruzar com um destes tente reler o trecho encaixando ali uma outra voz, uma expressão particular que faz sentido apenas se pensada além do puramente verbal. Afinal convenhamos que palavras, tadinhas, são tão precárias, não servem para muita coisa não. Mas o que há de se fazer senão lidar com elas? E porque diabos ela é personagem deste livro? Prefiro deixar a reposta para a própria. Daqui até o próximo título em negrito, sigo apenas com voz e corpo de Eliza Capai.

Sempre tive uma coisa nômade. Tem umas fichas que vão caindo ao longo da vida, só me dei conta recentemente que minha família inteira é assim. Minha mãe é do Rio e mora no Espírito Santo, meu pai ao contrário, mora no Rio e é do Espírito Santo, tenho um tio em Washington, uma prima em Brasília, outra em Fortaleza, outra no Texas, minha irmã em Niterói, o avô veio da Itália. Demorei pra sacar esse tesão porque não tinha grana pra viajar, não fazia parte da minha cultura, nunca sai do país com os pais. Eu lembro que de moleca gostava de pegar ônibus, adorava as duas horas que levava pra ir de Vitória até a casa da minha vó, tinha as maiores idéias naquele trajeto. Precisava resolver algo ia para a casa da vó, sozinha, de busa. E em Nova Iorque agora, a mesma coisa, estava dentro de casa deprimida, tinha que editar um documentário de uma amiga, não conseguia de angústia pessoal, foi botar o pé na rua e começar a rir, mesmo. Organiza a cabeça essa coisa de se ver em movimento.

Tem uma coisa de aprender a viajar também. É muito diferente ser mulher viajante, o discurso do terror é muito grande. Eu demorei para peitar os argumentos dos outros, sempre dava um medo de que se acontecesse alguma das coisas terríveis que todo mundo falava que aconteceriam eu ia me desarmar. Passei por semi-situações de perrengue até criar meus mecanismos de perceber que bem, não chega à noite num lugar que você não conhece e não tem onde ficar. Muito bonitinha né, chegar à noite de mochilinha, cabelão, biquininho, em qualquer lugar. Tem que ter preocupações que homem não tem e aprender a projetar segurança ao viajar. Ao longo você vai ficando mais confortável e sacando seus limites com mais facilidade, até onde dá pra ir sem cair em risco desnecessário. Sempre tenho um namorado que me ama muuuuito e por quem eu estou completamente apaixonada. Cara, é um saco descobrirem que você é brasileira num país machista. O cara descobre e te olha de cima abaixo como se estivesse seminua, vestindo paetê. E aí vinha meu namorado maravilhoso. Inventava isso que eu acho horrível de ter um homem pra me defender, mas, entre o risco e a caretice, fico careta.

Mas aí comecei também a ver o tamanho do discurso do terror nos nossos tempos, sei lá de quando veio essa porra, mas é aquele que diz que sempre o desconhecido é perigoso. Na América Central foi um absurdo, cheguei sozinha ao Panamá, sabia que Panamá e a Costa Rica ainda são mais tranquilos, Costa Rica é um tesão, não tem exército, é diferente de tudo na América Central. Mas aí você está lá, prestes a cruzar para a Nicarágua e te falam, Nicarágua, cê tá loca? Cê vai sozinha, vai se fuder, vai não sei o que. Cheguei lá tensa, tudo machista pra caralho, o primeiro ônibus que entrei tinha um homem gigante com um daqueles cintos de boiadeiro, chapéu, eu entrando sozinha era um daqueles ônibus de galinha, doze horas até não sei onde, ele olhou na minha cara e disse muito naturalmente “senta aqui do meu lado porque tá frio e eu quero que você me esquente”. Então eu sentei o mais longe que eu podia dele, fiquei lá sozinha eu e as galinhas e um monte de homem, em cada país me falavam que o seguinte ia ser pior, e depois pior ainda, cheguei a El Salvador sabendo que ia morrer, não tinha a menor dúvida, era sair do ônibus e viver mais cinco minutos, melhor aproveitar. Mas aí chega uma hora que você fala foda-se, estou aqui, tenho que estar aqui, não vou dar mole, não vou ter medo de estar aqui e não vou seguir todos os conselhos que me dão.

Em agosto de 2004 fui com o Jacques para a Venezuela cobrir o Chávez, era o referendo para ver se ele ia se reeleger. Foi minha primeira experiência de internacional mass media[, quando eu soube que nunca ia querer trabalhar com isso. Lá a gente viu o Jimmy Carter, analista internacional, falando, bem, esse é o resultado, não houve fraude. Então o editor daqui recebe a matéria e rebate dizendo que tá todo mundo falando que houve fraude, coloca aí que houve, foi tenso, tivemos que discutir muito dentro do casal. Eu vi então o papel desse correspondente formal da grande mídia, ele só é um cara pagando de bonitinho para justificar o que a rede quer falar, porque não importa muito o que o profissional está vendo no mundo, vai sair o que a rede já tinha na cabeça. Tenho um amigo, não vou queimar o filme dele, estava no México cobrindo a gripe agora, tem poucos meses. Nos encontramos em Nova Iorque e ele me mostrou as matérias, todas usando máscara. Perguntei se adiantava para alguma coisa ele disse que não fazia a menor diferença. Mas você fez uma matéria dizendo que as máscaras não servem para nada? Claro que não Lica, não quero perder meu trabalho. Aí a gente volta para o manter a paranóia de que o mundo é o caos. Aqui é seguro. Não sai, fique em casa, fique na sua cidade, fique com o que você conhece porque logo ali está a barbárie. A civilização só vai até onde se consegue enxergar.

Ainda em 2004 a paixão pela estrada e pelo conteúdo viajeiro foi tomando forma, ficando mais clara. Eu era documentarista do Teatro da Vertigem e nós fomos em dezoito até o Acre pesquisando material para o BR-3, espetáculo que levou dois anos pra ficar pronto. Dezoito pessoas juntas o tempo inteiro, todas ligadas ao teatro no interior de Rondônia, imagine, puta loucura, ainda com cronograma paulistano, que era muito tenso e eu não aguentava. Descobria alguém ali e não queria ir para outra entrevista, quero ouvir essa tiazinha falando sobre café até ela cansar. No Acre teve muito desses momentos, de estar lá, de se entregar para o momento, foi ali que eu entendi que queria fazer isso. Foi num seringau incrível que eu percebi minhas limitações de urbana, ouvi um barulho e perguntei para um moleque nossa, que passarinho é esse? É macaco. Merda, tô precisando andar mais por aqui. Aí todo mundo foi dormir nos quartos e eu amarrei minha rede nas traves de um gol e depois do campo era floresta amazônica virgenzassa, um céu muito louco e eu ali, em duas horas planejei meus próximos dez anos de vida. Pendurada no gol, na boca do mundo. Foi epifânico.

É um tesão viajar sozinha, mas cansa. Ter um conforto ali é legal. Descobri que meu grande tesão é viajar, mas eu me entedio no primeiro mês se não estiver produzindo. Se eu estiver trampando não tenho a menor vontade de voltar, nunca. Lembro de uma viagem com o Jacques, eram três meses de férias em 2005, íamos do norte de Minas até Buenos Aires de carro e de volta. No primeiro mês já tinha cansado demais viajar e então começamos a produzir, os dois jornalistas, esse lance do correspondente pintou ali naturalmente para mim por necessidade de fazer alguma coisa. Paramos um mês no Uruguai, começando a fazer cobertura para tv. Foi legal, o Jacques fazia uma coisa mais Band, correspondente, eu gravava e editava. Comecei a juntar o material que lidava e fiz algo mais artístico, juntei a posse do Tabaré Vázquez e também era carnaval, fiz uma materinha que foi para o Metrópolis. Entendi a vontade de montar as coisas por esse viés, sempre tentando escapar. No começo era difícil, eu não conseguia ver outro caminho, me parecia muito mais óbvio se tornar correspondente, não tem tantas pessoas fazendo o que a gente faz, demora para você cruzar com alguém e descobrir que, ah, é isso mesmo, ou não, não é isso, é aquilo, e pode ser qualquer coisa. Ficava tentando achar brecha por aí. Quando fomos morar na Argentina chegaram a me chamar para ser correspondente, mas cara, se eu entrasse ali ia ser muita energia para investir em algo que eu não queria. O caminho pra gente é de ir se achando, dá para achar brechas na mídia tradicional de propor pautas e conseguir uma grana com aquilo, pequena. Paga-se muito mal sabe, já está viajando não me enche o saco. Ou acha essas brechas de propor matérias de política e economia, ou vai começar a pensar em coisas que não estão óbvias. Queria fazer cobertura de cultura que me permitisse patrocinar algo maior, mais pessoal, aí eu me coloquei de produtora tentando vender um projeto para a Tam, para a Gol, para quem quisesse, para entrar de patrocínio numa tv aberta. E claro que não rolou, produção executiva é para quem pode, não para quem quer. Mas vi que era por ali o caminho, propor projetos.

Morei um tempo na Argentina e voltei de lá em 2007 num momento pessoal muito complicado, de separação. Vi que se eu chegasse a São Paulo em dezembro eu ia me matar, estava destruída emocionalmente, no fim de ano não rola frila e eu odeio São Paulo neste momento. Tinha uma graninha, fui pra Amazônia e aí deus existe, foi a coisa mais acertada. Entendi também que já que a gente não ganha tem que ser cara de pau, não vão me pagar vão me dar hotel. Fui fazer tudo que eu gostaria de fazer na Amazônia e que também é o que muita gente quer por lá, então vou contar para elas o que é legal e o que não é. Fui numa revista, a UM, e me autorizaram produzir em nome deles. Então eu fiz todos os cruzeiros, todos os cinco estrelas. Demorei uma semana para entender que isso era possível, que iam aceitar. É complicado por um lado que você tem um tratamento vip que nenhum hóspede tem, lembro de um hotel que me deram uma cabana do Tarzan sensacional com hidromassagem, gente isso é legal pra caralho, não precisa me pagar muito pra fazer isso não. Essa foi a primeira viagem que eu banquei com trabalho, banquei depois de voltar ainda vendendo conteúdo. Tinha três mil reais, fiquei dois meses viajando, no começo assim em hotéis e depois por conta própria. Esse lance de turismo é legal mas não é a minha, foi bom para me permitir algo que eu não poderia viver de outra forma e também para perceber uma coisa mais esquizofrênica que eu curto, cheguei a Manaus e fui direto para o cais, peguei um cruzeiro cinco estrelas incrível, eu e todos os europeus legais do mundo, voltei, fiquei nesse barco num quarto absurdo que a diária era maior do que o tanto que iam me pagar para fazer a matéria com as fotos, saí deste hotel, fui para o ponto de ônibus e segui pro hotel mais baratinho que eu encontrei no centro e foi do caralho, fui comer um sanduíche de pernil com uma cerveja à noite num boteco e ali encontrei pessoas que pareciam mais comigo. Aí fui escrever sobre o crescimento da população indígena, aumento de quem se denominava índio num lance de valorização de auto-estima mesmo. Isso foi janeiro e fevereiro de 2008, eu voltei muito apaixonada pelo trampo, consegui vender uma série de matérias que me pagaram a viagem e foi incrível.

Volto para cá, São Paulo, decidida, era disso que queria brincar. Planejei uma coisa de volta ao mundo, que no começo era muito simples a ideia, comprar uma dessas passagens que você tem não sei quantos trechos no mundo, achei que era mais vendável do que ir para um lugar só em termos de xaveco, quarenta anos da revolução feminina. Mas isso foi virando outro negócio, a gente tem que entender que se é simples é simples, quer ganhar grana vai trabalhar com publicidade em São Paulo, não é essa a proposta, agora não, não mesmo e ponto final. O projeto cresceu e virou outro negócio que ficou uma fortuna, fiquei esperando a resposta, a viagem tinha que começar em março, o xaveco era 08 de março de 2008, quarenta anos da revolução, sai ou não sai, e em fevereiro vi que não ia rolar. Nesse meio tempo me ligaram para fazer uma cobertura de imprensa de um seminário dos trabalhadores, porque eu trabalhei na TV CUT também, no Panamá. Fui com uma condição, passagem de volta em aberto, e fechamos. Aí foi incrível, porque eu não tinha nenhum dinheiro, só o que eu ia ganhar nessa uma semana de trabalho, e ainda tava com toda a energia da viagem que não tinha rolado. Então em três semanas peguei todas as ideias que tinha na cabeça, coloquei no papel e sai loucamente oferecendo pauta para todas as revistas que eu tinha contato e num dia assinei dois contratos. Acabei fazendo três, um com o Saia Justa, onde eu ia fazer perguntas para as mulheres dos países que eu estivesse. Para mim foi sensacional, eu não tinha a menor idéia, achei que ia mandar material bruto, tive uma reunião lá e aí a Monica Waldvoguel falou “faz o que você quiser, só não manda algo com cara de programa de domingo”. Olha que incrível, o que mais gosto de pirar é linguagem e ela me deu liberdade total, então fui fritando, coloquei umas coisas de videodança que eu curtia para passar na tv e rolou bem.

O segundo contrato foi com a TAL, Televisão América Latina. Propus uma outra coisa sobre migração de mulheres, que acabou rolando com a revista Fórum, lá publiquei uma série de oito matérias aprofundando migração de mulheres que foi mesmo minha grande paixão, aquilo que eu fui desenvolvendo e no final me fez muito bem entender de fato aquele assunto. Às vezes no jornalismo a gente faz tudo fragmentado e eu me sinto meio burra. Propus isso para a TAL e não rolou, mas a mulher me devolveu o projeto que eu tinha proposto para o Metrópolis na Argentina alguns anos antes, alguém que eu nem conhecia, eu fiquei uns dez segundos pálida na frente dela sem entender. Tá tudo bem? Nossa, esse era o meu sonho, achei que nunca ia rolar. Então em cada país ia atrás de artistas dali, via qual eu achava mais legal e fazia uma matéria sobre o trabalho deles. Foi incrível.

E aí saí com esses três projetos, eu, uma câmera de vídeo, uma fotográfica, um laptop, tudo no seguro. Não queria ter que pensar se eu poderia fazer alguma coisa ou não, queria fazer. A mochila de equipamento pesava seis quilos e a de roupa, que tinha livros de migração, dvds de backup, bota de chuva, pesava dezoito. Essa viagem durou nove meses e foi a mais intensa da vida, Cidade do Panamá até Nova Iorque de mochila. Ser independente é possível se você tem um foco e algum despojamento, porque cansa. Não tinha grana para hotel, ficava em albergue. Trancava minha mochila com o equipamento que era tudo que eu tinha acumulado na vida, além de uma penteadeira linda, suspensa, de pendurar no teto, que ficou na casa de uma amiga de uma amiga. Então um certo desprendimento de estar ali. Tinha época que dormia três noites por cama e isso é muito cansativo. Foi a experiência mais incrível que já tive na vida até agora, uma coisa de conhecimento fluido, de liberdade de escolha. Você passa por lugares que seu público não tem conhecimento formado, então pode falar o que quiser, pode escolher o viés que quiser que está valendo. Liberdade de escolha absurda, o que acarreta em tudo que vem junto, tinha hora que eu pensava pelo amor de deus alguém me dá uma ordem, não quero ter que pensar pra que lado do país que eu vou, se ônibus ou trem, se durmo ou sigo, ordem, mas não rolava, e aí eu dormia doze horas e acordava bem de novo.

Eu faço trinta esse ano. Descobri a crise dos trinta. Tenho amigos que estão ganhando grana pra caralho, um monte comprando casa, todos com carro. Mas começar a afundar nessa crise não existe. Tem uma coisa que eu me orgulho que é depois de ter dado o trampo na capital, apurado tudo que precisava, pensava qual era o lugar que mais queria conhecer naquele país e ia para uma praia do Caribe, ficava lá num quartinho de sete dólares editando de frente para o Caribe. Fiz isso num vulcão, em um monte de lugares. Tive vários momentos de entrar na água e chorar, eu não acredito que isso é minha vida, que está se bancando, umas emoções que eu nunca tinha sentido de olha o que estou fazendo, obrigado por isso eu, eu mesma. Quero ganhar dinheiro? Se eu tivesse ganhando dinheiro estaria o ano inteiro juntando para passar uma semana aqui onde estou trabalhando. Então foda-se ganhar dinheiro nesse momento. Mas aí tem a crise dos trinta, ter filhos, preciso juntar dinheiro, mas eu seguro, ainda não é o momento, tenho que ir pra África antes. Esse é meu deadline.

Fiz isso quando voltei para o Brasil também, ganhei um prêmio com um curta que fiz na tal viagem. Para a série de migração da Fórum entrevistei uma mãe que morava na Costa Rica e o filho que ficou na Nicarágua. Acabei fazendo um videozinho simples e bem apaixonado. A mãe, Georgina tava num momento muito difícil e desabafou comigo, não tinha ninguém para ouvi-la, sabe? Muito triste. Como já estava viajando há mais de cinco meses, todo mundo com saudade, acabei conseguindo ganhar o prêmio de público pela net. Com a tal grana do concurso fui para Ilha Grande organizar material de um doc sobre migração feminina na América Central que agora estou correndo atrás de leis de incentivo, Itaú Cultural, editais, todo mundo que puder me dar dinheiro. Fiquei um mês ali, um ritmo de vida maravilhoso produtivo para caralho, que é outra coisa da necessária, o ter tempo para parar, para deixar as coisas decantarem com mais calma, mas quando eu parar vai ser em Ilha Grande, não em São Paulo. Fui um pouco radical ali, sem arrependimentos, mas não repetiria tão cedo. Era uma pousada na praia ao lado da principal, tinha gerador das 09h às13h e também das 19h às 23h. Esse era meu horário de trabalho, e batia oito horas, o que é um bom tanto para trabalhar, se bem que seis são melhores. Aí saía à uma da tarde para ler o Rastro dos Cantos, fazer trilha, nadar, tirar um cochilo se quisesse, vivia intensamente, às sete já tinha tomado meu banho, visto o pôr do sol, comendo um sanduíche, acabando de renderizar o trabalho da manhã pra começar editar de novo. Tava editando um clipe, começava a nadar pensando não é esse o caminho. Sessenta e três horas de material para fazer cinco minutos de promo. Teu cérebro te elabora umas respostas. A gente tá pensando embora não perceba que está. Meu tio fala que tem dois tipos de texto, o cara totalmente estratégico, que sabe de onde saiu e para onde vai chegar, e quem é vomitivo, eu sou, suspeito que nômades tem uma tendência a isso. O que acontece, já tenho todas as entrevistas na cabeça, todas as leituras, todas, não aguento mais elas. Aí saio, vou mergulhar, enquanto estou mergulhando, vivendo, processando alguma coisa de corpo, de sol na pele, de movimento, um outro lugar do cérebro, aquela parte do racional, da migração feminina, tá lá, tátátá, eu que não vou ficar aqui sentado enquanto você tem que escrever isso, e quando você chega já está com o texto pronto. Tudo é movimento e a gente vem com essa babaquice de ter que ficar parado, quem inventou isso?

E lá eu fui ler o Rastro dos Cantos, do Mark Chetwin. É um inglês que faz esses livros de viagem sobre temas específicos e é apaixonante. E nesse ele vai para a Austrália para entender o que era o rastro dos cantos, que é como os aborígenes, simplificando de forma absurda, é como concebem e explicam a criação do mundo, enxergando aqui uma xícara, ali uma árvore e lá uma flor amarela, todos criados pelos cantos de seres divinos ainda no tempo dos sonhos, de gênese do mundo, e pelo rastro desses cantos você consegue acompanhar a criação e a relação entre todas as coisas. E ele discursa enquanto explica o todo, no meio da chuva, falando sobre nomadismo. É incrível. Quando fundamos as cidades passa a ser algo de conquistar espaço, quem tem essa coisa interna de estar parado é quem busca se estabelecer, controlar, poder acumular capital, quero um apartamento grande, um carro, conhecer todo mundo por aqui, saber onde está o melhor café, a melhor cantina italiana e tal. Quem tem o negócio do nomadismo não pode ter as mesmas relações de controle. Você precisa das pessoas, genuinamente precisa de seu porteiro, que seja, tem que tratar como um igual, demonstrar interesse por todos senão você tá fudido. Tem muito menos gosto pelo acúmulo de coisas, tudo que você quer é fechar uma mochila deste tamaninho. Festejei algumas vezes quando esqueci roupas por aí. Queria uma mala-mochila, seria ideal, mas é cara para caralho. Sabe dessas que tem rodinhas mas também dá pra levar nas costas? Menos coisas, mas coisas que durem.

Eu sei qual é meu modelo de viagem, ele funciona pra mim, não sei nada de modelo ideal. No começo eu estava muito rápida, olhava o guia e via os lugares queroirqueroirqueroir. Mas fiquei muito cansada, aquele monte de informação para lidar em outra língua, não dava tempo, um stress delicioso, mas um stress. Então tive que começar a segurar as pontas e lidar com uma ansiedade loouca de conhecer o México, fiquei quatro horas numas ruínas do sul do país e fui para a capital, já não tinha condições físicas nem emocionais. Quem viaja muito tem que aprender a lidar com essa ansiedade, não significa nada ir para trinta lugares num dia ou ficar trina dias num lugar, depende é do seu momento de lidar, não da escolha que você toma. A minha primeira grande crise foi na Guatemala. Foi tenso, sempre me falavam dos perigos, os três países ali Guatemala, El Salvador e Nicarágua passaram por guerras civis há pouco tempo, então muitas gangues, são países perigosos e machistas. Foi tenso. Comecei a ver que eu estava estressando quando gritei na rua, a única de cabelo enroladinho, berrando em espanhol que não era uma cachorra, foi foda, um erro, tipo hu calaboca doida. Tava sozinha, de tpm, com uma paixão platônica na cabeça, num quarto sem janela, úmido, aquela pessoa tava perto e não comigo, eu estava sozinha, me senti sozinha, me senti solitária. Sozinha é bom, solitária horrível. Queria dormir, ficar dez anos dormindo, entrar na menopausa e já ter passado as tpms todas da vida.

Nunca gostei de ficar doente, quando isso acontece é porque estou carente, quero atenção. No começo da viagem a família apavora, todo mundo falava para eu pagar o seguro de saúde. Não, não vou ficar doente. Ahh como você decide isso? Decido. Posso ser atropelada, posso, posso estar num acidente, posso, mas.. não vou estar. E não vou ficar doente. E fiquei seis meses sem um fung, um nada. Não estava aberta para doenças, estava para sacar meus limites. Sentia a coluna esquentando, sabia que era um princípio de uma febre, deitava e dormia quatorze horas, sabe, foda-se o deadline de amanhã.

Ai você começa a refinar o seu sacar limites. Perdi a carteira e fui roubada na Guatemala, foi a merda que aconteceu. Essa coisa de sacar o que rola, você bate o olho sabe se a pessoa vai te fazer bem ou mal, pode acreditar ou não, mas saca. Perdi a carteira, uma merda, perdi o cartão. Tinha dois cartões, essa é uma dica básica, ande sempre com dois cartões, o passaporte e um cartão em um lugar e o outro junto contigo. Fiquei sem dinheiro, só fui descobrir depois que já tinha cruzado o lago e não tinha como pagar, chorei loucamente, também é um mecanismo, quer chorar chora. Quando chego ao México, na casa do amigo do amigo do amigo, que me tratava como uma filha, levava salada de fruta de manhã, uma casa linda, onde eu me sentia segura, protegida, ali eu fiquei doente. Vi que meu corpo tava precisando e permiti que ele ficasse, conscientemente doente. Aí passei uma semana com febre, dengosa, foi ótimo. Mas depois também chega né, não dá pra passar tempo doente no México, cabou, melhor ir para o Caribe. O ponto ótimo mesmo de sacar o limite é se ligar antes do ficar doente e falar bem, já não dá mais mesmo, deixa eu ir embora, quero a mamãe, mas pra ter essa consciência plena tem que ser muito iluminado.

Problema são os lugares bem fronteira, que é terra ninguém, não tem muita mulher viajando sozinha. Querendo quebrar o lance do turista em muitos momentos eu me via completamente sozinha naquele local. O se fechar tem uma coisa energética de demonstrar que você não está aberta para aquilo. Cheguei a comprar uma faca para descascar pepino em público, sabe, pra mostrar que eu tinha aquela lâmina, vem querido, só uma giradinha no seu estômago, não precisa ser uma faca enorme. Mas sentia que tudo que colocava na faca era medo e eu não queria ter aquele medo. Melhor fechar desde dentro, não chega perto. E aí saí andando com o pepino na mão dando umas mordidonas, comendo ele inteiro. Se eu me sentia desprotegida dava umas sacudidas meio de doida no tripé, porque aquilo é um taco. É a mesma coisa da doença, você deixa claro se podem te atacar ou não. Não sei explicar isso, mas tem esse momento do não deixar brecha, essa postura de não abrir, de deixar claro que não faz sentido aquele cara te atacar. Não deixo.

O dia que fiquei com mais medo foi na fronteira Guatemala-México, tão barra pesada quanto a fronteira norte do México e sem os Estados Unidos ali. Tem muito ilegal querendo cruzar de todo lugar, terra de ninguém, país que acabou de sair de guerra civil com duzentos mil mortos. E, eu tava ali, numa cidade de fronteira, de tráfico de mulheres fortíssimo, querendo fazer uma matéria sobre prostituição. Sozinha. Pois é né. Eu, mulher, gringa, querendo entrar em puteiro para falar de tráfico de mulheres? Idiota. Ficava rodando pela cidade, morriam duas pessoas por noite ali, uma cidade muito pequena e muito violenta, tráfico de armas, de drogas, de gente, tudo. Idiota, você não tem o que fazer ali, vai ler um livro, vai citar a mulher do livro. Desisti de fazer essa matéria e foi muito frustrante. Cheguei lá brigando, fui me abrindo pra merda desde a fronteira. Já cheguei discutindo do cara falar “Quer que eu chame meu general? Você não manda nada aqui, quer que eu chame meu general?” Aí eu falei, não, eu não mando nada aqui. Mas Eliza, cê tá loca, brigando com um soldado na fronteira da Guatemala com o México porque ele não te avisou que teria que pagar mais vinte dólares? Tipo, quer mais vinte, amigo? Depois fui procurar hotel e me levaram numa espelunca horrível, com umas marcas de mão na parede, imunda, a mulher começou com um preço e acabou com outro e aí briguei com ela também “porque você não falou esse preço quando entrei aqui, tá querendo me roubar porque sou gringa?”. E aí eu tava louca, loucona, já tinha ido em três hotéis e brigado por isso. Toda a energia errada e falei, Eliza, conserta a energia agora. Tava passando, senti uma brisa saindo de uma sala, entrei e nem vi que era uma igreja, mas era, e perguntei qual era o melhor hotel da cidade. Me mostraram e eu fui, era simples, mas limpo e tinha o preço na parede, vinte dólares. Depois fiz contato pelas freiras, conheci as mulheres que eram da prostituição mas as freiras levaram para dentro, foram minhas personagens e entendi que era tudo que eu tinha para fazer ali. Agora volta para a capital.

Dei o limite. Se você não quiser virar personagem da sua matéria vai embora. Isso é outra tentação, o tempo inteiro você tem na cabeça que o pior que pode acontecer é virar personagem de seus textos. Como é aquele jornalista da Realidade que perdeu a perna no Vietnã, Zé Hamilton Ribeiro, nossa, quem não quer ser Hamilton? Se acontecer algo horrível aqui vou ter uma puta história, um texto que vai mudar minha vida. Tava falando sobre migração de mulheres e eu era uma mulher migrante, me estupra que eu vou ter uma matéria incrível, mas você quer isso gatinha? Claro que não. Você prefere mil vezes uma vidinha profissional de merda do que ser uma profissional incrível e traumatizada. Então volta para a capital.

Minha primeira grande viagem sozinha, a da Amazônia, foi em um momento de separação, precisava perder todas as referências para entender quem eu era. Ou seja, não ter o olhar da minha mãe, da minha irmã, medo de encontrar um amigo do ex, não ter ninguém me perguntando o que era para eu poder me responder o que que era. Viajar é o buscar-me e eu sei que esse eu é fluído e eu vejo mais e mais como cada hora é uma coisa. Sempre gostei de estar só, tinha a turma e a necessidade de ficar sozinha. Eu era a única pessoa que eu conhecia que ia para o cinema sozinha com dezessete e achava ótimo porque estava lá, dentro do filme. Saía ainda no filme, eram minhas primeiras grandes viagens. E quando começo a viajar sozinha vi que posso ser quem eu quiser. Se eu chegasse e falasse Oi eu sou Andréa, artista plástica, pinto pra caralho e não sei o que lá que lá, tenho sete maridos, ou sou lésbica, na verdade gosto de trepar com cães.. foda-se, eu vou embora amanhã, posso te contar o que eu quiser, e se está disposto a ser sincero você fala bem, se eu posso ser o que eu quiser eu vou ser o que quiser, então vou ser o que eu sou. Você gosta de dormir até tarde, tem certeza? Então dorme. Ninguém vai te acordar, mas você vai perder a praia. Fiquei cinco meses sem sair à noite. Sempre fui super baladeira, mas lá como estava em contato comigo eu queria o dia e foi assim. Depois de um monte quando chego em Nova Iorque, tinha tomado dez cervejas em cinco meses e fumado um cigarro, sedenta por esse outro lado que também sou eu. E eu não conheci Nova Iorque de dia, só de noite, era isso que eu queria então vamos lá. Então o tempo inteiro é o que você quer agora, quem você é agora? Então vamos ser.

Esse é um tipo de honestidade que rola pouco nesses rolês de albergue, as pessoas sempre falam de onde vieram e para onde vão, é um tipo de vício de viajante também, falar o quanto foi incrível o lugar anterior e quanto vai ser incrível o próximo, mas esquecer do presente. A gente fala muito. E sempre, não só em viagem. Quando você sai desse circuito turista padrão começa a encontrar gente diferente e interessante todo dia, que não responde as mesmas coisas que você está acostumado a ouvir sempre. Mas você sim repete as mesmas coisas, de onde veio, para onde vai, e nessa repetição fica clara sua mediocridade. E então você passa a falar menos. A observar mais, a absorver mais. A necessidade de se mostrar diminui, você vê o outro como interessante e fonte de vida e passa a se perceber de maneira mais honesta, como de fato é, menos do que aquela super mulher hiper legal que você constrói para seus amigos na cidade te acharem fodona e fica projetando sempre que pode, repetindo aquelas histórias que você sabe que vão fazer o povo rir porque você já contou dez vezes para pessoas diferentes e aí você vira uma repetição, ser bem sucedido socialmente é isso, criar uma justaposição de clichês bem encaixados. Lembro de um desses momentos sozinha no mundo, tava na Amazônia, vendo aquelas árvores enormes senti como era louco ser parte daquilo. Uma mulher ao meu lado, paulista, rebateu que não, não era somente parte daquilo, era aquilo de fato, inteira. Eu não processei racionalmente isso, acho que nunca até hoje, mas me ficou como um enigma absorvido que eu tento entender e não sei verbalizar.

Sempre busco contar histórias de pessoas pelas quais tenho admiração. Normalmente me apaixono por quem estou entrevistando, de alguma forma me sinto muito próxima, eu me coloco no lugar delas. É a coisa da fragilidade, viajando fica muito clara sua fragilidade total, então você chega a um ponto onde some aquele patamar repórter-entrevistado, aquela arrogância jornalística de chegar com umas perguntinhas já no script só esperando aquela pessoa responder o que você já planejou que ela vai dar. As pessoas te surpreendem cara, e tem umas que acabam te contando coisas que não contariam nem pros maridos, rola umas relações de intimidade muito intensa, algumas pessoas precisam falar e você está ali com interesse genuíno em escutar. É só assim que eu me sinto confortável numa entrevista, com interesse genuíno em trocar, não buscando só roubar a alma daquela pessoa. A gente está trocando, eu sou uma personagem para ela também, estou ali oferecendo o que eu puder e de uma forma humana, é um momento catártico. Não tenho a necessidade mass media de correr, então posso ficar ali dois dias, dormir na casa dela e terminar a entrevista com um beijo honesto. E tem vezes que esse encontro é tão intenso que não dá para sustentar, alguns momentos de intimidade tão forte que depois só me resta ir ao cinema e chorar.

Acho mais forte do que a solidão e do descobrir-se é a coisa de aprender apreciar as fragilidades e os pequenos milagres da vida. Eu lembro que na Amazônia eu entrei numas de que se eu atravessar o sinal agora ou depois vai mudar minha vida completamente, porque se a pessoa que conhecer no bar vai dizer para eu ir pra lá eu vou, se a outra disser que melhor é pra cá, eu vou. Rolou algo assim muito forte em El Salvador, um momento que mudou o resto da minha viagem profundamente. Estava fazendo uma entrevista e sabia que tinha um festival sobre migração rolando em todos os países da América Central e sempre ou acabava na hora que eu estava chegando ao país ou começava quando tinha acabado de ir embora e eu fui perdendo. Acabei a entrevista a mulher meteu a mão na lixeira e tirou uma revista, me deu falando que olha, você já viu esse festival que está rolando? Vi sim, mas acabou né, não, não acabou, vai ter uma retrospectiva domingo e isso não estava no site. Fui, vi um filme que era um cara viajando sozinho com a câmera pelo norte da Guatemala sul do México fazendo um trampo com migrantes. Falei, nossa, sou eu, homem alemão. Pesquisei quem era o cara, mandei um email dizendo Oi querido, me impressionei com seu filme, estou aqui fazendo o mesmo, pedi contatos, enfim, pedi ajuda. O cara se identificou comigo, afinal eu era ele mulher brasileira, e me colocou em contato com uma amiga na Guatemala, fiquei três semanas na casa dela. Encontrei uma das personagens que eu mais gosto por conta de uma outra pessoa que ele me colocou em contato. Antecipei minha ida para a Cidade do México porque ele ia estar lá apresentando o documentário, conheci, me apresentou para uma amiga que me apresentou para um amigo e eu fiquei um mês na casa do amigo da amiga do amigo, na tal casa que eu fiquei doente. O alemão também me colocou em contato com um amigo em Nova Iorque, mas esse cara estava indo para Guatemala rodar um filme dele, conheci sua namorada e a melhor amiga na última noite dele na cidade, que viraram minhas irmãs em Nova Iorque, a amiga me colocou em contato com um cara no Rio, cara que eu morei na casa dez dias me apaixonei achei que ia casar e ter filhos mas não vou, que aí já me apresentou.. a troco de uma revista no lixo! Eu vejo essa história tátátá, ge..gente.. que fragilidade de existência. Quando você toma consciência real de que a vida é um milagre e um milagre fluído, se eu não fosse entrevistar aquela mulher que quase não fui, se ela não lembrasse da revista no lixo ou se eu não mandasse o email para o alemão porque deu vergonha, a vida teria outro rumo completamente. Quando você está em deslocamento tem que se abrir para o melhor de hoje, que vai ser o melhor de amanhã também. Você só tem aquele dia naquele lugar com aquela pessoa, e se você estiver ali de verdade todo dia o resto da sua vida é ótimo. Tinha a sensação que podia morrer qualquer dia, não faria mal. Eu estou em dia. E não queria morrer, em dia nenhum, mas eu sabia que podia morrer, toda vez que passava um perrengue falava mata aí, foda-se, eu tô em dia, era uma coisa de estar plena, tudo certo, fiz tudo que tinha que fazer na minha vida até agora. Mas vou viver muito ainda, até os noventa e sete. Mas na vida real, parada, isso desanda. Não posso morrer hoje.

I – De jornalismo umbigo e moinhos de vento

•30/09/2009 • Deixe um comentário

São Paulo é carente de Brasil. As lentes da orgulhosa locomotiva industrial tupiniquim enxergam vinte quilômetros ao redor da Praça da Sé, dez em torno de Copacabana e cinco a partir do Palácio do Planalto. Esses mirrados quilômetros quadrados desenham o latifúndio da mídia brasileira que propõe cobertura nacional – a saber, tevês, semanais e portais, jornalões correndo por fora – fenômeno que chamo cegueira do eixo RJ-SP-BSB. Todos os envolvidos no processo sabem que é pífia a cobertura realizada sobre larguíssimas áreas do território, sabem que padronizar é mais barato e dá mais retorno do que aprofundar. Também sabem das dificuldades em se realizar o trabalho, dificilmente os custos de enviar um repórter e bancar sua estadia em locais afastados serão financeiramente interessantes para o veículo. Sabem tudo isso e em momento algum esquecem onde está o público e a publicidade que financiam sua empresa. Em outras palavras, coberturas sobre temas distantes em cidades paupérrimas contribuem pouco para acrescentar à credibilidade e percepção de valor publicitário do veículo e, portanto, não são uma boa idéia empresarial. É muito dinheiro para bancar quatro ou sete pautas que poderiam ser feitas por telefone de uma forma ou de outra.

Para os consumidores desse pastiche de realidade que é o jornalismo, regiões inteiras logo ali além da fronteira não existem. Ou melhor, existem, mas não passam de uma massa amorfa pautada por três ou quatro conceitos fossilizados em décadas de cobertura estereotipada e preguiçosa. Em Belém ou chove o dia todo ou chove todo dia. As cidades do sertão pernambucano se bastam em velhos de chapéu de couro sentados na soleira e bodes pastando qualquer vegetal ressacado. Do Mato Grosso do Sul às bordas da Amazônia não há nada além de soja. As Serras Gaúchas, que belas, um monte de alemãozinhos acordando em campos de geada. Enxergamos nosso país através de uma bricolagem de estereótipos que veículos massificadores como Jornal Nacional ou Veja possuem interesse comercial em reforçar e o fazem sem pudores. A experiência local é subvalorizada e filtrada por redações impregnadas de metrópoles capitalistas. O continentebrasil é reduzido a meia hora de informes sobre ônibus que viraram em estradas distantes ou casas que foram arrastadas pela enchente logo antes da novela. Que, claro, versa sobre uma família rica da zona sul carioca. São Paulo entra com o jornalismo racional, objetivo, aquele que dita as regras que regem uma sociedade, enquanto o Rio se encarrega da novela, demonstrando em artes cínicas como tais regras se aplicam à vida cotidiana.

O repórter itinerante surge meio guerrilheiro neste contexto, há algo de cruzada pessoal e cavaleiro errante na composição do personagem, pegar o mundo na unha e reestruturá-lo como retrato honesto, apaixonado, mais real do que a realidade justamente porque inventado. Espaço em mídias de abrangência nacional são o graal a ser buscado. Tal espaço existe e precisa ser conquistado via identificação de editores sensíveis a essa carência de país que seus leitores possuem. Embora possa parecer, o corpo de editores destes canais massificadores não são apenas obtusos velhos engessados dedicados à manutenção do status quo. Existem aqueles sensíveis o suficiente para comprar a idéia e publicar sua matéria, existem estas brechas que podem ser exploradas por repórteres suficientemente dispostos a encarar os perrengues associados. Ninguém vai financiar sua empreitada, os custos são proibitivos, ainda mais se falamos de um estudante ou recém-formado, então trate de se virar para fazer acontecer. Desenvolva uma proposta de pauta muito boa ou jogue texto pronto na mão do editor certo. Antes de meu primeiro mês de viagem consegui contato com o editor que precisava na CartaCapital. Lhe escrevi dizendo que Olá, estou aqui no mundo, gostaria de alguma coisa? Não tive resposta, imagine a quantidade de propostas inócuas que um profissional destes recebe de jornalistas perdidos por aí. Aguardei cinco dias e lhe enviei um texto pronto. A resposta veio em quinze minutos, interessa, tem fotos? Descobri que existe mercado ávido para quem oferta conteúdo de regiões negligenciadas à preços de banana. Basta tirar o fator custos proibitivos da equação que o retorno para o veículo se torna consideravelmente mais atraente. Constatei que sim, a redação padrão possui interesse em matérias destes locais, ela só não sabe como realizar o trabalho e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Reconheço que minha experiência é limitada, afinal sou foca, necessito mais experiência e contexto de redação para prosseguir confortavelmente numa análise pessoal do quadro. Assim sendo, entendi melhor tornar minhas algumas experiências de profissionais que admiro. Os próximos três capítulos são isso, encontrei uma forma para expressar cada entrevistado e concordo com tudo que está escrito ali.

Mas isso tudo serve para alguma coisa? Faz sentido buscar algo assim, buscar aproximar pontos extremos de uma sociedade às custas de conforto pessoal? Existe qualquer resultado prático nesse exercício jornalístico de quebrar estereótipos? Me pergunto se uma matéria publicada em revista paulista sobre comunidade de pescadores no sertão cearense, às beiras do Orós, altera em qualquer medida a vida ou de quem pesca aqueles peixes ou de quem lê sobre eles. Não tenho resposta, apenas sei que devo fazê-lo ou me anular negando o narrador nômade que sou. Meu objetivo por muito tempo foi salvar o mundo, bom que percebi em tempo o idealismo utópico que tal caminho exala. E utopias, como todos sabem, são anacronismos superados. Hoje estou mais realista, por enquanto me contentarei em derrubar a civilização ocidental.

Parte III

•30/09/2009 • Deixe um comentário

III – De Jack Kerouac

•13/09/2009 • Deixe um comentário


Our battered suitcases were piled on the sidewalk again; we had longer ways to go. But no mather, the road is life.

O Hudson 1949 era provavelmente o melhor carro para levar aqueles dois. Modelo elegante, preto, já vinha de fábrica tão rebaixado que era necessário descer um degrau depois de entrar pelas sólidas portas da magnífica barca de metal. Seu motor V8 batia setenta, oitenta milhas por hora sem maiores problemas, frequentemente alcançando cem milhas por hora e alguns problemas, rasgando as estradas que nos anos 40 ligavam Pacífico, Atlântico, Canadá e México, toda a malha de asfalto dos Estados Unidos de Harry Truman. A direção era responsabilidade do pé-de-chumbo Neal Cassidy, que pensava e falava tão rápido quanto dirigia. À Jack Kerouac cabia mais entender o país que passava veloz além da janela de passageiro e dentro de seu peito.

As viagens da dupla são o esqueleto narrativo de On the road, a incendiária narrativa de Kerouac que desencadeou uma revolução cultural na estrutura social ianque. Cruzaram o continente de costa a costa várias vezes, ávidos a chegar a São Francisco, Denver, Texas, Nova Iorque, Chicago, Cidade do México ou a grande cidade mais próxima. Utilizavam qualquer veículo disponível, o Hudson não aguentou muito tempo a intensidade de Cassidy ao volante. Pegaram carona com tantos tipos diferentes que sua compilação pode oferecer um bom referencial do que era seu país em imensidão de padrarias, montanhas, desertos e campos. Não podiam parar, não viajavam para parar ou chegar, seu objetivo era a estrada, o único caminho possível para se encontrar era trilhar todos eles, cruzar infinitamente as vastidões de planícies batida com sonho americano para emergir de toda sua podridão e generosidade de mãos vazias, tão solitários e deslocados e acabados e chapados como sempre foram. Viviam em um país militar e conservador, acabara de sair da guerra mais sangrenta que a humanidade já vira e começava uma outra sem qualquer perspectiva de vitória. Além da certeza de que a Guerra Fria se estenderia por tempo indefinido, misseis intercontinentais e uma possível destruição nuclear sobrevoavam regularmente as cabeças protestantes da América do Norte. Apenas uma ameaça era maior do que a chuva atômica soviética: sua ideologia subversiva. Era tempo de produção, tempo de esforço bélico, de mostrar ao mundo quem era mais fodão e o cidadão comum, cônscio de seu pátrio dever, deveria encontrar seu lugar como engrenagem da grande máquina industrial bélica cultural que fará da America o maior país do mundo e do capitalismo sua ideologia. “Essa é a história da America, todos fazendo o que pensam que deveriam fazer”, escreveu em On the Road.

Aleluia aos deslocados, salvem os solitários desolados e os vagabundos iluminados, patrocinem os príncipes melancólicos e bebam pelos os gênios arrasados, personagens cubistas que dolorosamente não encaixam no esquema oficial. Trabalham sua dor como ourives, é o que lhes resta e salva. Tornam-se íntimos de uma estranheza que neles não começa ou termina, sabem como expressá-la com letras no papel, acordes de harmonia ou imagens bem compostas e nesse processo de lidar com o peso do mundo que soterra transbordando seus corações acabam por criar essas jóias líricas que redimem e orientam a humanidade. Kerouac sabe-se pária. Desde sua origem de imigrante franco-canadense até uma morte semi suicida por cirrose alcoólica aos 47, fez questão de beber os loucos de plantão que o mundo insiste em oferecer. Uma das passagens mais famosas de seu livro clássico assume a disposição de ser ima de malucos a que o autor se propôs durante boa parte de sua vida: “Falo também sobre Roy Johnson e Big Ed Dunkel, seus amigos de infância, seus companheiros de rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles varavam as ruas juntos absorvendo tudo com aquele jeito que tinham no começo, e que mais tarde se tornaria muito mais melancólico, perceptivo e vazio. Mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito em toda minha vida, sempre rastejando atrás das pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e nunca dizem um lugar comum, ao invés disso queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo em teias de aranha pelas estrelas e você finalmente vê em seu centro fervilhante um brilho azul e intenso explodir e todos “aaaaaaah!.”

É neste tipo de louco que Kerouac encontra suas jóias brutas. Nasceu em Lowell, Massachussets, 1922, terceiro filho de franco canadenses que imigraram em busca de emprego na indústria do florir do século americano. Em 1942, em plena segunda guerra, entrou para a marinha mercante de seu país e no ano seguinte alistou-se na marinha regular; logo foi dispensado por motivos psicológicos. Era muito indiferente àquilo tudo, não possuía a disposição de um verdadeiro marinheiro ianque. Em 1944 foi estudar na universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde conheceu amigos como Allen Ginsberg, Lucien Carr e Gregory Corso. Tal círculo de amizades é a semente do que depois viria a se consagrar como a geração beat que, ainda que marcada por seu forte caráter antiacadêmico e iconoclasta, começou de fato no ambiente altamente formalista da Columbia dos anos 40, a mesma atmosfera que produziu nomes como Louis Simpson e David Hall, campeões da burilação textual, segundo avalia a Wikipedia. Os beats, porém, necessitavam mais crueza do que o ambiente acadêmico poderia lhes proporcionar e encontraram na Times Square, então reduto de bêbados, malandros, vagabundos, michês, homossexuais, drogados, loucos e desajustados, chame como quiser, ali estava seu refúgio na metrópole culminante do capitalismo. Conheceram William S. Burroughs, uma década mais velho, poeta maduro e bagaceira, já havia cruzado os Estados Unidos diversas vezes e também vivera na Europa e África, usara todas as drogas conhecidas e algumas que ainda não haviam entrado nos livros, tivera todo tipo de profissão e quebrara a lei de tantas formas quanto conseguiu imaginar. Burroughs, maluco lendário, serviu como grande referência e influenciou o grupo de amigos que ainda não se chamavam beats, mesmo já o sendo.

Gênios arrasados
A honra de cunhar o termo cabe a Herbert Huncke, vigarista, garoto de programa, ladrão e malandro, logo, amigo espontâneo do grupo, batia cartão na Times Square. Huncke conheceu primeiro Burroughs, quando este tentou lhe vender uma submetralhadora e uma caixa de ampolas de heroína num bar local. Desconfiou que o poeta seria um policial disfarçado, avaliando que a proposta era absurda demais para ser verdade. A amizade começou quando, após injetar quantidades cavalares da substância junto com Burroughs, concluiu que ele provavelmente não era um policial e sendo também um cara legal seria mais do que digno de sua amizade. Huncke, americano pobre de Chicago, era fonte perfeita da hiper realidade que os beats buscavam então, representava a classe mais pobre da America e assim ensinava algo que o grupo de classe média não acharia em seu umbigo. Utilizava o termo beat, corruptela de beat down, para designar a vida, o zeitgeist do pós guerra. Beat down significa caído, gasto, inútil, moído de pancada, na lona, e sintetizava bem o sentimento de uma geração desiludida a quem o sonho americano não dizia nada, muito diferente da prolixa e disponível em qualquer drogaria benzedrina, que dizia horrores. Kerouac se apropriou do termo e logo acrescentou mais algumas camadas de subjetividade a essas quatro letras. Beat é o radical de beatitude, sonoridade que grande apelo na alma mística e profundamente católica do escritor franco-canandense. Por este lado os beats seriam os santos loucos, os iluminados vagabundos que redimiriam uma America podre, míope e opressiva com sua dor e confusão, sua generosidade e sensibilidade. Diz Kerouac: “Eu gosto de coisas demais e me encontro todo confuso e sobrecarregado correndo de uma estrela cadente até a próxima até não aguentar e cair. Eu não tinha nada a oferecer exceto minha própria confusão”. Finalmente, ainda descascando o beat, temos que o termo significa também batida, como batida do coração ou batida de música. O ritmo frenético e hipnotizante do jazz é influencia assumida do escritor, os rádios dos carros, isto é, aqueles rádios que funcionavam enquanto um beat dirigia o veículo, tocavam bop alucinadamente sax profundos clarins rasgados indo e vindo muma melodia infinita, ecstasy da mente nessa batida esse ritmo incessante de notas e notas e costuras e improvisos encaixaram muito bem nos parágrafos alongados e sentenças que se emendavam numa sequência assustadora até então nunca escrita com tanta convicção, isto é, um único parágrafo se estendendo por 120 pés de papel datilografado é convicção, aquela jam session de períodos em loop, cada verso de sua prosa uma batida musical, um agudo do piano, uma tira do sax, escrito como se falasse tentando de propósito correr ou alongar pra terminar as idéias um segundo antes do fôlego. Agora pense um cara desse lendo um trecho de seus escritos num bar sujo, cheio de nego genial tomando uísque e fumando uns negocinho.

On the road é uma obra oral, cheia de vogais, com sons abertos e generosos, produzida para ser lida em voz alta e falar ao coração, o que ninguém realizava melhor do que o próprio Kerouac. Algumas gravações dele pegam em cheio no peito daqueles que sentem o quanto a estrada é apelativa e o quanto ela tem a oferecer à busca por auto conhecimento e expansão da consciência. Tal efeito é bem melhor demonstrado na batida, no ritmo, on the beat que Kerouac lê o que escreve. Traduzi-la ao papel é apresentar uma paródia da expressão inicial do autor e ler Kerouac em português é imaginar ou entender que sim, filho da puta cara, aqueles parágrafos realmente devem ser geniais em inglês. A melhor definição de beat já cunhada não pode ser traduzida e merece seguir concisa em sua língua original, na verdade deveria ser a trilha sonora deste trabalho, aliás, acaso esteja lendo perto dum computador, por favor abra o Youtube e encontre algumas entrevistas, algumas leituras públicas proferidas por Jack Kerouac e analise as capacidades de bardo deste narrador de mundo. Conforme ele escreveu em Desolation Angels, para começar a fugir de On the road e que nem tente traduzir, se estrepa: and everything is going to the beat – It’s the beat generation, it be-at, it’s the beat to keep, it’s the beat of the heart, it’s being beat and down in the world and like oldtime lowdown and like in ancient civilizations the slave boatmen rowing galleys to a beat and servants spinning pottery to a beat.

Bebop on loop

Seu ritmo tem tanta influência de Dizzie Gilepsie e Miles Davis quanto da 1 – fenilpropano 2 – amina ou, para os chegados, benzedrina, a ancestral hard core das atuais anfetaminas. A substância percorre On the road sob a alcunha de Bennie e completa a fauna de psicoativos que Kerouac e seu bando utilizam. Bennie, porém, tem papel especial nesta história. Foi chapado de tal química e de café que o escritor encarou as três semanas de frenesi literário também conhecidas por On the road. A substância lhe concedeu energia e resistência sobre humanas necessárias para concluir seu tour de force, o mergulho dentro de si que foi escrever ininterruptamente pela maior parte daqueles dias. Jack adaptou uma bobina de fax a sua máquina de escrever apenas para não necessitar trocar de folha a cada tanto de texto e assim poder digitar sem interrupções. O resultado foi o mitológico pergaminho contínuo de quase quarenta metros, cento e vinte pés sem qualquer divisão de capítulo. Impossivelmente, deliberadamente, tampouco existiam parágrafos, apenas um grande bloco contínuo estendendo-se por toda a América do Norte, um fluxo único de texto praticamente sem pontos finais e com pouquíssimas vírgulas cobrindo a distância entre os dois oceanos americanos quatro vezes, passando ainda pelo México e por todas infinitas e surreais situações vividas e inventadas por ele e seus amigos no trajeto. De fato, falamos de Dean Moriarty. Entre todos os amigos que povoam o panteão frito do livro, Neal Cassady, traduzido como Dean, é a grande chama que move On the road e Kerouac pelo país. Quando ele menciona os fogos de artifício e tudo mundo fazendo ahhhh! está se referindo a forma como Neal Cassady se uniu maravilhosamente a Allen Ginsberg, ou Carlo Marx. É a explosão deles pelas estrelas que Sal Paradise, aka Jack Kerouac, aka Sad Paradaise, observa e reserva, seguindo sua resiliente disposição de acumular mundo em si para depois colocar tudo fora num inacreditável jorro lírico.

Tal é sua proposta de prosa espontânea, escrever sem parar para formatar o que o inconsciente nos oferece e apenas seguir seguir seguir sem se preocupar com estereótipos e amarras formais nos oferecidas desde antes de nascermos todos os grandes campos da gramática, sintaxe, literatura e sociedade. A necessidade que Kerouac possuía de escrever ininterruptamente fica clara em trechos do manuscrito original que não são palavras, apenas letras digitadas a esmo, dedos carregados de benzedrina se movendo mais rápido do que a mente podia processar imprimindo quaisquer tipos naquele papel, dando ao cérebro tempo para acompanhar o ritmo frenético imposto pelos músculos. De fato enormes seções de On the road são descrições simples, quase estéreis, onde o autor desfia detalhes inacabáveis de memórias aparentemente sem maior interesse literário. Por deus, quantos caronistas diferentes você pode encontrar? É preciso descrever cada um deles? Cada carona no maldito caminho? Mais, é possível lembrar disse tudo? Usando esse tanto de droga? Inventado ou não, espontâneo ou não, o fato era que o rapaz escrevia, e muito, e rápido, quase qualquer coisa. Foi essa verborragia que levou Truman Capote a dizer que o que Kerouac faz não é escrever, apenas digitar. Porém não se desvie do texto, leitor ansioso, leitora internética, em dado momento no meio daquela pilha de letras aparentemente banais surge uma sequência de quatro ou cinco linhas absolutamente geniais, onde Kerouac destila suas mais puras sensibilidade e percepção de mundo naquilo que foi aclamado como a bíblia de uma geração. Normalmente estes títulos não surgem à toa e merecem nosso respeito. Retomo o reconhecimento que a publicação do livro rendeu ao autor após a digressão que segue.

Eu, Breno, em três muito claros momentos de minha viagem alcancei algo próximo à prosa espontânea. Se é que existem coincidências na vida, digo que todos os três casos aconteceram no Maranhão, entre maio e junho de 2008, se bem que o último deles começou no Maranhão e acabou no Pará, ponto final do trem, mas enfim, coloco este aqui por considerá-lo o mais significativo exemplo de prosa espontânea minha, onde de fato me senti como meio, como expressão de um fluxo que não era meu, ao menos não racionalmente, não conscientemente meu, plenamente meio. Em dado momento não havia mais a fazer senão seguir escrevendo, seguir colocando no papel aquela história que eu não sabia porque tinha começado e nem onde ia parar. Peço perdão à saída fácil de metatexto, discuto o texto nele mesmo, mas, como já coloquei, não havia nada que eu pudesse fazer, estava submetido, conquistado por meu instrumento e minha mão direita; naquele dia a caneta acordou meio totalitária.

A caneta acordou meio totalitária
O Palácio dos Leões é de onde assina seus decretos e ofícios o executivo maranhense. Casa Neoclássica de esqueleto português e com restos de açucar colonial nas frestas de todas as suas salas, o prédio é uma ampla construção horizontal e branquinha. Mas a localização é que vale o post: pegue a Beira-mar e, logo antes do cais, quebre a direita na ladeira. Ali em cima, de peito aberto pro mar, no alto de uma colina com um muro duns 20 metros de pedra, estão os vigilantes e burocráticos leões do norte, e não estou falando de garrafas de jurubeba.
Ah sim, o palácio delimita uma das pontas de uma sequência de praças que forma um L no coração de São Luis, sentença esta última que pode ser reproduzida integralmente para descrever a posição da Catedral da Sé, também muito bela e no pico do bé do L. Chatíssimo.

E aí tem as gentes. Aquele povo todo diverso sentado passeando andando pirando curtindo correndo dirigindo ao redor em cima dentro do jardim dos leões. Excelente o cidadão que desenvolveu o conceito de apropriação do espaço público e valor de uso da cidade. Em momento inspirado, tal serumano vestiu o teórico e deu nome praquilo que a gente sente e sabe sem dizer que sabe. O teórico padroniza e classifica um sentimento espontâneo do coletivo, esquematiza-o de forma que possamos operar o racional por cima com nosso telencéfalo altamente desenvolvido e assim tranquilizar nossas almas com a certeza de que aquele campo está definido, empacotado e pasteurizado em livro e tese.

É o polo oposto ao artista. Este dá vida a conceitos cristalizados utilizando, de forma antecipada e meticulosa, sensibilidade mútua para alcançar seu público. Não dá nome ao que todos sabem, aucontraire, dá cor som forma ritmo pra cada um apreender como seu contexto pessoal permitir aquele sentimento que supera o indivíduo e une os receptores.

É o exercício que tento fazer, buscando a linguagem mais eficiente e elegante possível. O caderno, sem ctrls da vida, é rabiscado e repensado, algumas palavras deste texto estão em sua quarta, terceira versão.

Texto este aqui que poderia ter sido sobre qualquer coisa. A população do jardim dos leões foi a escolha inicial, mas já há algum tempo a caneta tomou o controle e decidiu escrever sobre ela mesma. Agora sou apenas um observador, menos do que isso, sou forçado por ela a redigir essas palavras. É um instrumento cruel, dita meus pensamentos e obriga a mão a trabalhar num ritmo desumano que transforma a letra num quase garrancho, ofendendo de cara lavada tendões e músculos no processo. No momento sou uma lagarta de mariposa e a caneta uma daquelas vespas escravocratas que obriga outrem a fazer o trabalho sujo para si.

Me perguntaram hoje qual era minha meta-narrativa e eu não tinha pensado nisso ainda. Bom, pensar não pensei em nenhum momento, agora não penso; escrevo. E lá se vai toda métrica e atenção dedicada dos primeiros parágrafos, virou jorro e fluxo constante de palavras. Qual dos dois estilos você prefere? Acho que o inconsciente aceitou o desafio e teve senso de oportunidade para tomar o controle de minha mão direita e escrever sobre ele mesmo enquanto estou aqui bem em frente ao palácio maranhense. Então vamos lá, canal aberto com o insconsciente é para se aproveitar. Uma cena qualquer. Leopardo na África subsaariana correndo e tudo tem a mesma cor desbotada de dourado. Outra cena. Laboratório Submarino 2020, é um desenho do Cartoon, se nunca viu nem discute aperta agora ctrl t e você sabe onde fica o iutube. Outra cena, algo que não venha da tv. Formigas numa estrada de terra, uma trilha daquelas vermelhas cabeçudas carregando folhas verdes verdinhas aqui e acolá no barro esburacado das vias do interior. Gostaria de uma folha com manchas para ver algumas coisa nela. Folhas de árvore servem, são iguais a nuvem? Não, os galhos estão muito próximos, só dá para ver desenhos na silhueta, que por sinal é de um peixe rastafari.

banco do brasil, capitania dos portos, tribunal de justiça e palácio do governo. Esses tudo pertinho um do lado do outro ao meu redor. Financeiro, militar, judiciário e executivo. E bem ali, de frente pro mar, um cantinho onde uns gostariam de usar drogas e outros se pegam com tesão homossexual. Na cara do gol, pertinho do que descrevi mas tipo numa ponta da muralha que se ergue 20m acima da Beira-mar.

É uma bela cidade.

Analisar a relação entre momentos de viagem, de extremo deslocamento pessoal, e o surgimento destas situações de canal aberto com o inconsciente desaguando em manifestações expressivas individuais, que tanto no meu caso quanto de Kerouac dão-se pelas letras enfileiradas, diga-se, foge ao alcance deste trabalho e permanece como um desafio pessoal a desenvolver e, senão desvendar, ao menos aprender como utilizá-lo de forma mais intensa e quem sabe algum dia escrever algo que realmente preste. Isto posto, descarto qualquer possibilidade de estar me comparando a Keroauc. Meu fluxo de prosa espontânea acima submetido foi curto, durou não mais do que meia hora e rendeu apenas alguns parágrafos num blog que me é tão querido quanto negligenciado, tampouco tinha eu tubos e mais tubos de benzedrina disponível ou a melancolia solitária trabalhada necessária em doses maiores do que a anfetamina, é afinal muito diferente de um pergaminho de quarenta metros escrito por um gênio devastado em 1951, que foi vendido recentemente em leilão por US$ 2,2 milhões e desencadeou uma revolução cultural no final dos anos 50, mais precisamente a partir de 57, quando publicado. O autor necessitou seis anos e uma enxurrada de negativas até finalmente conseguir editora para sua obra mais famosa. O texto era visceral demais, confuso demais, intenso demais, não seria entendido por executivos de livros que lidam mais com números e lucros do que com genuínas manifestações de lirismo e estranheza. A Viking aceitou imprimí-lo, contanto que pudesse editá-lo radicalmente. O enorme parágrafo original foi editado, o autor foi obrigado a cortar umas 120 páginas e a editora outro tanto enorme, além de criar uma até então inexistente divisão em cinco capítulos, centenas de parágrafos forjados e “uma porrada de vírgulas inúteis”, segundo o Kerouac avaliou. Foi sucesso imediato.

Spiders that burn, burn, burn
“On the road é o segundo romance de Jack Kerouac e sua publicação é um evento histórico, na medida em que o surgimento de uma verdadeira obra de arte concorre para desvendar o espírito de uma época. (…) É a mais belamente executada, a mais límpida e se constitui na mais importante manifestação da geração que o próprio Keroauc, anos atrás, batizou de beat e da qual o principal avatar é ele mesmo”, escreveu no The New York Times o crítico Gilbert Millstein. Foi a fagulha que incendiou campos de juventude ávida por anti heróis e ícones inconformados como James Dean, Elvis Preasley e, agora, Kerouac. Bob Dylan, o folk hero que se elevaria em alguns anos tomando o bastão de bardo e poeta da juventude declarou que o On the road “foi como uma bíblia para mim. Eu amava aquelas as frases dinâmicas, carregadas de poesia bop que não dão tempo para respirar. Submergi na atmosfera de tudo que Kerouac estava dizendo sobre o mundo ser completamente doido e que as pessoas que interessam são as loucas, loucas para viver, para falar, para serem salvas, e eu vi que me encaixava perfeitamente neste grupo de doidos”. Diz a lenda que Dylan fugiu de casa após ler On the road. Só para continuar no time dos AAA, Jim Morrison fundou os Doors largamente inspirado pela liberdade vertiginosa do livro e Johnny Depp quase o interpretou num filme que seria dirigido por Gus Van Sant e produzido por Francis Copolla em 1992. Ademais, a lista de músicos que mencionam ou Kerouac ou On the road em alguma de suas letras inclui nomes como Ella Fitzgerald, Jethro Tull, The Gratefull Dead, The Beastie Boys, R.E.M., The Smiths, Bad Religion, Belle and Sebastian e Fatboy Slim. Temos ainda que Bukowski, Hunter Thompson, Tom Wolfe e todo o new journalism foram claramente influenciados pela prosa espontânea e porra-louca gestada por nosso querido objeto de análise.

Estes são alguns dos nomes estelares que tem sua associação ao escritor distantes uma consulta ao Google de você, muito mais sutis e subjetivas foram as reações causadas nos membros anônimos da geração beat, aqueles inúmeros moleques de todas as idades que compartilhavam a ansiedade melancólica e beat down do autor. O livro mapeou um desejo por liberdade que ardia na sociedade americana e, disponibilizando sua tradução clara a preços módicos na livraria da esquina de cada deslocado e misfit do país, acabou por catalisar uma onda em busca de liberdades individuais e ritos de passagem em busca de maior conhecimento do self. Não é exagero avaliar que o movimento hippie é uma consequência indireta da publicação do livro, como bem avalia Eduardo Bueno no prefácio da edição de bolso publicada pela L&PM em 2004. São Francisco é o ponto espacial onde a geração beat se funde com o movimento hippie. A referência temporal de tal fenômeno é a segunda metade da década de 50 chegando em 60. O círculo beat de Nova Iorque, exceto Burroughs, por um motivo ou por outro acabou todo na cidade em 1955 e se mesclou com a Renascença de São Francisco, movimento cultural muito próximo ao beat e que agregou nomes como Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure e Gary Snyder, este figura central de The Dharma Bums, também de Keroauc. Foi ali que Allen Ginsberg declamou pela primeira vez seu poema Howl, uivo lancinante de uma juventude oprimida por padrões morais conservadores, protestantes e belicosos impostos pela sociedade americana desde sempre. O movimento hippie surgiu a poucos quilômetros de onde o poema foi lido, compartilhando com os beats uma busca irredutível por liberdades individuais e gosto pela alteração extrema de consciência, relegando pouca satisfação à integridade física.

A America conservadora sabia do potencial explosivo daquelas páginas. Não demorou uma semana para o The New York Times publicar outra resenha sobre o livro. A primeira foi escrita por Millstein numa terça-feira, cobrindo a folga de seu editor, David Dampsey, que no domingo seguinte avaliou o livro. Considerou que, mesmo sendo altamente legível e divertido, ofendia a nação por demonstrar um ponto de vista moralmente neutro enquanto versava sobre temas como sexo, adultério e uso de drogas. No domingo seguinte a revista Time publicava resenha em tom paternal, punitivo, acusando o autor de dar “fundamento à explosiva juventude que, de um canto ao outro do país, se agrupo em torno de jukeboxes e se envolve em arruaças sem motivo em plena madrugada”. Ou seja, ambos criticam Kerouac por francamente escancarar a desolação e rebeldia de uma juventude que não mais cabia em seus padrões morais conservadores. Apontar o elefante rosa se equilibrando sobre a mesa de centro da America fazendo uso de um estilo verborrágico, inconstante e oposto a construções elevadas lhe rendeu a pecha de subliterato, que de uma forma ou outra carrega até hoje.

Apesar destas reações conservadoras, o efeito de combustão espontânea do livro elevou o autor imediatamente à categoria de celebridade e porta-voz de sua geração. Foi uma responsabilidade que Jack nunca desejou e tampouco soube lidar. Repórter após repórter, apresentador após apresentador questionaram o que era e afinal queria o que essa tal geração beat. Respondia torto, falava sempre uma coisa, dizia de viés, elipses e parábolas, tá tudo no Youtube, nunca se sentiu confortável e só piorou, a partir de um momento passou a se desvincular daquela postura, daquela viagem. As trips de On the road aconteceram quando Jack tinha entre 25 e 27 anos, o livro foi escrito aos 29 e publicado aos 35. Conforme os anos seguiram, o autor se distanciou progressivamente da chama libertária que o consumiu e cuspiu fora a quintessência da juventude americana dos anos 40, porque On the road é um livro sobre os anos 40 lançado nos 50. Após longo declive acabou tornando-se um reacionário conservador, renegou qualquer proximidade com o movimento hippie e de uma forma ou de outra afastou-se do espírito de sua obra desde antes de sua publicação, parou de viajar no meio da década de 50 e passou a escrever sobre outros temas, sempre com a mesma visceralidade, mas nunca mais abordando a persona e o tema que lhe consagraram. Já não era muito estável quando anônimo, sua projeção abrupta à fama e à categoria de representante da juventude foram mais do que um Keroauc de meia idade soube lidar. “Eu tenho 45 anos, não tenho mais nada a ver com essa juventude de 18”, declarou em 1967, bêbado, em mesa redonda na tv. No mesmo período também afirmou a uma repórter italiana que quanto mais envelhece mais bêbado se torna. “Por que? Porque o ecstasy da mente me atrai. Sou um fodido, mas adoro, adoro.” Afundou-se num alcoolismo suicida, não foram poucas as vezes que apareceu bêbado na televisão sem se importar uma unha com isso. Ao contrário, parece que queria se afirmar na estranheza de pária que nunca lhe abandonou. Morreu de hemorragia hepática fruto do intenso consumo de álcool, deixando como legado de escritor arrasado talvez a obra que mais inspirou viajeiros a sair de casa e viver intensamente suas vidas e queimar, queimar, queimar como fabulosos fogos de artifício explodindo em teias de aranha pelas estrelas até você finalmente ver em seu centro fervilhante um brilho azul e intenso explodir e todos “aaaaaaah!”.

Com estas páginas ofereço minha homenagem pessoal a Jack Kerouac, o grande caroneiro, o mochileiro essencial, o alcoólatra depressivo budista em busca de salvação Jack Kerouac, protótipo de todos os viajantes desajustados fora de sua bolha de conforto atrás de uma meia dúzia de algos que ainda não souberam bem dizer o que é mas que estão aí em algum lugar, vestindo a certeza de que a equação final vai valer a pena, a inutilidade da permanência como baliza fundamental e seja lá quantos dinheiros tiver no bolso. Serão o suficiente.

Aqui seguem os intraduzíveis 30 passos para se realizar a genuína prosa espontânea, Jack Kerouac estaile, como escritas pelo autor. Talvez com mais tempo eu me proponha uma aportuguesação.

1.Scribbled secret notebooks, and wild typewritten pages, for your own joy
2.Submissive to everything, open, listening
3.Try never get drunk outside your own house
4.Be in love with your life
5.Something that you feel will find its own form
6.Be crazy dumbsaint of the mind
7.Blow as deep as you want to blow
8.Write what you want bottomless from bottom of the mind
9.The unspeakable visions of the individual
10.No time for poetry but exactly what is
11.Visionary tics shivering in the chest
12.In tranced fixation dreaming upon object before you
13.Remove literary, grammatical and syntactical inhibition
14.Like Proust be an old teahead oftime
15.Telling the true story of the world in interior monolog
16.The jewel center of interest is the eye within the eye
17.Write in recollection and amazement for yourself
18.Work from pithy middle eye out, swimming in language sea
19.Accept loss forever
20.Believe in the holy contour of life
21.Struggle to sketch the flow that already exists intact in mind
22.Don’t think of words when you stop but to see picture better
23.Keep track of every day the date emblazoned in yr morning
24.No fear or shame in the dignity of yr experience, language & knowledge
25.Write for the world to read and see yr exact pictures of it
26.Bookmovie is the movie in words, the visual American form
27.In praise of Character in the Bleak inhuman Loneliness
28.Composing wild, undisciplined, pure, coming in from under, crazier the better
29.You’re a Genius all the time
30.Writer-Director of Earthly movies Sponsored & Angeled in Heaven

II – De Mario de Andrade

•3/08/2009 • Deixe um comentário

Acalanto do seringueiro

Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir…
Seringueiro, dorme…

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!…
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.

(…)

Com estas duas estrofes Mario de Andrade abre o segundo de seus Dois Poemas Acreanos e eu o capítulo onde abordo a alma viajante do escritor. Ao longo de sua vida o poeta realizou três jornadas em busca de cultura regional brasileira enquanto negou-se a realizar o grand tour europeu, prática absolutamente comum entre seus pares modernistas e membros da elite paulistana. Sabia que sua formação daria no Brasil e assim dedicou-se a buscar a alma nacional por recantos distantes dos grandes centros e das rotas turísticas consagradas. Tal postura, absolutamente inovadora para as primeiras décadas do século XX, e que até hoje segue causando estranheza para os acostumados às viagens de conforto, foi responsável por acumular densidade brasílica suficiente para escrever a obra prima que é Macunaíma, rapsódia de formação nacional, bricolagem do brasileiro e pastiche de nosso sentimento de mundo.

Acalanto do Seringueiro está no livro Clã do Jabuti, publicado em 1927, momento em que o escritor já havia sido consagrado como grande mestre da cultura nacional e sua proposta modernista não mais cabia em São Paulo, transbordando para além de seu berço na neo-riquíssima capital bandeirante. Mario já não se bastava ali, havia absorvido lirismo suficiente do desvairio paulistano e agora necessitava buscar novas fontes de alma nacional. Afinal, não era sua própria idéia fundar uma vivência cultural que fosse plenamente brasileira, livre de amarras e pré concepções metropolitanas? São Paulo não mais lhe bastava, a urbe industrial e concentradora ofertava apenas a faceta mais disponível de um Brasil em formação. Sua desarticulação caótica ofereceu ao escritor ponto de partida excelente para compreender saborear a multiplicidade do gênero humano. Era um apaixonado por gentes, viciado em subjetividade a quem necessitava estar sempre atrás de novas gentes, novas experiências humanas em busca de formar o conceito ‘brasileiro’ e entre suas idas e vindas literárias, talvez tenha sido um dos que mais se aproximou de definir esta abstração nacional.

Quero cantar e não posso, quero sentir e não sinto a palavra brasileira que faça você dormir. Eis alguns versos que demonstram sua necessidade de apreender mundo, encontrar novos brasis, viajar em busca de um eu que reconhece seu, mesmo que não saiba de onde ou como possui tal sentimento. São brasileiros ambos, tanto o seringueiro de cabelo caído no rosto, quanto o literato paulista, burguês fundador da alma nacional. Porém, o que possuem em comum além do adjetivo pátrio? O poeta sabe-se em falta, lhe incomoda ser parte de alguém que é apenas uma abstração em seu imaginário. É corajoso ao se assumir ignorante, ao reconhecer que não entende de Brasil senão o Brasil que é São Paulo. Do Acre lhe resta sublimar o canto do uirapuru por tabela.

A primeira versão de Macunaíma estava pronta em 1926. Já havia ali a estrutura da rapsódia aglutinadora, sua intenção de formação nacional era urgente. Carecia, porém, de densidade tupiniquim, necessitava informação e embasamento para desenvolver com realidade sua intuição de Brasil. A primeira viagem do turista aprendiz começa em Santos, onde embarcou rumo a Belém em 07 de maio de 1927. Seguia acompanhado por Dona Olívia Guedes Penteado, burguesa produtora de café, sua sobrinha Margarida Guedes Nogueira e a amiga Dulce do Amaral Pinto, ambas adolescentes e esta última filha de Tarsila do Amaral. A comitiva mais buscava conforto em luxos exóticos, viajavam como um evento social percorrendo a inexplorada e excitante amazônia. Foram anunciados pelo presidente da República, Washington Luis, e eram prontamente recebidos pelas mais altas autoridades dos locais onde passavam. Jantavam as melhores refeições e passeavam acompanhados por comitiva oficial, envoltos por aquela agradável bolha social como convém a um burguês em trânsito. Esse safári humano incomodava Mario de Andrade, que buscava quebrar tais padrões em busca de contato com um Brasil mais cru. Às mulheres bastavam os banquetes e floreios. Pudera, a necessidade de dissecação profunda do gênero humano não é sentimento muito comum, acomete apenas aquelas almas que não se bastam em si, tão carregadas de sensibilidade foram nascer que necessitam possuir, cheirar, roçar de leve contra a pele sensível do rosto vivências que até aquele momento não eram suas devido às limitações impostas por regras do tempo e espaço. Não são raros os casos onde poetas interpretam tais impossibilidades físicas de vivência como descaso pessoal e é bem provável que estejam certos.

[…]

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você…
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei…
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante…
Macambúzio, pouca fala,.
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach… Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu…
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II…
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres…
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais…
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

[…]

Entre os documentos pertencentes ao Arquivo Mario de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) está uma despretenciosa pasta de cartolina verde clara. Manuscrito em sua capa, tinta preta, lê-se “O Turista Aprendiz – (Viagens pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega)”. É a edição definitiva, concluída pelo autor em 1943, do diário que manteve em sua viagem de 1927 pelo Norte brasileiro. As dezenas de anotações se sucedem como registros de jornada, começando por sua saída ainda no porto de Santos e finalizando na volta para casa. Ainda que as datas sigam linearmente, sua cronologia não é, porém, exatamente rigorosa. Foram diversas as tentativas do poeta de formatar aquele conteúdo de maneira satisfatória, mas sempre parava logo, desagradado sem entender muito bem com o que. Finalmente, em 43, encontra sua versão definitiva com dias reposicionados da forma que melhor lhe agradou.

Os registros são eminentemente factuais, com pinceladas aqui e ali do lirismo que lhe transborda. É apenas a sensibilidade afiada do poeta que faz com que aquele conteúdo não seja um massante apanhado de dia-a-dia turístico ao longo de rios, festas e cores amazônicas. Não existe ali grandes transgressões de forma ou conteúdo e tampouco pode-se observar alterações significativas no estilo do registro ao longo dos meses que correm, já estava formado como escritor. Não refletem, portanto, o intenso processo de transformação pessoal e, para os dispostos, produção artística que uma viagem oferece. Não era esse o objetivo daqueles papéis, serviriam desde sempre como retrato e passagem para Mario revisitar suas experiências naquela jornada. Macunaíma não está ali. Aparece vez ou outra de passagem, acena, preto retinto, desde o fundo da mata virgem, meio escondido, lá está, confundido com a paisagem, observador oblíquo. Não se aproxima, não se apresenta, tudo de viés. Herói de nossa gente.

O ímpeto literário do autor seria desaguado noutro lugar. Desde sua cabine no barco de fundo achatado escreve para se dar conta que “é incrível como vivo excitado, se vê que ainda não sei viajar, gozo demais, concordo demais, não saboreio bem minha vida. Estas notas de diário são sínteses absurdas, apenas para uso pessoal, jogadas num anuariozinho de bolso, me dado no Loide Brasileiro, que só tem cinco linhas para cada dia. As literatices são jogadas noutro caderninho em branco, em papéis de carta, costas de contas, margem de jornais, qualquer coisa serve. Jogadas, sem o menor cuidado. Veremos o que se pode fazer com isso em São Paulo”.

Prosseguindo com o poeta, encontramos no prefácio de 1943 uma síntese do que é aquele diário e algumas pistas sobre o sentido íntimo de viagem para Mario: “Agora reúno tudo aqui, como estava nos cadernos e papéis soltos, ora mais, ora menos escritos. O conjunto cheira a modernismo e envelheceu bem. Mas, para o antiviajante que sou, viajando sempre machucado, alarmado, incompleto, sempre se inventando malquisto do ambiente estranho que percorre, a releitura dessas notas abre sensações tão próximas e intensas que não consigo destruir o que preservo aqui. Paciência…”.

O conceito de antiviajante a que se refere o poeta nos anos 40 encontra paralelo no conceito de antiturista que desenvolvo neste trabalho. Refere-se ao viajante que renega rotas tradicionais e conforto, que recorrentemente busca situações onde a estranheza impera e faz-se necessário absorver para lidar com aquela realidade.

Deglutir mundo não é das tarefas mais fáceis que existem, internaliza-se muita solidão no processo. É impossível ser permanentemente sociável, o viajante não compreende aquele contexto e busca certa distância para avaliar a situação com perspectiva e entender como se posicionar. A repetição deste processo ao longo de vários meses termina por oferecer tranquilidade de mundo ao solitário. O grupo, o social, mutante que é, deixa de ser referência fixa e torna-se condição a ser lidada. Não há mais muito sentido em conquistar aquelas pessoas demonstrando toda sua sapiência e senso de humor, diminui o ímpeto de falar qualquer coisa para preencher o vazio de uma conversa na mesma medida em que os ouvidos principiam uma postura muito mais atenta, contemplativa. O que permanece fixo, mais ou menos fixo, é o viajante. Desenvolver uma conversa longa, daquelas de vários dias, só é possível consigo mesmo, a meditação passa a ser um dos principais canais de comunicação. Assim, naturalmente, torna-se muito mais confortável conviver-se, ao ponto em que hoje posso afirmar que me reconheço em mim, coisa que não faria dois anos atrás. Não mais é obrigatório dizer algo quando cruzar consigo no caminho entre a geladeira e o computador: resta um entendimento tranquilo de que sim, está tudo bem e é, é assim que as coisas são. Sobre solidão, tranquilidade e melancolia, conclui Mario: “Se gostei e gozei muito pelo Amazonas, a verdade é que vivi metido comigo por todo esse caminho largo de água”.

Retornou de sua viagem por nossa floresta equatorial dia 15 de agosto de 1927 e publicou Macunaíma no ano seguinte. Suas transgressões literárias e fusão de elementos brasílicos lhe renderam sucesso imediato, rapidamente o livro alcançou sucesso nacional. Autor consagrado, de pé sobre sua grande obra, ali estava o unificador de Brasil, a grande autoridade sobre a alma nacional, Mario de Andrade. Mas o que sabia o intelectual? Uma viagem para cidades históricas mineiras em 24 e outra para a Amazônia com comitiva oficial do baronato do café em 27? Anos de estudos e centenas de livros? Diz ao seringueiro que suas estantes carregadas não são suficientes, não havia nada ali traduzindo o mundo como ele necessitava. Livros não passavam de parasitas, um vício que custava tempo e dinheiro em troca de um prazer aquém, tergiversado. Aquilo não lhe bastava de Brasil, carecia garimpar sertões atrás de novas águas de lama, águas de canto. Sabia incrível e distante a vivência popular nacional, percebia a ameaça obstinada das grandes forças de cultura de massas que desde sempre e até sempre matam de morte manifestações populares espontâneas. Se admitiu a obrigação de preservar o folclore nacional. Em 27 de novembro de 1928 partiu para o Nordeste. Desta vez seguiu sozinho, determinado, com o objetivo claro de registrar o máximo possível de expressões da cultura popular, principalmente música, dança e festejos.

[…]

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor…
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
“Sagrados” como se diz…
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro dorme …
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz…

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade…
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme…
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(…numa indiferença enorme…)
Ronda sob as seringueiras
(…numa indiferença enorme…)
Num amor-de-amigo enorme…

[…]

O paulistano Diário Nacional publicou, entre 4 de dezembro de 1928 e 29 de março de 1929, setenta crônicas de Mario de Andrade sobre o interior do país, principalmente Nordeste. Viajou por ali como pesquisador e correspondente entre 27 de novembro de 1928 e 4 de fevereiro do ano seguinte, período no qual catalogou, harmonia e letra, mais de oitocentas músicas populares. Assumia-se encantando pela conjugação entre agilidade mental e beleza poética dos ritmos nordestinos. Escreveu que em muitos momentos era necessário correr longe do repentista para conseguir manter a letra na cabeça e anotar alguma coisa, tão rápida era a expressão do cantador. Partiu de São Paulo com a intenção de publicar estudo de fôlego sobre musical regional, o livro que seria Na pancada do ganzá, referência ao instrumento de percussão. Nunca finalizou a obra. Postumamente, foi lançado Danças Contempôraneas, compilação do material por ele recolhido nesta empreitada.

Dentre os muitos artistas que cruzaram seu caminho, Mario dedicou mais atenção à obra do potiguar Chico Antônio, provavelmente o músico mais relevante para o coco de embolada até hoje. Escreveu em uma das crônicas: ”Que artista. O que faz com o ritmo não se diz! Chico Antônio vai fraseando com uma força inventiva incomparável, tais sutilezas certas feitas que a notação erudita nem pense em grafar, se estrepa. E quando tomado pela exaltação musical, o que canta em pleno sonho, não se sabe mais se é música, se é esporte, se é heroísmo. Não se perde uma palavra que nem faz pouco, ajoelhado pro Boi Tungão, contando a briga que teve com o diabo no inferno, numa embolada sem refrão, durada por dez minutos sem parar. Sem parar. Olhos lindos, relumeando numa luz que não era do mundo mais. Não era desse mundo mais”.

E, em outro momento, “enquanto durou a cantiga ninguém não se afastou dela. Nem eu, sentindo se renovarem as forças nativas que de tempo em tempo careço de retemperar, viajando por meu país”, demonstrando a mesma necessidade de se recriar absorvendo mundo e gente que desenvolvo neste trabalho.

Antônio utilizava o coqueiro como escada atrás de fruta e palco atrás de público. Era figura popular e se fazia ouvir longe cantando de cima das árvores, atraiu Mario de Andrade pela fama. O poeta utiliza o adjetivo divinizado para descrever o impacto que o artista lhe causou, encantou-se com sua capacidade de musicar narrativas enormes e conduzir o público por tantas horas. É muito difícil negar-lhe aspas: “Não sabe que vale por uma dúzia de Carusos. Vem da terra, canta por cantar, por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa uma noite cantando sem parada. Já são 23h e desde as 19h que canta. Com habilidade maravilhosa vai deformando a melodia em que está, quando a gente põe reparo é outra inteiramente, Chico Antonio virou o coco”.

As duas viagens (Norte em 27 e Nordeste 28-29) foram os grandes instrumentos de formação nacional de Mario de Andrade. Ambas estão registradas em “O turista aprendiz”, da editora Itatiaia, compilação das setenta crônicas publicadas pelo Diário Nacional e daquela pasta verde-clara nos arquivos do IEB. Não realizará empreitada semelhante até 1938, quando convence a prefeitura de São Paulo a financiar a Missão de pesquisas folclóricas.

Três anos antes o poeta havia ajudado a criar a Divisão de Expansão Cultural e Departamento de Cultura da prefeitura de São Paulo, da qual foi o primeiro diretor. O orgão declarava em sua ata de fundação o objetivo de “conquistar e divulgar para todo país a cultura brasileira”. Ou seja, conquistar, processar e divulgar um produto cultural que seja genuinamente brasileiro, e também filtrado por São Paulo, como é natural, claro. A criação do departamento representava a união entre a burguesia industrial nascente e a elite cultural da capital, os novos ricos paulistanos mais e mais bancavam relações de mecenato com intelectuais e artistas. A Semana de 22 havia sido um sucesso e o modernismo paulista era a corrente cultural vigente no país. Vinha em boa hora, o estado havia sido derrotado militarmente por Vargas em 32 e nunca conseguiria superar a influência política do Rio de Janeiro, capital da república e concorrente direta. Restava utilizar sua pujança econômica-industrial para financiar uma empreitada cultural, proposta que encontrou em Mario de Andrade grande articulador.

A necessidade de fundar o brasileiro também era mais urgente aos paulistas, afogados por uma massa de imigrantes de diversos cantos do globo atrás de refúgio, terra ou emprego na fábrica. A cidade crescia em ritmo alucinante, o número de carros passou de algumas centenas no começo da década para 25 mil em 1938, mesmo ano em que alcançou seu primeiro milhão de habitantes. O número de construções praticamente dobrou em três anos, tudo isto num cenário de intensa agitação política e militar. São Paulo foi derrotado militarmente duas vezes por outros estados, em 30 e em 32. A primeira revolução substitui o paulista Washington Luis pelo gaúcho Getúlio Vargas, apoiado por Minas Gerais, Paraíba e Rio de Janeiro. O presidente decreta interventores para todos os governos estaduais, buscando enfraquecer a cidade que, aos pés do igarapé tietê, é sua principal oposição interna. Entre 30 e 34, além de começar a vivenciar de fato o crescimento industrial e urbano mais intenso já visto na América Latina, São Paulo tem onze prefeitos. Em 1935 assume Flavio prado, que nomeia Mario de Andrade secretário da cultura e destina verbas inéditas ao setor.

Neste contexto de convulsão social e transformação intensa perde-se o brasileiro essencial. Ou seja, a pureza da fusão entre as raízes afro, amero e euro, que, se possuía alguma homogeneidade estava em sua miscigenação intensa. A missão de Macunaíma, o herói sem caráter algum, também foi grito de uma cidade que, no momento em que tateava atrás de sua identidade, encontrou-se soterrada por colonos chegando de todas as partes. Formou-se assim, incorporando forâneos de três continentes e buscando em recantos distantes uma pureza espontânea, popular, que já lhe sabia negada, para fundir com a técnica e esmero ímpares da metrópole. Sem falar da grana.

Custou oitocentos mil réis aos cofres municipais a Missão de pesquisas folclóricas, dinheiro que comprou cinco meses e a visita a mais de trinta localidades em seis estados. Na bagagem da expedição estavam uma gravadora Presto Record a discos de acetato, uma filmadora Kodak com seus rolos de 16mm de uma câmera fotográfica Roleiflex. Os três aparelhos pesavam pouco mais de uma tonelada, carregados por terrenos acidentados com os precários veículos disponíveis. Não era barato. A missão partiu composto por quatro profissionais que retornaram com pouco mais de trinta horas de registro musical.

Mario tinha claro para si o valor de travar contato com o diverso e ter a generosidade de aprender nas adversidades que o mundo tão francamente nos oferece. Rubem Braga diz que fazer literatura é catar conchas na praia e guardá-las com cuidado para depois estender a alguém uma mão cheia delas e dizer “olha”, “olha, fui eu que peguei”. O poeta que nos acompanha neste capítulo fui buscar longe, colecionou contas de Pernambuco, cantos do Amazonas, contos cearenses e santos de todos os cantos. E o fez aos montes, nem conseguiu processar todo o material que coletou, morreu antes, em 1945, aos 53 anos. Também este é o homem que se considerou um “antiviajante”, aquele que não viajava por prazer ou conforto, mas pelo prazer austero de viver quantidades enormes de estranheza de mundo. Eu digo que neste momento ele cria o conceito de viajante que utilizo. Com interesse genuíno em detalhes de vida, o poeta aceitou por três meses atirar-se fora de sua zona de conforto para saciar uma necessidade preencher com Brasil um espaço que já era a ele reservado. Mario diferencia-se de um turista porque viajante. Também diferencia-se de um mochileiro porque burguês, mas isso é outra história.

Concluo com meu parágrafo favorito, retirado do prefácio de Na Pancada do Ganzá: “Mas porém com essas críticas, exemplos, ligações, não pretendi fazer obra de etnógrafo, nem mesmo de folclorista, que isso não sou: pretendi foi assuntar, atocaiar com mais garantias a namorada chegando. Se acaso algumas constâncias me interessaram mais, se alguma nova eu terei fixado, foi sempre por essa precisão que tem o amante verdadeiro, de conhecer a quem ama. E confessa mais adiante que nessa colheita desinteressada, nesses cantos tosquíssimos, “senti comoções essenciais, e vibrei com uma excelência tão profundamente humana, como raro a obra-de-arte erudita pode me dar”. Ah sim, após uma sessão particularmente emocionante, Chico Antonio presenteou Mario de Andrade com sua ganzá, seu instrumento.

[...]

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro… dorme…

Brasileiro… dorme…

I – Daqueles que fizeram isso antes

•17/07/2009 • 1 Comentário

Essa seção intermediária do livro desenvolve referências. Morei com dois artistas gráficos nos anos do meio da faculdade, Fred e Mathé, certo que esse último, que também só chama MTH, mais era agregado do que morador, apesar disto não ter qualquer relevância prática para você. Esses dois desenham, muito, sempre folhas brancas espalhadas pela casa, horas ali, estudando, sucedendo meticulosamente um movimento de mão ou estimando proporções entre tronco e cabeça com aquelas bolas e eixos mais claros de fundo que possui um desenho em processo. Veja, há um preciosismo nisso, uma certa necessidade de dominar a técnica, tornar-se seu papai, desenhar um músculo flexionado de tantas maneiras quanto possíveis e algumas que não são nem isso. É muito fácil perceber se um braço está desencaixado na anatomia ou se a física daquele desenho opera por regras arbitrária, o resultado queda-se indisfarçadamente estranho. Então os caras compravam livros bem encadernados com milhões de fotos de gentes peladas e iam acumulado links nos favoritos para acompanhar formas novas. Construíam repertório via repetição e treino, via absorver facetas, técnicas expressivas que já eram suas mesmo estando na produção de outro. É um beber de referências para processar algo pessoal, identificar algum detalhe que te serve e apropriar aquelas linhas. Boa palavra essa, linhas, serve para qualquer das modalidades de expressão.

Entendi vendo aqueles dois trabalharem horas sem tempo retocando um laranja que começava e terminava laranja, em muitos tons, claro, bonito, mas basicamente era laranja do começo ao fim. Entendi o trampo do artista, porque ambos são isso, passaram anos ali me exemplificando o tal dos 90% de transpiração necessários. Encontrei um músculo de escrever atrofiado, tadinho, fazia só burocracias. Encarando a sede de referências deles meu analfabetismo ficou claro, não dominava a linguagem de eleição como deveria, então bora atrás daqueles que fizeram isso antes. Não digo que virei rato de livro, digo que tem alguns caras que entenderam tão completamente a coisa que você não tem saída senão responder a ele em voz alta enquanto lê no busão. São umas interjeições de taqueopariueunaoacreditroquessefelodaputatafazenoisso, umas mudanças de ritmo que vão impregnando o teu metabolismo enquanto aquele moço se desenrola dentro de tu. Esse livro aqui tem alguns momentos, algumas coisas que, passado o contexto da redação, eu releio e percebo que nossa, olha o quanto isso na verdade é isso. Disse no começo que não utilizo qualquer referência acadêmica e assim é, com a honrosa exceção dos arquivos do IEB sobre Mario de Andrade. Impressionantes, diga-se. Passa que, percebendo essas impregnações múltiplas de leituras e autores, acho mais justo fazer de minha bibliografia um apanhado dos livros que li nos meses da redação deste e também nos logo anteriores, alguns dedicados e outros nem tanto. Muito mais justo do que ficar enchendo páginas com citações e notas de rodapé. Não existindo outro lugar possível, seguem.

Histórias de Cronópios e Famas – Cortázar
O livro dos abraços – Galeano
O turista aprendiz – Mário de Andrade
Memórias sentimentais de João Miramar – Oswald
Viagem a Tullum – Manara e Fellini
Os pés alados de Mercúrio – Luis Pellegrini
O incrível acordo entre o silêncio e o alter ego – Caco Pontes
Morangos mofados – Caio Fernando Abreu
On the road – Kerouac
Grande sertão: veredas – Guimarães Rosa
Reunião – Drummond
Alberto Caeiro – Fernando Pessoa
O Guia do Mochileiro das galáxias – Douglas Adams
In to the Wild – Sean Penn
Macunaíma – Mário de Andrade
Dharma Bums – Keroauc
Medo e delírio em Las Vegas – Hunter Thompson
As intermitências da morte – Saramago

Desenvolvo dois deles, Mário de Andrade e Kerouac, nos próximos capítulos. Ambos são escritores impregnados dê um viajismo com o qual muy me identifico e suas histórias de vida complementam bem seja lá o que for que eu pretendo demonstrar com este livro.

Parte II

•17/07/2009 • 1 Comentário

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De fins de ciclo e diplomas desimportantes

•7/07/2009 • 5 Comentários

Queridos dois leitores e uma leitora, folgo em relatar que deste post em diante não mais corro o risco de compartilhar cela com marginais pouco estudados. Apresentei trabalho, consagrei graduação e alcancei o honroso patamar de formado, a partir de meu próximo delito serei um pouco menos igual do que meus iguais. A cela especial tá garantida, agora só falta pegar o documento Diploma, o tal papel de alta gramatura com letras bonitas e assinaturas de personalidades destacadas da sociedade uspiana.

Será que Suely, reitora Anauê, me assina? Duvido, nao sei quantas mil assinaturas por ano é trabalho pra carimbo.

Consagrei o viajismo narrativo, apresentei o Mochilar é impreciso é curti bagaray, encerro ali um ciclo que tem a ECA como ponto de partida e pano de fundo, mas nada de protagonismo. La honestidad: aquilo ali não é academia. Livros, na sua graduação? Pra que, meu bem? Não li nenhum, repito não li qualquer livro para a universidade. Poisé, me formo sem ter lido um único volume do começo ao fim para utilizar na Escola de Comunicação e Artes da gloriosa Universidade de São Paulo. Ridículo.

Claro que o curso serviu, e pra muito, não arrependo um dedo ter escolhido a carreira Jornalismo lá nos idos 2002 quando era semivirgem e preenchi um formulário da fuvest. A ECA realmente vale seu tempo. E quando digo isso digo que as pessoas que estão lá valem seu tempo. É muita gente interessante ao mesmo tempo, caí numa salada de gênios loucos e caretas de todos os tipos, dá um gostinho pela diversidade, um senso crítico anti lugar comum. Quase chega a ser um patrulhamento, entender que o tempo entre o acordar e o dormir é finito e que as referências que se carrega dessas horas são o que vão fazer sua vida. Então carpe dien e carpe a noitinha também. Saca? Ver um filme idiota pra que? Descansar, ok. Dar uns beijos, ok. Pra que mais? Há de se minimizar esses momentos de entretenimento irrelevante. Passar tardes no sofá fumando maconha não é uma boa idéia.

Agora é encontrar caminhos, sei lá onde vai sair. Não sou jornalista. Como chama quem faz poesia em prosa, escritor? É isso que eu sou. Bom que cada vez mais sei ganhar menos dinheiro em redações, o próximo parto é aprender a pagar o pão escrevendo livros e/ou o que vier. Também to com umas ganas fortes de gerenciar conteúdo, acho que acabo experimentando a persona de editor um pouco.

A ver. De fome não morro.

O primeiro passo é esse mochileiro daqui, que na verdade deveria se chamar Mochilar é impreciso, pena que não dá para escrever acentos agudos em endereços de internet. Foi essa incompatibilidade entre a linguagem www e o português o que me fez transformar o verbo em substantivo e criar o autopersonagem mochileiro impreciso, bom que em capas de livro pode-se usar acentuação. Vai rolar. Os doze capítulos aí debaixo são a primeira parte do tcc e embrião do projeto livro, daqui pra frente sigo publicando nesse blog os capítulos restantes do tcc que, apesar de não tão tesudamente literários, ainda são interessantes o suficiente para não serem descartados.

Formado no dia do vigésimo quinto ano. Que tesão essa sensação de ter a vida inteira pela frente.

TCC pronto, banca hoje, o dia do meio do ano

•2/07/2009 • 1 Comentário

Queridos,

Esses doze capítulos que estão aí são o primeiro terço do meu tcc. É a parte onde eu realmente crio, onde dou liberdade completa a expressividade de dizer o que eu sentia que tinha de dizer exatamente como deveria fazê-lo. Eles vão crescer, vou escrever mais porque agora entendi mais ou menos como fazer isso de uma forma tesudamente satisfatória. Foi um processo bem doido fazer esse trampo e pra mim ficou muito clara a evolução que passei como escritor durante o processo. Ah sim, porque descobri que na verdade sou escritor, não jornalista, e estas páginas certamete que Vão virar um livro.

Mais na banca, defendo o tcc hj, dia 02/07, no cejotaê, na ECA, às 20h.

uu!

Merda!

e beijos!

XII – Do chegar

•2/07/2009 • Deixe um comentário

Ei, eai, como foi? Dá pra escrever um livro?