Concordas que entre a infinita miríade muito louca djoe de formas que as gentes do mundo apresentam prevalecem fundamentalmente aquelas que valem a pena conhecer? Se a resposta for não saiba que não falo para ti. É claro que o fator psicopata deve ser levado em consideração, mas o que há de se fazer, descartar o contato com medo daquele 0,1% da população que gostaria de preparar seu fígado para comer de patê no café da manhã ou algo assim? Impossível assumir essa limitação. Também difícil de ignorar é o fato de que se esse número estiver correto temos um psicopata para cada mil habitantes, dizendo também que você já deve ter conhecido pelo menos uns quatro ou sete psicopatas na vida e apenas teve sorte deles não estarem demonstrando isso enquanto estavam ao seu lado, o que é uma conclusão bastante perturbadora se você for pensar a respeito.
Mas e daí, o que se pode fazer, ficar em sua cidade para impedir seu fígado de virar patê não é uma opção, seu entregador de jornal ou o vizinho garotão de meia idade podem apreciar essa iguaria tão bem quanto qualquer um na cidade de Gilbués, extremo sul do Piauí, porque você estaria mais seguro na sua casa do que naquele lindo pastiche de deserto vermelho, sertão amarelo e cerrado dourado que é tal cidade? Árvores com um verde que escorre fora de tão verde na época das chuvas. Dura dois meses e chove muito, só que depois de duas semanas os leitos já são memória de rio, chupados pela terra porosa num lamaçal de enfiar a canela até o joelho. Um dos casos extremos de desertificação do mundo que deserto nunca vai virar porque cai água demais. Ah é, o chão, esse mesmo, frágil, erosível e erodido, é qualhado de diamante, aquele mesmo. Garimpo forte nos anos 40 e 50, cidades surgindo e avião baixando com encomenda e gente 800km ao sul de Teresina, ainda no Piauí. Longe seu moço, longe. Fui lá atrás de história. Momento pimpão total, caminhando sobre endorfinas de otimismo. Já tinha vendido umatéria da cidade pra CartaCapital e deixara há poucas horas uma Teresina incrivelmente hospitaleira. Ali fui um homem de sorte, meu bem. Umas dezesseis horas depois desses beijos piauienses desci do ônibus e encontrei a primeira gente de Gilbués numa rodoviária que só tem esse nome por bondade, era uma parada de ônibus com um boteco, e nem se incomode porque é para falar das gentes daquele canto de chão que essas vírgulas vão sendo colocadas. O senhor pegava uma encomenda do bagageiro do ônibus, o busa parou na cidade apenas para nós, tinha uma pickup de algum modelo dos anos 80 que todos sabem o nome menos eu e era mecânico. Ainda deve ser mecânico. Pedi carona, assentiu, fomos trocando idéia, tio caboclo gente finíssima, expliquei tudo, é, jornalista, e diz que vai virar deserto aqui né, ih, desde que eu nasci falam isso daí nunca virou e sempre foi assim sem tirar nem por, e em 10 minutos me deixou na casa do secretário do Meio Ambiente da cidade. Ele não estava, então eu entrei, tomei banho e um cafézinho enquanto esperava. Chegou logo, conversamos enquanto almoçávamos eu ele e a esposa, uma empregada trazendo comida, bastante comida. Depois para a casa do prefeito, onde acompanhei a mais alta autoridade do Executivo municipal resolvendo questões pontuais com moradores na varanda de casa, sentei numa cadeira feita por tiras de plástico rosa iguaisinhas meu tio Miguel tinha em São Vicente na minha infância e dali vi a moça que apresentava seu caso saindo pisando duro com o filho no colo, “e depois acha que a gente vai votar nele” enquanto cruzava porta aberta. O secretário me explicou para o prefeito, que tomou conta da situação e, não podendo me oferecer guarida em sua casa, caminhou comigo até um hotel próximo e garantiu minha conta por quanto tempo eu quisesse ficar na cidade. Um recepcionista me recebeu de bruços para a rodovia que cruza a cidade indo desembocar na Bahia logo ali, afinal falamos de uma Gilbués no Piauí a menos de cem quilômetros de Maranhão, Tocantins e Bahia, era acabar o expediente e o rapaz sentar no banco da varanda e se servir uma cerveja da cozinha, pagava sempre, umas seis por dia, duas pra mim. Antes disso, chegando, contei que procurava uma professora, coordenadora de ONG sobre o deserto, único nome que tinha de fonte na cidade e claro que ele conhecia a mulher, ligou imediatamente, muito simpática inclusive, me pediu desculpas por não poder me encontrar, ia começar dali um nadinha a procissão da cidade vizinha e ela iria para ver, inclusive eu gostaria muito de ver também, seria uma festa muito bonita, pena que o carro dela já tava cheio, mas tem uma amiga que adoraria me levar. Não deu quinze minutos parou o carro na rodovia e lá fui para a dezesseis quilômetros distante Monte Alegre numa belíssima paisagem árida pós chuvas ao fim da tarde cortada ao meio por nosso caminho infinito e negro do petróleo duro que é asfalto, campos vermelhos com manchas verdes varado por tesouras dágua que são voçorocas, uns rasgos profundos em todo canto e também e sempre correndo paralelo ao longo da estrada, porque a voçoroca de estrada é só uma das formas que ela aparece e nem é a mais perigosa, mais ai pum, era tão perto que cabou estrada e chegou Monte Alegre. Ali quase todo o chão é de pedra, pedras cortadas em paralelepípedos ou pedras cortadas como deu. Quando cheguei apenas a imagem da santa estava no local, nem padre tinha aparecido ainda mas demorou nada pro povo vir aparecendo e sim, eu era forasteiro óbvio e sim, tinha uma câmera meio diferentosa na mão e isso até contou pontos a favor, longe de hostilidade se sentiam é honrados por ter alguém que claramente veio de muitos quilômetros longe e ali estava prestigiando suas ruas, reparando suas telhas e acompanhando suas santas. Anoiteceu no meio do percurso e cem velas já estavam acesas na mão de cada um, outra centena ornava as janelas, ruas de casas térreas e horizontais, todas coladas, paredes coladas, coloridas, santas e olhos, velas e braços, mais um quarteirão e tudo apagado, sem casas, só mato e lua e luz que se desdobram redobram e brotam um parque de diversões, milhões de giramundos respeitosos ao ritual que atravessou aquele tempo de carnaval e confeito e dividia a praça com a igreja. Palco armado na sacristia, bispo da região, povo na retidão, liturgia de falação. Era palanque da porta para fora da igreja e sob céu aberto tive vergonha de muito fotografar. Sentei nos calcanhares para não ocupar tanto espaço, enrolei enrolei paradinho até ficar confortável com o povo e desconfortável com os tendões, mais fotos, mais confiança, um cameraman xize infinitamente mais invasivo, pronto lá estava eu dentro da casa do senhor tirando fotos para fora. Ângulo excelente. Uma mãozinha puxa minha camisa por baixo, você é andarilho é, não, não sou, sou jornalista. A senhora gostou da resposta, abriu sorriso na pele flácida de oitenta e quatro anos de sertão, me puxou para baixo ou eu abaixei, começamos a conversar na altura de sua cadeira de rodas e ali eu encontrei um espírito maravilhoso, fonte riquíssima daquele mundo, tinha visto o primeiro avião descer em 1946 e detalhou de um tudo com linguagem coloquial e perfeita daquela que foi a primeira professora não só de Monte Alegre mas também de Gilbués e Monte Alegre e Gilbués. Fui uma esponja pra essa mulher, ouvi tudo, muito, dias, mundo. Nesse dia inteiro fui jogado de um lado para o outro por pessoas, gentes, guias, numa sucessão que só foi ficando melhor e me parece serviu para desaguar em Maria Rocha, essa senhora. Não tenho uma explicação que mereça aparecer aqui, apenasmente digo que estava num estado tão genuinamente aberto a qualquer tipo de contato humano e me parece que exatamente por isso o tempo fluiu densíssimo numa sucessão de eventos cada vez mais generosos para o meu lado, socialmente generosos, humanamente generosos.
Fica a dica.