De fins de ciclo e diplomas desimportantes

•7/07/2009 • 5 Comentários

Queridos dois leitores e uma leitora, folgo em relatar que deste post em diante não mais corro o risco de compartilhar cela com marginais pouco estudados. Apresentei trabalho, consagrei graduação e alcancei o honroso patamar de formado, a partir de meu próximo delito serei um pouco menos igual do que meus iguais. A cela especial tá garantida, agora só falta pegar o documento Diploma, o tal papel de alta gramatura com letras bonitas e assinaturas de personalidades destacadas da sociedade uspiana.

Será que Suely, reitora Anauê, me assina? Duvido, nao sei quantas mil assinaturas por ano é trabalho pra carimbo.

Consagrei o viajismo narrativo, apresentei o Mochilar é impreciso é curti bagaray, encerro ali um ciclo que tem a ECA como ponto de partida e pano de fundo, mas nada de protagonismo. La honestidad: aquilo ali não é academia. Livros, na sua graduação? Pra que, meu bem? Não li nenhum, repito não li qualquer livro para a universidade. Poisé, me formo sem ter lido um único volume do começo ao fim para utilizar na Escola de Comunicação e Artes da gloriosa Universidade de São Paulo. Ridículo.

Claro que o curso serviu, e pra muito, não arrependo um dedo ter escolhido a carreira Jornalismo lá nos idos 2002 quando era semivirgem e preenchi um formulário da fuvest. A ECA realmente vale seu tempo. E quando digo isso digo que as pessoas que estão lá valem seu tempo. É muita gente interessante ao mesmo tempo, caí numa salada de gênios loucos e caretas de todos os tipos, dá um gostinho pela diversidade, um senso crítico anti lugar comum. Quase chega a ser um patrulhamento, entender que o tempo entre o acordar e o dormir é finito e que as referências que se carrega dessas horas são o que vão fazer sua vida. Então carpe dien e carpe a noitinha também. Saca? Ver um filme idiota pra que? Descansar, ok. Dar uns beijos, ok. Pra que mais? Há de se minimizar esses momentos de entretenimento irrelevante. Passar tardes no sofá fumando maconha não é uma boa idéia.

Agora é encontrar caminhos, sei lá onde vai sair. Não sou jornalista. Como chama quem faz poesia em prosa, escritor? É isso que eu sou. Bom que cada vez mais sei ganhar menos dinheiro em redações, o próximo parto é aprender a pagar o pão escrevendo livros e/ou o que vier. Também to com umas ganas fortes de gerenciar conteúdo, acho que acabo experimentando a persona de editor um pouco.

A ver. De fome não morro.

O primeiro passo é esse mochileiro daqui, que na verdade deveria se chamar Mochilar é impreciso, pena que não dá para escrever acentos agudos em endereços de internet. Foi essa incompatibilidade entre a linguagem www e o português o que me fez transformar o verbo em substantivo e criar o autopersonagem mochileiro impreciso, bom que em capas de livro pode-se usar acentuação. Vai rolar. Os doze capítulos aí debaixo são a primeira parte do tcc e embrião do projeto livro, daqui pra frente sigo publicando nesse blog os capítulos restantes do tcc que, apesar de não tão tesudamente literários, ainda são interessantes o suficiente para não serem descartados.

Formado no dia do vigésimo quinto ano. Que tesão essa sensação de ter a vida inteira pela frente.

TCC pronto, banca hoje, o dia do meio do ano

•2/07/2009 • 1 Comentário

Queridos,

Esses doze capítulos que estão aí são o primeiro terço do meu tcc. É a parte onde eu realmente crio, onde dou liberdade completa a expressividade de dizer o que eu sentia que tinha de dizer exatamente como deveria fazê-lo. Eles vão crescer, vou escrever mais porque agora entendi mais ou menos como fazer isso de uma forma tesudamente satisfatória. Foi um processo bem doido fazer esse trampo e pra mim ficou muito clara a evolução que passei como escritor durante o processo. Ah sim, porque descobri que na verdade sou escritor, não jornalista, e estas páginas certamete que Vão virar um livro.

Mais na banca, defendo o tcc hj, dia 02/07, no cejotaê, na ECA, às 20h.

uu!

Merda!

e beijos!

XII – Do chegar

•2/07/2009 • Deixe um comentário

Ei, eai, como foi? Dá pra escrever um livro?

XI – Do voltar

•2/07/2009 • Deixe um comentário

Teve uma vez que eu fiquei doente. No décimo dia Simone foi para o Maranhão e fiquei sozinho com a casa. Passava mototaxi a toda e subia umas nuvens vermelhas assim onde um caminhoneiro almoçou arroz e calabresa temperados no óleo de engraxar janta. Estava satisfeito, a cara larga cuspia porco gordurento duma boca enorme, arroz na barba, mãos de bateria ritmando mesa de plástico que sim, agora ele era gente, tinha ali pra ele os píncaros da glória. Repetia gargalhando grotesco, mas nem se preocupe que estar de pé nos píncaros justifica qualquer exagero, sua mesa era coberta por toalha vermelha e branca quadradas, já devia ter ocupado umas duas delas de tanto arroz e calabresa ou esparramava com as mãos ou cuspia e cuspia tanto que acertou a nuca de um homem vestindo camisa xadrez em cheio com um bloco de comida mastigada. Algumas partes maiores enroscaram nos cabelos cacheados de nuca e ficaram altos enquanto quantidade considerável já mais liquosa escorreu pelas costas de pêlos filtros. Não houve qualquer reação nem quando novo bolo semidigerido lhe aterrizou na orelha esquerda, plá, uma legítima cusparada seguida por gargalhada de batedeira. Não fazia qualquer diferença para mais ninguém, a menina da cozinha continuava servindo pratos de arroz branco onde barcas de calabresa remavam mares óleos de cozinha. Para dentro e para fora, errava a boca em mais da metade dos casos, calabresa no colar do vizinho. Contava uma história realmente muito boa e batia forte, qua-qua-qua, ritmo que faz pular travessas de comida e temperamento. Olha o mototaxi!, passou, olha a nuvem de poeira! Nuvem, tem nuvem o quê que não é de calabresa.

Desculpa moço, mas que cê acha de salvar o mundo ou daquela doidera com os aiahtolás? A primeira coisa que o Lula tem que fazer é fechar as fronteiras, ah, ai sim tu ia ver como ficava bom, estrangeiro quer o que aqui, veio fazer o que no Brasil? Querem tudo robar os bichos, robar aí a água toda que tem. Mas moço, você trabalha viajando e nasceu a oito mil quilômetros daqui, comé que fica? Fica que foi bom porque no caminho eu aprendi a fazer coqueirinho, sabe como é? Tu deita assim na cabine a cachorra vem por cima e apóia no teto com os braços, ae tu pega tua mão põe por baixo da perna e puxa o corinho do saco pra trás, dá mais dois centímetros de cacete, entra até os coco não tem uma que não goze tu nem precisa chupar. Tá, me desculpa falar assim, é que eu tô tentando salvar a humanidade e não sei se vai dar certo. Salvar que porra o que o moleque, isso não existe, ninguém ajuda os outros assim de graça não. Se depender de mim esses caroneiros que tem tão tudo, como chama, fodido. Mas moço, mesmo as migalhas da existência são facetas indivisíveis de um todo, que é dizer que você e todo caroneiro são o mesmo. Uma coisa é trepar com Maria José e outra bem diferente com José Maria mermão, não vem com essas tuas merdinha pra cima de mim. Olha aqui seu porra, senta na lisa e pensa, tem gente que confunde orelha de elefante com folha de taioba e tu é um desses. Por que que tamo aqui? Pra se fuder, é só isso que acontece do começo ao fim menos na hora que tu goza mas quem goza também tá fudido, a única coisa boa que tem pra fazer no mundo é fuder os outros. Comer e ser comido, lei mais velha do que a posição de cagar.

A febre foi um indício de que eu queria a minha mãe. Foi alerta de estafa, apitou numa insolação o vaza que não tá mais pra tu isso daqui. No dia que a mulher foi para o Maranhão e me deixou sozinho eu cai de insolação, também, é meio dia das nove da manhã às cinco da tarde naquela porra. Então dono de dois quartos de tijolos crus, água vinha nojenta da rua até uma caixa dágua à céu aberto e só, nenhuma comida no sol do meio dia de equador, de insolação e caganeira. My little own purgatório particular, elegi aquele lugar para a estafa física completa, sem qualquer apoio, só tendo para comer durante uma caganeira as coxas de frango escorrendo óleo de anteontem no boteco da nuvem vermelha. Vira e mexe o caminhoneiro tava lá sentado.

Acaba-se insistindo um pouco depois de perceber que a volta seria uma idéia melhor. Afinal você já está lá mesmo, e momentos de ruptura são complicados, mesmo que seja romper com a não-rotina completa em prol de um pouco mais de estabilidade. Para mim foi um processo de estafa, vinha administrando bem a energia de fazer acontecer as coisas darem certo quando necessário até cair num lugar ubbertenso, exageradamente cansativo fazer o dia-a-dia dar passar sem maiores problemas. Zerei e levei ainda três murros na cara.

X – Daquela caixa de fósforo

•27/06/2009 • 2 Comentários

E quando a gente se vê?

Agora.

Não, quando a gente se vê de novo?

Agora.

Coro: e tinha o que pra responder?

Ficar sozinho leva tempo. Requer muitas sessões de não ter o que fazer mas você ainda está acordado e então vai dar banda pelo caminho de terra até parar num lugar que não existe para fumar um cigarro. O cachorro da casa te acompanha. Vira-lata dos melhores.

Segue pros dois lados, o caminho, e não faz qualquer diferença. Tudo ao redor é seu, completamente sozinho em noite de estrelas agressivas e torres de cupim. Faz frio, porque em todo lugar uma hora ou outra faz frio, e do teu mijo na grama sobe vapor quente.

E ali está, três horas de sereno com mosquito o tal do autoconhecimento. Falar com quem? O cachorro segura meia hora, depois fica óbvio demais não haver o que fazer senão se discutir ou treinar o perceber. Mergulha em si sem oxigênio.

O ar some numa profundidade de se arrancar pedaços. Ferramentas excelentes, as mãos, colhem escamas das costas e traz aos sentidos. Na palma possui de tanto olhar um naco que já era teu só para descartar deitando fora suas camadas num chão de terra que é igual a você e a todas coisas descamadas sob o signo de Virgem.

Até que o sereno embala e o mundo já tá te suspirando mesmo, amanhã é outro dia. Amanhã chove ou não chove só que depois de um filme dos Trapalhões o auditório ao vivo já demais e novamente hora de sentar pra olhar janela bem ali acompanhando realidade.

As telhas daquela varanda tem um formato onde a água pode fazer ou não desenho particularmente tétrico na terra se pensasse falava que bosta de lama mas não pensa e se emociona com relevo marciano no chão do Tocantins.

Busca não encontra sentido no existir tanta coisa, não dá, não faz razão tanta pingo dágua tanta casa de gente, muito lugar pra deixar pedaços teus nacos começam a fazer falta carrega gente demais nas costas, realidade demais para levar parar beber e o mundo pesa até rasgar.

Longe, múltiplo, desarticulado como o diabo. Nada fixa nos caminhos do mundo.

Quando você volta?

Acho que nunca mais.

Eu vou poder te guardar naquela caixa de fósforo?

Vai.

Coro:

IX – Do tamanho de seu coração

•25/06/2009 • Deixe um comentário

Eu gosto muito da rodoviária de Fortaleza. Não que ela difira fundamentalmente de qualquer outra construção de médio porte com a mesma função; estão ali as mesmas revistas balançando sob um pregador na armação de metal em frente a banca, as mesmas coxinhas semiprontas recém fervidas em óleo e todas as dezenas de taxistas que na verdade foram designados para te seguir por todas as capitais nordestinas que passar. Também não faltam banheiros mijados, ônibus sujos e meninas de mochila. É uma rodoviária regular. Mas em frente à banca de jornal ali no canto esquerdo dela, ao lado de onde se desembarca, bem ali tem um banco de concreto que foi o primeiro lugar onde eu chorei de tanto mundo que não cabia mais e teve que transbordar pelas vista.

Isso aconteceu na terceira vez que sentei naquele banco e acabou que passei por ali nuns seis dias diferentes entre idas e vindas pelo Ceará. Desenvolvo esta cronologia porque ela constrói o capítulo que lês. Estava acompanhado por uma querida enorme quando conheci aquela seção de concreto cinza particular. Ali esperamos um bom tempo atrás do busão de linha que levava moradores de uma praia do norte do estado até a capital e de volta. Para o casal era uma viagem de despedida e os dois sabiam que teriam só mais uns poucos beijos antes do pra sempre. Foi intenso, dolorido e bonito, e passou. Aconteceu lá pro terceiro mês de mochilagem, uma centena de dias acumulando mundo no peito, o tipo de coisa necessária para te deixar permanentemente comovido como o diabo.

Voltei pela mesma rodoviária, a segunda vez que passei por lá, tava chegando e nem liguei pro banco. A terceira veio uns vinte dias depois, indo atrás de ver do sertão virando mar sob chuvas colossais. Voltei ao mesmo lugar, canto esquerdo, ao lado do desembarque, banco de concreto. Voltei de propósito, já me pertencia aquilo, memórias vivas de sentir cheiro de amarelo brilhando me conduziram. No meio disso tudo sentei pra comer um prato feito dos mais regulares, talheres frágeis de plástico transparente, arroz levemente azedo que nem se liga e papel alumínio. A comida é cenário, apenas compõe o momento em que alguma coisa aconteceu, vivenciei algo que disparou desconhecido gatilho simbólico menmônico certeiro no coração, tadinho, totalmente rendido de tão cheio. Foi uma cascata, o órgão de sentir desmanchou pra fora soterrado nesse tanto tudo que tem, todas essas camadas de beleza e vida que são o nosso redor, essa infinitude de pequenas sensibilidades disponíveis à flor da pele humana, tão carregadas de beleza quanto tu estiver disposto a apropriar, carregando nos mesmo tons de melancolia e dor que possui a beleza fria do ser sozinho, a mesma cor da irredutível solidão que une indivíduo e gesto, todos e qualquer tão absolutamente sublimes quanto simples na expressão do que é fazer um universo e tudo, todas essas eternidades de cristal que se desenrolam nas menores construções de momentos, tão menores quanto infinitas forem.

Se propor comportar o mundo em seu coração não é tarefa corriqueira.

O tal banco de concreto foi a primeira vez que vivenciei essa sensação de soterrar transbordando que o mundo te oferece. É apenasmente, absolutamente muita coisa para se lidar. Não dá. Ou se ignora boa parte do que acontece ou vai aprender a ser forte sendo frágil. É muito doloroso filtrar tudo o que você experiencia, o coração é por demais fibroso, retém muita coisa e, sejamos francos, o mundo não é um lugar muito bonito de se viver, mesmo que infinitamente belo. Comportar contradições também é outro pré-requisito fundamental para sobrecarregar o peito.

Desde então venho chorando muitas vezes por motivos que nem entendo. Entendo é a sensação, identifico imediatamente o frio que sobe pela espinha e deságua em tremores de princípio de choro. O termo exato é overwhelmed, sobrepujado, arrematado, soterrado por mundo. Tem que sair de alguma forma, tem que desaguar realidade fora. Escrever é uma ótima saída, existem outras que não chorar. Ultimamente tenho tentado expandir meu corpo para comportar um pouco melhor o coração, que é o mesmo que dizer que venho pulando loucamente pela casa tentando ocupar maior espaço no ar com tronco, braços, pernas e cabeça. Funciona incrivelmente bem.

VIII – Do tamanho de seu cérebro

•25/06/2009 • Deixe um comentário

Se jogar no desconhecido é, o tempo todo, enriquecedor. Longe, pense, de qualquer zona de conforto seu cérebro faz hora extra para absorver o que se passa ao redor e responder de acordo. Todos os detalhes são novos, você nunca ouviu pessoas falando daquela forma, nunca comeu aquela comida e não sabia que aquela bebida existia. Você não terá certeza se o cumprimento foi amigável ou agressivo, não saberá se a mulher lhe deu bola ou esnobou. E o que aquela gíria queria dizer mesmo? Urubu em Japaratuba é zé dos ares e perto de Salvador é galinha do céu; pau das ventas é nariz e cachibrema é aquele estado zeloso que acaba atingindo todo mundo pelo menos uma vez nessa vida, cachaça, chifre, pobrema.

Isso é memória de caderno, não de cérebro. A quantidade de informação a ser lidada é absolutamente superior à capacidade de retenção consciente. Não há tempo para sinapses decantarem, dali três dias você já vai estar pegando busão para o próximo código social e lá recomeçar tudo. Seu cérebro recebe níveis absolutamente estarrecedores de inputs que não tem a menor idéia do que fazer a respeito, a princípio ao menos. Vai dar um jeito, claro. Eventualmente.

Registro de realidade pontual não tem como, precisa ser feito fora dos neurônios. Dê o maior espaço possível para esse lidarem com a infindade de ligações que estão ocorrendo ao redor e eles nunca nem ouviram tocar o cheiro delas. Experiência ligeiramente enlouquecedora, fato.

Não nos é permitido entender plenamente o que está acontecendo nesses momentos de alienígena social, a realidade de forasteiro óbvio se impõe, lide-se. Andar pela praça e contar os rostos que acompanham sem ter pista se por amor ou ódio pode ser um tanto perturbador, te leva a um estado de atenção plena sobre seus movimentos. As barreiras não são claras e você chama atenção, carne fresca, o que pode te render tanto uma cama macia quanto uns ossos duros de mão na cara. Muito difícil, temerário até, desativar esse estado de atenção plena. É o ponto mais distante da rotina que vais encontrar, tudo no mundo a ser processado. Esta é uma explicação possível para o sentimento recorrente de viagens durando mais do que seus dias, acontecem tantas coisas inéditas que o trabalho permanente do cérebro dá impressão de que mais se passou. A noção de quanto tempo correu é proporcional à intensidade dos dias inéditos.

Um teste, faça um teste agora e diga, qual é a textura de sua calça neste momento? Vá lá, pode ser bermuda, ou meia, ou calcinha, qual é a textura de qualquer peça de roupa que veste? Primeiro que nem sentia, seu cérebro ignorava toda informação chegando dali, corriqueira demais, rotineira demais, é ruído e deve ser minimizado, atrapalha a produção. Mas tenha calma e se concentre em suas coxas.

E então, consegue responder? Qual é a textura de suas calças? Áspera, lisa, macia? Que mais? É isso? Seu pobre. Não existem palavras para descrever fielmente essas interpretações que teus neurônios fazem. O que, quente, frio? Rugoso? Absolutamente incompleto… E o paladar então? Quatro sabores, jura? É isso a que toda nossa experiência gustativa se resume, quatro classificações? Que gosto tem gordura? De gordura? Não vale. E nem me venha falar do olfato que esse é quase pessoal. Confesso uma predileção por tal sentido, talvez abençoado por um pau das ventas generoso. Cheiro.. bom? Cheiro.. ruim? Cheio.. de pum? Apenas cheiro de. Não conheço outra forma de descrever cheiros senão por comparação, cheiro de fulana, de beltrana ou de ciclana, o que é ridículo após não sei quantos mil anos de cultura acumulada sobre minhas costas.

Sei, porém, que não estou sozinho. Somos limitados. Não entendemos nem o que nosso cérebro processa, o que há de se fazer a respeito do restante? Esse analfabetismo sensorial obriga um aprendizado de contato direto, auto-didata de mundo. Se não entendeu vá visitar uma feira livre em estado distante algumas centenas de quilômetros para ver o que é ser inundado por cores cheiros sons texturas sabores desconhecidos.

Enquanto está na tarefa, veja se encontra uma garrafa ou menina Cajuína e traga para mim, por favor.

VII – Diamantes brutos

•22/06/2009 • Deixe um comentário

Maria Rocha tem oitenta e três anos, quarenta e oito quilos e muito dinheiro. Começou a encontrar escondidas pela casa notas amareladas, esverdeadas, rotas depois que o marido morreu. Grandes maços de Cruzados, Cruzeiros (em suas três variedades), Cruzeiros Reais e Cruzados Novos são o legado deixado pelas décadas de garimpo de diamantes que José Padeiro, seu falecido, dedicou na região de Gilbués, extremo-sul do Piauí.

A meio caminho entre Teresina e Brasília, Gilbués é um município em crise de identidade. Quase Maranhão, quase Bahia, quase Tocantins, inteira Piauí, a cidade não sabe se olha para suas zonas produtivas de cerrado, para o subterrâneo rico em diamantes ou para a degradação que devora 37 mil hectares de solos subúmidos secos, 10% do total do município. A ONU chama de desertificação e classifica a região centrada em Gilbués como um dos casos mais críticos do mundo. Cientistas brasileiros entendem que a definição deve ser outra, uma vez que o nível de chuvas da região e as características do solo diferem daqueles dos desertos. Apesar disso, não existem divergências teóricas sobre a seriedade do problema.
“Deserto? Qualque, aqui a vida inteira foi assim, a terra pelada, descabelada”, afirma uma completamente lúcida Rochinha em sua sala, na vizinha cidade de Monte Alegre. “Tem sim minha mãe, é que é um processo muito lento, a gente nem percebe”, rebate o filho Joanísio. “Ah, nem na vida nem na morte isso aqui vai mudar”, teima aquela que é a primeira professora oficial dos dois município. Rochinha nasceu em 1925 numa casa bem ali debaixo, atrás da igreja, e lembra certeira do primeiro diamante encontrado na região, cavado na corrida de um boi na fazenda Goianinha, em janeiro de 1946. Um vaqueiro arrochava atrás de gado nesses meios de mundo quando viu o bichão brilhando no chão. A carreira que a rés deu mexeu com o cascalho e a pedra subiu pras vistas do homem. Entendeu que aquilo era diferente e, sem saber o que fazer, deu para o patrão, que vendeu para o Rio de Janeiro. Quando a notícia estourou foi uma frevura e o mundo se encheu de tanta carreta de gente.

As memórias fluem como blocos, gravadas em peça única pela espetacularidade que alguns dias acordam e resolvem trazer para a roça. Foi em oito de junho de mil novecentos e quarenta e seis. Na véspera, Paletó estava em uma barbearia em Calmon Viana (BA), quando ouviu no rádio que faiscou diamante para as bandas de Gilbués. No dia seguinte subiu em seu avião e veio-se embora para a cidade. Chegou durante a festa do Divino, viu as bandeirolas na rua e achou que ali era campo de pouso. O povo todo embaixo esparramado viu aquele bichão caindo em cima e achou que fosse morrer, correu tudo para dentro da igreja. Paletó subiu para desviar das pessoas e rodeou atrás de pouso. A única possibilidade era a rua, agora vazia de gente. Mas o povo saiu da igreja para ver ele voando. Nova tentativa de pouso, nova corrida pra dentro da igreja, nova arremetida. Ficou assim até alguem apontar para ele uma terra malhada ali perto. Quando sentou todo mundo queria encostar nele, ver o metal de perto. Até o Zé Lento, o bicho mais manso que já apareceu por essas bandas, correu atrás. Foi o primeiro avião que viram na vida.

Em pouco tempo Gilbués explodiu de gente. Era só umas quatro casas aqui ali assim e umas outras mais acolá. Em 55 Monte Alegre se emancipou. Toda porta era uma bodega, se não tinha nada para vender, pelo menos tinha cana. Cerca de 40 mil almas residiram entre as fronteiras da cidade. Até que as manchas do minério foram rareando, os donos das fazendas foram fechando as portas com medo da erosão e principalmente dos buracos que engoliam gado. Aí veio Brasília e os retirantes todos se arribaram para lá. A cidade minguou até seus atuais 10.500 habitantes, que trabalham principalmente na roça. Poucos garimpeiros artesanais permanecem. Em contrapartida, uma mineradora industrial engole campos inteiro de cascalho, vertendo areia para os rios e jóias para os acionistas.
Waldemar Fialho, 54, é um dos poucos que insistem na exploração artesanal, não tem nem cálculo não senhor de quantos diamantes já pegou nessa vida. Camadas de pó amarelo e lama marrom sobrepõem mãos que peneiram a mesma terra de sua infância. Aprendeu com seu pai, que ainda está vivo, o ofício: comece cavando verticalmente a cisterna, um buraco circular onde não cabe um homem com um braço estendido, até a encontrar o cascalho. Tem vezes que dá 30, 50, 80 palmos de fundura, passou da metade e o caboclo já está suando que derrama água no chão, mas você encontra a mancha e aí é o caixão da cisterna. Ignore o calor e rompa horizontalmente o cascalho, retirando sacos e mais sacos para serem peneirados. Abra um túnel em linha reta atrás do diamante que se deita por esse mundo todinho. Se o túnel crescer demais, abra nova cisterna para ventilação. Repita enquanto aguentar.

Convide um companheiro para ficar na superfície retirando baldes de cascalho e despedrando o conteúdo que sobe. Depois de uma peneirada inicial, leve tudo para o olho dágua mais próximo e comece a lavar. A primeira peneira pega diamantes de cinco quilates para riba. A segunda encontra os de um a cinco e a final só os filhotinhos da pedra. Despeje e vasculhe o conteúdo da peneira atrás das jóias. É fácil encontrá-las, seu brilho mata o de todas as outras pedras e quando pega é meio mundo de farra. Waldemar sabe que o garimpo não liga para economização, gosta mesmo é da putada, da perversidade, da frescura. Farra, cana, rapariga.

O diamante trouxe gente, aviões, carros e prédios para Gilbués. Deixou veias abertas e erosão crítica num solo já singularmente frágil, produzida mais pela pecuária extensiva e agricultura predatória que acompanharam os mineradores do que pelos próprios buracos onde ainda insistem em se enfiar estes homens-tatu. De dinheiro mesmo, sobrou uma bolsinha de xita cheia de notas velhas guardadas no criado-mudo ao lado da cama de Maria Rocha.

Versão não-editada de texto publicado na revista CartaCapital de 30/05/08

Post pra esclarecer

•19/06/2009 • 1 Comentário

Seguinte, talvez não tenha ficado claro então vou explicar o que tou fazendo aqui. Os números romanos antes dos posts aí de cima e aqui de baixo são os capítulos de um livro que também é tcc. O trabalho está em andamento e a banca marcada para 02/07, então ainda tenho um tempo pra mexer no bicho. Inclusive só coloco ele aqui porque quero críticas, quero que aponte o que incomodar e o que mais achar que deve.

Fique à vonts, eu lido bem com críticas e inclusive sinto falta de uns puxões de orelha mais duros.

No mais a casa é sua.

Jundas.

VI – De budas e psicopatas

•19/06/2009 • Deixe um comentário

Concordas que entre a infinita miríade muito louca djoe de formas que as gentes do mundo apresentam prevalecem fundamentalmente aquelas que valem a pena conhecer? Se a resposta for não saiba que não falo para ti. É claro que o fator psicopata deve ser levado em consideração, mas o que há de se fazer, descartar o contato com medo daquele 0,1% da população que gostaria de preparar seu fígado para comer de patê no café da manhã ou algo assim? Impossível assumir essa limitação. Também difícil de ignorar é o fato de que se esse número estiver correto temos um psicopata para cada mil habitantes, dizendo também que você já deve ter conhecido pelo menos uns quatro ou sete psicopatas na vida e apenas teve sorte deles não estarem demonstrando isso enquanto estavam ao seu lado, o que é uma conclusão bastante perturbadora se você for pensar a respeito.

Mas e daí, o que se pode fazer, ficar em sua cidade para impedir seu fígado de virar patê não é uma opção, seu entregador de jornal ou o vizinho garotão de meia idade podem apreciar essa iguaria tão bem quanto qualquer um na cidade de Gilbués, extremo sul do Piauí, porque você estaria mais seguro na sua casa do que naquele lindo pastiche de deserto vermelho, sertão amarelo e cerrado dourado que é tal cidade? Árvores com um verde que escorre fora de tão verde na época das chuvas. Dura dois meses e chove muito, só que depois de duas semanas os leitos já são memória de rio, chupados pela terra porosa num lamaçal de enfiar a canela até o joelho. Um dos casos extremos de desertificação do mundo que deserto nunca vai virar porque cai água demais. Ah é, o chão, esse mesmo, frágil, erosível e erodido, é qualhado de diamante, aquele mesmo. Garimpo forte nos anos 40 e 50, cidades surgindo e avião baixando com encomenda e gente 800km ao sul de Teresina, ainda no Piauí. Longe seu moço, longe. Fui lá atrás de história. Momento pimpão total, caminhando sobre endorfinas de otimismo. Já tinha vendido umatéria da cidade pra CartaCapital e deixara há poucas horas uma Teresina incrivelmente hospitaleira. Ali fui um homem de sorte, meu bem. Umas dezesseis horas depois desses beijos piauienses desci do ônibus e encontrei a primeira gente de Gilbués numa rodoviária que só tem esse nome por bondade, era uma parada de ônibus com um boteco, e nem se incomode porque é para falar das gentes daquele canto de chão que essas vírgulas vão sendo colocadas. O senhor pegava uma encomenda do bagageiro do ônibus, o busa parou na cidade apenas para nós, tinha uma pickup de algum modelo dos anos 80 que todos sabem o nome menos eu e era mecânico. Ainda deve ser mecânico. Pedi carona, assentiu, fomos trocando idéia, tio caboclo gente finíssima, expliquei tudo, é, jornalista, e diz que vai virar deserto aqui né, ih, desde que eu nasci falam isso daí nunca virou e sempre foi assim sem tirar nem por, e em 10 minutos me deixou na casa do secretário do Meio Ambiente da cidade. Ele não estava, então eu entrei, tomei banho e um cafézinho enquanto esperava. Chegou logo, conversamos enquanto almoçávamos eu ele e a esposa, uma empregada trazendo comida, bastante comida. Depois para a casa do prefeito, onde acompanhei a mais alta autoridade do Executivo municipal resolvendo questões pontuais com moradores na varanda de casa, sentei numa cadeira feita por tiras de plástico rosa iguaisinhas meu tio Miguel tinha em São Vicente na minha infância e dali vi a moça que apresentava seu caso saindo pisando duro com o filho no colo, “e depois acha que a gente vai votar nele” enquanto cruzava porta aberta. O secretário me explicou para o prefeito, que tomou conta da situação e, não podendo me oferecer guarida em sua casa, caminhou comigo até um hotel próximo e garantiu minha conta por quanto tempo eu quisesse ficar na cidade. Um recepcionista me recebeu de bruços para a rodovia que cruza a cidade indo desembocar na Bahia logo ali, afinal falamos de uma Gilbués no Piauí a menos de cem quilômetros de Maranhão, Tocantins e Bahia, era acabar o expediente e o rapaz sentar no banco da varanda e se servir uma cerveja da cozinha, pagava sempre, umas seis por dia, duas pra mim. Antes disso, chegando, contei que procurava uma professora, coordenadora de ONG sobre o deserto, único nome que tinha de fonte na cidade e claro que ele conhecia a mulher, ligou imediatamente, muito simpática inclusive, me pediu desculpas por não poder me encontrar, ia começar dali um nadinha a procissão da cidade vizinha e ela iria para ver, inclusive eu gostaria muito de ver também, seria uma festa muito bonita, pena que o carro dela já tava cheio, mas tem uma amiga que adoraria me levar. Não deu quinze minutos parou o carro na rodovia e lá fui para a dezesseis quilômetros distante Monte Alegre numa belíssima paisagem árida pós chuvas ao fim da tarde cortada ao meio por nosso caminho infinito e negro do petróleo duro que é asfalto, campos vermelhos com manchas verdes varado por tesouras dágua que são voçorocas, uns rasgos profundos em todo canto e também e sempre correndo paralelo ao longo da estrada, porque a voçoroca de estrada é só uma das formas que ela aparece e nem é a mais perigosa, mais ai pum, era tão perto que cabou estrada e chegou Monte Alegre. Ali quase todo o chão é de pedra, pedras cortadas em paralelepípedos ou pedras cortadas como deu. Quando cheguei apenas a imagem da santa estava no local, nem padre tinha aparecido ainda mas demorou nada pro povo vir aparecendo e sim, eu era forasteiro óbvio e sim, tinha uma câmera meio diferentosa na mão e isso até contou pontos a favor, longe de hostilidade se sentiam é honrados por ter alguém que claramente veio de muitos quilômetros longe e ali estava prestigiando suas ruas, reparando suas telhas e acompanhando suas santas. Anoiteceu no meio do percurso e cem velas já estavam acesas na mão de cada um, outra centena ornava as janelas, ruas de casas térreas e horizontais, todas coladas, paredes coladas, coloridas, santas e olhos, velas e braços, mais um quarteirão e tudo apagado, sem casas, só mato e lua e luz que se desdobram redobram e brotam um parque de diversões, milhões de giramundos respeitosos ao ritual que atravessou aquele tempo de carnaval e confeito e dividia a praça com a igreja. Palco armado na sacristia, bispo da região, povo na retidão, liturgia de falação. Era palanque da porta para fora da igreja e sob céu aberto tive vergonha de muito fotografar. Sentei nos calcanhares para não ocupar tanto espaço, enrolei enrolei paradinho até ficar confortável com o povo e desconfortável com os tendões, mais fotos, mais confiança, um cameraman xize infinitamente mais invasivo, pronto lá estava eu dentro da casa do senhor tirando fotos para fora. Ângulo excelente. Uma mãozinha puxa minha camisa por baixo, você é andarilho é, não, não sou, sou jornalista. A senhora gostou da resposta, abriu sorriso na pele flácida de oitenta e quatro anos de sertão, me puxou para baixo ou eu abaixei, começamos a conversar na altura de sua cadeira de rodas e ali eu encontrei um espírito maravilhoso, fonte riquíssima daquele mundo, tinha visto o primeiro avião descer em 1946 e detalhou de um tudo com linguagem coloquial e perfeita daquela que foi a primeira professora não só de Monte Alegre mas também de Gilbués e Monte Alegre e Gilbués. Fui uma esponja pra essa mulher, ouvi tudo, muito, dias, mundo. Nesse dia inteiro fui jogado de um lado para o outro por pessoas, gentes, guias, numa sucessão que só foi ficando melhor e me parece serviu para desaguar em Maria Rocha, essa senhora. Não tenho uma explicação que mereça aparecer aqui, apenasmente digo que estava num estado tão genuinamente aberto a qualquer tipo de contato humano e me parece que exatamente por isso o tempo fluiu densíssimo numa sucessão de eventos cada vez mais generosos para o meu lado, socialmente generosos, humanamente generosos.

Fica a dica.