A mesa de trabalho de Irineu Machado amanhece com seis jornais diários sobre ela. Ele mesmo chega por lá depois, no final da manhã ou começo da tarde, e enquanto inicia seu computador tem o tempo certo de analisar as primeiras páginas. Em algum lugar por ali passeiam também quatro semanais, que normalmente ele já leu no final de semana e servem mesmo como referência sobre assuntos mais quentes ao longo da semana. Computador tinindo, jornais varridos, é hora de começar a trabalhar de fato. Abre três navegadores e cada um deles carrega cinco abas pré-programadas com conteúdo que não pode deixar de acompanhar ao longo de todo o dia. O primeiro se dedica ao UOL, portal onde é editor-executivo de Notícias. Abre a home, UOL Notícias, Folha Online, Ultímas notícias e UOL Economia. O segundo vai aos concorrentes; G1, Terra, IG, Estado de São Paulo e uma quinta aba para alternar entre rádios. Finalmente, temos um navegador inteiro para conteúdo internacional. Ali carregam The New York Times, CNN, BBC, MSNBC, The Guardian e uma aba avulsa que percorre veículos de todo o mundo.
Isso é o ponto de partida, abre mais um navegador e ali trabalha o que o dia oferecer. Também lê na íntegra os blogs de Fernando Rodrigues e Josias de Souza, colunistas do UOL, além de mais alguma coisa sobre política nacional. Segue cerca de trinta perfis de notícias no Twitter, como o #breakingnews, todos usuários dedicados a divulgar pautas pelo mundo. Tem cinco contas de email em seu nome, três do UOL abertas permanentemente e duas pessoais que admite negligenciadas. Além disso ainda acessa as contas coletivas do UOL Notícias e UOL News. Acredita receber de mil a mil e quinhentos emails por dia, filtradas, primeiro, por nome e então por assunto. Um sistema de categorização por cores auxilia a organização de conteúdo interno. Também fica permanentemente atento à lista de matérias que os parceiros enviam ao portal e vira e mexe precisa checar as páginas de conteúdo específico oferecido por esses parceiros, dar uma olhada nas fotos e textos que o UOL pode ou não utilizar. Seu telefone toca cerca de vinte vezes por dia com questões de fora da redação. Assessores, correspondentes, freelancers, burocracias.
E não se esqueça das particularidades de cada dia, afinal falamos daquele que é o último filtro de todo o conteúdo de Notícias que o maior portal do país publica.
Temos então aí sintetizada em três parágrafos a quantidade de informação que Irineu lida por dia. O profissional atua como um princípio selecionador, recebendo e selecionando enormes quantidades de conteúdo diariamente. Está se obrigando a não trabalhar mais de dez horas por dia, até pouco tempo trabalhava rotineiramente dez, doze, quatorze horas. Os motivos dessa redução são tanto pessoais quanto profissionais, necessita dar mais independência para a equipe tocar o portal em sua ausência. Mas se pintar uma crise sabe que pode precisar trabalhar vinte horas, como foi no onze de setembro. Já virou vinte e quatro horas para fazer funcionar uma transmissão por satélite de um jogo do Brasil. Resolveu no começo do segundo tempo.
Hoje não está satisfeito, trabalha demais e com pouco resultado. Sabe que precisa dar menos atenção a coisas pequenas, não dá para ser perfeccionista com internet sem enlouquecer. Aliás sabe que lidar com essa quantidade enorme de informação já meio enlouquecedor por si, mas a gente acostuma. Já se conformou em ir para com a sensação de trabalho incompleto, afinal falamos de uma modalidade de cobertura que não possui fechamento. O jeito é passar para a equipe um espírito de engajamento, de continuar trabalhos em andamento, de não perder material construído ao longo do dia pelos profissionais da redação. A não ser que caia um avião em algum lugar que recomece tudo.
Sabe Irineu, meus capítulos tem uma estrutura de título que dizem “De tal coisa” ou “Daquele fulano”. Você usou uma expressão muito forte para se definir, dizendo que hoje tornou-se um burocrata da notícia. Eu gostaria de usar isso, mas sei que a expressão pode ter uma interpretação negativa. Que cê acha?
Não tem problema. Jornalista muitas vezes tem uma visão romântica sobre a profissão, de que vive de furos, tem a pergunta certa para colocar político contra a parede, aparece na televisão, publica o nome. Mas isso é irreal, dentro das redações existem milhões de funções burocráticas que precisam ser cumpridas e hoje eu sou esse burocrata. Pode usar o termo, mas explica que eu não trabalho com carimbo despachando protocolo.
Do maior portal do país
Você é editor-executivo da gerência de Notícias do maior portal do Brasil, o site mais acessado e o que mais produz conteúdo, veículo que se propõe cobertura mundial e permanente. Sendo o Brasil o país continental que é, gostaria de entender melhor que estrutura o UOL dispõe para cobrir nosso país.
O UOL tem algumas características atípicas em relação aos outros portais, pela quantidade de fornecedores e parceiros de conteúdo que possui. Além de produzir matérias de sua própria redação ou de enviados especiais, ele tem a Folha Online como principal parceiro, que produz conteúdo próprio e agrega a Folha de São Paulo. Também trabalhamos com Reuters, AP, a própria Agência Estado, as revistas da Abril. O Jornal do Comércio, de Pernambuco, é um grande parceiro nosso, o que eles produzem entra imediatamente no UOL, eles mesmos sobem a matéria. E a gente tem uma redação pequena, as atribuições dos profissionais lá dentro vão desde administrar os sites, mantê-los atualizados, lidar com conteúdo recebido, hierarquizar e encaminhar tudo que recebemos, discutir idéias novas que não estão sendo tratadas por essa infinidade de parceiros, além de produzir material próprio. Então essas pessoas estão sempre com uma quantidade de tarefa muito além daquilo que têm capacidade de fazer, até porque não existe fechamento, as coisas vão acontecendo e você vive um drama para administrar tudo isso. Sempre com o olho na concorrência para evitar furos, onde não podemos deixar de atuar, aquelas matérias não esperadas que surgem ao longo do dia e acabam com seu planejamento. Constantemente vivemos sob a pressão da notícia.
Eu queria que você me falasse mais sobre a estrutura do UOL, onde ficam os correspondentes, como vocês realizam a cobertura do país.
Vou falar por nossa estrutura, sem contar os parceiros. A Folha Online por exemplo tem redação em muitas cidades, aqui em São Paulo tem mais repórteres do que o o próprio UOL. Isso acontece porque ela se propõe ser um jornal online, não um portal de notícias, é a Folha de São Paulo na internet. O UOL tem a sua equipe. Na gerência de Notícias temos as editoriais de Política, Cotidiano, Internacional, Economia, Ciência e Saúde, Educação, Tecnologia e Interação. Temos também as gerências de Esportes e Entretenimento, eu falo pela gerência de Noticias. As maiores editorias – que são Internacional, Cotidiano e Política – contam com seis pessoas, editor, editor assistente e redatores/repórteres. Essas são as maiores, as outras tem bem menos jornalistas. UOL Economia, por exemplo, três pessoas. Existe uma equipe de técnicos de vídeo para produção de entrevistas no estúdio ou gravações externas, com dois estagiários, dois cinegrafistas e dois editores de vídeo. Educação quatro, Ciência e Saúde um, Tecnologia quatro, um fotógrafo, Interação quatro. Esses são os jornalistas que trabalham na gerência de Notícias em São Paulo. Em Brasília temos o Fernando Rodrigues e dois repórteres que cobrem tudo, a gente prioriza o que vai precisar das cinquenta pautas possíveis por dia na capital e escolhemos três ou quatro. No RJ há uma equipe terceirizada com três. Brasil a fora temos uma rede de colaboradores, que não trabalham exclusivamente para o UOL, são pessoas que trabalham para jornais locais, tevês. Correspondentes eventuais a quem pedimos matérias locais quando surge o interesse e muitas vezes também ocorre o caminho inverso, nos oferecem aquilo que acham que interessa. Não temos correspondentes em todas as capitais, temos colaboradores muito esporádicos onde há menos produção de noticias e muitas vezes acabamos cobrindo esses fatos pela redação de São Paulo mesmo. Há uma meia dúzia, talvez oito correspondentes mais recorrentes. De lugares como Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Curitiba… Acho que até pela população dessas regiões metropolitanas acabam tendo uma quantidade maior de notícias que sejam de interesse amplo.
Quero desenvolver essa questão do interesse amplo. O UOL é um portal nacional, sediado em São Paulo. Como vocês filtram aquilo que merece ascender da categoria de notícia local para notícia nacional? Me parece ser muito mais fácil uma matéria sobre a rua Augusta virar destaque nacional do que algo regional de João Pessoa, por exemplo. É muito mais fácil para conteúdo dos grandes centros fazer essa transição.
Existe um fato que é apesar da abrangência do portal ser nacional, o público que visita e os assinantes estão em sua maioria nessas grandes cidades, SP, RJ, BH, no interior de SP. A quantidade de acessos de uma dessas cidades é maior do que de estados inteiros no Norte, Nordeste, Sul. E isso acaba influenciando o critério de escolha de pauta. Você fazer uma reportagem especial sobre o comportamento na Rua Augusta, pode atrair um público muito maior do que o lançamento de uma feira de artesanato nova criada em Campina Grande. E isso não quer dizer que a gente deixa de lado coisas que sejam curiosas ou importantes ou sérias de lugares onde não temos um público muito grande. Além disso também não conseguimos fazer uma cobertura localmente de maneira eficiente porque os nossos colaboradores não têm mobilidade, eles não podem viajar para tal lugar e fazer matéria com personagem. Contamos com esses colaboradores, com agências e com a cobertura da redação aqui para checar na defesa civil dos estados, ligar para as prefeituras, monitorar o nível dos rios, buscar um panorama mais geral. Pela redação lidamos com todo esse material que chega de fora e fazemos um retrato mais consolidado, dando um painel do que está acontecendo lá no Nordeste para que o leitor no Rio Grande do Sul ou em qualquer outro lugar do país possa dizer que “está acontecendo uma situação grave e estou sendo informado pelo portal onde me informo”.
Gostaria que você apontasse as falhas do UOL na cobertura do Brasil.
Essa é uma critica para redações em geral, nenhum jornal, nenhum veículo consegue fazer isso satisfatoriamente. A estrutura é pequena, você não tem a disponibilidade de enviar um repórter para todo lugar que quiser, nem aqui em São Paulo capital. Gostaríamos de ter um repórter no Piauí cobrindo as cidades atingidas pelas cheias, um no Maranhão em Trisidela do Vale, que tem milhares de desabrigados já há quase um mês, e não temos condições de mandar repórter a esses lugares porque não temos mão de obra suficiente e o custo é proibitivo. Mandar um profissional para um lugar que não tem nem hospedagem, você precisa pensar em custos de estadia. As autoridades lá se deslocam por helicópteros, alguns lugares se chega apenas com lanchas, como acompanhar isso? São custos que não estão no orçamento de qualquer veículo. Hoje conseguimos enviar um repórter esporadicamente, com certo planejamento ou num caso de emergência muito relevante. Não temos esse fôlego, se mandamos alguém para o interior do país ficamos com um buraco na redação, todos os profissionais têm diversas atribuições além da reportagem. Uma coisa que a gente planejou e está em andamento, faz seis meses que houve enchentes em Santa Catarina, enviamos agora nosso editor de fotografia e uma repórter para visitar as cidades que foram mais atingidas pelas cheias do final do ano passado, estão há uma semana colhendo histórias, colhendo personagens. É o tipo de coisa que a gente não consegue fazer sempre, mas não esquecemos de tentar oferecer ao nosso público esses retratos de Brasil, de situações que podem ser de interesse de leitura. Gostaríamos de ter isso todos os dias em vários lugares do país? Claro, mas não podemos.
Abordando a questão orçamentária então, me explique como funciona o fluxo de caixa no portal. A publicidade é sua maior fonte de receita?
Não, são as assinaturas, mais de 1,5 milhão de assinantes, atraídos principalmente pela qualidade e enorme quantidade de conteúdo. Desde o começo priorizamos a criação de conteúdo. O guarda-chuva é muito grande e dividido nas três gerências de Notícias, Entretenimento e Esportes. Publicidade nos últimos dois, três anos cresceu muito, ainda não é a maior receita mas vem tomando cada vez mais espaço. Venda de produtos também, uma porcentagem vai para o UOL.
Você fala isso e eu fico aqui pensando no não retorno financeiro de enviar repórteres para o rolê pés no barro pelo interior. Pensava que a publicidade era a maior receita, então conclui que o cálculo do custo de enviar o repórter versus noção de percepção de valor publicitário que aquela matéria vai agregar ao portal não valia a pena, mas enfim, sendo os assinantes a maior receita do UOL isso muda um pouco, a percepção de valor dos assinantes é diferente da publicidade, não envolve tanto um mercado publicitário voraz.
A coisa não funciona muito bem assim, retorno de audiência versus publicidade. Orçamentos de redação são definidos ano a ano, você tem um orçamento para trabalhar ali definido por vários critérios. Quando vai definir uma viagem o que a gente leva em conta não é se aquilo vai atrair publicidade, senão acabaria saindo um jornalismo apenas comercial, seria atraído por assuntos que poderiam ter apenas retorno financeiro.
Mas basicamente não é isso?
Não é isso, temos que pensar que o jornalismo também cumpre funções sociais, institucionais, que dão como retorno credibilidade, seu principal trunfo. É essa credibilidade que vai atrair um número maior de assinantes e fazer com que a publicidade se torne lucrativa. Este é nosso foco principal. O que nos faz tomar uma decisão? Primeiro, há interesse público? Há. Bom, agora como vamos fazer isso, quais os custos, temos verba? Não temos, ou temos. Então vamos conseguir cobrir isso como? Quantos dias ficaremos lá e sob que condições? Qual material vamos trazer de volta dessa viagem? A abrangência disso; qual o retorno vai ter para o nosso público. As pessoas vão ler e dizer, “olha, fizeram uma coisa nova, difícil, legal, gostei”. É nisso que a gente pensa, não apenas na quantidade de cliques ou na atração de publicidade ou se vamos conseguir novos assinantes fazendo assim. Pensamos no conjunto da obra levando em conta que imagem essa cobertura vai nos trazer.
Do continente de três cidades
Pensando em outros veículos de mídia, gostaria de ouvir sua opinião sobre o fenômeno que vou chamar de cegueira do eixo RJ-SP-DF nos veículos brasileiros. Não necessariamente apenas portais ou empresas que se propõe fazer uma cobertura nacional.
Isso acontece e é fruto também da histórica condição de que as redações estão localizadas nesses grandes centros. Os grandes jornais do Brasil estão em SP, RJ e Brasília, que se não fosse a capital seria igual a, se tanto, Goiânia. O foco da cobertura das redações acaba se tornando o foco local também pela falta de condições e estrutura para manter correspondentes pelo Brasil. São estruturas caras. Jornais do mundo estão em crise financeira que vem se arrastando há anos, não só aqui. Lembro que na década de 80 a Folha e o Estado criaram uma rede de correspondente ampla, produzindo matéria diariamente. Naquele momento fazia-se uma cobertura nacional de fato. Bom, crises e mais crises foram acontecendo e essa rede foi se desmontando. O Estado tinha redações regionais com oito repórteres, tinha uma pequena redação em Santos, aqui ao lado. A folha tinha três repórteres em Belo Horizonte, dois em Porto Alegre, três em Salvador, dois em Recife. Essas estruturas foram sendo desmontadas, precarizadas. Hoje tem correspondente que cobre vários estados.
Mas não é só uma questão financeira, pesa também a postura editorial.
Sim. Mas essa postura editorial também é influenciada pela estrutura financeira precária. A sede foca nas opções que tem disponíveis, também é um movimento natural priorizar as áreas onde está seu público principal. Por mais que a Folha de São Paulo, o Estado, os grandes portais queiram tratar Recife com a mesma importância que tratam o Rio de Janeiro, não encontram o mesmo retorno de público. Você precisa pensar que Brasil afora existe imprensa local e público que consome esse conteúdo. O leitor do Maranhão não está tão interessado em saber o que a imprensa de São Paulo está falando sobre seu assunto, não vai encontrar ali a profundidade local que está buscando. Por mais que você tente cobrir uma região à distância, não vai conseguir oferecer percepção de relevância aos moradores locais.
E nem faz sentido tentar fazer isso dessa forma num veículo nacional.
Exatamente. E explica um pouco essa cegueira de Brasil, como você chama. Mas não acho que seja proposital, não é algo que os veículos gostam de oferecer. É uma limitação.
De conteúdo mochileiro
Essa é minha tese. Não é desinteresse dos veículos, ao contrário, acredito que as redações gostariam de ter mais acesso a essa cultura local, de interior mesmo, mas é ínfima sua capacidade de realizar uma cobertura decente nesses termos que proponho. Você tocou num ponto interessante, os veículos focam as capitais porque é aquilo que está em evidência, onde há contato facilitado. Assumindo que as redações têm sim interesse em oferecer, e também muita dificuldade para produzir, como entra na equação o repórter que viaja oferecendo conteúdo de interior para os grandes centros. Como é a recepção desse material?
Somos muito abertos à participação de colaboradores na produção de nosso do conteúdo, avaliamos todas as sugestões. Levamos em conta o que está sendo oferecido e o que pode ser feito dentro dessas possibilidades, qual é o interesse do nosso público. Quando a proposta tem a cara da nossa linha editorial, negociamos com a pessoa que esta oferecendo, fechamos um valor, um prazo e destacamos aquilo, empacotamos dentro de nosso produto e oferecemos ao público. Você pergunta como a gente trata isso, vou te dizer, é raro acontecer. Gostaria que acontecesse com muito mais frequência. A gente não encontra jornalistas viajando o país e oferecendo boas reportagens, são poucos. Quando surge, quando vemos que a qualidade do material é boa e a pauta interessante, compramos e damos o tratamento devido em nosso conteúdo, damos destaque, sugerimos outras abrangências, novos enfoques. Procuramos incentivar a pessoa a pensar imagem, fotos, vídeo, dar tratamento de internet àquilo que está pensado como texto apenas. Infelizmente são raros, gostaríamos de ter com mais frequência. Tenho alguns exemplos semelhantes de gente viajando pela América do Sul e oferecendo pautas, mas nesse caso específico que estou pensando eram pautas muito locais, sem apelo ao nosso público, como uma briga de vinte anos em uma refinaria na Colômbia ou uma disputa legislativa na Argentina que está levando o partido tal a ter vantagem sobre o partido tal. Pautas sem apelo ao nosso público, que seriam para o leitor daquele lugar. Já é raro você ter um profissional viajando por aí e oferecendo conteúdo, ainda por cima muitas vezes oferecem algo que não faz sentido para o UOL. Isso torna o filtro da raridade ainda maior. Ou seja, tem que ter um bom jornalista, que não é fácil de achar, com boas pautas e aquilo tem que nos interessar. Raro.
Pensando na formatação editorial dos grandes centros, principalmente de São Paulo, estamos aqui. Oferecer conteúdo para cá que cumpra essas demandas da produção editorial da cidade que acredito serem as mais exigentes do país, pela grana, pela profissionalização, enfim. Um repórter que saia daqui já familiar com esse mercado tem mais chance de emplacar uma matéria de interior, nesses termos viajantes?
Acredito que sim. É por isso que muitas vezes preferimos enviar um repórter daqui no lugar de encomendar uma pauta de um jornalista local. Este profissional está envolvido com um série de vícios de seu veículo que precisam ser tratados, acabamos perdendo tempo tratando material enviado por colaboradores. Sempre chega material com uma série de problemas, de texto, ou de regras que são seguidas por nós, como ouvir o outro lado. O manual do UOL é o manual da Folha de São Paulo, seguimos aquelas regras de jornalismo. E muitas vezes essas regras acabam sendo esquecidas e não é por má vontade, mas por vício, trabalham em veículos que não fazem essa cobrança. Um jornalista que trabalha na mesma cidade da sede de seu veículo está mais habituado a suas regras, melhor formatado. Existe uma preocupação dos cursos de SP e do RJ a orientar os estudantes sobre as regras do jogo onde ele vai atuar, em geral os profissionais daqui já saem com uma noção básica dessa necessidade. Creio que isso vai melhorar com o tempo, mas ainda é muito precária a qualidade do material enviado e da formação dos jornalistas fora desses grandes centro. Não sei se exatamente mais baixa, mas seguem outras exigências que não alcançam o que precisamos. Sempre há exceções, aquele cara que é um achado e a gente acaba mantendo um contato mais próximo com o trabalho dele.
Essa é uma das funções do editor que eu não tinha me dado conta até lidar de fato, que é o contato com o frila, fazer o contato permanente, que demanda tempo também e você precisa alocar em sua agenda.
Exato, de fato consome parte de meus dias.
Do não-factual e Da desobjetividade
Sobre produção de conteúdo, você falou da notícia que se impõe, que se faz importante. Gostaria de falar agora também sobre aquelas não tão factuais que o UOL compra. Como exemplo posso te dar o que escrevi sobre Serra Pelada para vocês, que foi um longo trabalho não factual, três retrancas, galeria de fotos. Como vocês lidam com esse conteúdo mais aprofundado, perfil de revista, matérias mais longas?
É o que estava falando sobre procurar oferecer ao público um material especial, aquilo que procuramos quando mandamos alguém de nossa redação fazer algo. Queremos que essa pessoa faça o que não está sendo oferecido pelas dezenas de parceiros que já temos, eles oferecem o factual. A oportunidade de fazer uma cobertura especial sobre um fato ocorrendo no interior do país, lá em Serra Pelada, que seja, achar um gancho, uma história especial para ser contada e que está esquecida, identificamos isso como uma oportunidade de diferencial, de fazer algo que ninguém estava pensando e que vai atrair um público curioso por conhecer um pedaço do Brasil onde coisas estão acontecendo e ele não sabe. Por que, porque ninguém está atento aquilo, porque os grandes veículos não estão lá, porque a dificuldade de chegar é grande. O que move as grandes coberturas são fatos quentes, os jornalistas vão para Serra Pelada quando houver um conflito de garimpeiros e morrerem quinze, aí toda a mídia vai para lá de uma vez, fica quatro dias e vai embora, no final de semana sai aquela enormidade de especiais sobre a vida no local, vida na região, Sem Terra que acampou não sei onde, e aí passa algum tempo e se esquece. Quando a gente vê, como naquele caso que você estava viajando por lá, estava próximo e ofereceu oportunidade, vamos cavar alguma coisa ali, vamos tentar ver se a gente garimpa alguma história curiosa da leitura para o público. Interessa? Interessa, tem histórias naquela região, tem coisas para contar. E isso é uma coisa que quando você pega um bom repórter e joga em qualquer lugar do Brasil ele vai achar boas histórias, mas aí entra a infra-estrutura. Você precisa de tempo para isso, não dá pra ligar para um lugar e perguntar “Oi, tem boas histórias aí? Tem? Então vou mandar um repórter!”, não é assim que funciona, o profissional tem que estar meio livre numa região como esta para tentar descobrir histórias, identificar notícias, como a gente não têm repórteres espalhados por aí acabamos refém de sugestões, de encontrar alguém que ofereça alguma coisa que valha a pena bancar.
A questão dos custos.. Nesse ponto de deixar o repórter livre eu concordo plenamente com você, não é possível pautar alguém que está num contexto muito diferente do seu, muito mais inteligente confiar na avaliação do profissional, mas essa liberdade envolve uma certa desobjetividade, que é a imprecisão de rodar até achar algo que valha a pena oferecer, e envolve também mais tempo por matéria produzida. E aí o freelancer é muito mais interessante para o veículo, paga seu próprio transporte e hospedagem, a redação paga apenas o texto que está chegando. Nesses termos é a relação é bem interessante para o veículo.
Exatamente, é isso mesmo. Mas volto a dizer, não é todo dia que você encontra um profissional fazendo um trabalho assim, livremente, viajando e encontrando histórias e oferecendo. Em geral o freelancer que a gente encontra é aquele que está com outras funções, ele tem o seu trabalho, tem sua atividade, mas no tempo livre ele consegue fazer alguma coisa para você.
Você tem condições de me dizer com qual frequência aparece um texto realmente bom e não factual, algo mais profundo, e não digo só de viagem, a cada quanto tempo te oferecem uma matéria de revista?
Uma vez por mês. Ou menos. Não acontece com frequência.
Mas isso que emplaca, ou..
Que oferece. Os exemplos disso são pouquíssimos. O que mais acontece é nossa rede de colaboradores que já mantemos contato e estão ali quase que diariamente oferecendo assuntos do dia da região e volta e meia identificam alguma matérinha especial. Vou citar um exemplo concreto, nosso colaborador em Manaus fez umas duas vezes seguidas matéria sobre barcos que afundaram com dezenas de pessoas em rios da Amazônia, então pedimos a ele que fizesse uma reportagem especial sobre o assunto, demos tempo para ele fazer um levantamento amplo, quantos barcos são, quantos passageiros, como funciona a fiscalização, manutenção, transporte clandestino. Era uma reportagem especial feita por um desse colaboradores fixos, não de alguém viajando pelo Brasil pensando pauta. De vez em quando acontece de um desses colaboradores sugerirem alguma reportagem assim, algo mais amplo. Nosso colaborador de Belo Horizonte tem esse perfil, sempre oferece algo assim.
Perfil de oferecer conteúdo de revista?
É, de oferecer coisas mais profundas. Mas fora isso, os frilas esporádicos, freelancer que não temos contato e de repente liga na redação falando “olha, tem uma história aqui para vocês”, isso acontece muito pouco.
Menos de uma vez a cada dois meses?
Menos, menos. Eu acho que pelo seguinte, esse perfil de jornalista é um perfil mais aventureiro, quem faz isso muito? O recém formado que não tá com vínculo empregatício em nenhum lugar e disposto a desenvolver um trabalho diferente. Acho que esse perfil é proporcionalmente muito pequeno em relação a turma que está sendo jogada no mercado todo ano. O padrão é: jornalista se formou e vai mandar currículo para todas as redações querendo pegar o que aparecer, ele quer se garantir num mercado que é muito competitivo. Então acha arriscado sair por aí, puxa vida, fazendo reportagens que eu não sei se vão comprar, e se eu não conseguir, quem vai pagar meu almoço? Isso passa pela cabeça, poucos têm a segurança de falar, vou sair, vou fazer um material bom e receber o que isso vale. Convenhamos, é muito raro alguém pensar nessa forma. Tem que ter muita confiança em seu trabalho para fazer isso.
Da construção de diferencial
Então caro, como experiência pessoal o que posso te falar é que eu quis construir um diferencial. Estava aqui já, mercado saturado, sei lá, dois mil e trezentos jornalistas se formando por ano em São Paulo, mais até, enfim, não conseguia propor com liberdade aqui. Resolvi construir o diferencial de encarar a ruteza, encarar essa barra de sair mochilando, apostando que daria certo. O contato com o Murilo [Garavello, então sub-editor de Notícias e hoje editor de Esportes] surgiu no meio, já estava no Ceará quando um amigo comum fez o meio de campo. Saí com 2.500 reais e voltei com 4.500, então eu lucrei vendendo matérias nesses termos, depois de oito meses viajando e trampando como repórter voltei dois mil reais no azul, mesmo recebendo precariamente como frila. Em alguns momentos eu juro pra você, tinha três, quatro pautas possíveis e só podia me comprometer com uma, se eu tivesse acompanhado por mais dois ou três repórteres ativos certamente eles também estariam sobrecarregados, então me parece que existe muito campo para crescer nesse sentido. Não é uma pergunta sabe.
Então eu te pergunto, você já viu alguém fazendo isso?
Cara, estou tentando encontrar. Achei dois veteranos e mais três colegas do meu ano.
Mas são poucos.
Sim, muito difícil encontrar.
Então, se você pensa que já são poucas as pessoas fazendo isso, imagina para onde elas ligam quando vão oferecer conteúdo, um deve ligar para a revista específica do não sei o que, outro para o veículo segmentado não sei da onde, são muitas redações e devem acabar procurando veículos mais específicos do que o UOL. Se há gente fazendo isso, a chance de cair num redação como a nossa é baixa, tendem a pensar que não vamos nos interessar, talvez tendam a ligar para veículos de interesse específico.
Do freelancer miserável
Tem outro ponto que eu gostaria que você aprofundasse também. Pensando em trabalhos grandes, que fogem do on demand online, estou tentando focar no meu perfil, que é texto de revista, quero saber como você consegue avaliar quanto pagar a um repórter, é por tempo gasto, pela quantidade de texto entregue, como você avalia a complexidade de cada trabalho?
Essa experiência é um pouco nova para gente, pagar por material de freelancer. Passamos a ter essa rede de colaboradores vai fazer dois anos. Não tínhamos a prática de produzir matérias pelo Brasil, até dois anos atrás havia simplesmente as matérias que chegavam de nossos parceiros e as produzidas pela redação de São Paulo. Como definimos, primeiro, o pagamento das matérias convencionais? Usamos como base uma lista de colaboradores da Folha de São Paulo para quem fomos ligando e perguntando se as pessoas podiam produzir para nós também e adotamos um padrão um pouco acima do que a Folha de São Paulo pagava por reportagem. Vou falar, a Folha pagava cem reais por matéria simples e o UOL adotou pagar cento e cinquenta reais pelo mesmo. Definimos esse valor, era algo que ia incentivar a pessoa a produzir coisas do dia a dia para nós, apura ali, já está apurando aquilo no trabalho, vai fazer duas três ligações de casas, locais, fazer um texto e mandar. Então adotamos isso como padrão. A partir deste valor negociamos mais conforme a dificuldade que a pessoa vai ter para fazer a pauta que estamos pedindo, extras que ela pode oferecer, se vai mandar também foto, ou tem custos de ligação ou de viagem, que tem que ser pré aprovada. Por exemplo, o cara de Salvador tá oferecendo algo no sul da Bahia que vale a pena, vai render várias retrancas pra ler no fim de semana. A gente pede um orçamento e avalia. Temos isso, sim, então pagamos. Não existe uma tabela, existe negociação, e assim se define o valor.
Nós tínhamos acordado setecentos reais sobre Serra Pelada e você me pagou mil.
Eu acho que foi porque acabamos recebendo material maior do que esperávamos. Imaginamos uma coisa e o resultado foi acima disso. E também às vezes a questão da ocasião, era um momento talvez em que os orçamentos estavam mais encorpados.
E te digo que chorei o preço também, foram vinte dias que fiquei lá.
A gente leva em consideração essas coisas, quando achamos que vale, pagamos. Sabe? Valeu o esforço, taqui, houve retorno.
Desenvolvendo sempre esse exemplo, eu não sei o que estava deslocado, se fui eu que demorei muito ou enfim, mesmo saindo uma grana maior, mil reais, foi um trampo que eu levei vinte dias para fazer. Pensando num salário mensal isso é insustentável para jornalista..
É.
Pra mim só foi sustentável porque, primeiro, meus custos eram baixíssimos, não ficava em hotel, ficava em casa de gente, então comia em casa de gente também, mas isso é um momento muito específico da vida. Pra se manter mensalmente como frila, nesses termos, não seria financeiramente viável. Não vejo um modelo aceitável.
Não existe. Eu acho que a vida de um freelancer é complicada. Ele tem que otimizar seu tempo para fazer valer aquilo que vai receber ou tem que aproveitar aquela matéria que está fazendo de várias formas, oferecendo uma coisa para um veículo, outro enfoque daquela viagem pra outro, tentar ganhar de várias fontes, acho que assim que ele acaba se tornando sustentável. Porque se você de fato for levar em consideração uma viagem de vinte dias para fazer uma reportagem especial, o custo disso dentro de uma redação, num orçamento, seria inviável, se você pensar em diária, hospedagem, alimentação, transporte, você está mantendo uma pessoa para uma reportagem durante quase um mês por um custo se for comparar enormemente maior do que manter um repórter na redação, onde estaria fazendo milhares de atribuições todos os dias. É por isso que eu digo lá no começo da conversa de infra-estrutura e custo de manter pessoas pelo Brasil. Não é fácil. Manter uma rede de correspondentes contratados já seria um custo grande. E aí se você pensar que esses profissionais fixos em alguns lugares terem que viajar, ficar fora alguns dias, esse custo ia se multiplicar ainda mais. As redações não têm orçamento para isso, digo as redações em geral, quem pode fazer isso hoje no Brasil é a Rede Globo, a Record, são as grandes tevês. A internet ainda está engatinhando.
Você falou que a publicidade na internet aumento muito nesses últimos dois anos.
Aumentou, aumentou porque é um comportamento mundial de aceitar a internet como mídia importante. No começo dos anos noventa era uma novidade, no começo dos dois mil houve aquela crise, incerteza que balança o anunciante. Agora não, há um período de estabilidade em que as contas começam a crescer. Coisa de cinco seis meses atrás pela primeira vez, na Inglaterra, o volume financeiro de publicidade se igualou à da televisão.
Isso foi há cinco meses? Já deve ter passado.
Já deve. E é uma coisa que vem acontecendo aqui, percebo o anunciante tratando com mais seriedade, sabendo que as pessoas estão mais ligadas aqui do que naquilo que passa na televisão. Isso vai ajudar o mercado a crescer.
Do editor na redação
Há quanto tempo você é editor do UOL?
Nove anos.
Antes você trabalhava onde?
Na Folha de São Paulo também.
Era editor lá?
Sim, fui editor e repórter.
De editor, quanto tempo você tem?
Desde noventa e oito.
Antes repórter?
É isso.
Você escreve?
Menos do que eu gostaria hoje. Quando se tem essa atribuição de editor você acaba se tornando um burocrata da notícia, que é ficar administrando o trabalho de outros jornalistas, dando orientações de pauta, revisando texto, pensando em avanços em dada cobertura, pensando no dia seguinte, negociando pagamento com colaborador que não recebeu e você precisa intermediar. Às vezes tenho vontade de escrever certas coisas que não sobra tempo. Muitas vezes. Acaba virando uma frustração, você precisa tratar tanto de trabalho dos outros que não dá para fazer mais coisas que gostaria. Acho que essa figura que eu dei é a mais real: você vira um burocrata do jornalismo.
A tua forma de expressão é o texto?
É o texto, por tradição e formação. Comecei a trabalhar em jornal, fiz jornalismo por gostar de escrever, sempre me vi na formação trabalhando em jornal. Não sonhava que fosse existir internet na minha época de estudante nos anos 80.
Em Santos?
Em Santos, na Católica de Santos. E assim, por mais contato que a gente tenha com novas tecnologias, todas esses recursos que existem hoje, ainda acho que o texto é o centro da coisa. Vídeo requer um texto por trás, o cara tem que escrever. Jornalista que fala instantaneamente um texto final é um talento muito difícil de encontrar. Tudo que tem um texto preparado por traz fica melhor acabado.
Do repórter no mundo
Pensando em seu papel de editor, voltando a isso, gostaria de saber se você já encontrou, já bancou algum projeto de repórter viajante, alguém viajando muito tempo e produzindo?
Há poucos exemplos no jornalismo brasileiro. Lembro de um, recente, Fábio Zanini, que é da Folha, fez um blog para a Folha Online viajando seis meses pela África. Fez um trabalho de pós graduação sobre política e sociedade na África, cruzou o continente e tornou-se um especialista em África. Foi por conta própria, decidiu fazer e foi.
Ah, mandou muito bem, seria legal conversar com esse cara.
Acho importante para seu trabalho, talvez seja o melhor exemplo recente no jornalismo brasileiro do que você está tratando. É um repórter bastante interessante de conversar, trabalhou na Folha, foi para a sucursal de Brasília. Posso te arrumar os contatos deles.
Você já viu algum repórter viajeiro se fuder? Alguém de alguma forma, não sei.
Não, deixa eu pensar.
Assalto, porrada, enchente, jaguar, erupção?
Não, nada tão grave assim. Bom, eu mesmo já passei por uma situação quando no massacre de Eldorado dos Carajás estava em São Luís e me ligaram da redação dizendo que morreram uns quatro sem terra no interior do Pará, não estavam localizando o correspondente em Belém, me enviaram. Peguei um voo à noite, fiquei em Belém no aeroporto esperando o primeiro voo para o sul do Pará, que era para Marabá, a cidade mais próxima com aeroporto. Fiquei de plantão, o primeiro voo sairia sete da manhã e já estava lotado e o segundo era pras onze da manhã, ia chegar muito tarde, então eu peguei um avião fretado por deputados, sete da manhã, era um avião meio, éé, não adequado para as condições. Acho que era um bimotor fraquinho com seis deputados e eu, tinha alguém também da comissão de direitos humanos do Pará. O avião entrou numa tempestade que parecia uma kombi aérea, chacoalhava de tudo que é jeito e lá pelas tantas o piloto anunciou que tinha perdido contato com a torre.
Que agradável hein.
Muito. E aí um deputado ao meu lado começa a rezar. O cara começou a rezar, pai nosso não sei o que baixinho, o avião chacoalhando todo mundo tenso, não se via nada além daquela chuva amazônica por todos os lados. Até que o piloto saiu da tempestade e sobrevoou uma área de selva mesmo, aquela imensidão de verde. O piloto deu a opção de tentar fazer pouso forçado numa das estradas ou voltar para Belém, porque tinha perdido a rota, e na volta para Belém teria que passar novamente pela tempestade e lá ia o deputado rezando. Acabou que conseguimos voltar e quando chegamos já tinha repórteres lá esperando informações sobre o avião com deputados que tinha caído.
E você foi pra Carajás?
Depois peguei o voo convencional das onze horas. Fiquei lá um mês.
Do contato entre os dois
O fenômeno que estudo aqui é a produção de conteúdo viajando. Nesse período em que foi editor dos dois veículos, você percebe de alguma forma as tecnologias móveis de telecomunicação, internet portátil, laptops, você percebe isso como atuante num trabalho de correspondente, melhor, ou percebe alguma diferença na produção de conteúdo devido a essas tecnologias.
Não pelo conteúdo em si, mas pela rapidez com que ele é transmitido. Comecei minha vida de repórter em mil novecentos e noventa, um momento em que aparelho tecnológico era fax, celular não existia. Hoje um repórter produz matéria à distância, o ganho de tempo é impressionante, não só de tempo como também de detalhes da apuração. Na era pré-internet, tudo que você ia colocar de contexto numa reportagem já deveria ter pesquisado de antemão ou gastar tempo fazendo isso durante a apuração, ligar nos lugares, aguardar retornos. Hoje você entra no Google e já tem alí milhões de fontes que podem te ajudar a complementar aquela informação. A transmissão do dado fica mais rápida, a produção fica mais rápida e você ainda ganha a alternativa de mandar mais coisa, mandar uma foto junto com sua reportagem. Isso não existia, você dependia de mandar um fotógrafo até lá. Eu fiz coberturas na Folha de ouvir um conflito indígena no interior do Pará. Aconteceu o conflito, a notícia chegou primeiro via rádio, até você chegar ao lugar tem que pegar avião, ir para capital, alugar um carro e ir para o lugar, encontrar o caminho, até chegar lá você descobriu que o conflito está acabando. Bom, você vai recuperar o conflito, ouvir a história, falar com os líderes, tal, e vai mandar a reportagem por telefone, não existe celular, e aí você vai ligar e descobre que a cidade só tem um telefone, que é orelhão, e que é compartilhado com o prefeito que usa a mesma linha no gabinete dele. E aí você liga a cobrar, alguém tem que pegar seu texto por telefone..
E aí no terceiro parágrafo o prefeito tem que fazer uma ligação.
Imagina o tempo que isso levava, não tinha foto, você dependia de alguma agência que mandou fotógrafo ou não ter foto simplesmente, fazia um mapinha com a localização do lugar e é isso. Hoje não, hoje você vai para um lugar desses com notebook , descola uma rede na cidade vizinha e vai transmitir via internet, já manda suas fotos e se bobear ainda manda um áudio. A diferença no processo de publicação de conteúdo é gigantesca.
Tem uma lenda do Hunter Thompson que eu repasso via Databróder, ele tava passando uma matéria por telégrafo nos anos setenta pra Rolling Stones parece e não tava indo não tava indo até o momento que ele se emputece, joga o negócio no chão e sacrifica a máquina, puxa uma arma e dá vários tiros bem ali na cabine de telégrafo. Sobre essas facilidades da internet eu sempre pensei também lá num repórter em noventa e dois e estoura uma revolução na Birmânia, que cê vai fazer, pegar na enciclopédia britânica a moeda do país, etnicidade e as línguas oficiais ? Ligar pra embaixada, encontrar um birmanês?
Para isso os jornais contavam com banco de dados. É uma referência, a Folha de São Paulo tem até hoje, existe uma biblioteca lá, física, arquivos históricos separados por pasta. É um Google físico, além de ter matérias publicadas você encontra lá tópicos como países, assuntos, etecetera, que era a maneira como as redações supriam sua necessidade de contexto.
De como salvar focas
Pensando na questão guia para focas. Encontrei editores dos dois extremos, desde aqueles mais disponíveis, como o seu caso, que me apoiou e propôs duas coberturas grandes, e de outros que não respondiam email. De mandar contato pedindo ajuda dizendo estou aqui, fazendo uma cobertura descendo a lenha numa multinacional para sua revista e não sei, preciso de contexto, preciso de ajuda, enfim, quero uma opinião, e o cara não responde alegando que não tem tempo. É bem foda essa relação, muito comum editor deixar na mão, se vira e faça..
Eu diria que é o mais comum. Bom, uma coisa é que muitos não têm conhecimento suficiente para passar algum tipo de orientação à distância. Talvez até um pouco como defesa acaba se afastando de um assunto que não domina, para não transparecer essa falha prefere não se envolver. Outra é a falta de tempo, o cara está recebendo ali pedidos de cinquenta pessoas e aí prioriza as coisas que está fazendo no dia-a-dia. O cara que tá lá produzindo um frila fica no “se vira, estou pagando, faz direito e faz logo”. Eu pessoalmente acho fundamental orientação, estou acostumado a trabalhar com isso faz tempo já, na Folha tinha contato direto com a rede de correspondentes, no UOL faço a mesma coisa. Percebo que quando não há uma orientação mais aproximada você vai ter trabalho depois que o material chega, talvez até acabe descartando um material que poderia ser bom e não foi porque não houve acompanhamento. Procuro dar sempre essa orientação, mas às vezes falta tempo mesmo. Às vezes acabo perdendo a paciência também com alguns colaboradores e me pego não dando o retorno que eles esperavam. Mas acho fundamental conversar com o repórter antes e durante a produção da matéria para evitar ser surpreendido quando o material chegar. E até dar uma linha para o cara, que às vezes tem uma história e não sabe por onde. A troca de idéias é sempre saudável, pode abrir uma luz na cabeça dele.
E o que você pode aconselhar para um repórter numa situação dessa de editor hiper atarefado, sem tempo, o repórter buscando uma orientação e não consegue. O que você sugere?
Bom, vou tentar me colocar no lugar, o que eu faria numa situação como essa. Você não deve se desesperar, a organização é o primeiro passo, pensar para quem estou escrevendo, qual o público desse veículo aqui. Antes de fazer o material tem que saber com quem está lidando, deixa eu dar uma navegada aqui no site, ler a revista e procurar outras matérias semelhantes que eles publicam. Deixa eu pensar, se o editor não está trabalhando comigo eu que vou precisar pensar em como gostaria de ler isso se fosse o leitor deste veículo. Ah, tem isso aqui, isso aqui, isso aqui, já sei, vou propor uma estrutura baseada no que é feito. Qual meu material? Tenho isso daqui, posso propor um texto diferenciado aqui, tem duas ou três personagens que merecem destaque, tenho fotos disso disso daquilo, organização te ajuda a você editar seu material, tem que pensar como aquele material seria editado naquele veículo, o editor não está conversando, você vira o editor. E aí já oferece algo encaminhado que se estiver bom o cara vai gostar, vai pensar que, puxa vida, sem eu precisar orientar o cara já mandou material pronto. Lá na redação é o que nos faz avaliar diferente uns ou outros colaboradores.
É um grande diferencial se adequar?
É, quando a gente percebe que o cara já manda tudo prontinho, manda o trabalho como tem que ser feito. Bom, sempre precisa um ou outro ajuste, mas você nota quando o repórter conhece ou não o veículo, sabe, o que levou esse cara a achar que a gente ia publicar isso? Esse tipo de coisa nem entra aqui, tem gente que sugere conteúdo que não nos interessa mesmo.
É mais comum o oferecedor ter ou não essa noção de adequação?
Hoje, depois de mais de um ano de rotina com esse tipo de trabalho, eu diria que mais de 50% desses colaboradores fixos já sabem o que queremos. Mas volta e meia um desses que achamos mais experientes acaba propondo algo que a gente para e pensa, nossa, isso aqui não é uma reportagem pra gente, não tem apelo ao nosso público. E texto principalmente, quase nunca texto é adequado às nossas necessidades, temos que mexer quase sempre. Vou te falar, tem só uns três ou quatro que mandam material bem redondinho.
Quando você fala texto não adequado, o que é?
Falta de padronização, falta de clareza. Tem uma coisa que não é só adequado em relação ao nosso produto, mas adequado ao texto jornalístico mesmo. Existem jornalistas que escrevem mal, não é raro, pelo contrário, acho que é a maioria.
Não é privilégio de recém formado.
Não é, são muitos. Infelizmente, na internet a gente sonha em ter sempre o jornalista com texto final para ganhar tempo, publicar rápido, mas temos que depender da segunda leitura e tem que ter mesmo, mesmo assim sempre passa alguma coisa. No UOL temos em cada texto um canal para o internauta comentar erros, por ali ele aponta problemas de digitação, de informação, opinião, discorda do repórter. Qualquer mensagem que um internauta manda toda a redação recebe e quando o erro procede isso é corrigido imediatamente, o público colabora para a correção da reportagem. Agora, tem internauta que usa aquilo para denegrir, xingar o repórter, mas enfim, é importante que exista.
Das considerações
Bom eu.. completei minhas perguntas. Se você quiser comentar qualquer coisa que conversamos aqui, fique a vontade.
Olha, acho uma iniciativa bastante elogiosa essa de tentar de alguma maneira incentivar o jornalismo a mostrar a cara do Brasil que a grande mídia não mostra. Não existe isso espontaneamente nas redações, existe esporadicamente, quando algum assunto vira o foco da pauta daquela semana, daquele mês. Bolsa família teve alguma coisa de denúncia e jogam lá um jornalista praquela cidadezinha encontrar personagens. Não há espontaneidade de “vamos mostrar o retrato do Brasil, mostrar esses rincões ou como a crise econômica está afetando ou nem chega aqui”. Não existe isso, a grande mídia está interessada em cobrir os grandes centros. No mundo isso é assim. Com raras exceções você encontra alguma matéria especial. Então eu acho sua iniciativa de mostrar essa carência no nosso jornalismo proveitosa para ajudar a refletir, as redações a refletir, o jornalismo a tentar repensar métodos, repensar necessidade e retornos que essas iniciativas podem ter. Sabe, fazer reportagens especiais pelo Brasil às vezes vale mais do que você cobrir o dia da bolsa de valores. Existe muito no país esse comportamento de manada, fulano está dando isso, precisamos dar também. E aí os cinco portais vão cobrir a mesma coisa, todas as tevês estão lá. E aí tem um mundo de outras coisas acontecendo que ninguém está vendo porque não tem gente, não temos braços para isso.
Essa questão do agenda setting da imprensa também é muito boa, dá para fazer alguns mestrados e doutorados sobre como os acontecimento se elevam, ou são elevados, à categoria de notícia.
Exato. E a classe do jornalista é uma classe de elite. Falando desse comportamento de manada, ele ocorre também internamente nas redações. Redações são aquelas pessoas que estudaram juntas, moram mais ou menos nos mesmo bairros e estão lendo as mesmas coisas, consomem os mesmo produtos. Não conhecem a periferia de São Paulo. E se não conhecem a periferia da sua cidade conhecem o que do Brasil? Não conhecem o interior de Minas Gerais, o sertão Nordestino, Amazônia, Rio Grande do Sul, peculiaridades que são campos de reportagem enormes. Vou te dar um exemplo de anteontem, chegou uma foto de uma de nossas agências, dessas fotos que impressionam de vítima de enchente. A foto saiu pelo serviço do New York Times. O New York Times estava com um fotógrafo no interior do Maranhão cobrindo enchentes, fazendo histórias. Nossa redação não tinha ninguém lá, a gente penou uma semana esperando fotos das cheias porque as nossas agências não estavam enviando nada. Quer dizer, a imprensa local muitas vezes acaba esquecendo de cobrir o Brasil e você tem a imprensa de fora fazendo isso. Acabamos cobrindo nosso continente por meio de agentes internacionais de Londres ou Nova Iorque.
Você acha que uma agência de conteúdo de Brasil, trabalhado, com fotos também, buscando o interior, é uma idéia viável?
Mais do que viável, acho uma necessidade.
